A Necessidade da Oração
Oração e Fé (Continuação)

Capítulo 3 · 16 min de leitura · 20 min de escuta

Oração e Fé (Continuação)

“Os hóspedes de certo hotel andavam incomodados com o dedilhar repetido de um piano por uma menininha que não tinha nenhum conhecimento de música. Queixaram-se ao proprietário, a fim de que o incômodo cessasse. ‘Lamento que estejam incomodados’, disse ele. ‘Mas a menina é filha de um dos meus melhores hóspedes. Dificilmente posso pedir a ela que não toque o piano. Mas o pai dela, que está fora por um ou dois dias, voltará amanhã. Então vocês poderão falar com ele e resolver a questão.’ Quando o pai voltou, encontrou a filha na sala de recepção, martelando o piano como de costume. Aproximou-se por trás da criança e, passando os braços por sobre os ombros dela, tomou as mãos dela nas suas e tirou do piano uma música belíssima. Assim pode ser conosco, e assim será, num dia que há de vir. Por enquanto, pouco conseguimos produzir além de barulho e desarmonia; mas, um dia, o Senhor Jesus tomará nossas mãos de fé e de oração e as usará para fazer soar a música dos céus.” — ANÔNIMO

A FÉ genuína e autêntica precisa ser definida e livre de dúvida. Não simplesmente de caráter geral; não uma mera crença na existência, na bondade e no poder de Deus, mas uma fé que crê que aquilo que “diz acontecerá”. Assim como a fé é específica, também a resposta será definida: “ele terá tudo o que disser”. A fé e a oração escolhem as coisas, e Deus Se compromete a fazer exatamente aquilo que a fé e a oração perseverante indicam e Lhe pedem que realize.

A American Revised Version traduz o versículo vinte e quatro do capítulo onze de Marcos assim: “Portanto, eu lhes digo: tudo o que vocês pedirem em oração, creiam que já o receberam, e o terão.” A fé perfeita sempre guarda consigo aquilo que a oração perfeita pede. Quão vasta e irrestrita é a área de atuação — o “tudo o que”! Quão definida e específica é a promessa — “e o terão”!

Nossa principal preocupação é com a nossa fé — os problemas do seu crescimento e as atividades da sua vigorosa maturidade. Uma fé que agarra e guarda consigo exatamente aquilo que pede, sem vacilar, sem dúvida nem medo — essa é a fé de que precisamos —, uma fé que seja uma pérola de grande valor no processo e na prática da oração.

A declaração de nosso Senhor sobre a fé e a oração, citada acima, é de suprema importância. A fé precisa ser definida, específica; um pedido irrestrito e inconfundível das coisas pedidas. Não deve ser algo vago, indefinido, nebuloso; precisa ser algo mais do que uma crença abstrata na disposição e na capacidade de Deus de agir por nós. Deve ser um pedir definido e específico, e um esperar as coisas que pedimos. Note a leitura de Marcos 11:23:

“e não duvidar em seu coração, mas crer que o que diz acontecerá, ele terá tudo o que disser.”

Na mesma medida em que a fé e o pedido forem definidos, assim também será a resposta. O que é dado não deve ser algo diferente das coisas pedidas em oração, mas as próprias coisas buscadas e nomeadas. “Ele terá tudo o que disser.” Tudo é categórico: “ele terá”. A concessão deve ser ilimitada, tanto em qualidade quanto em quantidade.

A fé e a oração escolhem os temas da petição, determinando assim o que Deus deve fazer. “Ele terá tudo o que disser.” Cristo Se mantém pronto a suprir exata e plenamente todas as exigências da fé e da oração. Se a encomenda feita a Deus for clara, específica e definida, Deus a atenderá exatamente de acordo com os termos apresentados.

A fé não é uma crença abstrata na Palavra de Deus, nem um mero crédito mental, nem um simples assentimento do entendimento e da vontade; tampouco é uma aceitação passiva de fatos, por mais sagrados ou completos que sejam. A fé é uma operação de Deus, uma iluminação divina, uma energia santa implantada pela Palavra de Deus e pelo Espírito na alma humana — um princípio espiritual e divino que toma do Sobrenatural e o torna algo apreensível pelas faculdades do tempo e dos sentidos.

A fé lida com Deus e tem consciência de Deus. Lida com o Senhor Jesus Cristo e vê nele um Salvador; lida com a Palavra de Deus e se apodera da verdade; lida com o Espírito de Deus e é energizada e inspirada pelo Seu fogo santo. Deus é o grande objeto da fé, pois a fé apoia todo o seu peso na Palavra dele. A fé não é um ato sem rumo da alma, mas um olhar para Deus e um descansar em Suas promessas. Assim como o amor e a esperança têm sempre um objeto, também a fé o tem. Fé não é crer em qualquer coisa; é crer em Deus, descansar nele, confiar em Sua Palavra.

