A Cana Esmagada ·Sinais do pavio que fumega, o qual Cristo não apagará

Capítulo 11 · 11 min de leitura

Sinais do pavio que fumega, o qual Cristo não apagará

POSTAS estas coisas, saibamos, para um exame: Primeiro, se há em nós algum fogo santo, ele foi aceso do céu pelo Pai das luzes, que ordenou que a luz brilhasse das trevas, 2 Coríntios 4:6. Assim como é aceso pelo uso dos meios, assim também é por eles alimentado. A luz que há em nós e a luz que há na Palavra brotam uma da outra, e ambas do Espírito Santo; e, portanto, aqueles que não fazem caso da Palavra é porque não há neles luz alguma, Isaías 8:20. As verdades celestiais precisam de uma luz celestial para serem discernidas. Os homens naturais veem as coisas celestiais, mas não na sua própria luz, e sim por uma luz inferior; Deus, em todo homem convertido, coloca uma luz no olho da sua alma, proporcional à luz das verdades que lhe são reveladas. Um olho carnal jamais verá as coisas espirituais.

Em segundo lugar, a menor luz divina traz consigo algum calor, em certa medida: a luz no entendimento gera o calor do amor nos afetos. Na medida em que o entendimento santificado vê que algo é verdadeiro ou bom, nessa mesma medida a vontade o abraça. Uma luz fraca gera inclinações fracas; uma luz forte, inclinações fortes. Um pouco de luz espiritual tem força suficiente para responder às fortes objeções da carne e do sangue, e para olhar através de todos os atrativos terrenos e de todos os obstáculos que se opõem, apresentando-os como muito inferiores àqueles objetos celestiais que ela contempla.

Toda luz que não é espiritual, por lhe faltar a força da graça santificadora, cede a qualquer pequena tentação, especialmente quando esta é ajustada e adaptada às inclinações pessoais. Esta é a razão por que os cristãos que têm luz pequena em quantidade, mas celestial em qualidade, se mantêm firmes, enquanto homens de maiores entendimentos naufragam.

Este prevalecer da luz na alma se dá porque, junto com o espírito de iluminação, vai, nos piedosos, um espírito de poder, 2 Timóteo 1:7, para submeter o coração à verdade revelada, e para pôr na vontade um gosto e um sabor conformes à doçura das verdades; de outro modo, uma vontade meramente natural se levantaria contra as verdades sobrenaturais, tendo antipatia e inimizade contra elas. Nos piedosos, as verdades santas são transmitidas por meio de um sabor; os homens cheios de graça têm um paladar espiritual, assim como um olho espiritual. A graça altera o sabor. Em terceiro lugar, onde esta luz celestial é acesa, ela dirige no caminho reto. Pois é dada para esse fim: mostrar-nos o melhor caminho e guiar-nos nos passos concretos da vida; se não for assim, é apenas luz comum, dada somente para o bem dos outros. Alguns têm a luz do conhecimento, mas não seguem essa luz; antes, são guiados pela razão carnal e pela astúcia — tais como aqueles de quem fala o profeta: “Todos vós que acendeis um fogo, andai à luz do vosso próprio fogo e nas faíscas que acendestes; mas isto recebereis da minha mão: haveis de deitar-vos em tormento”, Isaías 50:11. Deus se compraz em confundir a sabedoria carnal, por ser ela inimiga dele e por roubar-lhe a prerrogativa, pois só ele é sábio. Devemos, portanto, andar pela sua luz, e não pelo clarão do nosso próprio fogo. Deus precisa acender a nossa candeia, Salmos 18:28, ou permaneceremos nas trevas. Aquelas faíscas que não são acesas do céu não têm força suficiente para nos impedir de nos deitarmos em tormento, ainda que produzam um clarão e uma aparência maior do que a luz que vem do alto — assim como os loucos fazem coisas maiores do que os homens sóbrios, mas por uma força falsa; assim também o excesso da alegria destes homens provém de uma luz falsa: a candeia dos ímpios se apagará.

A luz que alguns homens têm é como o relâmpago, que, depois de um súbito clarão, os deixa em maior escuridão. Podem amar a luz enquanto ela brilha, mas a odeiam enquanto ela descobre e dirige. Um pouco de luz santa capacitará a guardar a Palavra, e a não trair a religião nem negar o nome de Cristo, como Cristo diz da igreja de Filadélfia, Apocalipse 3:2.

