Texto
Marcos 16:15
Em resumo
Leia o livro de Atos sem nada saber do que veio depois, diz Booth, e esperaria que o mundo já tivesse sido conquistado há muito tempo — então por que, após mil e novecentos anos, isto? A resposta dela não é uma maquinaria melhor, mas um batismo de amor: uma igreja disposta a ser motivo de riso nas ruas, e a ter isso como a única dignidade que vale a pena possuir.
EU PENSAVA, enquanto lia a lição, que, supondo que pudéssemos apagar de nossas mentes todo o conhecimento da história do Cristianismo desde o tempo deste Serviço de Inauguração — desde aquele Batismo Pentecostal — ou, ao menos, desde o fim do período descrito nos Atos dos Apóstolos; suponhamos que pudéssemos afastar de nossas mentes todo o conhecimento da história do Cristianismo desde então, e tomássemos os Atos dos Apóstolos e nos sentássemos a calcular o que provavelmente aconteceria no mundo, que resultados diferentes teríamos previsto, que mundo diferente teríamos esperado como fruto de tudo isso. Um sistema que começou sob tais auspícios, com tais pressupostos e declarações da parte do seu Autor (falando à maneira dos homens), e produzindo, como de fato produziu, no primeiro século de sua existência, resultados tão gigantescos e momentosos. Teríamos dito, se nada soubéssemos do que se interpôs daquele tempo até este, que, sem dúvida, o mundo onde aquela guerra começou, e para o qual ela foi organizada, há muito teria sido subjugado à influência daquele sistema, e trazido ao poder do seu grande originador e fundador! Digo que, ao ler estes Atos, e ao observar o espírito que animava os primeiros discípulos, e o modo como tudo caía diante deles, teríamos previsto que resultados dez mil vezes maiores se teriam seguido, e, a meu ver, essa expectativa teria sido perfeitamente racional e justa.
Nós, cristãos, professamos possuir no Evangelho de Cristo uma poderosa alavanca que, aplicada reta e universalmente, levantaria todo o fardo do pecado e da miséria dos ombros, isto é, das almas, dos nossos semelhantes — uma panaceia, cremos nós, para todos os males morais e espirituais da humanidade; e, ao curar as suas pragas espirituais, muito faríamos também para curar as suas pragas físicas. Todos nós professamos crer nisto. Os cristãos têm professado crer nisto por gerações passadas, desde o tempo do qual temos lido, e, contudo, olhai para o mundo, olhai para a assim chamada Inglaterra cristã, neste fim do século dezenove! A grande maioria da nação ignorando totalmente a Deus, e nem sequer fingindo lembrar-se dele um dia na semana. E então olhai para o resto do mundo. Muitas vezes fiquei tão abatida com esta visão das coisas que senti como se o meu coração fosse partir-se. Não sei como se sentem os outros cristãos, mas posso dizer, em verdade, que "rios de águas correm frequentemente dos meus olhos, porque os homens não guardam a sua lei", e porque me parece que esta dispensação, comparada com o que Deus quis que ela fosse, tem sido, e ainda é, um fracasso tão grande quanto aquela que a precedeu.
Ora, pergunto: como pode ser isto? Não creio, nem por um momento, que isto esteja de acordo com o propósito de Deus. Algumas pessoas têm um modo muito cômodo de esconder-se por trás dos propósitos de Deus, dizendo: `Oh! Ele fará a sua própria vontade.' Quem dera que fizesse! Dizem elas: `Sabeis que, afinal, a vontade de Deus se cumpre.' Quem dera que se cumprisse! Ele diz que ela não se cumpre, e repetidas vezes lamenta o fato de não se cumprir. Ele quer que se faça, mas ela NÃO SE FAZ! De nada adianta levantar-se e propor teorias que estão em desacordo com as coisas como elas são.' Tem havido muito disto, e isso tem produzido um efeito péssimo. O mundo está nesta condição, e eis aqui um sistema lançado sob tais auspícios, com tais propósitos, com tais promessas e com tais perspectivas, e, contudo, quase mil e novecentos anos já se passaram e aqui estamos. Quão pouco se fez, comparativamente. Que pequena alteração se efetuou nos hábitos e nas disposições da raça.
