Capítulo 5 · 20 min de leitura
Sobre os Montes
SOBRE OS MONTES.
PODE ser que haja santos que estejam sempre no seu melhor, e sejam felizes o bastante para nunca perderem a luz do rosto de seu Pai. Não estou certo de que existam tais pessoas, pois os crentes com quem tive maior intimidade tiveram uma experiência variada; e aqueles que conheci, que se gabavam de sua constante perfeição, não foram os indivíduos mais dignos de confiança. Espero que haja uma região espiritual alcançável onde não haja nuvens a esconder o Sol de nossa alma; mas não posso falar com certeza, pois não percorri essa terra feliz. Cada ano de minha vida teve tanto um inverno quanto um verão, e cada dia a sua noite. Até aqui vi claros resplendores e chuvas pesadas, e senti brisas quentes e ventos ferozes. Falando em nome de muitos de meus irmãos, confesso que, embora a seiva esteja em nós, como no terebinto e no carvalho, ainda assim perdemos as folhas, e a seiva dentro de nós não flui com igual vigor em todas as estações. Temos nossas descidas assim como nossas subidas, nossos vales assim como nossos montes. Nem sempre nos regozijamos; às vezes estamos abatidos por meio de múltiplas provações. Ai! Entristece-nos confessar que a nossa comunhão com o Bem-amado nem sempre é a de um deleite arrebatador; mas por vezes temos de buscá-lo, e clamar: “Ah, se eu soubesse onde o poderia achar!” Isto me parece ter sido, em certa medida, a condição da esposa quando ela clamou: “Até que refresque o dia, e fujam as sombras, volta, amado meu.”
I. Estas palavras nos ensinam, primeiramente, que a comunhão pode ser quebrada. A esposa havia perdido a companhia de seu Esposo: a comunhão consciente com Ele se fora, ainda que ela amasse o seu Senhor e suspirasse por Ele. Em sua solidão estava triste; mas de modo algum havia deixado de amá-lo, pois O chama de seu Amado, e fala como quem não sentia dúvida alguma quanto a esse ponto. O amor ao Senhor Jesus pode ser tão verdadeiro, e talvez tão forte, quando estamos sentados nas trevas como quando andamos na luz. Mais ainda, ela não havia perdido a certeza do amor dele por ela, nem do mútuo interesse que tinham um pelo outro; pois diz: “O meu amado é meu, e eu sou dele;” e todavia acrescenta: “Volta, amado meu.” A condição de nossas graças nem sempre coincide com o estado de nossas alegrias. Podemos ser ricos em fé e amor, e ainda ter tão baixa estima de nós mesmos que fiquemos muito abatidos.
É evidente, por este Sagrado Cântico, que a esposa pode amar e ser amada, pode confiar em seu Senhor, e estar plenamente segura de que O possui, e todavia haver, por ora, montes entre ela e Ele. Sim, podemos até estar muito adiantados na vida divina, e ainda assim ser exilados por um tempo da comunhão consciente. Há noites para os homens tanto quanto para as crianças, e os fortes sabem que o sol está oculto tão bem quanto o sabem os enfermos e os fracos. Não te condenes, portanto, meu irmão, porque uma nuvem paira sobre ti; não lances fora a tua confiança; antes, deixa que a fé se acenda em meio à escuridão, e que o teu amor se resolva a chegar de novo ao teu Senhor, quaisquer que sejam as barreiras que te separam dele.
Quando Jesus está ausente de um verdadeiro herdeiro do céu, sobrevirá a tristeza. Quanto mais sadia a nossa condição, tanto mais cedo essa ausência será percebida, e tanto mais profundamente será lamentada. Esta tristeza é descrita no texto como trevas; isto está implícito na expressão: “Até que refresque o dia.” Até que Cristo apareça, nenhum dia despontou para nós. Habitamos em trevas de meia-noite; as estrelas das promessas e a lua da experiência não dão luz de consolo até que o nosso Senhor, como o sol, se levante e ponha fim à noite. Precisamos ter Cristo conosco, ou estamos mergulhados em treva: tateamos como cegos à procura da parede, e vagamos em desalento.
