Capítulo 8 · 29 min de leitura
O Vinho Aromático da Minha Romã
OU, A COMUNHÃO DA COMUNICAÇÃO. Eu te faria beber do vinho aromático, do mosto das minhas romãs.”—Cântico dos Cânticos viii. 2.E todos nós recebemos da sua plenitude, e graça por graça.”—João i. 16.
O VINHO AROMÁTICO DA MINHA ROMÃ.
HAVENDO sido lançado desde a antiguidade o fundamento imóvel da comunhão, na eterna união que subsistia entre Cristo e os seus eleitos, faltava apenas uma ocasião propícia para que ela se manifestasse em ativo desdobramento. O Senhor Jesus para sempre se deleitara com os filhos dos homens, e sempre esteve pronto a revelar e comunicar esse deleite ao seu povo; mas estes eram incapazes de retribuir a sua afeição, ou de gozar a sua comunhão, havendo caído num estado tão vil e degradado, que estavam mortos para Ele, e indiferentes a seu respeito. Era, pois, necessário que algo fosse feito por eles, e neles, antes que pudessem ter conversa com Jesus, ou sentir concórdia com Ele. Sendo esta preparação uma obra da graça e um resultado de união anterior, Jesus determinou que, mesmo na preparação para a comunhão, houvesse comunhão. Se eles precisavam ser lavados antes de poderem conversar plenamente com Ele, Ele teria comunhão com eles na lavagem; e se precisavam ser enriquecidos por dons antes de poderem ter pleno acesso a Ele, Ele teria comunhão com eles no dar. Ele estabeleceu, portanto, uma comunhão no comunicar da sua graça, e no participar dela.
A esta ordem de comunhão temos chamado “A Comunhão da Comunicação,” e cremos que algumas observações provarão que não estamos indo além do que a Escritura autoriza.
A palavra koinwnia, ou comunhão, é frequentemente empregada pelos escritores inspirados no sentido de comunicação ou contribuição. Quando, em nossa versão inglesa, lemos: “porque pareceu bem à Macedônia e à Acaia fazerem uma contribuição para os pobres dentre os santos que estão em Jerusalém” (Romanos xv. 26), é interessante saber que a palavra koinwnian é usada, como que a mostrar que os generosos donativos da Igreja na Acaia à sua Igreja irmã em Jerusalém eram uma comunhão. Calvino quer que notemos isto, porque, diz ele, “A palavra aqui empregada bem exprime o sentimento com que nos convém socorrer as necessidades de nossos irmãos, pois há de haver uma consideração comum e mútua por causa da união do corpo.” Ele não teria forçado o texto se tivesse dito que havia na contribuição a própria essência da comunhão. Gill, em seu comentário sobre o versículo acima, observa muito pertinentemente: “Contribuição, ou comunhão, como significa a palavra, sendo uma parte da comunhão das igrejas e dos santos aliviar os seus pobres comunicando-lhes.” A mesma palavra é empregada em Hebreus xiii. 16, e ali é traduzida pela palavra “comunicação.” “E não vos esqueçais da beneficência e comunicação, porque com tais sacrifícios Deus se agrada.” Ocorre de novo em 2 Coríntios ix. 13: “e pela liberalidade da vossa contribuição para com eles, e para com todos;” e em numerosas outras passagens o estudante atento observará a palavra em várias formas, representando o ministrar dos santos uns aos outros como um ato de comunhão. De fato, na ceia do Senhor, que é a corporificação da comunhão, sempre tivemos por costume fazer uma contribuição especial para os pobres do rebanho, e cremos que na coleta há um elemento de comunhão tão verdadeiro e real quanto no participar do pão e do vinho. O doador tem comunhão com aquele que recebe, quando dá o seu benefício por amor do Senhor, e por causa da irmandade que existe entre ele e os seus amigos necessitados. O mestre tem comunhão com o jovem discípulo quando se esforça por instruí-lo na fé, movido a isso por um espírito de amor cristão. Aquele que intercede por um santo porque deseja o bem-estar dele como membro da única família, entra em comunhão com o seu irmão na oferta da oração. O amoroso e mútuo serviço dos membros da igreja é comunhão de alto grau. E lembremo-nos de que aquele que recebe também tem comunhão com o benfeitor: a comunhão não se limita ao que dá, mas o coração transbordante de liberalidade encontra-se com o coração cheio de gratidão, e o amor manifestado na dádiva é retribuído na aceitação. Quando a mão alimenta a boca ou sustenta a cabeça, os diversos membros sentem a sua união, e simpatizam uns com os outros; e assim é com as várias porções do corpo de Cristo, pois têm comunhão em mútuos atos de amor.