Mas alguns de vós direis: `Bem, mas muita coisa se tem feito.' Graças a Deus por isso. Triste seria se nada se tivesse feito; mas isso parece uma gota no oceano em comparação com o que se deveria ter feito. Ora, não posso aceitar teoria alguma que de tal modo lance suspeita sobre o amor e a bondade de Deus a ponto de o culpar por esta esterilidade do Cristianismo; e, até onde vai a minha influência, não permitirei que a responsabilidade e a culpa de tudo isto sejam lançadas de volta sobre Deus, que tanto amou o mundo que deu o seu Filho unigênito à ignomínia e à morte a fim de o redimir. Não creio nisso nem por um momento. Creio que o velho arquinimigo fez nesta dispensação o que fizera nas anteriores — de tal modo frustrou os propósitos de Deus que conseguiu produzir este estado de coisas — retardando o cumprimento dos propósitos de Deus e mantendo o mundo, assim, em grande parte sob o seu próprio poder e influência; e creio que ele conseguiu fazer isto, como sempre conseguira antes, ENGANANDO O PRÓPRIO POVO DE DEUS. Sempre assim procedeu. Sempre levantou uma caricatura da verdadeira obra de Deus, e quanto mais consegue torná-la semelhante ao original, mais bem-sucedido é. Conseguiu enganar o povo de Deus: — Primeiro: — QUANTO AO PADRÃO DA SUA PRÓPRIA VIDA RELIGIOSA.
E, em segundo lugar, conseguiu enganá-los QUANTO AOS SEUS DEVERES E OBRIGAÇÕES PARA COM O MUNDO.
Ele conseguiu, primeiro, enganá-los quanto ao padrão da sua própria vida religiosa. Levou a Igreja, quase por inteiro, a receber o que chamo de uma religião do `Ó, miserável homem que sou'! Levou-os a rebaixar o padrão que o próprio Jesus Cristo estabeleceu neste Livro — um padrão que não só deve ser almejado, mas alcançado — um padrão de vitória sobre o pecado, o mundo, a carne e o Diabo: um Cristianismo real, vivo, reinante, triunfante! Satanás sabia qual era o segredo do grande êxito daqueles primeiros discípulos. Era a sua devoção de todo o coração, o seu amor absorvente a Cristo, a sua total renúncia ao mundo. Era a sua inteira dedicação à salvação dos seus semelhantes e à glória do seu Deus. Era uma religião entusiástica que os consumia, e os tornava dispostos a se fazerem errantes e peregrinos sobre a face da terra — por amor a Ele habitarem em covas e cavernas, serem despedaçados e perseguidos de toda forma.
Era este grau de devoção, diante do qual Satanás viu que não tinha chance. Tais pessoas como estas, ele sabia, haviam de subjugar o mundo por fim. Não está na natureza humana resistir a esse tipo de espírito, a essa medida de amor e zelo; e, se os cristãos tão somente tivessem continuado como começaram, há muito a gloriosa profecia se teria cumprido: "Os reinos deste mundo" se teriam "tornado os reinos de nosso Senhor e do seu Cristo."
Portanto, disse o arquinimigo: `Que farei? Afinal, serei derrotado. Perderei a minha supremacia como deus deste mundo. Que farei?' De nada adianta introduzir um gigantesco sistema de erro, que todos verão ser erro. Oh, isso não! Nunca foi esse o modo de Satanás; mas o seu plano tem sido apossar-se de um homem bom aqui e ali, que se introduza, como disse o Apóstolo, dissimuladamente, e pregue outra doutrina, e que engane, se possível fosse, os próprios eleitos. E assim ele fez. Cumpriu o seu intento. Pouco a pouco rebaixou o padrão da vida e do caráter cristãos; e, ainda que, em cada reavivamento, Deus o tenha erguido novamente até certo ponto, jamais voltamos plenamente à simplicidade, à pureza e à devoção que nos são apresentadas nestes Atos dos Apóstolos e nas Epístolas. E, justamente na medida em que a isso nos aproximamos, em cada época, Satanás arranjou alguém para se opor e mostrar que este era um padrão elevado demais para a natureza humana, inteiramente acima de nós, e que, portanto, os cristãos deviam sentar-se e contentar-se em ser gente do "Ó, miserável homem que sou" até o fim dos seus dias. Ele reduziu a Igreja a uma condição que às vezes deixa a gente positivamente envergonhada de ouvir cristãos professos falarem, e envergonhada também de que o mundo os ouça falar. Não me admira que homens sensatos e inteligentes sejam afastados de um Cristianismo como este. A mim me teria afastado, se eu não tivesse conhecido o poder da piedade. Creio que esse tipo de Cristianismo tem feito mais incrédulos do que todos os livros incrédulos jamais escritos.