A esposa também fala de sombras. “Até que refresque o dia, e fujam as sombras.” As sombras se multiplicam com a partida do sol, e estas costumam afligir os medrosos. Não tememos inimigos reais quando Jesus está conosco; mas quando sentimos a sua falta, trememos diante de uma sombra. Quão doce é aquele cântico: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam!” Mas mudamos de tom quando a meia-noite já chegou, e Jesus não está conosco: então povoamos a noite de terrores; espectros, demônios, duendes, e coisas que jamais existiram senão na imaginação, costumam enxamear ao nosso redor; e ficamos com medo onde não há medo algum.
O pior tormento da esposa era que as costas de seu Amado estavam voltadas para ela, e por isso clamou: “Volta, amado meu.” Quando a face dele está voltada para ela, ela se aquece ao sol do seu amor; mas se a luz do seu rosto é retirada, ela fica gravemente atribulada. O nosso Senhor volta o seu rosto para longe do seu povo, ainda que nunca volte o seu coração para longe do seu povo. Ele pode até fechar os olhos no sono quando a barca é sacudida pela tempestade, mas o seu coração está desperto o tempo todo. Ainda assim, já é dor bastante tê-lo entristecido em qualquer grau: fere-nos até o âmago pensar que ferimos o seu terno coração. Ele é zeloso, mas nunca sem causa. Se por um tempo nos volta as costas, sem dúvida tem razão mais que suficiente. Ele não andaria de modo contrário a nós se nós não tivéssemos andado de modo contrário a Ele. Ah, que triste obra é esta! A presença do Senhor faz desta vida o prefácio da vida celestial; mas a sua ausência nos deixa a definhar e a desfalecer, e nenhum consolo permanece na terra do nosso desterro. As Escrituras e as ordenanças, a devoção particular e o culto público, são todos como relógios de sol,—excelentíssimos quando o sol brilha, mas de pouca valia na escuridão. Ó Senhor Jesus, nada pode compensar-nos a tua perda! Aproxima-te outra vez do teu amado, pois sem ti a nossa noite jamais terminará.
“Vê! Eu me arrependo, e aflijo a minha alma,
Por te haver deixado assim!
Aonde rolarão essas vis afeições
Que deixaram partir o meu Salvador?”
Quando a comunhão com Cristo é quebrada, em todos os corações verdadeiros há um forte desejo de reconquistá-la. O homem que conheceu a alegria da comunhão com Cristo, se a perde, jamais se contentará até que ela seja restaurada. Já hospedaste o Príncipe Emanuel? Foi-se Ele para outro lugar? A tua câmara será desolada até que Ele volte. “Dá-me Cristo, ou então morro,” é o clamor de todo espírito que perdeu a querida companhia de Jesus. Não nos separamos de tais delícias celestiais sem muita pontada de dor. Para nós não é questão de “talvez Ele volte, e esperamos que volte;” mas tem de ser, ou desfalecemos e morremos. Não podemos viver sem Ele; e este é um sinal animador; pois a alma que não pode viver sem Ele não viverá sem Ele: Ele vem depressa onde a vida e a morte pendem de sua vinda. Se tens de ter Cristo, hás de tê-lo. É exatamente assim que estão as coisas: temos de beber deste poço ou morrer de sede; temos de nos alimentar de Jesus ou o nosso espírito perecerá de fome.
II. Avançaremos agora um passo, e diremos que, quando a comunhão com Cristo é quebrada, há grandes dificuldades no caminho de sua renovação. É muito mais fácil descer a encosta do que subir de novo à mesma altura. É muito mais fácil perder a alegria em Deus do que reencontrar a joia perdida. A esposa fala de “montes” que a separam de seu Amado: quer dizer que as dificuldades eram grandes. Não eram pequenas colinas, mas montes, que fechavam o seu caminho. Montes de pecado lembrado, Alpes de recaída, temíveis cordilheiras de esquecimento, ingratidão, mundanismo, frieza na oração, frivolidade, orgulho, incredulidade. Ai de mim, não posso ensinar-vos toda a sombria geografia desta triste experiência! Muralhas gigantescas erguiam-se diante dela como os cumes altaneiros do Líbano. Como poderia ela chegar ao seu Amado?