Em quarto lugar, onde este fogo está, ele separará as coisas de naturezas diversas e mostrará a diferença entre elas, como entre o ouro e a escória. Separará entre a carne e o espírito, e mostrará que isto é da natureza, e aquilo, da graça. Nem tudo é mau numa ação má, nem tudo é bom numa ação boa. Há ouro no minério, o qual Deus e o seu Espírito em nós sabem distinguir. O coração do homem carnal é como uma masmorra, na qual nada se vê senão horror e confusão; esta luz nos torna criteriosos e humildes, ao ter uma visão mais clara da pureza de Deus e da nossa própria impureza; e nos torna capazes de discernir a obra do Espírito em outra pessoa.

Em quinto lugar, na medida em que um homem é espiritual, nessa medida a luz lhe é deleitosa, por estar disposto a ver qualquer coisa que esteja errada, para que a corrija, e qualquer outro serviço que se lhe descubra, para que o cumpra, porque verdadeiramente odeia o mal e ama o bem. Se ele agir contra a luz que lhe foi descoberta, logo será reconduzido, porque a luz tem dentro dele um aliado. Por isso, ao menor vislumbre do seu erro, aceita prontamente o conselho, como Davi, quando tencionava matar Nabal, e depois bendisse a Deus por ter sido detido num mau caminho, 1 Samuel 25:32.

No homem carnal, a luz irrompe sobre ele, mas ele trabalha por fechar as passagens; não tem prazer em vir para a luz. É impossível, antes que o Espírito da graça tenha subjugado o coração, que este não peque contra a luz, ou resistindo a ela, ou mantendo-a prisioneira sob paixões vis, e sepultando-a, por assim dizer, na terra; ou pervertendo-a, e fazendo dela um agente e servidor da carne, buscando argumentos para advogar por ela; ou abusando daquela pequena medida de luz que tem, para manter afastada uma luz maior, mais alta e mais celestial, fazendo assim, por fim, que a luz que tem se torne um guia enganoso para as trevas mais completas. E a razão é que ela não tem ali dentro nenhum aliado: a alma está numa disposição contrária; e a luz sempre estorva aquela paz pecaminosa que os homens gostam de anunciar a si mesmos. Daí vemos que muitas vezes ela os enfurece ainda mais, assim como o sol, na primavera, gera males febris, porque agita os humores e não os consome. Não há nada no mundo mais inquieto do que o coração de um homem ímpio, que se assenta sob os meios do conhecimento, até que, como um ladrão, apaga a candeia, para pecar com menos reprovação. A luz espiritual é distinta: vê o bem espiritual, com aplicação a nós mesmos; mas a luz comum é confusa e deixa o pecado ficar tranquilo. Onde há fogo em algum grau, ele combaterá a matéria contrária: Deus, no princípio, pôs ódio irreconciliável entre a luz e as trevas, e assim entre o bem e o mal, entre a carne e o espírito, Gálatas 5:17. A graça jamais se unirá ao pecado, tanto quanto o fogo não se une à água. O fogo não se mistura com nenhum contrário, mas preserva a sua própria pureza, e nunca se corrompe, como os outros elementos. Portanto, aqueles que advogam e tramam em favor das liberdades da carne mostram-se estranhos à vida de Deus. Por causa deste conflito, os homens cheios de graça muitas vezes se queixam de que não têm graça, mas contradizem-se em suas queixas; como se um homem que enxerga se queixasse de que não pode ver, ou se queixasse de que está dormindo — quando a própria queixa, brotando de um desagrado contra o pecado, mostra que há nele algo oposto ao pecado. Pode um morto queixar-se? Algumas coisas, embora más em si mesmas, contudo revelam o bem; como a fumaça revela algum fogo. Uma erupção no corpo mostra a força da natureza. Algumas enfermidades revelam mais do bem do que algumas ações aparentemente belas; um excesso de paixão ao opor-se ao mal, embora não deva ser justificado, mostra contudo um espírito melhor do que um temperamento calmo, quando há justa razão para se comover. Melhor é que a água corra um tanto turva, do que que não corra de modo algum. Jó tinha mais graça em seus desconcertos do que os seus amigos em seu proceder aparentemente sábio. As ações maculadas por algumas fraquezas são mais aceitas do que os cumprimentos de mera cortesia.