Sim, Satanás sabia que precisava fazer os cristãos descerem do alto pináculo da consagração de todo o coração a Deus. Sabia que não teria chance enquanto não os atraísse para baixo daquele bendito terreno vantajoso; e assim começou a espalhar aquelas falsas doutrinas, para combater as quais João escreveu as suas epístolas, pois, antes de morrer, viu o que estava por vir, e proclamou através das eras: "Filhinhos, ninguém vos engane: aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo. Aquele que comete o pecado é do diabo; porque o diabo peca desde o princípio. Para isto o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo." Reviva o Senhor essa doutrina! Ajuda-nos de novo a erguer o padrão!
Oh! o grande mal é que pessoas de coração desonesto, porque sentem que ele as condena, rebaixam o padrão à sua miserável experiência. Eu disse, quando era jovem, e o repito nos meus anos mais maduros, que, ainda que isso me lançasse no inferno, eu jamais o rebaixaria. Oh, se o povo de Deus sentisse assim! Ali está o glorioso padrão posto diante de nós. O poder é oferecido, as condições são estabelecidas, e todos nós PODEMOS alcançá-lo, se quisermos; mas, se não quisermos — por amor às crianças, e às gerações ainda por nascer, não o arrastemos para baixo, nem tentemos fazê-lo caber na nossa pequena, mesquinha e limitada experiência. MANTENHAMO-LO ERGUIDO. Este é o modo de levar o mundo a olhar para ele. Mostrai ao mundo uma religião real, viva, abnegada, laboriosa, esforçada e triunfante, e o mundo será por ela influenciado; mas qualquer coisa aquém disso, eles se voltarão e cuspirão sobre ela.
Em segundo lugar: — Satanás enganou até aqueles a quem não conseguiu levar a rebaixar o padrão das suas próprias vidas, no que respeita aos seus deveres e obrigações para com o mundo. Tenho lido ultimamente o Novo Testamento com especial atenção ao espírito agressivo do Cristianismo Primitivo, e é admirável que torrentes de luz vêm sobre nós quando lemos a Bíblia com referência a algum assunto particular no qual buscamos socorro. Quando Deus vê que anelas pela luz, a fim de usá-la, Ele a derrama sobre ti. É condição indispensável para receber a luz que estejas disposto a segui-la. As pessoas dizem que não veem isto e aquilo — não, porque não desejam ver. Não estão dispostas a andar nela, e, portanto, não a recebem; mas os que estão dispostos a obedecer terão toda a luz que quiserem.
Parece-me que ficamos infinitamente aquém de qualquer ideia justa e racional do espírito agressivo dos santos do Novo Testamento. Satanás levou os cristãos a aceitar o que eu poderia chamar de um sistema piegas e melindroso, de luvas de pelica, de apresentar o Evangelho às pessoas.