Ora, este sentido da palavra comunhão nos fornece muita instrução, visto que indica a maneira pela qual a reconhecida comunhão com Jesus é começada e mantida, a saber, pelo dar e receber, pela comunicação e pela recepção. A ceia do Senhor é a exibição divinamente ordenada da comunhão, e por isso nela há o partir do pão e o derramar do vinho, para figurar o dom gratuito do corpo e do sangue do Salvador a nós; e há também o comer de um e o beber do outro, para representar a recepção destes inestimáveis dons por nós. Assim como sem pão e vinho não poderia haver ceia do Senhor, assim sem os graciosos legados de Jesus a nós não haveria comunhão entre Ele e as nossas almas: e, assim como a participação é necessária antes que os elementos verdadeiramente representem o sentido da ordenança do Senhor, assim é necessário que recebamos as suas dádivas, e nos alimentemos da sua pessoa, antes que possamos ter comunhão com Ele.
É um ramo desta mútua comunicação que escolhemos como tema desta meditação. “Olhando para Jesus,” que nos libertou do nosso estado de inimizade, e nos trouxe à comunhão consigo mesmo, oramos pelo rico auxílio do Espírito Santo, para que sejamos refrigerados em espírito, e animados a haurir mais largamente do celeiro do concerto de Cristo Jesus, o Senhor.
Tomaremos um texto, e passaremos de imediato à nossa deleitosa tarefa. “E todos nós recebemos da sua plenitude, e graça por graça.” (João i. 16.)
Assim como a vida da graça é primeiramente gerada em nós pelo Senhor Jesus, assim é constantemente sustentada por Ele. Estamos sempre haurindo desta sagrada fonte, sempre derivando seiva desta raiz divina; e, assim como Jesus tem comunhão conosco ao conceder as suas misericórdias, é nosso privilégio ter comunhão com Ele ao recebê-las.
Há esta diferença entre Cristo e nós mesmos: Ele nunca dá sem manifestar comunhão, mas nós muitas vezes recebemos de maneira tão má que a comunhão não é retribuída, e assim perdemos a celestial oportunidade de gozá-la. Recebemos com frequência a graça insensivelmente, isto é, o óleo sagrado corre pelo cano, e mantém a nossa lâmpada, enquanto estamos alheios à secreta influência. Podemos também ser participantes de muitas misericórdias que, por nossa insensatez, nem sequer percebemos serem misericórdias; e em outras ocasiões, bênçãos bem conhecidas são reconhecidas como tais, mas somos tardios em segui-las até a sua fonte no concerto feito com Cristo Jesus.
Prosseguindo com a sugestão do nosso prefácio explicativo, bem podemos crer que, quando os pobres santos receberam a contribuição de seus irmãos, muitos deles de fato reconheceram a comunhão que se ilustrava na generosa oferta, mas é provável que alguns deles olhassem apenas para o material da dádiva, e deixassem de ver o espírito que nela se movia. Pensamentos sensuais em alguns dos que recebiam poderiam, possivelmente, na ocasião em que a contribuição era distribuída, ter prejudicado nocivamente o exercício da espiritualidade; pois é possível que, após um período de pobreza, ficassem propensos a dar maior destaque ao fato de que a sua necessidade fora suprida do que ao sentimento de comunhão com os seus solidários irmãos. Antes se regozijariam pela fome evitada do que pela comunhão manifestada. Não duvidamos de que, em muitos casos, os mútuos benefícios da Igreja deixem de revelar a nossa comunhão aos nossos pobres irmãos, e não produzam neles sentimento algum de comunhão com os doadores.