As dificuldades que a separavam eram muitas, tanto quanto grandes. Ela não fala de “um monte”, mas de “montes”: Alpes surgiam sobre Alpes, muralha após muralha. Angustiava-a pensar que, em tão pouco tempo, tanta coisa pudesse interpor-se entre ela e Aquele de quem há pouco cantava: “A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a sua direita me abrace.” Ai, com que triste rapidez multiplicamos estes montes de Beter! O nosso Senhor é zeloso, e nós lhe damos motivo em excesso para esconder o seu rosto. Uma falta, que parecia tão pequena no momento em que a cometemos, é vista à luz de suas próprias consequências, e então cresce e se avoluma até erguer-se ao alto, e esconder a face do Amado. Então o nosso sol se pôs, e o medo sussurra: “Voltará a sua luz algum dia? Amanhecerá algum dia? Fugirão as sombras algum dia?” É fácil afastar, entristecendo-a, a luz celestial do sol, mas ah, como é difícil limpar os céus, e reaver o brilho sem nuvens!
Talvez o pior de todos os pensamentos para a esposa fosse o pavor de que a barreira que a separava pudesse ser permanente. Era alta, mas poderia dissolver-se; as muralhas eram muitas, mas poderiam cair; mas, ai, eram montes, e estes permanecem firmes por eras! Ela sentia-se como o salmista, quando clamou: “o meu pecado está sempre diante de mim.” A dor da ausência do nosso Senhor torna-se intolerável quando tememos estar irremediavelmente excluídos dele. Uma noite pode-se suportar, esperando a manhã; mas e se o dia jamais despontasse? E tu e eu, se nos afastamos de Cristo, e sentimos que há cordilheiras de montes inamovíveis entre Ele e nós, ficaremos enfermos de coração. Tentamos orar, mas a devoção morre em nossos lábios. Tentamos aproximar-nos do Senhor à mesa da comunhão, mas sentimo-nos mais como Judas do que como João. Em tais tempos temos sentido que daríamos os nossos olhos por contemplar uma vez mais a face do Esposo, e por saber que Ele se deleita em nós como em dias mais felizes. Ainda ali se erguem os terríveis montes, negros, ameaçadores, intransponíveis; e na terra longínqua a Vida da nossa vida está distante, e entristecida.
Assim, a esposa parece ter chegado à conclusão de que as dificuldades em seu caminho eram intransponíveis por sua própria força. Ela nem sequer pensa em atravessar ela mesma os montes até o seu Amado, mas clama: “Até que refresque o dia, e fujam as sombras, volta, amado meu, e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes de Beter.” Ela não tentará escalar os montes, sabe que não pode: se fossem menos altos, poderia ter tentado; mas os seus cumes chegam ao céu. Se fossem menos escarpados ou difíceis, poderia ter tentado galgá-los; mas estes montes são terríveis, e nenhum pé pode firmar-se em seus penhascos solitários. Oh, a misericórdia do total desespero de si mesmo! Amo ver uma alma conduzida a esse canto apertado, e forçada por isso a olhar somente para Deus. O fim da criatura é o começo do Criador. Onde o pecador acaba, o Salvador começa. Se os montes podem ser escalados, teremos de escalá-los; mas se são de todo intransponíveis, então a alma clama com o profeta: “Ah! se fendesses os céus, e descesses, e os montes se escoassem diante da tua face! Como o fogo abrasador funde, e o fogo faz ferver as águas, para fazeres notório o teu nome aos teus adversários, para que as nações tremessem da tua presença! Quando fizeste coisas terríveis, que não esperávamos, desceste, e os montes se escoaram diante da tua face.” As nossas almas estão coxas, não podem mover-se em direção a Cristo, e voltamos para Ele os nossos ardentes desejos, e fixamos nossas esperanças somente nele; não se lembrará Ele de nós em amor, e voará até nós como fez ao seu servo de outrora, quando cavalgou sobre um querubim, e voou; sim, voou sobre as asas do vento?
