Capítulo 11 · 5 min de leitura · 6 min de escuta
A Ovelha Diante dos Tosquiadores
“Como uma ovelha que diante de seus tosquiadores fica calada, assim ele não abriu a boca.” — Isaías 53:7
Isaías viu isso séculos antes: Jesus, atravessando as piores horas da sua vida — o julgamento falso, as mentiras, as cusparadas, a cruz — e sem dizer uma palavra em sua própria defesa. Calado. Como uma ovelha sendo tosquiada.
Pare para pensar em quanto poder aquele silêncio exigiu. Ele não ficou quieto porque não conseguia falar. Bastava um olhar para o céu e, como ele mesmo disse, legiões de anjos teriam vindo. Ele poderia ter apontado cada injustiça que estavam cometendo contra ele — e cada acusação teria sido verdadeira. Em vez disso, segurou tudo aquilo. Spurgeon mostra qual é o verdadeiro milagre aqui: não foi uma demonstração de poder sobre os inimigos, foi uma demonstração de poder sobre si mesmo. Ele conteve uma força infinita de propósito. E as poucas coisas que disse foram coisas como “Pai, perdoa-lhes”. Nem uma palavra contra os inimigos. Nem uma palavra de arrependimento por nossa causa — as pessoas por quem ele estava fazendo aquilo. Nem uma queixa contra o Pai. Entrega total e voluntária.
Agora Isaías usa essa mesma imagem — uma ovelha diante dos tosquiadores — para nós. Porque há temporadas em que Deus tosquia o seu povo. Ele entra na sua vida e começa a cortar coisas que você amava: uma pessoa, um plano, a sua saúde, o seu bom nome, algo sem o qual você tinha certeza de que não conseguiria viver. Spurgeon é honesto sobre isso — a tesoura leva grandes punhados, e não é nada agradável. Então a pergunta deste capítulo não é “você vai ser tosquiado?”. Vai. A pergunta é “como você vai ficar deitado enquanto isso acontece?”
E veja o que a imagem ensina — algo que consola de verdade quando você desacelera e presta atenção:
A ovelha não se machuca com a tosquia. Ela se machuca se debatendo. Um bom tosquiador corta rente, mas nunca quer tirar sangue — e quando a ovelha acaba se ferindo, quase sempre é porque escoiceou e se debateu. O argumento de Spurgeon chega exatamente aqui: a maior parte da dor numa fase difícil não é a perda em si, é a luta contra ela. Fique quieto, e a tesoura faz o seu trabalho. Esperneie, e você mesmo enfia a lâmina em si. Existe uma frase antiga sobre recalcitrar contra os aguilhões — quem faz isso só fere a si mesmo.
O tosquiador escolhe a estação. Nenhum fazendeiro que se preze tosquia uma ovelha no auge do inverno — isso se faz quando o verão vai chegando, quando o animal realmente fica melhor sem aquela lã pesada. Spurgeon diz que Deus marca o tempo das nossas perdas do mesmo jeito. Ele não joga o peso mais pesado sobre você no seu momento mais fraco. Ele sabe exatamente quando você vai conseguir suportar, e espera por esse momento. A sua pior fase não o pegou de surpresa; ele escolheu a hora com cuidado.
O que é cortado era emprestado, de qualquer forma. Essa é a mudança de olhar que muda tudo. Spurgeon diz: a próxima coisa boa que você receber, chame de empréstimo. Nada do que você tem é seu para sempre, a não ser o próprio Deus — todo outro consolo vai deixar você, ou você vai deixá-lo. E um velho ditado diz que o que é emprestado deve voltar para casa sorrindo. Dói menos devolver algo quando você sabia o tempo todo que era emprestado, não seu.
A lã nova cresce. A ovelha não fica pelada para sempre. E Spurgeon promete o mesmo: quando Deus tira algo com uma mão, ele tem alguma coisa na outra. “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã.” O vazio é real, mas não é o fim da história — é a parte antes de a lã voltar.
Tem mais uma coisa, e é a mais terna. Antes de serem tosquiadas, as ovelhas são lavadas — levadas até a água, seguradas, limpas. Por isso Spurgeon diz: quando você sentir que algo difícil está chegando, não se limite a se preparar para o golpe — peça a Deus que lave aquilo. Peça que ele torne aquilo limpo, que faça aquilo significar alguma coisa, antes mesmo de cortar. A gente pede uma bênção sobre a comida; por que não pedir uma bênção sobre os nossos problemas? “Senhor, se isso tem de vir, santifique-o. Faça que isso produza algo bom em mim.” Peça para ser lavado antes de ser tosquiado.
Nada disso torna fácil perder as coisas. Nem é para tornar. Mas muda o que você faz enquanto está acontecendo. Você não precisa se justificar, nem lutar contra a mão que segura a tesoura, nem fingir que não dói. Você pode fazer a coisa mais difícil e mais forte que existe — a mesma coisa que o próprio Jesus fez — e simplesmente ficar quieto. Confie que o Pastor que corta rente é o mesmo que amou você até a cruz sem uma palavra de queixa.
Uma coisa para guardar: da próxima vez que algo bom aparecer no seu caminho, chame isso, em silêncio, de empréstimo — algo que você segura, não que possui. É o jeito mais suave de manter as mãos abertas, para que, quando chegar a estação da tosquia, você possa ficar quieto nas mãos d’Aquele que só corta o que já é hora de soltar.
Perguntas para pensar
Pense primeiro; depois toque numa pergunta para ver uma forma de respondê-la.
Por que Spurgeon chama o silêncio de Jesus diante dos seus acusadores de uma demonstração de poder?
Ele poderia ter chamado legiões de anjos e respondido a cada acusação, mas se conteve de propósito. As poucas palavras que disse incluíram “Pai, perdoa-lhes” — nenhuma queixa contra os inimigos ou contra o Pai.
O que a ovelha diante dos tosquiadores ensina sobre passar por uma perda?
A ovelha se machuca se debatendo, não com a tesoura; o tosquiador escolhe a estação certa; o que é cortado era emprestado, de qualquer forma; e a lã nova volta a crescer.
Tem alguma coisa sendo “cortada” da sua vida agora? Como você poderia lidar com isso?
O capítulo não diz para fingir que não dói. Ele sugere ficar quieto e confiar no Pastor, pedir a Deus que “lave” o problema antes que ele corte, e chamar as coisas boas de empréstimos — algo que você segura, não que possui.
Capítulo 11 concluído
A Ovelha Diante dos Tosquiadores