A fé dá à luz a oração, e cresce mais forte, aprofunda-se mais, eleva-se mais alto nas lutas e combates da súplica poderosa. A fé é a certeza daquilo que esperamos, a garantia e a realização da herança dos santos. A fé também é humilde e perseverante. Ela sabe esperar e orar; sabe ficar de joelhos ou prostrar-se no pó. É a grande condição da oração; a falta dela está na raiz de toda oração pobre, oração fraca, oração escassa, oração sem resposta.

A natureza e o significado da fé se demonstram mais pelo que ela faz do que por qualquer definição que se dê a ela. Assim, se nos voltarmos para o registro da fé que nos é dado naquela grande galeria de honra que constitui o capítulo onze de Hebreus, veremos algo dos maravilhosos resultados da fé. Que lista gloriosa é essa — a desses homens e mulheres de fé! Que feitos maravilhosos ali estão registrados e atribuídos à fé! O escritor inspirado, esgotando os seus recursos ao catalogar os santos do Antigo Testamento, que foram exemplos tão notáveis de fé maravilhosa, exclama por fim:

“E o que mais direi? Pois me faltaria o tempo se eu contasse de Gideão, Baraque, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os profetas.”

E então o escritor de Hebreus prossegue, num tom maravilhoso, falando das proezas não registradas realizadas pela fé dos homens de outrora, “dos quais o mundo não era digno”. “Todos estes”, diz ele, “obtiveram bom testemunho por sua fé.”

Que era de feitos gloriosos raiaria para a Igreja e para o mundo, se apenas pudesse ser reproduzida uma geração de santos de fé igualmente poderosa, de oração igualmente maravilhosa! Não é de intelectuais brilhantes que a Igreja precisa; nem são homens de riqueza que os tempos exigem. Não são pessoas de grande influência social que estes dias requerem. Acima de todos e de tudo, são homens de fé, homens de oração poderosa, homens e mulheres à semelhança dos santos e heróis enumerados em Hebreus, que “obtiveram bom testemunho por sua fé”, aquilo de que a Igreja e todo o vasto mundo da humanidade precisam.

Muitos homens, em nossos dias, obtêm boa reputação por causa de suas doações em dinheiro, de seus grandes dons e talentos intelectuais, mas poucos são os que obtêm “bom testemunho” por causa de sua grande fé em Deus ou das coisas maravilhosas que estão sendo realizadas por meio de sua grande oração. Hoje, tanto quanto em qualquer época, precisamos de homens de grande fé e de homens que sejam grandes na oração. Estas são as duas virtudes cardeais que tornam os homens grandes aos olhos de Deus, as duas coisas que criam condições de verdadeiro sucesso espiritual na vida e na obra da Igreja. Nossa principal preocupação é cuidar para que mantenhamos uma fé de tal qualidade e textura que tenha valor diante de Deus; que agarre e guarde consigo as coisas que pede, sem dúvida e sem medo.

A dúvida e o medo são os inimigos gêmeos da fé. Às vezes, chegam a usurpar o lugar da fé, e, embora oremos, é uma oração inquieta e perturbada a que oferecemos, ansiosa e muitas vezes queixosa. Pedro não conseguiu andar sobre o lago de Genesaré porque permitiu que as ondas o cobrissem e afogassem o poder da sua fé. Tirando os olhos do Senhor e olhando para a água ao seu redor, começou a afundar e teve de clamar por socorro: “Senhor, salva-me!”

As dúvidas nunca devem ser acalentadas, nem os medos abrigados. Que ninguém alimente a ilusão de ser um mártir do medo e da dúvida. Não é mérito algum para a capacidade mental de ninguém acalentar dúvidas sobre Deus, e nenhum consolo pode vir de tal pensamento. Nossos olhos devem ser tirados de nós mesmos, desviados da nossa própria fraqueza e deixados a repousar sem reservas na força de Deus. “Portanto, não lancem fora a sua confiança, a qual tem uma grande recompensa.” Uma fé simples e confiante, vivendo dia após dia e lançando o seu fardo sobre o Senhor a cada hora do dia, dissipará o medo, afastará a apreensão e livrará da dúvida:

“Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplica com ações de graças, que os seus pedidos sejam conhecidos diante de Deus.”