III. Aqui se levanta aquela oração do texto que plenamente atende ao caso. “Volta, amado meu, e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes da divisão.” Jesus pode vir a nós quando não podemos ir a Ele. O gamo e o filho dos veados, ou, como se pode ler, a gazela e o cabrito-montês, vivem entre os penhascos dos montes, e saltam sobre o abismo com espantosa agilidade. Em velocidade e firmeza de pés são incomparáveis. O sagrado poeta disse: “Ele faz os meus pés como os das cervas, e me põe nas minhas alturas,” aludindo aos pés dessas criaturas que são tão aptas a firmar-se com segurança na encosta do monte. O nosso bendito Senhor é chamado, no título do vigésimo segundo Salmo, “a Corça da manhã”; e a esposa, neste dourado Cântico, canta: “O meu amado é semelhante ao gamo ou ao filho dos veados; ei-lo que vem saltando sobre os montes, pulando sobre os outeiros.”
Aqui eu vos lembraria de que esta é uma oração que podemos legitimamente oferecer, porque é próprio do modo de Cristo vir a nós quando o nosso ir a Ele está fora de questão. “Como assim?” dizeis. Respondo que outrora Ele fez isto; pois lembramo-nos do “seu grande amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos delitos e pecados.” A sua primeira vinda ao mundo em forma humana não foi porque o homem jamais poderia vir a Deus até que Deus tivesse vindo a ele? Não ouço falar de lágrimas, nem orações, nem súplicas em busca de Deus da parte de nossos primeiros pais; mas o Senhor ofendido deu espontaneamente a promessa de que a Semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente. A vinda do nosso Senhor ao mundo foi não comprada, não buscada, não imaginada; Ele veio inteiramente por sua própria e livre vontade, deleitando-se em redimir.
“Com olhos compassivos, o Príncipe da graça
Contemplou a nossa desamparada dor;
Ele viu, e (oh, amor assombroso!)
Correu em nosso socorro.”
A sua encarnação foi um tipo do modo como Ele vem a nós por seu Espírito. Ele nos viu lançados fora, contaminados, vergonhosos, perecendo; e ao passar por nós, os seus ternos lábios disseram: “Vive!” Em nós se cumpre aquela palavra: “Fui achado pelos que não me buscavam.” Éramos avessos demais à santidade, e cativos demais do pecado, para jamais termos voltado a Ele se Ele não se tivesse voltado para nós. Que pensais? Veio Ele a nós quando éramos inimigos, e não nos visitará agora que somos amigos? Veio Ele a nós quando éramos pecadores mortos, e não nos ouvirá agora que somos santos que choram? Se a vinda de Cristo à terra se deu desta maneira, e se a sua vinda a cada um de nós se deu neste estilo, bem podemos esperar que agora Ele venha a nós de igual modo, como o orvalho que refresca a relva, e não espera pelo homem, nem se detém pelos filhos dos homens. Além disso, Ele há de vir outra vez em pessoa, nos últimos dias, e montes de pecado, e erro, e idolatria, e superstição, e opressão erguem-se no caminho do seu reino; mas Ele certamente virá e transtornará, e transtornará, até que reine sobre tudo. Ele virá nos últimos dias, digo eu, ainda que tenha de saltar sobre os montes para fazê-lo, e por causa disso estou certo de que podemos concluir com conforto que Ele se aproximará de nós, que tão amargamente lamentamos a sua ausência. Então inclinemos por um momento as nossas cabeças, e apresentemos em silêncio à sua excelentíssima Majestade a petição do nosso texto: “Volta, amado meu, e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes da divisão.”