`Terão a bondade de ler este folheto ou livro? ou não gostariam de ouvir este pregador popular e eloquente? Ficarão satisfeitos com ele, à parte da religião.' Este é o modo meio assustado e tímido de pôr a verdade diante das pessoas não convertidas, e de lhes falar acerca da salvação das suas almas. Parece-me que isto é totalmente contrário e repugnante ao espírito dos primeiros santos: "Ide, e pregai o Evangelho a TODA CRIATURA"; e, de novo, a mesma ideia — "A quem agora te envio." Vede o que está implícito nestas comissões. Parece-me que ninguém jamais sondou o sentido destas duas comissões Divinas. Creio que nós, do Exército de Salvação, chegamos mais perto disso do que qualquer povo que nos precedeu. Olhai para elas. Alguma vez vos ocorreria que a linguagem significasse: "Ide e construí capelas e igrejas "e convidai o povo a entrar, e, se "não quiserem, deixai-os em paz?" "IDE." Se enviásseis o vosso servo a fazer algo por vós, e dissésseis: `Vai e realiza para mim aquele negócio.' Sabeis o que isso implicaria. Sabeis que ele teria de ver certas pessoas, e correr pela cidade a certos escritórios, bancos e agentes, o que envolveria muito trabalho e sacrifício; mas nada tendes a ver com isso. Ele é o vosso servo. Foi empregado por vós para fazer aquele negócio, e vós simplesmente o incumbis: `Vai e faze-o.' Que pensaríeis se ele fosse alugar um escritório e mandasse uma porção de circulares convidando os vossos fregueses ou clientes a virem esperar ao seu dispor, e, quando resolvessem vir, apenas lhes apresentasse o vosso negócio? Não, vós diríeis: `Ridículo.' Despojando as nossas mentes de todos os convencionalismos e tradicionalismos, que significaria a linguagem? "Ide!" A quem? "A toda criatura." Onde os hei de encontrar? ONDE ELES ESTÃO. "Toda criatura." Aí está a extensão da vossa comissão. Buscai-os; correi atrás deles, onde quer que os possais alcançar. "Toda criatura "— onde quer que encontreis uma criatura que tenha uma alma, ali ide e pregai-lhe o meu Evangelho. Se bem o entendo, este é o sentido e o espírito da comissão.
E, de novo, a Paulo Ele diz: "A quem agora te envio, para abrir os seus olhos, e convertê-los das trevas à luz, e do poder de Satanás a Deus." Eles estão dormindo — ide e despertai-os. Não veem o seu perigo. Se o vissem, não haveria necessidade de correrdes atrás deles. Estão preocupados com outras coisas. Abri-lhes os olhos, e convertei-os pela vossa desesperada seriedade, pela persuasão moral e pela força moral; oh! faz-me tremer pensar quanto um homem pode fazer por outro! "Convertei-os das trevas à luz, e do poder de Satanás a Deus." Como entendeu Paulo isso? Ele diz: "Persuadimos os homens." Não vos contenteis apenas em pô-la diante deles, dando-lhes brandos convites, e depois deixando-os em paz. Ele corria atrás deles, coitados, e os arrancava do fogo. Tirai a venda dos seus olhos, que Satanás lhes atou ao redor; batei, martelai e queimai, com o fogo do Espírito Santo, as vossas palavras nos seus pobres corações endurecidos e entenebrecidos, até que comecem a perceber que estão EM PERIGO, que há algo errado. Ide atrás deles. Se bem o entendo, este é o espírito dos Apóstolos e dos primeiros cristãos; pois lemos que, quando foram dispersos pela perseguição, "iam por toda parte, pregando a palavra." Os leigos, os novos convertidos, as tenras criancinhas em Cristo. Não significa sempre em discursos formais e assembleias públicas, mas iam atrás de homens e mulheres, como o antigo Israel — "cada um atrás do seu homem," para tentar ganhá-lo para Cristo.
Algumas pessoas parecem pensar que os Apóstolos lançaram os fundamentos de todas as igrejas. Estão bem enganadas. Igrejas surgiram onde os Apóstolos jamais estiveram. Os Apóstolos iam visitá-las e organizá-las depois de haverem surgido, como fruto do trabalho dos primeiros leigos e leigas que iam por toda parte pregando a Palavra. Oh! derrame o Senhor sobre nós, neste dia, o mesmo espírito! Devemos edificar igrejas e capelas; devemos convidar o povo a elas; mas julgais que é coerente com estas duas comissões, e com muitas outras, que descansemos nisto, quando três quartas partes da população ignoram por completo os nossos convites e não fazem caso algum dos nossos edifícios e dos nossos cultos? Não virão a nós. Isto é um fato estabelecido. Que se há de fazer? Têm almas. Vós professais crer nisso tanto quanto eu, e que hão de viver para sempre. Para onde vão? Que se há de fazer? Jesus Cristo diz: `Ide atrás deles.' Quando todos os métodos corteses falharam, quando os convites gentis falharam, quando um homem diz que se casou com uma mulher, e outro que comprou uma junta de bois, e outro que comprou um pedaço de terra — dirá então o Senhor da festa: `Os ingratos miseráveis, deixai-os em paz?' "Não." Ele diz: "Sai pelos caminhos e valados, e obriga-os a entrar, para que a minha casa se encha." Terei convidados, e, se não os puderdes trazer por medidas civis, usai medidas militares. Ide e OBRIGAI-OS a entrar. Parece-me que precisamos de mais deste espírito agressivo e determinado. Aqueles dentre vós que estão bem com Deus nesta tarde — vós precisais de mais deste espírito para impor a verdade à atenção dos vossos semelhantes.