Ora, este triste fato é uma ilustração da afirmação ainda mais lamentável que fizemos. Afirmamos novamente que, assim como muitos dos que participam das esmolas da Igreja não estão atentos à comunhão nelas contida, assim o povo do Senhor nunca está suficientemente atento à comunhão com Jesus ao receber os seus dons, mas muitos deles se esquecem inteiramente do seu privilégio, e todos eles estão pouco conscientes dele. Pior ainda que isto: quantas vezes o crente perverte os dons de Jesus, tornando-os alimento para o seu próprio pecado e lascívia! Não estamos livres da inconstância do antigo Israel, e bem poderia o nosso Senhor dirigir-se a nós na mesma linguagem:
“Ora, quando passei junto de ti, e te vi, eis que o teu tempo era tempo de amores; e estendi sobre ti a orla do meu manto, e cobri a tua nudez; e dei-te juramento, e entrei em concerto contigo, diz o Senhor Deus, e tu ficaste sendo minha. Então te lavei com água, sim, lavei-te bem do teu sangue, e te ungi com óleo. Também te vesti de bordados, e te calcei com peles de texugo, e te cingi de linho fino, e te cobri de seda. E te adornei com enfeites, e te pus braceletes nas mãos, e um colar ao teu pescoço. E te pus um pendente no nariz, e arrecadas nas orelhas, e uma linda coroa na cabeça. E assim foste adornada de ouro e prata; e o teu vestido era de linho fino, e de seda, e de bordados; nutriste-te de flor de farinha, e mel, e azeite; e foste formosa em extremo, e prosperaste até chegares a ser rainha. E correu a tua fama entre as nações, por causa da tua formosura, pois era perfeita, por causa da minha glória que eu pusera sobre ti, diz o Senhor Deus. Mas confiaste na tua formosura, e te prostituíste por causa da tua fama.” (Ez. xvi. 8-16.)
Não deveria a massa dos professos confessar a verdade desta acusação? Não nos desviamos, a maior parte de nós, tão tristemente da pureza do nosso amor? Regozijamo-nos, contudo, ao observar um remanescente de espíritos escolhidos, que vivem perto do Senhor, e conhecem a doçura da comunhão. Estes recebem a promessa e a bênção, e de tal modo as digerem que se tornam bom sangue em suas veias, e de tal modo se alimentam do seu Senhor que crescem até Ele. Imitemos aquelas mentes elevadas, e alcancemos os seus altos deleites. Não há razão por que o mais insignificante de nós não possa ser como Davi, e Davi como o servo do Senhor. Podemos agora ser anões, mas o crescimento é possível; visemos, portanto, a uma estatura mais alta. Que se siga o conselho que se segue, e, com o Espírito Santo a nos ajudar, teremos alcançado essa estatura.
Faze de cada tempo de necessidade um tempo de abraçar o teu Senhor. Não deixes o propiciatório até tê-lo estreitado em teus braços. Em todo tempo de necessidade Ele prometeu dar-te graça para socorrer-te, e o que te impede de obter a doce comunhão como preciosa adição ao prometido auxílio? Não sejas como o mendigo que se contenta com a esmola, por mais a contragosto que lha lancem; mas, visto que és um parente chegado, busca um sorriso e um beijo com cada bênção que Ele te dá. Não é Ele melhor do que as suas misericórdias? Que são elas sem Ele? Clama em alta voz a Ele, e que a tua petição chegue aos seus ouvidos: “Ó meu Senhor, não me basta ser participante das tuas dádivas, hei de ter também a ti mesmo; se não me deres a ti mesmo com os teus favores, de pouco me servem eles! Ó sorri para mim, quando me abençoas, pois de outro modo permaneço sem bênção! Tu pões perfume em todas as flores do teu jardim, e fragrância nas tuas especiarias; se te retiras, elas já não me são agradáveis. Vem, então, meu Senhor, e dá-me o teu amor com a tua graça.” Toma bem cuidado, cristão, de que o teu próprio coração esteja bem afinado, para que, quando os dedos da misericórdia tocarem as cordas, elas ressoem com plenas notas de comunhão. Quão triste é participar do favor sem regozijar-se nele! E, contudo, tal é muitas vezes o caso do crente. O Senhor lança as suas pródigas dádivas às nossas portas, e nós, como avarentos, mal olhamos para fora para agradecer-lhe. Os nossos corações ingratos e as nossas línguas mal-agradecidas estragam a nossa comunhão, fazendo-nos perder mil oportunidades de exercê-la.
