Capítulo 9 · 17 min de leitura
A Vinha do Amado
UM DISCURSO A UM PEQUENO GRUPO DE CRENTES,
NA PRÓPRIA SALA DO SR. SPURGEON EM MENTONE.“O meu Amado tem uma vinha num outeiro mui fértil.”—Isaías v. 1.
A VINHA DO AMADO.
RECONHECEMOS de imediato que Jesus está aqui. A quem, senão a Ele, poderia referir-se a expressão “O meu Amado”? Aqui há uma palavra de posse e uma palavra de afeto,—Ele é meu, e o meu Amado. Ele é a própria formosura, o mais amoroso e amável dos seres; e nós O amamos pessoalmente de todo o nosso coração, e mente, e alma, e força: Ele é nosso, o nosso Querido, o nosso Amado, não podemos dizer menos.
A deliciosa relação do nosso Senhor conosco é acompanhada de palavras que nos lembram a nossa relação com Ele: “O meu Amado tem uma vinha”, e que vinha é essa senão o nosso coração, a nossa natureza, a nossa vida? Somos d’Ele; e somos d’Ele pela mesma razão que qualquer outra vinha pertence ao seu dono. Ele nos fez uma vinha. Espinhos e abrolhos eram tudo o que naturalmente produzíamos, mas Ele nos comprou por um preço, cercou-nos com uma sebe, separou-nos para Si, e então nos plantou e cultivou. Tudo o que há em nós capaz de dar bom fruto é da Sua criação, do Seu cuidado e da Sua preservação; de modo que, se somos vinhas, só podemos ser as Suas vinhas. Alegremente concordamos que assim seja. Rogo que não haja em minha cabeça um só cabelo que não pertença a Cristo, e rogai todos vós que cada pulsação e cada fôlego vosso sejam do Senhor.
Nesta feliz tarde, quero que observeis que se diz que esta vinha está sobre “um outeiro mui fértil”. Tenho refletido nas vantagens da minha própria posição para com o Senhor, e lamento, com grande vergonha, não estar dando a Ele o fruto que a minha posição exige. Considerando os nossos privilégios, vantagens e oportunidades, receio que muitos de nós tenhamos necessidade de sentir grandes exames de coração. Talvez a tais o texto seja útil, e não deixará de ser proveitoso a qualquer um de nós, se o Senhor abençoar a nossa meditação sobre ele.
I. O nosso primeiro pensamento, ao considerar estas palavras, é que a nossa posição como vinha do Senhor é muito favorável: “O meu Amado tem uma vinha num outeiro mui fértil.” Nenhum povo poderia estar mais bem colocado para servir a Cristo do que nós estamos. Dificilmente creio que algum homem esteja em melhor situação para glorificar a Deus do que eu. Não creio que nenhuma mulher pudesse estar em melhor posição para servir a Cristo do que algumas de vós, queridas irmãs, ocupais agora. O nosso Pai celestial nos colocou exatamente onde Ele pode fazer o máximo por nós, e onde nós podemos fazer o máximo por Ele. A sabedoria infinita ocupou-se em selecionar cuidadosamente o solo, o lugar e a exposição de cada árvore da vinha. Diferimos grandemente, e necessitamos de situações diferentes para a fecundidade: o lugar que conviria a um poderia ser demasiado penoso para outro. Amigo, o Senhor te plantou no lugar certo: a tua posição pode não ser a melhor em si mesma, mas é a melhor para ti. Estamos na melhor posição possível para algum serviço presente neste momento; a providência de Deus nos colocou em terreno vantajoso para o nosso dever imediato: “O meu Amado tem uma vinha num outeiro mui fértil.”
Pensemos nos tempos em que vivemos como um chamado a sermos muito frutíferos, ao compará-los com os anos passados. Houve tempo em que não poderíamos ter-nos reunido assim, tão felizes, na nossa própria sala: se fôssemos surpreendidos no ato de partir o pão, ou de ler a Palavra de Deus, teríamos sido arrastados à prisão, e talvez condenados à morte. Nossos antepassados mal ousavam erguer a voz num salmo de louvor, para que o inimigo não caísse sobre eles. Verdadeiramente, as linhas nos caíram em lugares deliciosos; sim, temos uma formosa herança, num outeiro mui fértil.