Oh! dizem as pessoas, é preciso ser muito cuidadoso, muito judicioso. Não se deve enfiar a religião pela goela das pessoas. Então, digo eu, jamais a fareis descer. Como! Hei de esperar que um homem não convertido e ímpio queira ser salvo antes de tentar salvá-lo? Ele nunca há de querer ser salvo enquanto o estertor da morte não lhe estiver na garganta. Como! Hei de deixar que os meus amigos e conhecidos não convertidos deslizem serenamente para a perdição, e nunca lhes falar das suas almas, até que digam: `Por favor, quero que me pregues?' Isto se parece em algo com o espírito do Cristianismo primitivo? Não. Em verdade, precisamos fazê-los olhar — arrancar-lhes as vendas, abrir-lhes os olhos, fazê-los suportá-lo; e, se fugirem de vós num lugar, ide encontrá-los noutro, e não lhes deis sossego enquanto não se submeterem a Deus e não tiverem as suas almas salvas. Isto é o que o Cristianismo deveria estar fazendo nesta terra, e há cristãos de sobra para fazê-lo. Ora, poderíamos dar tal trabalho ao mundo que ele se salvaria por mera legítima defesa, se tão somente estivéssemos de pé e em ação, e determinados a que não tivessem sossego nos seus pecados. Onde está o nosso zelo pelo Senhor? Falamos dos santos do Antigo Testamento, mas eu quisera que fôssemos todos como Davi. Rios de águas corriam dos seus olhos porque os homens não guardavam a Lei do seu Deus. Mas vós dizeis: `Nem todos podemos realizar cultos.' Talvez não.
Ide como quiserdes. Ide tão quieta e suavemente como o orvalho da manhã. Fazei reuniões como as dos Quakers, se quiserdes. TÃO SOMENTE FAZEI-O. Não deixeis que os vossos parentes, amigos e conhecidos morram, e que o sangue deles seja achado nas vossas vestes!!!
Jamais esquecerei a agonia estampada no rosto de uma jovem senhora que uma vez veio ver-me. O meu coração se compadeceu dela. Ela me contou a sua história. Disse ela: Eu tinha um pai orgulhoso e ímpio, e o Senhor me converteu três anos antes da morte dele; e, desde o próprio dia da minha conversão, senti que devia falar-lhe, e suplicar, e orar com ele acerca da sua alma, mas não conseguia reunir coragem. Fui adiando, e adiando, até que ele adoeceu. Foi uma enfermidade súbita e grave. Perdeu o juízo, e morreu sem ser salvo,' e disse ela: `Nunca mais sorri desde então, e creio que jamais tornarei a sorrir.' Não sejais assim. Fazei-o em silêncio, se quiserdes; em particular, se quiserdes; mas fazei-o, e fazei-o como quem sente o valor das suas almas, e como quem tem a intenção de salvá-los, se por algum meio possível ao vosso alcance isso se pudesse fazer.
