Capítulo 2 · 12 min de leitura · 16 min de escuta
Oração e Fé
“Um querido amigo meu, grande apreciador da caça, contou-me a seguinte história: ‘Levantando-me cedo certa manhã’, disse ele, ‘ouvi o latido de uns vinte cães de caça no encalço da presa. Olhando para um campo largo e aberto à minha frente, vi um filhote de cervo atravessando-o e dando sinais, além disso, de que sua corrida estava quase no fim. Ao chegar à cerca do cercado, saltou por cima e se encolheu a três metros de onde eu estava. Um instante depois, dois dos cães pularam a cerca, e então o filhote correu na minha direção e enfiou a cabeça entre as minhas pernas. Ergui o pequenino ao meu peito e, girando sem parar, afastei os cães. Senti, naquele momento, que nem todos os cães do Oeste poderiam nem deveriam capturar aquele filhote depois que sua fraqueza havia apelado à minha força.’ Assim é quando o desamparo humano apela ao Deus Todo-Poderoso. Lembro-me bem de quando os cães do pecado estavam atrás da minha alma, até que, por fim, corri para os braços do Deus Todo-Poderoso.” — A. C. DIXON.
EM qualquer estudo dos princípios e do procedimento da oração, de suas atividades e empreendimentos, o primeiro lugar deve, necessariamente, ser dado à fé. Ela é a qualidade inicial no coração de todo homem que se aventura a falar com o Invisível. Ele precisa, por puro desamparo, estender as mãos da fé. Ele precisa crer onde não pode provar. Em última análise, a oração é simplesmente a fé reivindicando suas prerrogativas naturais e, no entanto, maravilhosas — a fé tomando posse de sua herança ilimitada. A verdadeira piedade é tão verdadeira, firme e perseverante no reino da fé quanto no domínio da oração. Além disso: quando a fé deixa de orar, deixa de viver.
A fé faz o impossível porque leva Deus a agir em nosso favor, e nada é impossível para Deus. Quão grande — sem ressalva nem limitação — é o poder da fé! Se a dúvida for banida do coração, e a incredulidade se tornar ali uma estranha, aquilo que pedimos a Deus certamente acontecerá, e ao crente é concedido “tudo o que disser”.
A oração projeta a fé sobre Deus, e Deus sobre o mundo. Só Deus pode mover montanhas, mas a fé e a oração movem Deus. Ao amaldiçoar a figueira, nosso Senhor demonstrou o Seu poder. Em seguida, passou a declarar que grandes poderes foram confiados à fé e à oração, não para matar, mas para dar vida; não para destruir, mas para abençoar.
Neste ponto do nosso estudo, voltamo-nos para uma palavra de nosso Senhor que precisa ser enfatizada, pois é a própria pedra angular do arco da fé e da oração.
“Portanto, eu lhes digo: tudo o que vocês pedirem em oração, creiam que já o receberam, e o terão.”
Devemos ponderar bem esta afirmação: “creiam que já o receberam, e o terão”. Aqui se descreve uma fé que torna real, que se apropria, que toma posse. Tal fé é uma consciência do Divino, uma comunhão experimentada, uma certeza vivida.
A fé está crescendo ou declinando com o passar dos anos? A fé permanece forte e inabalável nestes dias, em que a iniquidade se multiplica e o amor de muitos esfria? A fé mantém o seu domínio, enquanto a religião tende a tornar-se mera formalidade e o mundanismo prevalece cada vez mais? A pergunta de nosso Senhor pode, com toda a propriedade, ser também a nossa: “quando o Filho do Homem vier, encontrará fé na terra?” Cremos que sim, e cabe a nós, em nossos dias, cuidar para que a lâmpada da fé esteja preparada e acesa, para que não venha Aquele que há de vir, e isso bem cedo.
A fé é o fundamento do caráter cristão e a segurança da alma. Quando Jesus previa a negação de Pedro e o advertia contra ela, disse ao Seu discípulo:
“Simão, Simão, eis que Satanás pediu para ter todos vocês, para que pudesse peneirá-los como trigo, mas eu orei por você, para que a sua fé não desfaleça.”
Nosso Senhor estava declarando uma verdade central; era a fé de Pedro que Ele procurava proteger, pois sabia bem que, quando a fé se desmorona, os fundamentos da vida espiritual cedem e toda a estrutura da experiência religiosa vem abaixo. Era a fé de Pedro que precisava ser guardada. Daí a solicitude de Cristo pelo bem-estar da alma do Seu discípulo e a Sua determinação de fortalecer a fé de Pedro com a Sua própria oração, que tudo vence.
Em sua Segunda Epístola, Pedro tem essa ideia em mente ao falar do crescimento na graça como medida de segurança na vida cristã e como algo que implica frutificação.
