Até que Ele Venha
Sobre os Montes

Capítulo 5 · 20 min de leitura

Sobre os Montes

SOBRE OS MONTES.“O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta entre os lírios. Até que refresque o dia, e fujam as sombras, volta, amado meu, e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes de Beter.”— Cântico dos Cânticos ii. 16, 17.

SOBRE OS MONTES.

PODE ser que haja santos que estejam sempre no seu melhor, e sejam felizes o bastante para nunca perderem a luz do rosto de seu Pai. Não estou certo de que existam tais pessoas, pois os crentes com quem tive maior intimidade tiveram uma experiência variada; e aqueles que conheci, que se gabavam de sua constante perfeição, não foram os indivíduos mais dignos de confiança. Espero que haja uma região espiritual alcançável onde não haja nuvens a esconder o Sol de nossa alma; mas não posso falar com certeza, pois não percorri essa terra feliz. Cada ano de minha vida teve tanto um inverno quanto um verão, e cada dia a sua noite. Até aqui vi claros resplendores e chuvas pesadas, e senti brisas quentes e ventos ferozes. Falando em nome de muitos de meus irmãos, confesso que, embora a seiva esteja em nós, como no terebinto e no carvalho, ainda assim perdemos as folhas, e a seiva dentro de nós não flui com igual vigor em todas as estações. Temos nossas descidas assim como nossas subidas, nossos vales assim como nossos montes. Nem sempre nos regozijamos; às vezes estamos abatidos por meio de múltiplas provações. Ai! Entristece-nos confessar que a nossa comunhão com o Bem-amado nem sempre é a de um deleite arrebatador; mas por vezes temos de buscá-lo, e clamar: “Ah, se eu soubesse onde o poderia achar!” Isto me parece ter sido, em certa medida, a condição da esposa quando ela clamou: “Até que refresque o dia, e fujam as sombras, volta, amado meu.”

I. Estas palavras nos ensinam, primeiramente, que a comunhão pode ser quebrada. A esposa havia perdido a companhia de seu Esposo: a comunhão consciente com Ele se fora, ainda que ela amasse o seu Senhor e suspirasse por Ele. Em sua solidão estava triste; mas de modo algum havia deixado de amá-lo, pois O chama de seu Amado, e fala como quem não sentia dúvida alguma quanto a esse ponto. O amor ao Senhor Jesus pode ser tão verdadeiro, e talvez tão forte, quando estamos sentados nas trevas como quando andamos na luz. Mais ainda, ela não havia perdido a certeza do amor dele por ela, nem do mútuo interesse que tinham um pelo outro; pois diz: “O meu amado é meu, e eu sou dele;” e todavia acrescenta: “Volta, amado meu.” A condição de nossas graças nem sempre coincide com o estado de nossas alegrias. Podemos ser ricos em fé e amor, e ainda ter tão baixa estima de nós mesmos que fiquemos muito abatidos.

É evidente, por este Sagrado Cântico, que a esposa pode amar e ser amada, pode confiar em seu Senhor, e estar plenamente segura de que O possui, e todavia haver, por ora, montes entre ela e Ele. Sim, podemos até estar muito adiantados na vida divina, e ainda assim ser exilados por um tempo da comunhão consciente. Há noites para os homens tanto quanto para as crianças, e os fortes sabem que o sol está oculto tão bem quanto o sabem os enfermos e os fracos. Não te condenes, portanto, meu irmão, porque uma nuvem paira sobre ti; não lances fora a tua confiança; antes, deixa que a fé se acenda em meio à escuridão, e que o teu amor se resolva a chegar de novo ao teu Senhor, quaisquer que sejam as barreiras que te separam dele.

Quando Jesus está ausente de um verdadeiro herdeiro do céu, sobrevirá a tristeza. Quanto mais sadia a nossa condição, tanto mais cedo essa ausência será percebida, e tanto mais profundamente será lamentada. Esta tristeza é descrita no texto como trevas; isto está implícito na expressão: “Até que refresque o dia.” Até que Cristo apareça, nenhum dia despontou para nós. Habitamos em trevas de meia-noite; as estrelas das promessas e a lua da experiência não dão luz de consolo até que o nosso Senhor, como o sol, se levante e ponha fim à noite. Precisamos ter Cristo conosco, ou estamos mergulhados em treva: tateamos como cegos à procura da parede, e vagamos em desalento.

