A Necessidade da Oração
Oração e Desejo

Capítulo 5 · 14 min de leitura · 18 min de escuta

Oração e Desejo

“Há quem vá zombar de mim e me dizer que me limite ao meu ofício de sapateiro e não perturbe a mente com filosofia e teologia. Mas a verdade de Deus ardia de tal modo em meus ossos que tomei a pena na mão e comecei a registrar o que eu tinha visto.” — JACOB BEHMEN.

O DESEJO não é um simples querer; é um anseio profundamente arraigado, uma intensa vontade de alcançar algo. No domínio das coisas espirituais, é um complemento importante da oração. Tão importante que quase se poderia dizer que o desejo é um elemento absolutamente essencial da oração. O desejo precede a oração, a acompanha e é seguido por ela. O desejo vai adiante da oração e é por ela criado e intensificado. A oração é a expressão oral do desejo. Se orar é pedir algo a Deus, então a oração precisa ser expressa. A oração vem a público. O desejo é silencioso. A oração é ouvida; o desejo, não. Quanto mais profundo o desejo, mais forte a oração. Sem desejo, a oração é um murmúrio de palavras sem sentido. Essa oração formal, mecânica, sem coração, sem sentimento, sem desejo real que a acompanhe, deve ser evitada como uma peste. Praticá-la é desperdiçar um tempo precioso, e dela não resulta bênção real alguma.

E, ainda assim, mesmo que se descubra que o desejo está honestamente ausente, devemos orar de qualquer forma. Nós devemos orar. O “dever” entra em cena para que tanto o desejo quanto a expressão sejam cultivados. A Palavra de Deus o ordena. O nosso juízo nos diz que devemos orar — orar com vontade ou sem ela — e não permitir que os nossos sentimentos determinem os nossos hábitos de oração. Em tal circunstância, devemos orar pelo desejo de orar; pois esse desejo é dado por Deus e nascido no céu. Devemos orar pedindo desejo; depois, quando o desejo nos for dado, devemos orar conforme ele nos dita. A falta de desejo espiritual deve nos entristecer e nos levar a lamentar a sua ausência, a buscar com fervor que nos seja concedido, para que a nossa oração, daí em diante, seja expressão do “desejo sincero da alma”.

O senso de necessidade cria, ou deveria criar, um desejo fervoroso. Quanto mais forte o senso de necessidade diante de Deus, maior deveria ser o desejo, mais fervorosa a oração. Os “pobres em espírito” são eminentemente aptos para orar.

A fome é um senso ativo de necessidade física. Ela leva ao pedido de pão. Do mesmo modo, a consciência interior da necessidade espiritual cria o desejo, e o desejo irrompe em oração. O desejo é um anseio interior por algo que não possuímos, de que temos necessidade — algo que Deus prometeu e que pode ser obtido por uma súplica fervorosa diante do Seu trono da graça.

O desejo espiritual, levado a um grau mais elevado, é a evidência do novo nascimento. Ele nasce na alma renovada:

“Como bebês recém-nascidos, desejem o puro leite espiritual, para que por ele vocês cresçam.”

A ausência desse santo desejo no coração é prova presumível ou de um declínio do êxtase espiritual, ou de que o novo nascimento nunca aconteceu.

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois eles serão saciados.”

Esses apetites dados pelo céu são a prova de um coração renovado, a evidência de uma vida espiritual em movimento. Os apetites físicos são atributos de um corpo vivo, não de um cadáver; e os desejos espirituais pertencem a uma alma vivificada para Deus. E, à medida que a alma renovada tem fome e sede de justiça, esses santos desejos interiores irrompem em oração fervorosa e suplicante.