Esse é o remédio divino para todo medo, ansiedade e preocupação indevida da alma, os quais são muito aparentados com a dúvida e a incredulidade. Esta é a receita divina para obter a paz que excede todo o entendimento e que guarda o coração e a mente em quietude e paz.

Todos nós precisamos observar bem e atender à advertência dada em Hebreus: “Cuidado, irmãos, para que talvez não haja em nenhum de vocês um coração mau de incredulidade, que se afaste do Deus vivo.”

Precisamos também nos guardar da incredulidade como nos guardaríamos de um inimigo. A fé precisa ser cultivada. Precisamos continuar orando: “Aumenta a nossa fé”, pois a fé é capaz de crescer. O elogio de Paulo aos tessalonicenses foi que a fé deles crescia extraordinariamente. A fé aumenta pelo exercício, por ser posta em uso. É nutrida por duras provações.

“para que a prova da sua fé, que é mais preciosa do que o ouro que perece, mesmo sendo provado pelo fogo, seja achada para resultar em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo.”

A fé cresce pela leitura e meditação da Palavra de Deus. Acima de tudo, e melhor que tudo, a fé floresce numa atmosfera de oração.

Seria bom se todos nós parássemos para perguntar pessoalmente a nós mesmos: “Tenho fé em Deus? Tenho fé verdadeira — fé que me guarda em perfeita paz quanto às coisas da terra e às coisas do céu?” Esta é a pergunta mais importante que um homem pode propor e esperar ver respondida. E há outra pergunta, muito próxima dela em significado e importância: “Oro realmente a Deus de modo que Ele me ouve e responde às minhas orações? E oro verdadeiramente a Deus de modo que recebo diretamente de Deus as coisas que Lhe peço?”

Dizia-se de César Augusto que encontrou Roma uma cidade de madeira e a deixou uma cidade de mármore. O pastor que consegue transformar o seu povo de um povo sem oração em um povo de oração realizou uma obra maior do que a de Augusto ao transformar uma cidade de madeira em mármore. E, afinal, esta é a obra primordial do pregador. Antes de tudo, ele lida com pessoas que não oram — pessoas de quem se diz que “não têm espaço em seus pensamentos para Deus”. Encontra tais pessoas em toda parte e o tempo todo. Sua tarefa principal é tirá-las do esquecimento de Deus, da falta de fé, da ausência de oração, para que se tornem pessoas que oram habitualmente, que creem em Deus, se lembram dele e fazem a Sua vontade. O pregador não é enviado apenas para induzir os homens a se unirem à Igreja, nem apenas para levá-los a se comportarem melhor. É para levá-los a orar, a confiar em Deus e a manter Deus sempre diante dos olhos, para que não pequem contra Ele.

A obra do ministério é transformar pecadores incrédulos em santos que oram e creem. O chamado sai com autoridade divina: “Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo.” Vislumbramos a tremenda importância da fé e o grande valor que Deus lhe atribui quando lembramos que Ele a fez a única condição indispensável para ser salvo. “Pela graça vocês foram salvos por meio da fé.” Assim, quando contemplamos a grande importância da oração, encontramos a fé bem ao seu lado. Pela fé somos salvos, e pela fé permanecemos salvos. A oração nos introduz numa vida de fé. Paulo declarou que a vida que vivia, vivia-a pela fé no Filho de Deus, que o amou e Se entregou por ele — que andava por fé, não por vista.

A oração depende absolutamente da fé. Praticamente não tem existência sem ela e nada realiza a menos que a fé seja a sua companheira inseparável. A fé torna a oração eficaz e, num sentido importante, deve precedê-la.

“Pois aquele que se aproxima de Deus deve crer que ele existe e que é recompensador daqueles que o buscam.”

Antes mesmo que a oração se ponha a caminho de Deus; antes que a sua petição seja apresentada, antes que os seus pedidos sejam conhecidos — a fé precisa ter ido à frente; precisa ter afirmado a sua crença na existência de Deus; precisa ter dado o seu assentimento à graciosa verdade de que “Deus é recompensador daqueles que buscam diligentemente a Sua face”. Este é o primeiro passo na oração. Nesse sentido, embora a fé não traga a bênção, ela coloca a oração em posição de pedi-la e conduz a outro passo rumo à sua realização, ajudando aquele que pede a crer que Deus é capaz e está disposto a abençoar.