Se quiseres gozar comunhão com o Senhor Jesus na recepção da sua graça, esforça-te por estar sempre haurindo dele, de modo perceptível, os teus suprimentos. Torna públicas as tuas necessidades nas ruas do teu coração, e, quando o suprimento for concedido, que todas as forças da tua alma estejam presentes à recepção dele. Que nenhuma misericórdia entre em tua casa sem ser cantada. Anota na tua memória a lista dos benefícios do teu Mestre. Por que haveriam as dádivas do Senhor de ser levadas às pressas na escuridão, ou sepultadas no esquecimento? Mantém as portas da tua alma sempre abertas, e assenta-te à beira do caminho para vigiar os tesouros da graça que Deus, o Espírito, a cada hora conduz ao teu coração da parte de Jeová-Jesus, o teu Senhor.
Nunca deixes passar uma hora sem sacar do banco do céu. Se todas as tuas necessidades parecerem satisfeitas, olha atentamente até que o momento seguinte traga outra necessidade, e então não te demores, mas, com este mandado da necessidade, apressa-te de novo ao teu tesouro. As tuas necessidades são tão numerosas que nunca te faltará motivo para recorrer à plenitude de Jesus; mas, se alguma vez surgir tal ocasião, alarga o teu coração, e então haverá necessidade de mais amor para encher o espaço mais amplo. Mas não permitas que quaisquer supostas riquezas tuas suspendam os teus recebimentos diários do Senhor Jesus. Tens constante necessidade dele. Precisas da sua intercessão, do seu sustento, da sua santificação; precisas de que Ele opere em ti todas as tuas obras, e de que te preserve até o dia da sua manifestação. Não há um só momento da tua vida em que possas passar sem Cristo. Portanto, está sempre à sua porta, e as necessidades de que te lamentas serão lembranças a voltar o teu coração para o teu Salvador. A sede faz o coração arquejar pelas correntes das águas, e a dor faz o homem lembrar-se do médico. Que as tuas necessidades te conduzam a Jesus, e possa o bendito Espírito revelá-lo a ti, enquanto Ele amorosamente te concede os ricos suprimentos do seu amor! Vai, pobre santo, que a tua pobreza seja a corda que te puxa para o teu rico Irmão. Regozija-te na fraqueza que dá lugar a que a graça repouse sobre ti, e alegra-te de que tens constantes necessidades que te compelem a ter perpetuamente comunhão com o teu adorável Redentor.
Estuda-te a ti mesmo, procura as tuas necessidades, como a dona de casa procura as câmaras em que possa guardar os seus frutos de verão. Considera as tuas necessidades como aposentos a serem enchidos com mais da graça de Jesus, e não permitas que canto algum fique desocupado. Anseia por mais de Jesus. Sê cobiçoso dele. Que todo o passado te incite a buscar coisas maiores. Canta o cântico do coração alargado:—
“Tudo isto não basta: parece-me que cresço
mais ávido pela fruição; o que recebo
apenas serve para aguçar
o gume do meu apetite;
e todos os teus dons convidam
as minhas orações a pedir mais.”
Clama ao Senhor Jesus que encha os leitos secos dos teus rios até que transbordem, e então esvazia tu os canais que até aqui foram cheios da tua própria autossuficiência, e roga-lhe que também os encha com a sua superabundante graça. Se as tuas pesadas provações te afundam mais fundo na inundação das suas consolações, alegra-te delas; e, se o teu navio se afundar até as suas próprias amuradas, não temas. De boa vontade sentiria eu o topo do mastro da minha alma vinte braças abaixo da superfície de tal oceano; pois, como disse Rutherford: “Oh, estar submerso até acima das orelhas neste poço! Não quereria que o amor de Cristo entrasse em mim, mas antes entrar eu nele, e ser tragado por esse amor.” Cultiva uma fome insaciável e uma sede inextinguível por esta comunhão com Jesus por meio das suas comunicações. Que o teu coração clame para sempre: “Dá, dá,” até que seja saciado no Paraíso.
“Vencido pelo condescendente amor de Jesus,
trazido à comunhão com Ele e com os seus,
e banqueteando-me com Ele na sua casa do vinho,
estou enfermo de amor,—e contudo anseio por mais
comunicações do meu amoroso Senhor.
Sustém-me com frascos cheios do mais escolhido vinho,
espremido do seu coração sobre o monte Calvário,
para animar e consolar a minha alma vencida pelo amor.
A ti mesmo anseio!
A tua presença é a minha vida, a minha alegria, o meu céu,
e tudo, sem ti mesmo, para mim está morto.