Na oração, ficamos encerrados no Nome, no mérito e na virtude intercessora de Jesus Cristo, nosso grande Sumo Sacerdote. Sondando abaixo das condições e forças que acompanham a oração, chegamos à sua base vital, que está assentada no coração humano. Não é simplesmente a nossa necessidade; é o anseio do coração por aquilo de que precisamos, e pelo qual nos sentimos impelidos a orar. O desejo é a vontade em ação; um anseio forte e consciente, despertado no íntimo, por algum grande bem. O desejo exalta o objeto do seu anseio e fixa nele a mente. Há nele escolha, firmeza e chama, e a oração que nele se baseia é explícita e específica. Ele conhece a sua necessidade, sente e vê aquilo que a suprirá, e apressa-se em obtê-lo.

O santo desejo é muito ajudado pela contemplação devota. A meditação sobre a nossa necessidade espiritual, e sobre a prontidão e a capacidade de Deus para supri-la, ajuda o desejo a crescer. A reflexão séria antes de orar aumenta o desejo, torna-o mais insistente e tende a nos livrar da ameaça da oração secreta — o pensamento errante. Falhamos muito mais no desejo do que na sua expressão exterior. Conservamos a forma, enquanto a vida interior se apaga e quase morre.

Bem se poderia perguntar se a fraqueza dos nossos desejos por Deus, pelo Espírito Santo e por toda a plenitude de Cristo não é a causa de orarmos tão pouco e de desfalecermos no exercício da oração. Sentimos realmente esses anelos interiores de desejo pelos tesouros celestiais? Os gemidos profundos do desejo despertam a nossa alma para lutas poderosas? Ai de nós! O fogo arde baixo demais. O ardor flamejante da alma foi amortecido até uma tíbia mornidão. Essa, convém lembrar, foi a causa central da triste e desesperadora condição dos cristãos de Laodiceia, a respeito dos quais está escrita a terrível condenação de que se diziam “ricos”, de que tinham “adquirido riquezas” e “não precisavam de nada”, e não sabiam que eram “infelizes, miseráveis, pobres, cegos”.

Mais uma vez, bem poderíamos indagar: temos aquele desejo que nos impele à íntima comunhão com Deus, que está cheio de ardores inexprimíveis e nos mantém ali durante a agonia de uma súplica intensa e comovida até o fundo da alma? Os nossos corações precisam muito ser trabalhados, não só para tirar deles o mal, mas para pôr neles o bem. E o alicerce e a inspiração para a entrada do bem é um desejo forte e impulsionador. Essa chama santa e fervorosa na alma desperta o interesse do céu, atrai a atenção de Deus e coloca à disposição dos que a exercem as riquezas inesgotáveis da graça divina.

O arrefecimento da chama do santo desejo destrói as forças vitais e combativas da vida da igreja. Deus exige ser representado por uma Igreja em chamas, ou não será, em nenhum sentido adequado, representado de modo algum. O próprio Deus é todo fogo, e a Sua Igreja, se quiser ser semelhante a Ele, também precisa estar incandescente. Os grandes e eternos interesses da religião nascida no céu e dada por Deus são as únicas coisas pelas quais a Sua Igreja pode se dar ao luxo de arder. Contudo, o santo zelo não precisa ser agitado para ser consumidor. Nosso Senhor foi a antítese encarnada da excitabilidade nervosa, o oposto absoluto da declamação intolerante ou clamorosa; e, no entanto, o zelo pela casa de Deus O consumiu; e o mundo ainda sente o calor da Sua chama intensa e consumidora e responde a ela com uma prontidão sempre crescente e uma resposta sempre mais ampla.

A falta de ardor na oração é sinal seguro de falta de profundidade e de intensidade do desejo; e a ausência de desejo intenso é sinal seguro da ausência de Deus no coração! Diminuir o fervor é afastar-se de Deus. Ele pode tolerar, e tolera, muitas coisas em Seus filhos no que diz respeito a fraquezas e erros. Ele pode perdoar, e perdoará, o pecado quando o penitente ora; mas duas coisas Lhe são intoleráveis — a falta de sinceridade e a mornidão. Falta de coração e falta de calor são duas coisas que Ele detesta, e aos laodicenses Ele disse, em termos de inconfundível severidade e condenação:

“Quem dera você fosse frio ou quente! Assim, porque você é morno, e não é quente nem frio, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.”