A fé põe a oração a trabalhar — abre o caminho até o propiciatório. Dá a certeza, antes de tudo, de que existe um propiciatório e de que ali o Sumo Sacerdote aguarda os que oram e as suas orações. A fé abre o caminho para que a oração se aproxime de Deus. Mas faz mais. Acompanha a oração em cada passo que ela dá. É a sua companheira inseparável, e, quando os pedidos são feitos a Deus, é a fé que transforma o pedir em obter. E a fé segue a oração, pois a vida espiritual na qual o crente é conduzido pela oração é uma vida de fé. A característica proeminente da experiência na qual os crentes são introduzidos pela oração não é uma vida de obras, mas de fé.

A fé torna a oração forte e lhe dá paciência para esperar em Deus. A fé crê que Deus é recompensador. Nenhuma verdade é revelada com mais clareza nas Escrituras do que esta, e nenhuma é mais encorajadora. Até o quarto de oração tem a sua recompensa prometida: “o seu Pai, que vê em secreto, o recompensará publicamente”, ao passo que o mais insignificante serviço prestado a um discípulo em nome do Senhor certamente recebe a sua recompensa. E a esta preciosa verdade a fé dá o seu assentimento sincero.

Contudo, a fé se restringe a uma coisa em particular — não crê que Deus recompensará a todos, nem que Ele é recompensador de todos os que oram, mas que Ele é recompensador daqueles que O buscam diligentemente. A fé deposita o seu cuidado na diligência na oração e dá certeza e ânimo aos que buscam a Deus com diligência, pois somente eles são ricamente recompensados quando oram.

Precisamos ser constantemente lembrados de que a fé é a única condição inseparável da oração bem-sucedida. Há outras considerações que entram nesse exercício, mas a fé é a condição final, a única indispensável, da verdadeira oração. Como está escrito numa declaração bem conhecida e fundamental: “Sem fé é impossível agradar a ele.”

Tiago expõe essa verdade com toda a clareza.

“Mas, se algum de vocês tem falta de sabedoria”, diz ele, “peça a Deus, que a todos dá liberalmente e sem censura, e lhe será dada. Peça, porém, com fé, sem duvidar de nada, pois aquele que duvida (ou vacila) é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento. Pois esse homem não deve pensar que receberá alguma coisa do Senhor.”

A dúvida está sempre sob interdição, porque se coloca como inimiga da fé e impede a oração eficaz. Na Primeira Epístola a Timóteo, Paulo nos dá uma verdade inestimável acerca das condições da oração bem-sucedida, que ele estabelece assim: “Desejo, portanto, que os homens orem em todo lugar, levantando mãos santas, sem ira e sem dúvida.”

Todo questionamento deve ser vigiado e evitado. O medo e o talvez não têm lugar na verdadeira oração. A fé precisa se impor e ordenar a esses inimigos da oração que se retirem.

Nunca se atribuirá autoridade demais à fé; mas a oração é o cetro pelo qual ela manifesta o seu poder. Quanta sabedoria espiritual há no seguinte conselho, escrito por um eminente teólogo antigo!

“Você quer ser liberto da escravidão da corrupção?”, pergunta ele. “Quer crescer na graça em geral e crescer na graça em particular? Se quer, o seu caminho é claro. Peça a Deus mais fé. Implore-Lhe de manhã, ao meio-dia e à noite, enquanto anda pelo caminho, enquanto está sentado em casa, quando se deita e quando se levanta; implore-Lhe simplesmente que imprima mais profundamente as coisas divinas em seu coração, que lhe dê cada vez mais da certeza das coisas que se esperam e da prova das coisas que não se veem.”

As Sagradas Escrituras oferecem grandes incentivos à oração, e nosso Senhor encerra o Seu ensino sobre a oração com a certeza e a promessa do céu. A presença de Jesus Cristo no céu, a preparação que Ele está fazendo ali para os Seus santos e a certeza de que Ele virá outra vez para recebê-los — como tudo isso alivia o cansaço da oração, fortalece os seus combates, adoça a sua árdua labuta! Estas coisas são a estrela de esperança da oração, o enxugar das suas lágrimas, o pôr o perfume do céu na amargura do seu clamor. O espírito de peregrino facilita grandemente a oração. Um espírito preso à terra, satisfeito com a terra, não consegue orar. Num coração assim, a chama do desejo espiritual ou se apagou ou arde fracamente num brilho quase extinto. As asas da sua fé estão cortadas, seus olhos estão turvos, sua língua está calada. Mas aqueles que, com fé inabalável e oração incessante, esperam continuamente no Senhor, de fato renovam as suas forças, de fato sobem com asas como águias, de fato correm, e não se cansam, de fato caminham, e não desfalecem.

Capítulo 3 concluído

Oração e Fé (Continuação)

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