O nosso texto nos dá a doce certeza de que o nosso Senhor está à vontade com aquelas dificuldades que nos são de todo intransponíveis. Assim como o gamo ou o filho dos veados conhece as passagens dos montes, e os pontos de apoio entre as rochas escarpadas, e está isento de todo medo entre os desfiladeiros e os precipícios, assim conhece o nosso Senhor as alturas e as profundezas, as torrentes e as cavernas do nosso pecado e da nossa tristeza. Ele carregou toda a nossa transgressão, e assim tomou consciência da tremenda carga da nossa culpa. Ele está bem à vontade com as enfermidades da nossa natureza; conheceu a tentação no deserto, o partir do coração no jardim, o abandono na cruz. Ele está bem à vontade com a dor e a fraqueza, pois “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças.” Está à vontade com o desânimo, pois foi “homem de dores, e experimentado no sofrimento.” Está à vontade até mesmo com a morte, pois entregou o espírito, e passou pelo sepulcro até a ressurreição. Ó abismos escancarados e escarpas ameaçadoras da aflição, o nosso Amado, como cerva ou gamo, atravessou as vossas trevas! Ó meu Senhor, tu conheces tudo o que me separa de ti; e sabes também que sou fraco demais para escalar estes montes que nos dividem, de modo a poder chegar a ti; portanto, rogo-te, vem tu por sobre os montes ao encontro do meu espírito ansioso! Tu conheces cada abismo escancarado e cada escarpa escorregadia, mas nenhum destes pode deter-te; apressa-te para mim, teu servo, teu amado, e deixa-me de novo viver pela tua presença.
É fácil, também, para Cristo vir por sobre os montes em nosso socorro. É fácil para a gazela cruzar os montes, para isso foi feita; assim é fácil para Jesus, pois para este fim foi Ele ordenado desde a antiguidade, para que viesse ao homem em seu pior estado, e trouxesse consigo o amor do Pai. Que é que nos separa de Cristo? Será um senso de pecado? Foste perdoado uma vez, e Jesus pode renovar do modo mais vívido um senso de pleno perdão. Mas dizes: “Ai! pequei de novo: nova culpa me alarma.” Ele pode removê-la num instante, pois a fonte designada para esse fim está aberta, e ainda está cheia. É fácil para os queridos lábios do amor redentor afastar as ofensas do filho, visto que já obteve o perdão das iniquidades do criminoso. Se com o sangue do seu coração conquistou o nosso perdão junto ao nosso Juiz, pode facilmente trazer-nos o perdão do nosso Pai. Oh, sim, é bem fácil para Cristo dizer outra vez: “Os teus pecados estão perdoados”! “Mas sinto-me tão inapto, tão incapaz de desfrutar a comunhão.” Aquele que curou toda sorte de doenças corporais pode curar com uma palavra as tuas enfermidades espirituais. Lembra-te do homem cujos tornozelos receberam força, de modo que andou e saltou; e daquela que ardia em febre, e foi curada de imediato, e se levantou, e servia ao seu Senhor. “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” “Mas tenho tais aflições, tais tribulações, tais tristezas, que estou esmagado, e não posso erguer-me à comunhão jubilosa.” Sim, mas Jesus pode tornar leve todo fardo, e fazer suave cada jugo. As tuas provações podem ser feitas auxiliar o teu curso rumo ao céu, em vez de impedi-lo. Sei tudo a respeito desses pesos pesados, e percebo que não podes levantá-los; mas engenheiros hábeis podem dispor cordas e roldanas de tal modo que pesos pesados levantem outros pesos. O Senhor Jesus é insuperável em maquinaria de graça, e possui a arte de fazer que um peso de tribulação levante de nós uma carga de morte espiritual, de modo que ascendemos por aquilo mesmo que, como uma mó, ameaçava afundar-nos.