Esse foi o juízo expresso de Deus sobre a falta de fogo numa das Sete Igrejas, e é a Sua acusação contra os cristãos, um a um, pela fatal carência de santo zelo. Na oração, o fogo é a força motriz. Princípios religiosos que não irrompem em chama não têm força nem efeito. A chama é a asa em que a fé sobe; o fervor é a alma da oração. Foi a “oração insistente de um justo” que se mostrou “poderosamente eficaz”. O amor se acende numa chama, e o ardor é a sua vida. A chama é o ar que a verdadeira experiência cristã respira. Ela se alimenta de fogo; pode suportar qualquer coisa, menos uma chama fraca; e morre, gelada e faminta até as entranhas, quando a atmosfera ao redor é fria ou morna.

A verdadeira oração precisa estar em chamas. A vida e o caráter cristãos precisam estar inteiramente em fogo. A falta de calor espiritual gera mais incredulidade do que a falta de fé. Não estar ardentemente interessado nas coisas do céu é não estar interessado nelas de modo algum. As almas ardentes são as que vencem no dia da batalha, aquelas por quem o Reino dos Céus sofre violência e que o tomam à força. A cidadela de Deus só é tomada por aqueles que a assaltam com tremenda seriedade, que a sitiam com zelo ardente e incansável.

Nada menos que estar em brasa por Deus pode manter o brilho do céu em nossos corações nestes dias frios. Os primeiros metodistas não tinham aquecimento em suas igrejas. Declaravam que a chama nos bancos e o fogo no púlpito haviam de bastar para mantê-los aquecidos. E nós, nesta hora, temos necessidade de que a brasa viva do altar de Deus e a chama consumidora do céu ardam em nossos corações. Essa chama não é veemência mental nem energia da carne. É fogo divino na alma, intenso, que consome a escória — a própria essência do Espírito de Deus.

Nenhuma erudição, nenhuma pureza de linguagem, nenhuma amplitude de visão, nenhuma flor de eloquência, nenhuma graça pessoal pode compensar a falta de fogo. A oração sobe pelo fogo. A chama dá à oração acesso e também asas, aceitação e também energia. Não há incenso sem fogo; não há oração sem chama.

O desejo ardente é a base da oração incessante. Não é uma inclinação rasa e inconstante, mas um anseio forte, um ardor inextinguível, que impregna, incandesce, queima e fixa o coração. É a chama de um princípio presente e ativo que sobe a Deus. É o ardor impulsionado pelo desejo que abre caminho, queimando, até o Trono da misericórdia, e obtém o que pleiteia. É a tenacidade do desejo que dá vitória ao conflito, numa grande luta de oração. É o peso de um desejo profundo que torna sóbria, inquieta e, por fim, sossegada a alma que acaba de sair das suas poderosas lutas. É o caráter abrangente do desejo que arma a oração com mil argumentos e a reveste de uma coragem invencível e de um poder que tudo conquista.

A mulher siro-fenícia é uma lição prática de desejo, firme em sua constância, mas invulnerável em sua intensidade e em sua ousadia obstinada. A viúva importuna representa o desejo que alcança o seu fim através de obstáculos intransponíveis para impulsos mais fracos.

A oração não é o ensaio de uma simples encenação; nem é um clamor vago e disperso. O desejo, ao mesmo tempo que inflama a alma, a mantém presa ao objeto buscado. A oração é uma fase indispensável do hábito espiritual, mas deixa de ser oração quando é mantida apenas pelo hábito. É a profundidade e a intensidade do desejo espiritual que dão intensidade e profundidade à oração. A alma não pode ficar indiferente quando algum grande desejo a acende e inflama. A urgência do nosso desejo nos prende à coisa desejada com uma tenacidade que se recusa a diminuir ou afrouxar; ela permanece, suplica, persiste e se recusa a soltar até que a bênção seja concedida.

“Não Te deixo ir, Senhor, Sem a bênção do Teu amor; Não desvies Tua face, não; É urgente a minha petição.”

