Capítulo 10 · 5 min de leitura
Regras para examinar se somos daqueles que Cristo não apagará
PARA nos examinarmos, a fim de vermos se somos este pavio que fumega, que Cristo não apagará. Neste exame, lembre-se destas duas coisas: 1. Regras. 2. Sinais.
1. Devemos ter dois olhos: um para ver as imperfeições em nós mesmos e nos outros; o outro para ver o que há de bom. “Eu sou morena”, diz a igreja, “porém formosa.” Sempre carecem de consolo aqueles que muito brigam consigo mesmos e que, por causa das suas enfermidades, são propensos a alimentar-se daquelas coisas amargas que mais nutrem os desconcertos de que padecem. Estes só se deleitam em olhar para o lado escuro da nuvem.
2. Não devemos julgar-nos sempre segundo o sentimento presente; pois nas tentações não veremos senão a fumaça de pensamentos desconfiados. O fogo pode estar coberto sob as cinzas, ainda que não seja visto; a vida, no inverno, está oculta na raiz.
3. Guarde-se do raciocínio falso; como o de que, porque o nosso fogo não chameja como o dos outros, portanto não temos fogo algum; e, por conclusões falsas, chegamos a pecar contra o mandamento, dando falso testemunho contra nós mesmos. O pródigo não chegou a dizer que não era filho, mas que não era digno de ser chamado filho, Lucas 15:19. Não devemos confiar em evidências falsas, nem negar as verdadeiras; pois assim desonraríamos a obra do Espírito de Deus em nós e perderíamos a ajuda daquela evidência que nutriria o nosso amor por Cristo e nos armaria contra os desânimos de Satanás. Alguns são tão culpados neste ponto, como se tivessem sido contratados por Satanás, o acusador dos irmãos, Apocalipse 12:10, para advogar por ele, acusando a si mesmos.
4. Saiba, como fundamento disto, que, no pacto da graça, Deus exige a verdade da graça, e não uma medida determinada; e uma faísca de fogo é fogo tanto quanto o elemento inteiro. Portanto, devemos atentar para a graça na faísca tanto quanto na chama. Nem todos têm a mesma fé forte, mas têm a mesma fé preciosa, 2 Pedro 1:1, pela qual se apegam à perfeita justiça de Cristo e dela se revestem. Uma mão fraca pode receber uma joia preciosa; alguns poucos cachos mostrarão que a planta é uma videira, e não um espinheiro. Uma coisa é faltar em graça; outra coisa é carecer inteiramente de graça. Deus sabe que nada temos de nós mesmos; por isso, no pacto da graça, ele não exige mais do que dá, e dá o que exige, e aceita o que dá. Quem não tem um cordeiro pode trazer um par de rolinhas, Levítico 12:6. Que é o próprio Evangelho senão uma misericordiosa moderação, na qual a obediência de Cristo é tida por nossa, e os nossos pecados são lançados sobre ele, e na qual Deus, de juiz, torna-se pai, perdoando os nossos pecados e aceitando a nossa obediência, ainda que débil e manchada? Somos agora conduzidos ao céu, sob o pacto da graça, por um caminho de amor e misericórdia.
Será de especial ajuda conhecer distintamente a diferença entre o pacto das obras e o pacto da graça, entre Moisés e Cristo. Moisés, sem misericórdia alguma, quebra todas as canas trincadas e apaga todo pavio que fumega. Pois a lei exige uma obediência 1, pessoal; 2, perpétua; 3, perfeita; 4, e a partir de um coração perfeito; e isto sob a mais terrível maldição, e não dá força alguma — um capataz severo, como o de Faraó, que exige a conta inteira dos tijolos, sem contudo fornecer a palha. Cristo vem com bênção após bênção, mesmo sobre aqueles a quem Moisés havia amaldiçoado, e com o bálsamo que sara aquelas feridas que Moisés havia aberto.
Os mesmos deveres são exigidos em ambos os pactos; como o de amar o Senhor de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, etc., Deuteronômio 6:5. No pacto das obras, isto deve ser entendido em seu rigor; mas sob o pacto da graça, entende-se como um esforço sincero, proporcional à graça recebida — e é assim que se deve compreender o que se diz de Josias e de outros, quando se afirma que amaram a Deus de todo o coração, etc. Precisa de uma mitigação evangélica.
A lei é adoçada pelo Evangelho e se torna deleitosa para o homem interior, Romanos 7:22. Sob este pacto de graça, a sinceridade é a perfeição. É este o veneno mortal na panela da religião romana: que confundem os dois pactos; e isso amortece o consolo dos abatidos, porque não conseguem distingui-los. E assim eles se deixam manter em servidão, Isaías 61:1,2, quando Cristo os libertou; e permanecem na prisão, quando Cristo abriu as portas diante deles.
5. A graça, às vezes, é tão pequena que se torna imperceptível para nós; o Espírito, por vezes, tem em nós operações secretas, que no momento não conhecemos, mas Cristo as conhece. Às vezes, na amargura da tentação, quando o Espírito luta contra o sentimento da ira de Deus, somos levados a pensar que Deus é um inimigo; e uma alma perturbada é como água turva: nada podemos ver nela; e, na medida em que não está purificada, lançará de si lodo e sujeira. Está cheia de objeções contra si mesma; contudo, na maior parte das vezes, podemos discernir algo desta vida oculta e destas faíscas abafadas.
Num dia sombrio, ainda há tanta luz que por ela podemos saber que é dia, e não noite; assim também há algo no cristão sob uma nuvem, pelo qual se pode discernir que ele é um verdadeiro crente, e não um hipócrita. Não há mera escuridão no estado de graça, mas algum raio de luz, pelo qual o reino das trevas não prevalece por completo.