A esposa também fala de sombras. “Até que refresque o dia, e fujam as sombras.” As sombras se multiplicam com a partida do sol, e estas costumam afligir os medrosos. Não tememos inimigos reais quando Jesus está conosco; mas quando sentimos a sua falta, trememos diante de uma sombra. Quão doce é aquele cântico: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam!” Mas mudamos de tom quando a meia-noite já chegou, e Jesus não está conosco: então povoamos a noite de terrores; espectros, demônios, duendes, e coisas que jamais existiram senão na imaginação, costumam enxamear ao nosso redor; e ficamos com medo onde não há medo algum.

O pior tormento da esposa era que as costas de seu Amado estavam voltadas para ela, e por isso clamou: “Volta, amado meu.” Quando a face dele está voltada para ela, ela se aquece ao sol do seu amor; mas se a luz do seu rosto é retirada, ela fica gravemente atribulada. O nosso Senhor volta o seu rosto para longe do seu povo, ainda que nunca volte o seu coração para longe do seu povo. Ele pode até fechar os olhos no sono quando a barca é sacudida pela tempestade, mas o seu coração está desperto o tempo todo. Ainda assim, já é dor bastante tê-lo entristecido em qualquer grau: fere-nos até o âmago pensar que ferimos o seu terno coração. Ele é zeloso, mas nunca sem causa. Se por um tempo nos volta as costas, sem dúvida tem razão mais que suficiente. Ele não andaria de modo contrário a nós se nós não tivéssemos andado de modo contrário a Ele. Ah, que triste obra é esta! A presença do Senhor faz desta vida o prefácio da vida celestial; mas a sua ausência nos deixa a definhar e a desfalecer, e nenhum consolo permanece na terra do nosso desterro. As Escrituras e as ordenanças, a devoção particular e o culto público, são todos como relógios de sol,—excelentíssimos quando o sol brilha, mas de pouca valia na escuridão. Ó Senhor Jesus, nada pode compensar-nos a tua perda! Aproxima-te outra vez do teu amado, pois sem ti a nossa noite jamais terminará.

“Vê! Eu me arrependo, e aflijo a minha alma,

Por te haver deixado assim!

Aonde rolarão essas vis afeições

Que deixaram partir o meu Salvador?”

Quando a comunhão com Cristo é quebrada, em todos os corações verdadeiros há um forte desejo de reconquistá-la. O homem que conheceu a alegria da comunhão com Cristo, se a perde, jamais se contentará até que ela seja restaurada. Já hospedaste o Príncipe Emanuel? Foi-se Ele para outro lugar? A tua câmara será desolada até que Ele volte. “Dá-me Cristo, ou então morro,” é o clamor de todo espírito que perdeu a querida companhia de Jesus. Não nos separamos de tais delícias celestiais sem muita pontada de dor. Para nós não é questão de “talvez Ele volte, e esperamos que volte;” mas tem de ser, ou desfalecemos e morremos. Não podemos viver sem Ele; e este é um sinal animador; pois a alma que não pode viver sem Ele não viverá sem Ele: Ele vem depressa onde a vida e a morte pendem de sua vinda. Se tens de ter Cristo, hás de tê-lo. É exatamente assim que estão as coisas: temos de beber deste poço ou morrer de sede; temos de nos alimentar de Jesus ou o nosso espírito perecerá de fome.

II. Avançaremos agora um passo, e diremos que, quando a comunhão com Cristo é quebrada, há grandes dificuldades no caminho de sua renovação. É muito mais fácil descer a encosta do que subir de novo à mesma altura. É muito mais fácil perder a alegria em Deus do que reencontrar a joia perdida. A esposa fala de “montes” que a separam de seu Amado: quer dizer que as dificuldades eram grandes. Não eram pequenas colinas, mas montes, que fechavam o seu caminho. Montes de pecado lembrado, Alpes de recaída, temíveis cordilheiras de esquecimento, ingratidão, mundanismo, frieza na oração, frivolidade, orgulho, incredulidade. Ai de mim, não posso ensinar-vos toda a sombria geografia desta triste experiência! Muralhas gigantescas erguiam-se diante dela como os cumes altaneiros do Líbano. Como poderia ela chegar ao seu Amado?

As dificuldades que a separavam eram muitas, tanto quanto grandes. Ela não fala de “um monte”, mas de “montes”: Alpes surgiam sobre Alpes, muralha após muralha. Angustiava-a pensar que, em tão pouco tempo, tanta coisa pudesse interpor-se entre ela e Aquele de quem há pouco cantava: “A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a sua direita me abrace.” Ai, com que triste rapidez multiplicamos estes montes de Beter! O nosso Senhor é zeloso, e nós lhe damos motivo em excesso para esconder o seu rosto. Uma falta, que parecia tão pequena no momento em que a cometemos, é vista à luz de suas próprias consequências, e então cresce e se avoluma até erguer-se ao alto, e esconder a face do Amado. Então o nosso sol se pôs, e o medo sussurra: “Voltará a sua luz algum dia? Amanhecerá algum dia? Fugirão as sombras algum dia?” É fácil afastar, entristecendo-a, a luz celestial do sol, mas ah, como é difícil limpar os céus, e reaver o brilho sem nuvens!

