Capítulo 1 · 14 min de leitura
O batismo com o Espírito Santo: o que é e o que faz
O batismo com o Espírito Santo é uma obra distinta de Deus que capacita os crentes para o serviço. Este capítulo esclarece que tal experiência é separada da salvação, que é clara e reconhecível, e que traz dons espirituais e força na medida do chamado de cada um.
Por meio das Escrituras e de exemplos da vida real, o capítulo mostra como esse batismo equipa os crentes para servir com eficácia, trazendo tanto poder quanto elevação moral.
Embora se fale muito, em nossos dias, a respeito do batismo com o Espírito Santo, é de temer que muitos dos que falam dele e oram por ele não tenham nenhuma ideia clara e definida do que ele seja. Mas a Bíblia, se for estudada com cuidado, nos dará uma visão dessa bênção maravilhosa que é clara e notavelmente definida.
I. Antes de tudo, verificamos que a Bíblia usa várias designações para esta mesma experiência. Em Atos 1:5, Jesus disse: “João, na verdade, batizou com água, mas vocês serão batizados com o Espírito Santo dentro de poucos dias.” Em Atos 2:4, quando essa promessa se cumpriu, lemos: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo.” Em Atos 1:4, a mesma experiência é chamada de “a promessa do Pai”; e em Lucas 24:49: “Eis que envio sobre vocês a promessa de meu Pai; permaneçam, porém, na cidade até que sejam revestidos de poder do alto.” Comparando Atos 10:44, 45, 47 com Atos 11:15, 16, descobrimos que as expressões “o Espírito Santo desceu sobre eles”, “o dom do Espírito Santo” e “receber o Espírito Santo” equivalem todas a “ser batizado com o Espírito Santo”.
2. Verificamos, em seguida, que o batismo com o Espírito Santo é uma experiência precisa, a respeito da qual se pode saber se foi recebida ou não. Isso fica evidente na ordem que o nosso Salvador deu aos apóstolos: “permaneçam na cidade até que sejam revestidos de poder do alto” (Lucas 24:49). Se esse revestimento de poder, ou batismo com o Espírito Santo, não fosse uma experiência tão definida que a pessoa pudesse saber se a recebera ou não, como saberiam eles que aqueles dias de espera que lhes foram ordenados haviam chegado ao fim? A mesma coisa fica clara na pergunta muito definida que Paulo fez aos discípulos em Éfeso.
Vocês receberam o Espírito Santo quando creram? (Atos 19:2.) Paulo esperava como resposta um “sim” definido ou um “não” definido. A menos que a experiência fosse definida e de tal natureza que a pessoa pudesse saber se a havia recebido ou não, como poderiam aqueles discípulos responder à pergunta de Paulo? Eles sabiam que não haviam “recebido” o Espírito Santo, nem sido “batizados” com Ele; e pouco tempo depois sabiam que o haviam “recebido”, que haviam sido “batizados” com o Espírito Santo.
(Atos 19:6.) Pergunte hoje a muitos que oram para ser batizados com o Espírito Santo: “Pois bem, meu irmão, você recebeu o que pediu? Você foi batizado com o Espírito Santo?” — e ficará surpreso. Ele não esperava nada tão claro que lhe permitisse responder com segurança “sim” ou “não” a uma pergunta dessas. Na Bíblia, contudo, não encontramos nada da incerteza e da falta de clareza que tantas vezes aparecem em boa parte de nossas orações e de nossa linguagem modernas sobre este assunto. A Bíblia é um livro evidente.
Ela é muito clara quanto à salvação, de modo que quem conhece a sua Bíblia pode responder com toda a segurança “sim” ou “não” à pergunta: “Você é salvo?” É igualmente clara quanto ao “batismo com o Espírito Santo”, de modo que quem conhece a sua Bíblia pode responder com toda a segurança “sim” ou “não” à pergunta: “Você foi batizado com o Espírito Santo?” Pode haver quem seja salvo e não o saiba, porque não entende a sua Bíblia; é, contudo, seu privilégio sabê-lo. Pode haver quem tenha sido batizado com o Espírito Santo e não conheça o nome bíblico daquilo que lhe sobreveio; é, contudo, seu privilégio sabê-lo.