Sustém-me com frascos, Salvador, ouve o meu clamor,
que as promessas, como maçãs, me confortem;
aplica o sangue expiatório, e o amor do concerto,
até que eu veja a tua face entre os convivas
que se banqueteiam no reino de teu Pai.”
(Nymphas, por JOSEPH IRONS.)
Esta é a única cobiça que é permissível: mas esta não está apenas isenta de repreensão, é digna de louvor. Ó santos, não vos acanheis em vossas próprias entranhas, mas alargai os vossos desejos, e assim recebei mais da imensurável plenitude do vosso Salvador! Ordeno-te, minha alma, que assim tenhas contínua comunhão com o teu Senhor, visto que Ele te convida e te ordena a participar assim das suas riquezas.
Regozija-te nos benefícios recebidos. Que a satisfação do teu espírito transborde em correntes de alegria. Quando o crente deposita toda a sua confiança em Cristo, e nele se deleita, há um exercício de comunhão. Se ele se esquece do seu livro de salmos, e, em vez de cantar, é encontrado a lamentar-se, as misericórdias do dia não trarão comunhão alguma. Desperta, ó música! ergue-te, ó minha alma, alegra-te no Senhor, e regozija-te sobremaneira! Contempla os seus favores, ricos, gratuitos e contínuos; hão de ser sepultados na ingratidão? Hão de ser cobertos com uma mortalha de ingratidão? Não! Eu O louvarei. Devo exaltá-lo. Doce Senhor Jesus, deixa-me beijar o pó dos teus pés, deixa-me perder-me em gratidão, pois os teus pensamentos para comigo são preciosos, quão grande é a soma deles! Eis que te abraço nos braços da alegria e da gratidão, e nisto acho a minha alma atraída para ti!
Este é um bendito método de comunhão. É beijar o divino lábio da bênção com o santificado lábio da afeição. Oh, por mais graça que se regozije, mais dos cânticos do coração, mais da melodia da alma!
Procura reconhecer que a fonte das tuas misericórdias reside unicamente naquele que é a nossa Cabeça. Imita o pintainho, que, cada vez que bebe do riacho, ergue a cabeça ao céu, como se quisesse render graças por cada gota. Se temos algo que seja louvável e cheio de graça, isto deve vir do Espírito Santo, e esse Espírito é primeiro concedido a Jesus, e depois, por meio dele, a nós. O óleo foi primeiro derramado sobre a cabeça de Arão, e dali desceu sobre as suas vestes. Olha para as gotas da graça, e lembra-te de que elas destilam da Cabeça, Cristo Jesus. Todos os teus raios são gerados por este Sol da Justiça, todas as tuas chuvas são derramadas deste céu, todas as tuas fontes brotam desta grande e imensurável profundeza. Oh, por graça para ver a mão de Jesus em cada favor! Assim a comunhão estará constante e firmemente em exercício. Possa o grande Mestre dirigir-nos perpetuamente a Jesus, fazendo das misericórdias do concerto os marcos no caminho que conduz a Ele. Feliz é o crente que sabe achar a secreta morada do seu Amado, seguindo as pegadas da sua amorosa providência: nisto há uma sabedoria que o observador casual das meras causas segundas jamais pode alcançar. Trabalha, ó cristão, por seguir cada indício que a graça do teu Mestre te oferece!
Esforça-te por manter um senso da tua inteira dependência da sua boa vontade e do seu beneplácito para a continuação dos teus mais ricos gozos. Nunca tentes viver do velho maná, nem procures achar auxílio no Egito. Tudo deve vir de Jesus, ou estás perdido para sempre. Velhas unções não bastarão para dar unção ao nosso espírito; a tua cabeça deve ter óleo fresco derramado sobre ela do chifre de ouro do santuário, ou cessará da sua glória. Hoje podes estar sobre o cimo do monte de Deus; mas Aquele que te pôs ali deve manter-te ali, ou afundarás muito mais depressa do que sonhas. O teu monte só permanece firme quando Ele o assenta no seu lugar; se Ele esconder o seu rosto, logo ficarás perturbado. Se o Salvador julgar conveniente, não há uma janela pela qual vejas a luz do céu que Ele não pudesse escurecer num instante. Josué mandou o sol parar, mas Jesus pode envolvê-lo em trevas totais. Ele pode retirar a alegria do teu coração, a luz dos teus olhos, e a força da tua vida; em sua mão jazem os teus consolos, e à sua vontade eles podem partir de ti. Oh! quão rica é a graça que nos supre tão continuamente, e não se contém por causa da nossa ingratidão! Ó Senhor Jesus, prostrar-nos-íamos a teus pés, conscientes da nossa total incapacidade de fazer coisa alguma sem ti, e, em cada favor que temos o privilégio de receber, adoraríamos o teu bendito nome, e reconheceríamos o teu inexaurível amor!