O segredo do desânimo, da falta de importunação, da falta de coragem e de força na oração está na fraqueza do desejo espiritual, ao passo que o abandono da oração é o sinal terrível de que esse desejo deixou de viver. Afastou-se de Deus a alma cujo desejo por Ele já não a impele ao quarto de oração. Não pode haver oração bem-sucedida sem um desejo consumidor. É claro que pode haver muita aparência de oração sem desejo de espécie alguma.

Muitas coisas podem ser catalogadas e muito terreno percorrido. Mas é o desejo que compila o catálogo? É o desejo que traça o mapa da região a percorrer? Da resposta depende se a nossa petição é tagarelice ou oração. O desejo é intenso, mas estreito; não consegue se espalhar por uma área ampla. Quer poucas coisas, e as quer muito, tanto que nada, a não ser a disposição de Deus de responder, pode lhe trazer alívio ou contentamento.

O desejo dispara um tiro certeiro em seu alvo. Pode haver muitas coisas desejadas, mas elas são sentidas e expressas de modo específico e individual. Davi não ansiava por tudo; nem permitia que os seus desejos se espalhassem por toda parte sem acertar nada. Eis como corriam e se expressavam os seus desejos:

“Uma coisa pedi ao SENHOR, e a buscarei: que eu possa habitar na casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do SENHOR, e consultá-lo no seu templo.”

É essa singeleza de desejo, essa clareza de anseio, que conta na oração e que conduz a oração diretamente ao âmago e ao centro da provisão.

Nas Bem-aventuranças, Jesus pronunciou as palavras que dizem respeito diretamente aos desejos inatos de uma alma renovada, e a promessa de que serão satisfeitos: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois eles serão saciados.”

Esta, então, é a base da oração que obriga a uma resposta — que um forte desejo interior entrou no apetite espiritual e clama por ser satisfeito. Ai de nós! É demasiado verdadeiro e frequente que as nossas orações operem na região árida de um simples querer, ou na área sem folhas de uma oração decorada. Às vezes, de fato, as nossas orações são meras expressões estereotipadas de frases feitas e proporções convencionais, cujo frescor e vida se foram há muitos anos.

Sem desejo, não há fardo na alma, nem senso de necessidade, nem ardor, nem visão, nem força, nem brilho de fé. Não há pressão poderosa, nem um agarrar-se a Deus com um aperto imortal e desesperado — “Não o deixarei ir, a não ser que me abençoe.” Não há entrega total de si, como houve com Moisés quando, perdido nas agonias de uma súplica desesperada, obstinada e consumidora, ele clamou: “Agora, porém, se quiseres, perdoa o pecado deles — mas se não, por favor, risca-me do teu livro.” Ou como houve com John Knox quando suplicou: “Dá-me a Escócia, ou morro!”

Deus se aproxima poderosamente da alma que ora. Ver a Deus, conhecer a Deus e viver para Deus — este é o objetivo de toda oração verdadeira. Assim, a oração é, afinal, inspirada a buscar a Deus. O desejo da oração se inflama para ver a Deus, para ter uma revelação de Deus mais clara, mais plena, mais doce e mais rica. Assim, para os que oram desse modo, a Bíblia se torna uma Bíblia nova, e Cristo um novo Salvador, pela luz e pela revelação do quarto de oração.

Repetimos e tornamos a repetir que o desejo ardente — ampliado e sempre se ampliando — pelos melhores e mais poderosos dons e graças do Espírito de Deus é a herança legítima da oração verdadeira e eficaz. O eu e o serviço não podem ser divorciados — não podem, de modo algum, ser separados. Mais do que isso: o desejo precisa tornar-se intensamente pessoal, precisa centrar-se em Deus, com uma fome e sede insaciáveis Dele e da Sua justiça. “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo.” O requisito indispensável de toda oração verdadeira é um desejo profundamente arraigado que busca o próprio Deus e permanece insatisfeito até que os dons mais preciosos que o céu pode conceder tenham sido rica e abundantemente outorgados.

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