Talvez o pior de todos os pensamentos para a esposa fosse o pavor de que a barreira que a separava pudesse ser permanente. Era alta, mas poderia dissolver-se; as muralhas eram muitas, mas poderiam cair; mas, ai, eram montes, e estes permanecem firmes por eras! Ela sentia-se como o salmista, quando clamou: “o meu pecado está sempre diante de mim.” A dor da ausência do nosso Senhor torna-se intolerável quando tememos estar irremediavelmente excluídos dele. Uma noite pode-se suportar, esperando a manhã; mas e se o dia jamais despontasse? E tu e eu, se nos afastamos de Cristo, e sentimos que há cordilheiras de montes inamovíveis entre Ele e nós, ficaremos enfermos de coração. Tentamos orar, mas a devoção morre em nossos lábios. Tentamos aproximar-nos do Senhor à mesa da comunhão, mas sentimo-nos mais como Judas do que como João. Em tais tempos temos sentido que daríamos os nossos olhos por contemplar uma vez mais a face do Esposo, e por saber que Ele se deleita em nós como em dias mais felizes. Ainda ali se erguem os terríveis montes, negros, ameaçadores, intransponíveis; e na terra longínqua a Vida da nossa vida está distante, e entristecida.

Assim, a esposa parece ter chegado à conclusão de que as dificuldades em seu caminho eram intransponíveis por sua própria força. Ela nem sequer pensa em atravessar ela mesma os montes até o seu Amado, mas clama: “Até que refresque o dia, e fujam as sombras, volta, amado meu, e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes de Beter.” Ela não tentará escalar os montes, sabe que não pode: se fossem menos altos, poderia ter tentado; mas os seus cumes chegam ao céu. Se fossem menos escarpados ou difíceis, poderia ter tentado galgá-los; mas estes montes são terríveis, e nenhum pé pode firmar-se em seus penhascos solitários. Oh, a misericórdia do total desespero de si mesmo! Amo ver uma alma conduzida a esse canto apertado, e forçada por isso a olhar somente para Deus. O fim da criatura é o começo do Criador. Onde o pecador acaba, o Salvador começa. Se os montes podem ser escalados, teremos de escalá-los; mas se são de todo intransponíveis, então a alma clama com o profeta: “Ah! se fendesses os céus, e descesses, e os montes se escoassem diante da tua face! Como o fogo abrasador funde, e o fogo faz ferver as águas, para fazeres notório o teu nome aos teus adversários, para que as nações tremessem da tua presença! Quando fizeste coisas terríveis, que não esperávamos, desceste, e os montes se escoaram diante da tua face.” As nossas almas estão coxas, não podem mover-se em direção a Cristo, e voltamos para Ele os nossos ardentes desejos, e fixamos nossas esperanças somente nele; não se lembrará Ele de nós em amor, e voará até nós como fez ao seu servo de outrora, quando cavalgou sobre um querubim, e voou; sim, voou sobre as asas do vento?

III. Aqui se levanta aquela oração do texto que plenamente atende ao caso. “Volta, amado meu, e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes da divisão.” Jesus pode vir a nós quando não podemos ir a Ele. O gamo e o filho dos veados, ou, como se pode ler, a gazela e o cabrito-montês, vivem entre os penhascos dos montes, e saltam sobre o abismo com espantosa agilidade. Em velocidade e firmeza de pés são incomparáveis. O sagrado poeta disse: “Ele faz os meus pés como os das cervas, e me põe nas minhas alturas,” aludindo aos pés dessas criaturas que são tão aptas a firmar-se com segurança na encosta do monte. O nosso bendito Senhor é chamado, no título do vigésimo segundo Salmo, “a Corça da manhã”; e a esposa, neste dourado Cântico, canta: “O meu amado é semelhante ao gamo ou ao filho dos veados; ei-lo que vem saltando sobre os montes, pulando sobre os outeiros.”

Aqui eu vos lembraria de que esta é uma oração que podemos legitimamente oferecer, porque é próprio do modo de Cristo vir a nós quando o nosso ir a Ele está fora de questão. “Como assim?” dizeis. Respondo que outrora Ele fez isto; pois lembramo-nos do “seu grande amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos delitos e pecados.” A sua primeira vinda ao mundo em forma humana não foi porque o homem jamais poderia vir a Deus até que Deus tivesse vindo a ele? Não ouço falar de lágrimas, nem orações, nem súplicas em busca de Deus da parte de nossos primeiros pais; mas o Senhor ofendido deu espontaneamente a promessa de que a Semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente. A vinda do nosso Senhor ao mundo foi não comprada, não buscada, não imaginada; Ele veio inteiramente por sua própria e livre vontade, deleitando-se em redimir.