Eu havia falado numa cidade, no oeste da Inglaterra, sobre o tema da responsabilidade dos cristãos pela salvação das almas. O cavalheiro em cuja casa eu estava hospedada retraiu-se um pouco diante da verdade e, em vez de tomá-la a peito com amor, e fazer dela o meio de aproximar-se mais de Deus, e de capacitá-lo a servi-lo melhor, disse: `Achei que a senhora foi um tanto dura conosco esta manhã.' Eu disse: `Achou? Eu lamentaria muito ser mais dura com alguém do que o próprio Senhor Jesus Cristo seria.' Ele disse: `A senhora pode levar as coisas a extremos, sabe. Estava falando de buscar almas e de fazer sacrifícios. Ora, a senhora sabe que nós edificamos as capelas e as igrejas, e pagamos os ministros; e, se o povo não quer ser salvo, não podemos evitá-lo.' (Creio que ele havia contribuído bem generosamente para uma capela na cidade.) Eu disse: É muito desalmado e ingrato da parte do povo, concedo; mas, meu caro senhor, o senhor não raciocinaria assim em nenhum assunto temporal. Suponha que uma peste irrompesse em Londres, e suponha que a Junta de Saúde se reunisse e destinasse todos os hospitais e edifícios públicos que pudesse obter ao tratamento dos enfermos, e suponha que expedisse proclamações declarando que todo aquele que viesse a esses edifícios seria tratado gratuitamente, e que todo cuidado e bondade lhe seriam dispensados, e, ademais, que o tratamento certamente o curaria; mas, supondo que o povo fosse tão cego aos seus próprios interesses, tão indiferente e embrutecido, que se recusasse a vir, e, por conseguinte, a peste aumentasse e milhares morressem, que diríeis vós, nas províncias? Diríeis: `Bem, a Junta de Saúde fez o que pôde, e, se o povo não quer ir para ser curado, merece perecer; deixai-os em paz?' Não, vós diríeis: `É certamente muito insensato e perverso da parte do povo, mas estes homens estão em posição superior. Entendem do assunto. Sabem, e são responsáveis pelas consequências. Que raio vão eles fazer? Deixar que toda a terra se despovoe!' Não! Se o povo não vai a eles, eles devem ir ao povo, e impor-lhe os meios de saúde, e insistir em que se empreguem as medidas apropriadas para a supressão da `peste.' Não foi preciso aplicação alguma. Ele entendeu, e creio que, pelo Espírito de Deus, foi capacitado a ver o seu erro, a levá-lo a sério, e a pôr-se a trabalhar para fazer algo pelas almas que perecem.
Os homens estão preocupados com outras coisas, e cabe a nós ir e impor-lhes a verdade à atenção. Lembrai-vos: vós podeis fazê-lo. Há alguma alma sobre a qual tendes mais influência do que qualquer outra pessoa na terra — alguma alma, ou almas. Estais fazendo tudo o que podeis pela salvação delas? Os vossos parentes, amigos e conhecidos hão de ser resgatados. Graças a Deus! estamos resgatando os pobres, aos milhares, por toda a terra. Ei-los ali, para serem contemplados, e com quem falar, e a quem interrogar — pessoas resgatadas das profundezas do pecado, da degradação e da desgraça — salvas das piores formas de crime e infâmia; e, se Ele pode fazer isso, pode ter também os vossos amigos distintos, se tão somente fordes a eles desesperada e resolutamente. Tomai-os amorosamente pela lapela, e dizei: `Meu caro amigo, nunca te falei de perto, com cuidado e com oração, acerca da tua alma.' Deixai que vejam as lágrimas nos vossos olhos; ou, se não puderdes chorar, deixai que ouçam as lágrimas na vossa voz, e que percebam que sentis o perigo em que estão, e que estais aflitos por eles. Deus dará o seu Espírito Santo, e eles serão salvos.
Eu ia observar que ambos os textos implicam oposição, pois Ele acrescenta: "Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo." Como se tivesse dito: `Tereis necessidade da minha presença. Uma guerra tão agressiva e determinada como esta levantará contra vós toda a terra e todo o inferno;' e então Ele diz a Paulo: "Estarei contigo, livrando-te deste povo e dos gentios, a quem agora te envio." Por que precisariam disto? Porque os gentios em breve se levantariam em armas contra ele, e de fato se levantaram.
Oposição! É mau sinal para o Cristianismo destes dias que ele provoque tão pouca oposição. Se não houvesse outra evidência de que ele anda errado, eu o saberia por isto. Quando a Igreja e o mundo podem caminhar juntos, confortavelmente, podeis estar certos de que há algo errado. O mundo não mudou. O seu espírito é exatamente o mesmo que sempre foi; e, se os cristãos fossem igualmente fiéis e devotados ao Senhor, e separados do mundo, vivendo de modo que as suas vidas fossem uma repreensão a toda impiedade, o mundo os odiaria tanto quanto sempre os odiou. É a Igreja que mudou, não o mundo. Vós dizeis: `Estaríamos nos metendo em tumultos sem fim.' Sim; "Não vim trazer paz à terra, mas espada." Haveria alvoroço. Sim; e os Atos dos Apóstolos estão cheios de relatos de alvoroços. Um alvoroço foi tão grande que o tribuno teve de levar Paulo por cima dos ombros do povo, para que não fosse feito em pedaços. `Que comoção!' dizeis vós. Sim; e, bendito seja Deus, se tivéssemos hoje coisa semelhante, teríamos milhares de pecadores salvos.