O fogo, onde está na menor medida, é ativo em algum grau; assim também a menor medida de graça está a operar, por brotar do Espírito de Deus, o qual, pela sua natureza operante, é comparado ao fogo. Mais ainda, nos pecados, quando parece que nada há de ativo senão a corrupção, contudo há um princípio contrário que quebra a força do pecado, de modo que ele não é sobremaneira pecaminoso, como o é naqueles que são carnais, Romanos 7:13.

O fogo torna os metais dúcteis e maleáveis; assim faz a graça, ali onde é iniciada: trabalha o coração para que seja dócil e pronto para todas as boas impressões. Os espíritos indóceis mostram que não chegam a ser sequer pavio que fumega.

O fogo transforma tudo em fogo, tanto quanto pode; assim a graça se esforça por gerar impressão semelhante nos outros, e por tornar bons a tantos quantos puder. A graça, do mesmo modo, faz um uso cheio de graça até das coisas naturais e civis, e as espiritualiza: o que outro homem faz apenas civilmente, o homem cheio de graça o fará santamente. Quer coma, quer beba, ou faça qualquer outra coisa, tudo faz para a glória de Deus, pondo tudo a serviço do fim último.

As faíscas, por natureza, sobem; assim o espírito da graça leva a alma para o céu, e põe diante de nós alvos santos e celestiais: como foi acesa do céu, assim ela nos leva de volta ao céu. A parte segue o todo: o fogo se eleva para o alto, e assim cada faísca busca o seu próprio elemento. Onde o alvo e a tendência da alma estão voltados para Deus, ali há graça, ainda que combatida. A sua menor medida são os santos desejos, que brotam da fé e do amor; pois não podemos desejar nada que não creiamos primeiro existir, e o desejo dele procede do amor. Por isso os desejos são contados, em certa medida, como parte da coisa desejada; mas então eles precisam ser, primeiro, constantes — pois a constância mostra que são sobrenaturalmente naturais, e não forçados; em segundo lugar, precisam estar voltados para as coisas espirituais, como crer, amar a Deus, etc., não por causa de uma necessidade particular — como se, tivessem eles agora a graça, pensassem poder escapar de algum perigo — mas como um coração amoroso é levado à coisa amada por causa de alguma excelência que há nela mesma; e, em terceiro lugar, junto com o desejo há tristeza quando ele é estorvado, o que incita à oração: “Oxalá fossem os meus caminhos dirigidos de modo que eu guardasse os teus estatutos!”, Salmos 119:5. “Ah, homem miserável que sou! Quem me livrará?”, etc., Romanos 7:24; em quarto lugar, os desejos sempre nos impelem adiante: “Oh, que eu pudesse servir a Deus com mais liberdade! Oh, que eu estivesse mais livre destas paixões ofensivas, repugnantes e nocivas!”

O fogo, se tem alguma matéria de que se alimente, alastra-se por um espaço maior, e sobe cada vez mais alto, e quanto mais alto sobe, mais pura é a chama. Assim, onde há graça verdadeira, ela cresce em medida e em pureza. O pavio que fumega crescerá até virar chama; e (assim como aumenta, também vai expelindo o contrário, e refina-se cada vez mais. Portanto, é sinal de um coração falso fixarmos para nós mesmos uma medida na graça, e repousarmos nos começos, alegando que Cristo não apagará o pavio que fumega. Mas esta disposição misericordiosa em Cristo está unida a uma santidade perfeita, manifesta em seu perfeito ódio ao pecado; pois, antes que o pecado ficasse sem o castigo merecido, ele mesmo se tornou um sacrifício pelo pecado, no que mais que tudo resplandeceu a santidade de seu Pai e a sua própria. E, além disto, na obra da santificação, embora favoreça a sua obra em nós, contudo não favorece o pecado em nós; pois jamais retirará a sua mão da sua obra, até que tenha tirado o pecado, mesmo em seu próprio ser, das nossas naturezas: o mesmo Espírito que purificou aquela bendita massa da qual ele foi feito nos purifica por graus, para que sejamos conformes a uma cabeça tão santa, e amolda o juízo e o afeto de todos aqueles a quem mostra misericórdia, para concordarem com o seu próprio, esforçando-se por adiantar os seus fins, na abolição do pecado da nossa natureza.

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A Cana Esmagada Richard Sibbes

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