Nem sequer vivemos em tempos em que o erro seja tão desenfreado a ponto de predominar. Há dele demais espalhado por aí; mas, olhando as coisas de modo amplo, atrevo-me a dizer que nunca houve tempo em que a verdade tivesse domínio mais vasto do que agora, nem em que o evangelho fosse mais plenamente pregado, nem em que houvesse maior atividade espiritual. Negras nuvens de erro pairam sobre nós; mas, ao mesmo tempo, alegramo-nos de que, de John o’ Groat’s House ao Land’s End, Cristo seja pregado por dez mil vozes, e até nas partes tenebrosas da terra o nome de Jesus resplandeça como uma vela dentro de casa. Se pudéssemos escolher, entre as eras, aquela em que viver, não poderíamos ter selecionado tempo melhor para dar fruto do que este que agora corre: esta era é “um outeiro mui fértil.”
Que assim é, alguns de nós o sabemos com certeza, porque temos sido frutíferos. Olhai para trás, irmãos e irmãs, para os tempos em que os vossos corações estavam ardentes, e o vosso zelo fervoroso, e servíeis ao Senhor com alegria. Junto-me a vós nessas felizes lembranças. Então podíamos correr com os mais velozes, podíamos lutar com os mais valentes, podíamos trabalhar com os mais fortes, podíamos sofrer com os mais pacientes. A graça de Deus esteve sobre alguns de nós de maneira tão inconfundível que produzimos todos os frutos do Espírito. Talvez hoje olhemos para trás com profundo pesar, porque não somos tão frutíferos como outrora fomos: se assim é, é bom que os nossos pesares se multipliquem, mas devemos transformar cada um deles numa oração cheia de esperança. Lembrai-vos: a videira pode ter mudado, mas o solo é o mesmo. Ainda temos os mesmos motivos para sermos frutíferos, e até mais do que costumávamos ter. Por que não somos mais úteis? Terá alguma filoxera espiritual se apoderado das videiras, ou teremos sido crestados pela geada ou queimados pelo sol? Que é que retém a vindima? Certamente, se um dia fomos frutíferos, deveríamos ser mais frutíferos agora. O outeiro fértil não se esgotou; que temos nós, que as nossas uvas são tão poucas?
Estamos plantados num outeiro fértil, pois somos chamados a uma obra que, de todas, é a mais frutífera. Bendito e feliz o homem que é chamado ao ministério cristão; pois este serviço tem trazido mais glória a Cristo do que qualquer outro. Vós, amados amigos, não sois chamados a ser governantes de nações, nem inventores de máquinas, nem mestres de ciências, nem matadores de homens; mas somos ganhadores de almas, e a nossa obra é conduzir os homens a Jesus. A nossa é, de todos os empregos do mundo, o mais frutífero em benefícios para os homens e em glória para Deus. Se não estamos servindo a Deus no evangelho do Seu Filho com toda a nossa força e capacidade, então pesa sobre nós uma grave responsabilidade. “O nosso Amado tem uma vinha num outeiro mui fértil:” não há, fora da terra de Emanuel, pedaço de solo mais rico do que o santo ministério em prol das almas. Alguns de nós são mestres, e reúnem os pequeninos ao seu redor enquanto lhes falam de Jesus. Também esse é um solo escolhido. Muitos mestres têm colhido uma grandiosa vindima entre os pequeninos, e não têm ficado nem um pouco atrás dos pastores e evangelistas na glória de ganhar almas. Queridos mestres, as vossas videiras estão plantadas num outeiro mui fértil. Mas não me limito a pregadores e mestres; pois todos nós, à medida que temos oportunidades de falar pelo Senhor Jesus Cristo, e de conversar em particular com pessoas, também temos um solo fértil em que crescer. Se não glorificarmos a Deus ganhando almas, seremos grandemente culpáveis, pois, de todas as formas de serviço, essa é a mais prolífica em louvor a Deus.