“Sim, e por esta mesma razão”, declara ele, “aplicando da parte de vocês toda a diligência, acrescentem à sua fé a excelência moral; e à excelência moral, o conhecimento; e ao conhecimento, o domínio próprio; e ao domínio próprio, a perseverança; e à perseverança, a piedade.”
Nesse processo de acréscimo, a fé era o ponto de partida — a base das demais graças do Espírito. A fé era o fundamento sobre o qual as outras coisas deveriam ser edificadas. Pedro não ordena a seus leitores que acrescentem às obras, aos dons ou às virtudes, mas à fé. Muito depende de começar certo neste assunto de crescer na graça. Há uma ordem divina, da qual Pedro estava ciente; por isso ele prossegue, declarando que devemos ser diligentes em confirmar a nossa vocação e eleição, eleição essa que se torna certa acrescentando-se à fé, o que, por sua vez, se faz pela oração constante e fervorosa. Assim a fé é mantida viva pela oração, e cada passo dado, nesse acrescentar graça sobre graça, é acompanhado de oração.
A fé que gera oração poderosa é a fé que se concentra numa Pessoa poderosa. A fé na capacidade de Cristo de fazer e de fazer grandes coisasé a fé que ora grandemente. Foi assim que o leproso se apoderou do poder de Cristo. “Senhor, se quiser”, clamou ele, “pode me purificar.” Neste caso, vemos como a fé se concentrou na capacidade de Cristo de fazer, e como alcançou o poder que cura.
Foi justamente sobre esse ponto que Jesus interrogou os cegos que vieram a Ele em busca de cura:
“Vocês creem que eu sou capaz de fazer isso?”, pergunta Ele. “Eles lhe responderam: Sim, Senhor. Então ele tocou os olhos deles, dizendo: Que seja feito a vocês de acordo com a sua fé.”
Foi para inspirar fé em Sua capacidade de fazer que Jesus deixou atrás de Si aquela última e grande declaração que, em última análise, é um desafio retumbante à fé. “Toda a autoridade”, declarou Ele, “me foi dada no céu e na terra.”
Além disso, a fé é obediente; ela vai quando lhe mandam ir, como fez o oficial do rei que veio a Jesus nos dias da Sua carne, cujo filho estava gravemente enfermo.
E mais: essa fé age. Como o homem que nasceu cego, ela vai lavar-se no tanque de Siloé quando lhe mandam lavar-se. Como Pedro no lago de Genesaré, lança a rede onde Jesus ordena, de imediato, sem questionar nem duvidar. Essa fé remove prontamente a pedra do sepulcro de Lázaro. Uma fé que ora guarda os mandamentos de Deus e faz as coisas que Lhe são agradáveis. Ela pergunta: “O que farei, Senhor?”, e responde prontamente: “Fala, SENHOR; porque o teu servo ouve.” A obediência ajuda a fé, e a fé, por sua vez, ajuda a obediência. Fazer a vontade de Deus é essencial à verdadeira fé, e a fé é necessária à obediência irrestrita.
Contudo, a fé é chamada, e com bastante frequência, a esperar com paciência diante de Deus, e está preparada para as aparentes demoras de Deus em responder à oração. A fé não desanima porque a oração não é atendida de imediato; ela toma Deus pela Sua Palavra e deixa que Ele tome o tempo que quiser para cumprir os Seus propósitos e levar adiante a Sua obra. Haverá, inevitavelmente, muita demora e longos dias de espera para a verdadeira fé, mas a fé aceita as condições — sabe que haverá demoras na resposta à oração e considera tais demoras como tempos de prova, nos quais tem o privilégio de mostrar a sua têmpera e o material resistente de que é feita.
O caso de Lázaro foi um exemplo de demora, em que a fé de duas boas mulheres foi duramente provada: Lázaro estava gravemente enfermo, e suas irmãs mandaram chamar Jesus. Mas, sem nenhuma razão conhecida, nosso Senhor demorou a ir socorrer o Seu amigo enfermo. O apelo era urgente e comovente — “Senhor, eis que aquele por quem tens grande afeição está doente” —, mas o Mestre não se move por ele, e o pedido fervoroso das mulheres pareceu cair em ouvidos surdos. Que prova para a fé! Além disso, a demora de nosso Senhor pareceu provocar um desastre sem esperança. Enquanto Jesus se demorava, Lázaro morreu.
Mas a demora de Jesus foi exercida em favor de um bem maior. Por fim, Ele se dirige à casa em Betânia.
“Então, Jesus lhes disse claramente: Lázaro está morto. E me alegro por causa de vocês de não ter estado lá, para que creiam. No entanto, vamos até ele.”
Não tema, ó crente tentado e provado: Jesus virá , se houver paciência e a fé se mantiver firme. A Sua demora servirá para tornar a Sua vinda ainda mais ricamente abençoada. Continue orando. Continue esperando. Você não pode fracassar. Se Cristo demorar, espere por Ele. No Seu tempo oportuno, Ele virá , e não tardará.