3. O batismo com o Espírito Santo é uma obra do Espírito Santo, separada e distinta de sua obra regeneradora. Ser regenerado pelo Espírito Santo é uma coisa; ser batizado com o Espírito Santo é algo diferente, algo a mais. Isso fica evidente em Atos 1:5. Ali Jesus disse: “Mas vocês serão batizados com o Espírito Santo dentro de poucos dias.” Eles ainda não haviam sido “batizados com o Espírito Santo”. Mas já estavam regenerados. O próprio Jesus já os declarara assim. Em João 15:3, Ele havia dito a esses mesmos homens: “Vocês já estão limpos pela palavra que lhes tenho falado.”
(Tiago 1:18; 1 Pedro 1:23) E em João 13:10: “E vocês estão limpos, mas nem todos” — excluindo da afirmação “Vocês estão limpos” o único homem não salvo daquela companhia apostólica, Judas Iscariotes. (Ver João 13:11.) Os apóstolos, com exceção de Judas Iscariotes, já eram então homens transformados, mas ainda não haviam sido “batizados com o Espírito Santo”. Disso se vê claramente que nascer de novo é uma coisa e que o batismo com o Espírito Santo é algo diferente, algo a mais. Alguém pode ter nascido de novo e ainda não ter sido batizado com o Espírito Santo.
A mesma coisa fica evidente em Atos 8:12-16. Ali encontramos um grupo de crentes que haviam sido batizados. Certamente, nesse grupo de crentes batizados havia homens salvos. Mas o registro nos informa que, quando Pedro e João desceram, “oraram por eles, para que recebessem o Espírito Santo (pois ainda não havia descido sobre nenhum deles)”. Fica claro, então, que alguém pode ser crente, pode ser um homem salvo, e ainda assim não ter o batismo com o Espírito Santo. Em outras palavras, o batismo com o Espírito Santo é algo distinto de sua obra salvadora e além dela. Nem todo homem salvo tem o batismo com o Espírito Santo, ainda que, como veremos adiante, todo homem salvo possa tê-lo.
Se alguém experimentou a obra transformadora do Espírito Santo, é um homem salvo; mas não está apto para o serviço enquanto, além disso, não receber o batismo com o Espírito Santo.
4. O batismo com o Espírito Santo está sempre ligado ao testemunho e ao serviço.
Examine com atenção cada passagem em que o batismo com o Espírito Santo é mencionado, e verá que ele está ligado ao testemunho e ao serviço, e que existe para eles. (Por exemplo, Atos 1:5, 8; Atos 2:4; Atos 4:31, 33.) Isso ficará bem claro quando passarmos a considerar o que o batismo com o Espírito Santo faz. O batismo com o Espírito Santo não é para purificar do pecado, mas para capacitar para o serviço.
Há uma linha de ensino, apresentada por um grupo de pessoas muito sinceras, mas equivocadas, que trouxe descrédito a toda a doutrina do batismo com o Espírito Santo. Ela se desenvolve assim. Primeira proposição: existe uma experiência posterior (ou segunda bênção) depois da transformação, a saber, o batismo com o Espírito Santo. Essa proposição é verdadeira e pode ser facilmente provada pela Bíblia. Segunda proposição: esse batismo com o Espírito Santo pode ser recebido imediatamente. Essa proposição também é verdadeira e pode ser facilmente provada pela Bíblia. Terceira proposição: esse batismo com o Espírito Santo é a eliminação da natureza pecaminosa. Essa proposição é falsa. Não se pode citar uma única linha da Escritura que mostre ser o batismo com o Espírito Santo a purificação da natureza pecaminosa.
A conclusão tirada dessas três proposições — duas verdadeiras e uma falsa — é necessariamente falsa. O batismo com o Espírito Santo não é para purificar do pecado, mas para capacitar para o serviço. É, de fato, obra do Espírito Santo purificar do pecado.
Além disso, há uma obra do Espírito Santo pela qual o crente é fortalecido com poder no homem interior, para que Cristo habite em seu coração pela fé e para que ele seja cheio de toda a plenitude de Deus.