E mais: as próprias circunstâncias que nos rodeiam concorrem todas para tornar a nossa posição extremamente favorável ao dar fruto. Neste pequeno grupo não temos um só amigo que seja extremamente pobre; mas, se houvesse algum entre nós, eu diria a mesma coisa. Cristo tem colhido alguns dos Seus mais escolhidos cachos no vale da pobreza. Muitos santos eminentes nunca possuíram um palmo de terra, mas viveram do seu salário semanal, e ainda assim com parco sustento. Sim, pela graça de Deus, o vale da pobreza floresceu como a rosa. Sucede, porém, que a maioria de nós aqui tem o suficiente: temos tudo o de que precisamos, e algo a mais para dar aos pobres e à causa de Deus. Certamente devíamos ser frutíferos em esmolas, no cuidado dos enfermos, e em toda sorte de doces e fragrantes influências. “Não me dês nem a pobreza nem a riqueza” é uma oração que foi atendida para a maioria de nós; e se agora não dermos honra a Deus, que desculpa poderemos dar pela nossa esterilidade? Falo a alguns que são singularmente saudáveis, que nunca são estorvados por dores e achaques; e a outros que prosperaram nos negócios por vinte anos seguidos: grande é a vossa dívida para com o vosso Senhor: no vosso caso, “O meu Amado tem uma vinha num outeiro mui fértil.” Dá a Deus a tua força e a tua riqueza, meu irmão, enquanto duram: cuida para que todo o Seu desvelo por ti não seja em vão. Outros de nós raramente conhecem muitos meses seguidos de saúde, mas muitas vezes tiveram de sofrer gravemente no corpo; isto deveria tornar-nos frutíferos, pois muito se colhe da lavoura da aflição. Não obteve o Mestre o mais rico de todos os frutos de videiras que sangram? Não vêm os Seus mais pesados cachos de videiras que foram agudamente cortadas e podadas até ao chão? Os sabores mais seletos, os sucos mais delicados e os aromas mais deliciosos vêm, na maioria das vezes, do uso da afiada faca da provação. Alguns de nós estamos no nosso melhor para dar fruto justamente quando, sob outros aspectos, estamos no nosso pior. Assim, eu poderia dizer, com verdade, que, quaisquer que sejam as nossas circunstâncias, sejamos pobres ou ricos, com saúde ou na aflição, cada um dos nossos casos tem as suas vantagens, e estamos plantados “num outeiro mui fértil.”
Além disso, quando considero a nossa condição espiritual, devo dizer, por mim, e penso que também por vós: “O meu Amado tem uma vinha num outeiro mui fértil.” Pois o que Deus fez por nós? Ou, mudando a pergunta,—o que Deus não fez por nós? Que mais poderia Ele dizer do que já nos disse? Que mais poderia Ele fazer do que já fez por nós? Ele nos tratou como um Deus. Amou-nos, tirando-nos do abismo; amou-nos, levando-nos até à cruz, e até às portas do céu; vivificou-nos, perdoou-nos e renovou-nos; habita em nós, consola-nos, instrui-nos, sustenta-nos, preserva-nos, guia-nos, conduz-nos, e certamente nos aperfeiçoará. Se não formos frutíferos, para o Seu louvor, como nos desculparemos? Onde esconderemos as nossas culpadas cabeças? Bastará aquele mar acolá para nos emprestar lágrimas salgadas com que chorar a nossa ingratidão?
II. Vou um passo adiante, com a vossa permissão, e digo que a nossa posição, como vinha do Senhor, é favorável à produção do fruto que Ele mais ama. Creio que a minha própria posição é a mais favorável à produção do fruto que o Senhor mais ama em mim, e que a vossa posição é a mesma. Qual é esse fruto?
Primeiro, é a fé. O nosso Senhor tem grande deleite em ver a fé no Seu povo. A confiança que se apega a Ele com a segurança de uma criança é agradável ao Seu coração amoroso. A nossa posição é tal que a fé deveria ser a coisa mais fácil do mundo para nós. Olhai para as promessas que Ele nos deu na Sua Palavra: não podemos crer nelas? Olhai para o que o Pai fez por nós no dom do Seu amado Filho: não podemos confiar n’Ele depois disso? A nossa experiência diária concorre toda para fortalecer a nossa confiança em Deus. Cada misericórdia pergunta: “Não confiarás n’Ele?” Cada necessidade suprida clama: “Não podes confiar n’Ele?” Cada tristeza enviada pelo grande Pai põe à prova a nossa fé, e nos impele para Aquele em quem repousamos, e assim fortalece e confirma a nossa confiança em Deus. Misericórdias e misérias, igualmente, operam para o crescimento da fé. Alguns de nós fomos chamados a confiar em Deus em larga escala, e essa necessidade tem sido grande auxílio para dar fruto. Quanto mais provações temos, tanto mais a nossa videira é cavada ao redor, e tanto mais alimento se lança às suas raízes. Se a fé não amadurece na provação, quando amadurecerá? As nossas aflições fertilizam o solo em que a fé pode crescer.