Que mais impede? Estou certo de que, se fosse uma pura impossibilidade, o Senhor Jesus poderia removê-la, pois as coisas impossíveis aos homens são possíveis a Deus. Mas alguém objeta: “Sou tão indigno de Cristo. Posso compreender que eminentes santos e discípulos amados sejam grandemente favorecidos, mas eu sou um verme, e não um homem; totalmente abaixo de tamanha condescendência.” É assim que dizes? Não sabes que a dignidade de Cristo cobre a tua indignidade, e que Ele foi feito por Deus, para ti, sabedoria, justiça, santificação e redenção? Em Cristo, o Pai não pensa de ti tão baixamente quanto tu pensas de ti mesmo; não és digno de ser chamado seu filho, mas Ele te chama assim, e te conta entre as suas joias. Escuta, e o ouvirás dizer: “Visto que foste precioso aos meus olhos, também foste honrado, e eu te amei. Dei o Egito por teu resgate, a Etiópia e Sebá por ti.” Assim, então, nada resta que Jesus não possa transpor de um salto, se resolver vir a ti, e restabelecer a tua comunhão quebrada.
Para concluir, o nosso Senhor pode fazer tudo isto imediatamente. Assim como num abrir e fechar de olhos os mortos serão ressuscitados incorruptíveis, também num momento podem as nossas mortas afeições erguer-se à plenitude do deleite. Ele pode dizer a este monte: “Ergue-te, e lança-te no meio do mar,” e assim se fará. Nos sagrados emblemas que agora estão sobre esta mesa da ceia, Jesus já está entre nós. A fé clama: “Ele veio!” Como João Batista, ela o contempla intensamente, e clama: “Eis o Cordeiro de Deus!” A esta mesa Jesus nos alimenta com o seu corpo e o seu sangue. A sua presença corporal não a temos, mas a sua real presença espiritual nós a percebemos. Somos como os discípulos, quando nenhum deles ousava perguntar-lhe: “Quem és tu?” sabendo que era o Senhor. Ele veio. Ele espreita por estas janelas,—refiro-me a este pão e a este vinho; mostrando-se através das grades desta instrutiva e afetuosa ordenança. Ele fala. Ele diz: “Já passou o inverno; a chuva cessou, e se foi.” E assim é; sentimos que assim é: uma primavera celestial aquece os nossos corações gelados. Como a esposa, clamamos maravilhados: “Antes que eu o percebesse, a minha alma me pôs como os carros de Aminadabe.” Agora, em feliz comunhão, vemos o Amado, e ouvimos a sua voz; o nosso coração arde; as nossas afeições ardem; estamos felizes, tranquilos, transbordando de deleite. O Rei nos trouxe à sua casa do banquete, e o seu estandarte sobre nós é o amor. É bom estar aqui!
Amigos, temos agora de seguir cada um o seu caminho. Uma voz diz: “Levantai-vos, vamo-nos daqui.” Ó tu, Senhor dos nossos corações, vai conosco! O lar não será lar sem ti. A vida não será vida sem ti. O próprio céu não seria céu se tu estivesses ausente. Fica conosco. O mundo escurece, o crepúsculo do tempo se aproxima. Fica conosco, pois a tarde já vem. Os nossos anos aumentam, e nos aproximamos da noite em que o orvalho cai frio e gelado. Um grande futuro está todo ao nosso redor, os esplendores da última era estão descendo; e enquanto esperamos em solene e reverente expectativa, o nosso coração clama continuamente dentro de si: “Até que refresque o dia, e fujam as sombras, volta, amado meu, e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes da divisão.”
“Apressa, Senhor! a hora prometida;
Vem em glória e em poder;
Ainda os teus inimigos não estão subjugados;
A natureza suspira por ser renovada.
O tempo quase alcançou o seu termo,
Todas as coisas com a tua esposa dizem ‘Vem;’
Jesus, a quem todos os mundos adoram,
Vem e reina para todo o sempre!”
Capítulo 5 concluído
Sobre os Montes