A demora é muitas vezes a prova e a força da fé. Quanta paciência é necessária quando chegam esses tempos de prova! Contudo, a fé ganha força esperando e orando. A paciência realiza a sua obra perfeita na escola da demora. Em alguns casos, a demora é da própria essência da oração. Deus precisa fazer muitas coisas antes de dar a resposta final — coisas essenciais ao bem duradouro daquele que Lhe pede um favor.
Jacó orou, com objetividade e ardor, para ser livrado de Esaú. Mas, antes que essa oração pudesse ser respondida, havia muito a ser feito com Jacó e por Jacó. Ele precisava ser mudado, tanto quanto Esaú. Jacó tinha de ser feito um homem novo antes que Esaú pudesse sê-lo. Jacó tinha de ser convertido a Deus antes que Esaú pudesse ser convertido a Jacó.
Entre as grandes e luminosas declarações de Jesus a respeito da oração, nenhuma é mais impressionante do que esta:
“Com toda a certeza lhes digo: aquele que crê em mim, também fará as obras que eu faço; e fará obras maiores do que estas, porque eu vou para o meu Pai. E tudo o que vocês pedirem em meu nome, eu o farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Se vocês pedirem qualquer coisa em meu nome, eu o farei.”
Quão maravilhosas são estas declarações do que Deus fará em resposta à oração! Quão grande a importância destas palavras retumbantes, precedidas, como são, da mais solene afirmação de verdade! A fé em Cristo é a base de toda obra e de toda oração. Todas as obras maravilhosas dependem de oração maravilhosa, e toda oração é feita em Nome de Jesus Cristo. Que lição surpreendente, de maravilhosa simplicidade, é esta de orar em nome do Senhor Jesus! Todas as outras condições são postas de lado, tudo o mais é renunciado, exceto somente Jesus. O nome de Cristo — a Pessoa de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo — deve ser supremamente soberano na hora e no ato da oração.
Se Jesus habita na fonte da minha vida; se as correntes da Sua vida deslocaram e substituíram todas as correntes do eu; se a obediência irrestrita a Ele é a inspiração e a força de cada movimento da minha vida, então Ele pode, com segurança, confiar a oração à minha vontade e comprometer-Se, por uma obrigação tão profunda quanto a Sua própria natureza, a conceder tudo o que for pedido. Nada pode ser mais claro, mais nítido, mais ilimitado em aplicação e alcance do que a exortação e a insistência de Cristo: “Tenham fé em Deus.”
A fé abrange tanto as necessidades temporais quanto as espirituais. A fé dissipa toda ansiedade indevida e toda preocupação desnecessária com o que comer, o que beber, o que vestir. A fé vive no presente e considera que basta a cada dia o seu próprio mal. Vive dia após dia e dissipa todos os temores quanto ao amanhã. A fé traz grande tranquilidade à mente e perfeita paz ao coração.
“Você guardará em perfeita paz aquele cuja mente é firme, porque ele confia em você.”
Quando oramos: “Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia”, estamos, em certa medida, excluindo o amanhã da nossa oração. Não vivemos no amanhã, mas no hoje. Não buscamos a graça de amanhã nem o pão de amanhã. Prosperam mais, e tiram mais proveito da vida, os que vivem no presente vivo. Oram melhor os que oram pelas necessidades de hoje, e não pelas de amanhã, que podem tornar nossas orações desnecessárias e supérfluas simplesmente por não chegarem a existir!
As verdadeiras orações nascem das provações presentes e das necessidades presentes. Pão para hoje é pão suficiente. O pão dado para hoje é a mais forte garantia de que haverá pão amanhã. A vitória de hoje é a certeza da vitória de amanhã. Nossas orações precisam estar focadas no presente. Devemos confiar em Deus hoje e deixar o amanhã inteiramente com Ele. O presente é nosso; o futuro pertence a Deus. A oração é a tarefa e o dever de cada dia que se repete — oração diária para as necessidades diárias.
Assim como cada dia exige o seu pão, cada dia exige a sua oração. Nenhuma quantidade de oração feita hoje bastará para a oração de amanhã. Por outro lado, nenhuma oração pelo amanhã tem grande valor para nós hoje. O maná de hoje é o que precisamos; amanhã Deus cuidará de suprir as nossas necessidades. Esta é a fé que Deus procura inspirar. Portanto, deixe o amanhã, com seus cuidados, suas necessidades, suas aflições, nas mãos de Deus. Não há como armazenar a graça de amanhã ou a oração de amanhã; nem há como acumular a graça de hoje para atender às necessidades de amanhã. Não podemos ter a graça de amanhã, não podemos comer o pão de amanhã, não podemos fazer a oração de amanhã. “Basta a cada dia o seu próprio mal”; e, com toda a certeza, se tivermos fé, bastará também o bem.
Capítulo 2 concluído
Oração e Fé