Outro fruto seleto é o amor. Jesus deleita-se no amor. O Seu terno coração deleita-se em ver o Seu amor retribuído. Não sou eu, de todos os homens, o mais obrigado a amar o Senhor? Falo por cada irmão e irmã aqui: não é essa a vossa linguagem? Não dizeis todos: “Vive, debaixo daquele céu azul, alguma pessoa que deva amar a Jesus mais do que eu?” Cada irmã reflete consigo: “Alguma vez esteve sentada, no seu quarto, uma mulher que tivesse mais razão para amar a Deus do que eu tenho?” Não; o pecado que nos foi perdoado deveria fazer-nos amar sobremaneira o nosso Salvador. O pecado que, em outros casos, foi impedido, deveria fazer-nos amar muito o nosso Preservador. O socorro que Deus nos enviou nas horas de necessidade, a direção que nos deu nos tempos de dificuldade, a alegria que derramou em nós nos dias de comunhão, e a quietude que soprou sobre nós nas estações de provação,—tudo isso deveria fazer-nos amá-Lo. Ao longo da estrada da nossa vida, as razões para amar a Deus são mais numerosas do que as folhas das oliveiras. Ele nos cercou com a Sua bondade, assim como as montanhas e o mar rodeiam o nosso presente lugar de repouso. Olhai para trás, até onde o tempo alcança, e depois olhai muito além disso, para a eternidade que já foi, e vereis o grande amor do Senhor posto sobre nós: através de todo o tempo e de toda a eternidade, razões se têm acumulado que nos constrangem a amar o nosso Senhor. Agora voltai-vos bruscamente, e olhai para diante de vós, e ao longo de todo o futuro a fé pode ver razões para amar a Deus, marcos dourados no caminho ainda por percorrer, todos a reclamar o nosso amoroso deleite em Deus.
Cristo também muito se agrada do fruto da esperança, e estamos em tais circunstâncias que devíamos produzi-lo em abundância. Os idosos deviam olhar para diante, pois não podem esperar ver muito mais na terra. O tempo é curto, e a eternidade está próxima; quão preciosa é uma boa esperança pela graça! Nós, que ainda não somos velhos, devíamos ser extremamente esperançosos; e os mais jovens, que apenas começam a vida espiritual, deviam transbordar da esperança mais fresca e mais brilhante. Se algum homem tem expectativas maiores do que as minhas, gostaria de conhecê-lo. Temos as maiores das expectativas. Nunca vos sentistes como a Misericórdia no seu sonho, quando riu, e, ao perguntar-lhe Cristiana por que ria, ela respondeu que tivera uma visão de coisas ainda por revelar?
Escolhei o fruto do Espírito que quiserdes, e afirmo que estamos em circunstâncias favoráveis para produzi-lo; estamos plantados num outeiro mui fértil. Que outeiro fértil é aquele em que vivemos no que toca ao labor por Cristo! Cada um de nós pode encontrar trabalho para o Mestre; há excelentes oportunidades ao nosso redor. Nunca houve era em que um homem, consagrado a Deus, pudesse fazer tanto quanto pode neste tempo. Não há nada que refreie o mais ardente zelo. Vivemos em tempos tão felizes que, se mergulharmos num mar de trabalho, podemos nadar, e ninguém nos pode estorvar. E, além disso, o nosso labor é feito, pela graça de Deus, tão agradável para nós. Nenhum verdadeiro servo de Cristo se cansa da obra, ainda que possa cansar-se na obra: não é da obra que ele alguma vez se cansa, pois desejaria poder fazer dez vezes mais. E então o nosso Senhor faz que o nosso trabalho seja bem-sucedido. Trazemos uma alma a Jesus, e essa traz cem. Às vezes, quando pescamos para Jesus, pode haver poucos peixes, mas, bendito seja o Seu nome, a maioria deles entra na rede; e havemos de viver louvando e bendizendo a Deus por todo o favor com que Ele contempla o nosso labor de amor. Creio, sim, que tenho razão em dizer que, para produzir o fruto que Jesus mais ama, a nossa posição é extremamente favorável.
