Capítulo 11 · 6 min de leitura

Entusiasmo e Plena Salvação

Por que havemos de ser entusiastas em tudo, menos na religião? Você consegue me dar alguma razão para isso?

Se há algum assunto capaz de mover a nossa alma até o âmago e de despertar todo o entusiasmo da nossa natureza, esse assunto é certamente a religião — desde que seja a coisa verdadeira. Por que não havemos de ser entusiastas? Nunca vi ainda uma boa razão. Por que não havemos de aclamar e cantar os louvores do nosso Rei, como esperamos fazer na glória? Por que um homem não haveria de clamar, gemer e estar em angústia de alma, como diz o salmista — como quem clama desde o ventre do inferno —, quando está convencido do seu pecado, percebe o seu perigo e espera ser condenado, a menos que Deus tenha misericórdia?

Por que não haveria ele de bramir, pela inquietação do seu espírito, tanto quanto Davi bramiu? Há nisso algo contrário à razão? Há nisso algo contrário às leis da mente? Há nisso algo que você não admitiria diante de uma grande calamidade, ou de um perigo consciente, ou de um luto? Por que não haveríamos de ter essa manifestação nas coisas da alma? Eles a tinham sob a antiga dispensação. Lemos, vez após vez, que, quando o povo se reunia depois de um tempo de recaída, de desvio e de infidelidade, quando Deus lhes enviava algum profeta ardente e inflamado e eles se ajuntavam nas encostas do Carmelo ou em outro lugar, em algumas ocasiões o pranto, e em outras a alegria, era tão grande que faziam o próprio chão tremer e quase rasgavam os céus com o som do seu clamor e do seu júbilo.

Conta-se que, numa ocasião, o barulho foi ouvido de muito longe e, em outra, que era como o som de muitas águas. Quisera Deus que hoje em dia conseguíssemos ver homens tão preocupados com os seus pecados e com a sua alma a ponto de clamarem assim. Seria um dia feliz para a religião e para o mundo se fosse assim. Se essas coisas são realidades, sustento que esta é a maneira mais sã, mais racional e mais sensata de lidar com elas; e digo que a maneira comum, fria, sem coração e formal (e, se não é assim, ao menos tem essa aparência) não é a maneira das Escrituras.

Alguém me falava sobre haver tanto sentimento na religião. Eu respondi: "Meu caro amigo, para que você acha que Deus lhe deu sentimentos?" Certas pessoas parecem achar que é um engano termos sentimentos. Os nossos sentimentos desempenham um papel muito importante em todas as nossas relações sociais. Por que você os excluiria da religião? Davi expressava os seus sentimentos e era de tal modo arrebatado por eles que convocava toda a criação a louvar o Senhor, e chamava os montes e as árvores a bater palmas e a se alegrar. Tenha o tipo certo de religião, e ela o deixará alegre. Se você não tem o tipo certo de sentimento, receio que não tenha o tipo certo de religião. Nós temos algum entusiasmo, e, quando o nosso entusiasmo morrer, receio que morreremos também. Mesmo assim, o nosso poder não está no nosso entusiasmo; nem consiste em certas visões da verdade, ou em certos sentimentos a respeito da verdade. Consiste, sim, numa entrega inteira, completa, de ponta a ponta, a Deus; e isso, com ou sem sentimento, é o que importa, e nisso está o segredo do nosso poder. Temos sentimentos gloriosos como consequência; mas o sentimento não é a religião — o sentimento não é a santidade. A santidade é a nascente e a fonte do entusiasmo. Daí o nosso poder junto às multidões.

Como se explica que, aonde quer que vamos como organização, esses sinais e prodígios se realizem? Alguém disse: "É uma coisa estranha; vejam o que se fez em tal lugar, e em tal outro, e em tal outro.

Todos já tinham tentado; e vocês mandam para lá um par de rapazes ou de moças e num instante a cidade está em polvorosa. O que é isso? Qual é o segredo? Vocês respondem a essa pergunta?" Pois bem: é o abandono inteiro e decidido de tudo, por causa do Rei. É isso. É entrar como entraram os apóstolos, decididos a ganhar almas, decididos a estabelecer o reino de Jesus Cristo, custe o que custar.

Essa é a fonte do nosso poder; e, se você a tiver, terá poder; e, se não a tiver, pouco importa o que mais você tenha. Quero que você veja, com serenidade e bom senso, que esta santidade é uma bênção real e definida; que é um patamar ao qual a grande massa dos cristãos professos desta geração ainda não chegou, e para o qual mal ergueu os olhos. É um patamar alto, mas é um patamar ao qual cada um de vocês pode chegar, se quiser. Vocês já ouviram o bastante a respeito dele.

Você está convencido de que pode tê-la. Você vai tê-la? O Senhor está sentado ali; está olhando para você e está dizendo: "Que agitação é essa toda? De que se trata toda essa conversa, esse cântico, essa oração? Aqui estou eu. O que você quer que eu faça? Estou pronto para fazer." E você diz: "Senhor, quero que purifiques o meu coração do pecado, que me enchas do Espírito Santo, que me capacites a ser inteiro e completo no Teu serviço, e a ir ganhar almas para Ti." "Muito bem", diz o Senhor, "estou pronto para entrar no templo, se você limpar o entulho. Você está disposto a que eu entre? Espero para entrar como Refinador; mas você precisa aplainar o caminho para os meus pés. Precisa tirar as pedras, jogar fora o entulho e preparar-me uma vereda reta."

Você vai preparar-Lhe uma vereda reta? Vai pisar aos pés aquela coisa maldita que por tanto tempo lhe tem retido a plenitude da bênção? Vai parar de discutir sobre ela e de tentar provar que ela não é uma pedra de tropeço, quando você sabe que é? Quantos o farão? Quisera que tivéssemos espaço para um banco de oração. Lamento que não tenhamos. Com toda a luz que você tem sobre o assunto, com tudo aquilo que tenho certeza de que o Espírito Santo revelou e continua revelando à sua alma, com toda a glória que Ele coloca diante de você, e todo o poder para ser útil e feliz — você vai fazer esta consagração plena?

A luz do Espírito está sobre você: você vai agir? Vai agir? Cada centelha de luz que você recebe sem obedecer deixa a sua alma mais escura. Cada vez que você chega à beira do reino e não atravessa, menor se torna a probabilidade de que um dia atravesse. Conheço pessoas que estão indo e voltando há mais de quarenta anos, como os israelitas, e é duvidoso que algum dia entrem. Você chegou perto de novo. Vai atravessar? Você pode dizer isso ao Senhor sem nos dizer, embora gostássemos de saber e de ver você pôr o pé para além da fronteira, nesta Canaã de paz e de poder. Você vai pôr o pé do outro lado? Quem vai? Quem vai? Você se levanta e eleva a sua voz ao Senhor e pede a Ele?

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