(Efésios 3:16-19) Há uma obra do Espírito Santo de tal natureza que o crente é “libertado da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:2) e, pelo Espírito, “faz morrer as obras do corpo” (Romanos 8:13). É nosso privilégio andar todos os dias e a cada hora no poder do Espírito, de modo que a natureza carnal seja mantida no lugar de morte. Mas isso não é o batismo com o Espírito, nem é a eliminação da natureza pecaminosa. Não é algo feito de uma vez por todas; é algo que precisa ser mantido momento a momento. “Andem pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne.” (Gálatas 5:16) Ao insistir em que o batismo com o Espírito tem como finalidade primeira capacitar para o serviço, deve-se acrescentar que uma grande elevação moral o acompanha. (Ver Atos 2:44-46; Atos 4:31-35.) E assim tem de ser, por causa dos passos que se precisa dar para obter essa bênção.
5. Teremos uma visão ainda mais clara e completa do que é o batismo com o Espírito Santo se observarmos o que esse batismo faz. Isso está dito resumidamente em Atos 1:8: “Mas vocês receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas”, etc.
O batismo com o Espírito Santo comunica “poder”, poder para o serviço. Esse poder não se manifestará exatamente da mesma maneira em cada pessoa.
Isso é exposto com muita clareza em 1 Coríntios 12:4-13: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo, e é Ele quem os distribui. A um é dada, pelo Espírito, a palavra da sabedoria; a outro, a palavra do conhecimento, segundo o mesmo Espírito; a outro, fé, pelo mesmo Espírito; a outro, dons de curar, por esse único Espírito; a outro, o poder de operar milagres; a outro, profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; e a outro ainda, a interpretação de línguas.
Todas essas coisas, porém, são obra do mesmo Espírito, que as distribui a cada um, conforme Ele determina.”
“Nos meus primeiros estudos sobre o batismo com o Espírito Santo, notei que, em muitos casos, os que assim eram batizados “falavam em línguas”, e muitas vezes me vinha à mente a pergunta: se alguém é batizado com o Espírito Santo, não falará em línguas? Mas eu não via ninguém falar, e muitas vezes me perguntava: haverá hoje alguém que de fato seja batizado com o Espírito Santo? Este décimo segundo capítulo de 1 Coríntios esclareceu-me quanto a isso, sobretudo quando encontrei Paulo perguntando aos que haviam sido batizados com o Espírito Santo: “Falam todos em línguas?” (1 Coríntios 12:30). Mas caí em outro erro, a saber, o de supor que todo aquele que recebesse o batismo com o Espírito Santo receberia poder como evangelista ou como pregador da Palavra. Isso é igualmente contrário ao ensino do capítulo, segundo o qual “há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo”. Três males nascem do equívoco que acabo de mencionar. O primeiro é a decepção. Muitos buscarão o batismo com o Espírito Santo esperando poder como evangelistas, mas Deus não os chamou para essa obra, e o poder que vem do batismo com o Espírito Santo se manifesta neles de outra maneira; muitos casos de amarga decepção e de quase desespero nasceram dessa causa.
O segundo mal é mais grave do que o primeiro: a presunção. Um homem a quem Deus não chamou para a obra de evangelista ou de ministro se lança nela porque recebeu — ou pensa ter recebido — o batismo com o Espírito Santo. Muitos já disseram: “Tudo o que um homem precisa para ser bem-sucedido como pregador é o batismo com o Espírito Santo.” Isso não é verdade: ele precisa de um chamado para essa obra específica e precisa do estudo da Palavra de Deus que o prepare para ela.
O terceiro mal é ainda maior: a indiferença. Muitos sabem que não foram chamados à obra da pregação. Uma mãe com uma família numerosa de filhos, por exemplo, sabe disso. Se, então, pensarem que o batismo com o Espírito Santo apenas comunica poder para pregar, o assunto não lhes diz respeito pessoalmente; mas quando chegamos a ver a verdade de que, embora o batismo com o Espírito comunique poder, a maneira como esse poder se manifestará depende da obra para a qual Deus nos chamou, e que nenhuma obra eficaz pode ser feita sem ele, então a mãe verá que ela, tanto quanto o pregador, precisa desse batismo para a mais importante e a mais sagrada de todas as obras: criar os seus filhos “na disciplina e na admoestação do Senhor”.