III. E agora, nesta tarde, a esta mesa, a nossa posição aqui é favorável mesmo agora a produzirmos imediatamente, e no próprio lugar, o mais rico, o mais maduro, o mais raro fruto para o nosso Amado. Aqui, à mesa da comunhão, estamos no centro da verdade, e na própria fonte da consolação. Agora entramos no santo dos santos, e chegamos ao mais sagrado lugar de encontro entre as nossas almas e Deus.
Vista desta mesa, a vinha inclina-se para o sul, pois tudo se volta para Cristo, o nosso Sol. Este pão, este vinho, tudo inclina as nossas almas em direção a Jesus Cristo, e Ele brilha em cheio sobre os nossos corações, e mentes, e almas, para nos fazer dar muito fruto. Não estamos plantados num outeiro mui fértil?
Ao pensarmos na Sua paixão por amor de nós, sentimos que se ergue ao norte um muro ao nosso redor, para deter todo vento cortante que pudesse destruir as tenras uvas. Nenhuma ira se teme agora, pois Jesus a suportou por nós; contemplai os sinais do Seu sacrifício todo-suficiente! Nenhuma cólera do Senhor virá aos nossos espíritos tranquilos, pois o Senhor diz: “Jurei que não me irarei contra ti, nem te repreenderei.” Aqui, sobre esta mesa, estão os penhores do Seu amor inefável, e estes, como um alto muro, afastam os ventos ásperos. Certamente, estamos plantados num outeiro mui fértil.
Além disso, o próprio Amado está entre nós. Ele não nos entregou a lavradores, mas Ele mesmo se encarrega de cuidar de nós; e de que Ele está aqui temos certeza, pois aqui está a Sua carne, e aqui está o Seu sangue. Vedes os sinais exteriores; oxalá sintais a realidade invisível; pois cremos na Sua presença real, ainda que não no grosseiro sentido corpóreo com que os espíritos mundanos se cegam. O Rei entrou no Seu jardim: entretenhamo-Lo com os nossos frutos. Aquele que por esta vinha derramou um suor de sangue está agora examinando as videiras; não hão de elas, neste instante, exalar um bom perfume? A presença do nosso Senhor faz desta assembleia um outeiro mui fértil: onde Ele põe os pés, todas as coisas boas florescem.
Ao redor desta mesa, estamos num lugar onde outros deram bons frutos. A nossa literatura não contém palavras mais preciosas do que as que foram proferidas por ocasião da comunhão. Talvez conheçais e aprecieis os discursos de Willison, proferidos em ocasiões sacramentais. Os sermões de comunhão de Rutherford trazem sobre si uma sagrada unção. Os poemas de George Herbert, penso eu, foram em sua maioria inspirados pela visão de Cristo nesta ordenança. Pensai nos cânticos do santo Bernardo, como ardem de devoção. Santos e mártires têm sido alimentados a esta mesa de bênção. Esta consagrada ordenança, estou certo, é um lugar onde as esperanças se avivam, e os corações se aquecem, as resoluções se firmam, e as vidas se tornam frutíferas, e todos os cachos do fruto da nossa alma amadurecem para o Senhor.
Bendito seja Deus, estamos onde nós mesmos muitas vezes crescemos. Desfrutamos dos nossos melhores tempos ao celebrar esta sagrada Eucaristia. Deus conceda que assim seja de novo! Que nós, em calma meditação e íntimo pensamento, produzamos agora dos nossos corações os doces frutos do amor, e do zelo, e da esperança, e da paciência; que demos grandes cachos como os de Escol, todos para Jesus, e só para Jesus. Mesmo agora, entreguemo-nos à meditação, à gratidão, à adoção, à comunhão, ao arrebatamento; e passemos o resto das nossas vidas glorificando e engrandecendo o sempre bendito nome do nosso Amado, de quem somos a vinha.
“Enquanto tal cena de sagradas alegrias
Nossos olhos e almas extasiados ocupa,
Aqui poderíamos sentar-nos, e em contemplação passar
Um longo, um eterno dia.
“Pois bem, depressa havemos de atravessar a noite,
Rumo às belas plagas da luz perfeita;
Então os nossos jubilosos sentidos hão de vaguear
Sobre o querido objeto do nosso amor.
“Ali beberemos plenos sorvos de bem-aventurança,
E colheremos nova vida das árvores celestiais.
Contudo, de quando em quando, ó Senhor, concede
Uma gota do céu aos vermes cá de baixo.”
Capítulo 9 concluído
A Vinha do Amado