Quando tiveres recebido muito, admira a toda-suficiência que ainda permanece intacta; assim terás comunhão com Cristo, não somente naquilo que obténs dele, mas também na superabundância que permanece entesourada nele. Lembremo-nos sempre de que o dar não empobrece o nosso Senhor. Quando as nuvens, aquelas errantes cisternas dos céus, derramaram torrentes sobre a terra seca, permanece uma abundância no depósito da chuva: assim, em Cristo, há sempre um suprimento ilimitado, ainda que as mais liberais chuvas de graça tenham caído desde a fundação da terra. O sol é tão brilhante como sempre, depois de todo o seu brilhar, e o mar continua tão cheio depois de todas as nuvens terem sido tiradas dele: assim é o nosso Senhor Jesus, sempre a mesma transbordante fonte de plenitude. Tudo isto é nosso, e podemos fazer disto o tema de uma comunhão jubilosa. Vem, crente, percorre o comprimento e a largura da terra, pois, até onde a vista alcança, a terra é tua, e muito além do mais extremo alcance da tua observação também é tua, o gracioso dom do teu gracioso Redentor e Amigo. Não há aqui amplo espaço para a comunhão?
Considera cada misericórdia espiritual como uma garantia da comunhão do Senhor contigo. Quando o jovem dá joias à virgem com quem está prometido, ela as tem por sinais do deleite dele nela. Crente, faze o mesmo com os preciosos presentes do teu Senhor. Os favores comuns da providência são partilhados por todos os homens, pois o bom Dono da casa provê água para os seus porcos tanto quanto para os seus filhos: tais coisas, portanto, não são prova de complacência divina. Mas tu tens alimento mais rico para comer; “o pão dos filhos” está no teu alforje, e a herança dos justos está reservada para ti. Olha, então, para cada moção da graça no teu coração como um penhor e sinal da moção do coração do teu Salvador para contigo. Ali está todo o seu coração nas entranhas de cada misericórdia que Ele te envia. Ele imprimiu um beijo de amor sobre cada dádiva, e quer que creias que cada joia de misericórdia é um sinal do seu ilimitado amor. Olha para a tua adoção, justificação e preservação como doces atrativos à comunhão. Que cada nota da promessa soe em teus ouvidos como o repicar dos sinos da casa do teu Senhor, convidando-te a vir aos banquetes do seu amor. José enviou a seu pai jumentos carregados das boas coisas do Egito, e o bom e velho Jacó sem dúvida os teve por penhores do amor do coração do seu filho: cuida de não pensar menos das bondades de Jesus.
Estuda para conhecer o valor dos seus favores. Não são coisas ordinárias, nem joias falsas, nem ouro de mosaico: cada um deles é tão precioso que, ainda que todo o céu fosse esgotado de tesouro, à parte da preciosa oferta do Redentor, não poderia comprar sequer o menor dos seus benefícios. Quando vires o teu perdão, considera quão grande dádiva nele se contém! Pensa que o inferno teria sido a tua porção eterna, se Cristo não te houvesse arrancado das chamas! Quando fores capacitado a ver-te vestido da justiça imputada de Jesus, admira a profusão de coisas preciosas de que é feita a tua veste. Pensa quantas vezes o Homem de dores se cansou naquele tear da obediência em que teceu aquela veste incomparável; e calcula, se podes, quantos mundos de mérito foram lançados no tecido a cada lançamento da lançadeira! Lembra-te de que todos os anjos do céu não lhe poderiam ter fornecido um só fio que fosse suficientemente rico para ser tecido na textura da sua perfeita justiça. Considera o custo da tua manutenção por uma hora; lembra-te de que as tuas necessidades são tão grandes que todos os celeiros da graça que todos os santos pudessem encher não poderiam alimentar-te por um momento.