Conheci recentemente uma mãe muito feliz. Alguns meses atrás ela ouviu falar do batismo com o Espírito Santo, buscou-o e recebeu-o. “Ah”, exclamou ela com alegria enquanto me contava a história, “desde que o recebi, tenho conseguido chegar ao coração dos meus filhos, coisa que nunca antes fui capaz de fazer.”
É o próprio Espírito Santo quem decide de que modo o poder se manifestará em cada caso: “o Espírito distribui a cada um em particular, como Ele quer” (1 Coríntios 12:11). “Temos o direito de desejar ardentemente os dons maiores” (1 Coríntios 12:31), mas o Espírito Santo é soberano, e é Ele, e não nós, que deve decidir em última instância. Não nos cabe, pois, escolher um dom e esperar que o Espírito Santo nos conceda o dom que nós mesmos escolhemos; não nos cabe escolher um campo de serviço e depois esperar que o Espírito Santo nos dê poder naquele campo que nós, e não Ele, escolhemos. Cabe-nos antes reconhecer a divindade e a soberania do Espírito e nos colocar abertamente à sua disposição, para que Ele escolha o dom que “quiser” e no-lo conceda, e escolha para nós o campo que “quiser” e nos conceda o poder que nos habilite para o campo que Ele escolheu.
Conheci certa vez um filho de Deus que, ao ouvir falar do batismo com o Espírito Santo e do poder que dele resulta, abandonou, a grande custo, o trabalho secular em que estava empregado e entrou na obra de evangelista. Mas o poder esperado nessa linha não veio. O homem caiu em grande dúvida e escuridão, até ser levado a ver que o Espírito Santo distribui “a cada um em particular, como Ele quer”. Então, deixando de escolher o seu próprio campo e os seus próprios dons, colocou-se à disposição do Espírito Santo, para que Ele escolhesse.
No desfecho final, o Espírito Santo concedeu a esse homem poder como evangelista e pregador da Palavra. Devemos, pois, entregar-nos absolutamente ao Espírito Santo, para que Ele opere como quiser.
Mas, ainda que o poder trazido pelo batismo com o Espírito Santo se manifeste de maneiras diferentes em pessoas diferentes, haverá sempre poder. Tão certamente quanto um homem é batizado com o Espírito Santo, haverá um novo poder, um poder que não é seu: “o poder do Altíssimo”! A biografia religiosa é rica em exemplos de homens que trabalharam o melhor que puderam, até que um dia foram levados a ver que existia uma experiência chamada batismo com o Espírito Santo, e então a buscaram e a obtiveram; daquela hora em diante entrou em seu serviço um novo poder que transformou por completo o seu caráter.
Finney, Brainerd e Moody são casos exemplares. Mas casos desse tipo não se restringem a alguns poucos homens excepcionais; estão se tornando comuns.
Nos últimos doze meses, o autor conheceu pessoalmente centenas de pessoas, e com elas se correspondeu, que podiam testemunhar do novo poder que Deus lhes concedera por meio do batismo com o Espírito Santo. Essas centenas de homens e mulheres estavam em todos os ramos do serviço cristão. Muitos deles eram ministros do evangelho; outros, obreiros de missões, secretários da Y.
M. C. A., professores de escola dominical, obreiros pessoais, pais e mães.
Nada poderia superar a clareza, a confiança e a alegria de muitos desses testemunhos. O que temos em promessa nas palavras de Cristo, muitos já têm, e todos podem ter, em feliz experiência: “Mas vocês receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês.”
Resumindo o conteúdo deste capítulo: o batismo com o Espírito Santo é o Espírito de Deus vindo sobre o crente, tomando posse de suas faculdades e comunicando-lhe dons que não lhe são naturais, mas que o habilitam para o serviço ao qual Deus o chamou.