'Mas,' dizeis vós, `vejo em que posição muito indigna isto colocaria o Evangelho.' Isso depende de que espécie de dignidade quereis dizer. Dizeis: `Estaríamos sempre entrando em choque com as autoridades constituídas, e com o mundo, e que consequências muito desagradáveis daí resultariam.' Sim, caros amigos, sempre houve consequências desagradáveis para a carne, quando as pessoas seguiam a Deus e faziam a sua vontade. `Mas,' dizeis vós, `não seria isto incompatível com a dignidade do Evangelho?' Depende do ponto de vista de que o olhardes. Depende do que realmente constitui a dignidade do Evangelho. Que é que constitui a dignidade do Evangelho? É a dignidade humana, ou é a Divina? É terrena, ou é celestial? Foi coisa muito indigna, olhada humanamente, morrer numa cruz entre dois ladrões. Foi a coisa mais indigna que jamais se fez neste mundo; e, contudo, olhada em bases morais e espirituais, foi o mais grandioso espetáculo que a terra ou o céu jamais contemplaram; e penso eu que os habitantes do céu se detiveram e olharam por sobre as ameias para aquele glorioso e ilustre sofredor, enquanto Ele pendia ali entre o céu e a terra. Os fariseus, bem o sei, cuspiram no sofredor humilhado, e meneavam a cabeça, dizendo: "Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar." Ah! mas Ele estava resolvido a salvar os outros. Aquela era a dignidade da força Todo-Poderosa aliando-se à fraqueza humana, a fim de a levantar. Era a dignidade da sabedoria eterna envolvendo-se na ignorância humana, a fim de a iluminar. Era a dignidade do amor eterno e inextinguível, descobrindo o seu seio para sofrer no lugar da sua criatura rebelde — o homem. Ah! era o Deus encarnado pondo-se no lugar do homem condenado e apóstata — a dignidade do amor! amor! AMOR!
Oh, precioso Salvador! salva-nos de difamar o teu Evangelho e o teu nome, revestindo-o das nossas mesquinhas noções de dignidade terrena, e esquecendo a dignidade que coroou a tua sagrada fronte quando pendias na cruz! Essa é a dignidade que nos convém, e ela jamais sofrerá por qualquer cavalheiro aqui levar o Evangelho aos cortiços e becos de qualquer vila ou cidade em que viva. Essa dignidade jamais sofrerá por qualquer patrão falar amorosamente à sua criada ou ao seu moço de recados, e olhar-lhe nos olhos com lágrimas de simpatia e amor, procurando trazer a sua alma a Jesus. Essa dignidade jamais sofrerá, ainda que tenhais de ser arrastados pelas ruas, com uma turba a uivar em vossos calcanhares, como Jesus Cristo, se entrastes naquelas ruas pelas almas dos vossos semelhantes e pela glória de Deus. Ainda que sejais amarrados a uma estaca, como o foram os mártires de outrora, e cercados de demônios que riem e escarnecem e dos seus uivantes seguidores — essa será uma dignidade que há de ser coroada no céu, coroada de glória eterna. Se bem o entendo, esta é a dignidade do Evangelho — a dignidade do amor. Não invejo, não cobiço nenhuma outra. Não desejo outra — Deus é a minha testemunha — senão a dignidade do amor.
Oh, amigos! quereis receber este batismo de amor! Então, como os Apóstolos, estareis dispostos a meter os vossos membros num cesto, e assim serdes descidos pela muralha, se preciso for, ou a sofrer naufrágio, fome, perigo, nudez, fogo ou espada, ou até subir ao próprio cadafalso, se por isso puderdes estender o seu reino e ganhar almas por quem Ele derramou o seu sangue. Encha-nos o Senhor deste amor e batize-nos com este fogo, e então o Evangelho se levantará e se tornará glorioso na terra, e os homens crerão em nós e nele. Sentirão o seu poder, e se renderão a ele aos milhares, e, pela graça de Deus, ASSIM SERÁ.
Domínio público. Texto de origem de a edição original.