Que dependente dispendioso tu és! O rei Salomão fez maravilhosa provisão para a sua casa (1 Reis iv. 22), mas todos os seus bois e a sua flor de farinha seriam como a gota do balde comparados com as tuas necessidades diárias. Rios de azeite, e dez mil carneiros ou animais cevados, não proveriam o bastante para suprir as necessidades da tua alma faminta. A tua menor necessidade espiritual exige a infinitude para satisfazê-la, e qual há de ser o assombroso total dos teus saques perpetuamente repetidos sobre o teu Senhor! Levanta-te, então, e bendize o teu amoroso Emanuel pelas inestimáveis riquezas com que te dotou. Vê que dote o teu Esposo trouxe à sua pobre e sem-vintém esposa. Ele conhece o valor das bênçãos que te traz, pois as pagou com o mais rico sangue do seu coração; não sejas tão ingrato a ponto de passá-las por alto, como se fossem de pouca valia. Os pobres conhecem melhor o valor do dinheiro do que os que sempre nadaram em abundância de riquezas. Não deveria a tua antiga pobreza ensinar-te a preciosidade da graça que Jesus te dá? Pois lembra-te de que houve um tempo em que terias dado mil mundos, se fossem teus, para obter a menor das suas abundantes misericórdias.
Lembra-te de quão impossível te teria sido receber uma só bênção espiritual, se não estivesses em Jesus. Sobre nenhum da raça de Adão pode fixar-se o amor de Deus, a menos que seja visto em união com o seu Filho. Nunca se fez exceção alguma à universal maldição sobre os da semente do primeiro Adão que não têm parte no segundo Adão. Cristo é o único Zoar em que os Lós de Deus podem achar abrigo da destruição de Sodoma. Fora dele, o crestante sopro da fornalha ardente da ira de Deus consome toda erva verde, e é só nele que a alma pode viver. Como quando a pradaria está em fogo, os homens veem os céus envoltos em lençóis de chama, e em ardente pressa fogem diante do elemento devorador. Têm apenas uma esperança. Há, ao longe, um lago de água. Alcançam-no, mergulham nele, e estão salvos. Ainda que os céus se derretam de calor, o sol se escureça com a fumaça, e a terra seja de todo consumida no fogo, sabem que estão seguros enquanto a refrescante inundação os envolve. Cristo Jesus é a única fuga para um pecador perseguido pela ígnea ira de Deus, e quereríamos que o crente se lembrasse disto. As nossas próprias obras jamais poderiam abrigar-nos, pois provaram ser apenas refúgios de mentiras. Ainda que fossem mil vezes mais numerosas e melhores, não seriam senão como a teia da aranha, débil demais para nela se pendurarem interesses eternos. Havia apenas um nome, um sacrifício, um sangue, pelo qual pudéssemos escapar. Todas as outras tentativas de salvação foram um doloroso fracasso. Pois, “ainda que um homem pudesse açoitar do seu corpo rios de sangue, e, no desprezo de si mesmo, pudesse sobrepujar Moisés ou Elias; ainda que pudesse gastar os joelhos em oração, e tivesse os olhos cravados no céu; ainda que pudesse edificar hospitais para todos os pobres da terra, e esgotar as minas da Índia em esmolas; ainda que pudesse andar como um anjo de luz, e, com o fulgor de uma santidade exterior, deslumbrar os olhos de todos os que o contemplassem; sim (se fosse possível concebê-lo), ainda que vivesse por mil anos numa perfeita e perpétua observância de toda a lei de Deus, se a única exceção à sua perfeição fosse o mínimo desvio da lei, ainda assim um tal homem não poderia comparecer diante do tribunal da justiça de Deus, mais do que a palha diante de um fogo consumidor.” Como, então, com os teus inumeráveis pecados, poderias escapar da condenação do inferno, muito menos tornar-te o receptor de dádivas tão ricas e amplas? Bendita janela do céu, doce Senhor Jesus, que a tua Igreja para sempre te adore, como o único canal pelo qual as misericórdias lhe podem fluir. Minha alma, dá-lhe contínuo louvor, pois, sem Ele, terias sido mais pobre do que um mendigo. Lembra-te, ó herdeiro do céu, de que não poderias ter tido um só raio de esperança, ou uma só palavra de consolo, se não estivesses em união com Cristo Jesus! As migalhas que caem da tua mesa são mais do que a própria graça te teria dado, se não fosses, em Jesus, amado e aprovado.
Tudo o que tens, tu o tens nele: nele escolhido, nele redimido, nele justificado, nele aceito. Estás ressuscitado nele, mas sem Ele terias morrido a segunda morte. Estás nele ressuscitado aos lugares celestiais, mas fora dele terias sido eternamente condenado. Bendize-o, então. Pede aos anjos que O bendigam. Convoca todas as eras a uma harmonia de louvor por seu condescendente amor, em tomar pobres e culpados nadas para a unidade com a sua pessoa toda-adorável. Este é um bendito meio de promover a comunhão, se o sagrado Consolador se compraz em tomar das coisas de Cristo, e revelá-las a nós como nossas, mas só nossas enquanto estamos nele. Ó Jesus três vezes bendito, nunca nos deixes esquecer que somos membros do teu corpo místico, e que é por esta razão que somos abençoados e preservados.
Medita nos graciosos atos que te obtiveram as bênçãos. Considera os pesados labores que o teu Senhor suportou por ti, e os estupendos sofrimentos com que comprou as misericórdias que Ele concede. Que língua humana pode exprimir a indizível miséria do seu coração, ou descrever sequer uma das agonias que se acumularam sobre a sua alma? Quanto menos poderá qualquer compreensão finita chegar a uma ideia do vasto total do seu pesar! Mas todas as suas tristezas foram necessárias para o teu benefício, e sem elas nenhuma das tuas inumeráveis misericórdias poderia ter sido concedida. Não te esqueças de que—
“Não há dádiva que a sua mão conceda
que não custe ao seu coração um gemido.”
Olha para o solo gelado do Getsêmani, e contempla o suor de sangue que manchou a terra! Volta-te para o salão de Gabatá, e vê a vítima da justiça perseguida pelos seus clamorosos inimigos! Entra na guarita dos pretorianos, e vê os cuspes, e o arrancar dos cabelos! e então conclui a tua revista no Gólgota, o monte da condenação, onde a morte consumou os seus tormentos; e se, pelo auxílio divino, fores capacitado a entrar, em alguma humilde medida, nas profundezas dos sofrimentos do teu Senhor, estarás mais bem preparado para ter comunhão com Ele quando de novo receberes as suas inestimáveis dádivas. Na proporção do teu senso do quanto elas custaram estará a tua capacidade de gozar o amor que nelas se concentra.
Acima de tudo, e principalmente de tudo, nunca te esqueças de que Cristo é teu. Em meio à profusão dos seus dons, nunca te esqueças de que o dom principal é Ele mesmo, e não te esqueças de que, afinal, os seus dons são apenas Ele mesmo. Ele te veste, mas é consigo mesmo, com a sua própria justiça e caráter imaculados. Ele te lava, mas o seu próprio ser mais íntimo, o sangue do seu próprio coração, é a corrente com que a fonte transborda. Ele te alimenta com o pão do céu, mas não te esqueças de que o pão é Ele mesmo, o seu próprio corpo que Ele dá para ser o alimento das almas. Nunca te contentes com uma comunicação menor do que um Cristo inteiro. Uma esposa não se contentará com sustento, joias e trajes; tudo isto nada será para ela, a menos que possa chamar seu o coração e a pessoa do seu marido. Foi do cordeiro pascal que o antigo israelita se banqueteou naquela noite que jamais havia de ser esquecida. Assim, banqueteia-te tu de Jesus, e de nada menos do que Jesus, pois menos do que isto será alimento leve demais para a satisfação da tua alma. Oh, cuida de comer a sua carne e beber o seu sangue, e assim recebê-lo em ti mesmo de maneira real e espiritual, pois nada menos do que isto será evidência de vida eterna em tua alma!
Que mais acrescentaremos às regras que aqui entregamos? Resta apenas uma grande exortação, que não deve ser omitida. Busca o abundante auxílio do Espírito Santo para te capacitar a pôr em prática as coisas que dissemos, pois, sem o seu auxílio, tudo o que falamos será apenas atormentar o coxo com regras para andar, ou o moribundo com regulamentos para a preservação da saúde. Ó tu, Espírito Divino, enquanto gozamos a graça de Jesus, conduze-nos à secreta morada do nosso Senhor, para que ceemos com Ele, e Ele conosco, e concede-nos graça de hora em hora para que continuemos na companhia do nosso Senhor desde o nascer até o pôr do sol! Amém.
Capítulo 8 concluído
O Vinho Aromático da Minha Romã