“Com olhos compassivos, o Príncipe da graça

Contemplou a nossa desamparada dor;

Ele viu, e (oh, amor assombroso!)

Correu em nosso socorro.”

A sua encarnação foi um tipo do modo como Ele vem a nós por seu Espírito. Ele nos viu lançados fora, contaminados, vergonhosos, perecendo; e ao passar por nós, os seus ternos lábios disseram: “Vive!” Em nós se cumpre aquela palavra: “Fui achado pelos que não me buscavam.” Éramos avessos demais à santidade, e cativos demais do pecado, para jamais termos voltado a Ele se Ele não se tivesse voltado para nós. Que pensais? Veio Ele a nós quando éramos inimigos, e não nos visitará agora que somos amigos? Veio Ele a nós quando éramos pecadores mortos, e não nos ouvirá agora que somos santos que choram? Se a vinda de Cristo à terra se deu desta maneira, e se a sua vinda a cada um de nós se deu neste estilo, bem podemos esperar que agora Ele venha a nós de igual modo, como o orvalho que refresca a relva, e não espera pelo homem, nem se detém pelos filhos dos homens. Além disso, Ele há de vir outra vez em pessoa, nos últimos dias, e montes de pecado, e erro, e idolatria, e superstição, e opressão erguem-se no caminho do seu reino; mas Ele certamente virá e transtornará, e transtornará, até que reine sobre tudo. Ele virá nos últimos dias, digo eu, ainda que tenha de saltar sobre os montes para fazê-lo, e por causa disso estou certo de que podemos concluir com conforto que Ele se aproximará de nós, que tão amargamente lamentamos a sua ausência. Então inclinemos por um momento as nossas cabeças, e apresentemos em silêncio à sua excelentíssima Majestade a petição do nosso texto: “Volta, amado meu, e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes da divisão.”

O nosso texto nos dá a doce certeza de que o nosso Senhor está à vontade com aquelas dificuldades que nos são de todo intransponíveis. Assim como o gamo ou o filho dos veados conhece as passagens dos montes, e os pontos de apoio entre as rochas escarpadas, e está isento de todo medo entre os desfiladeiros e os precipícios, assim conhece o nosso Senhor as alturas e as profundezas, as torrentes e as cavernas do nosso pecado e da nossa tristeza. Ele carregou toda a nossa transgressão, e assim tomou consciência da tremenda carga da nossa culpa. Ele está bem à vontade com as enfermidades da nossa natureza; conheceu a tentação no deserto, o partir do coração no jardim, o abandono na cruz. Ele está bem à vontade com a dor e a fraqueza, pois “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças.” Está à vontade com o desânimo, pois foi “homem de dores, e experimentado no sofrimento.” Está à vontade até mesmo com a morte, pois entregou o espírito, e passou pelo sepulcro até a ressurreição. Ó abismos escancarados e escarpas ameaçadoras da aflição, o nosso Amado, como cerva ou gamo, atravessou as vossas trevas! Ó meu Senhor, tu conheces tudo o que me separa de ti; e sabes também que sou fraco demais para escalar estes montes que nos dividem, de modo a poder chegar a ti; portanto, rogo-te, vem tu por sobre os montes ao encontro do meu espírito ansioso! Tu conheces cada abismo escancarado e cada escarpa escorregadia, mas nenhum destes pode deter-te; apressa-te para mim, teu servo, teu amado, e deixa-me de novo viver pela tua presença.

É fácil, também, para Cristo vir por sobre os montes em nosso socorro. É fácil para a gazela cruzar os montes, para isso foi feita; assim é fácil para Jesus, pois para este fim foi Ele ordenado desde a antiguidade, para que viesse ao homem em seu pior estado, e trouxesse consigo o amor do Pai. Que é que nos separa de Cristo? Será um senso de pecado? Foste perdoado uma vez, e Jesus pode renovar do modo mais vívido um senso de pleno perdão. Mas dizes: “Ai! pequei de novo: nova culpa me alarma.” Ele pode removê-la num instante, pois a fonte designada para esse fim está aberta, e ainda está cheia. É fácil para os queridos lábios do amor redentor afastar as ofensas do filho, visto que já obteve o perdão das iniquidades do criminoso. Se com o sangue do seu coração conquistou o nosso perdão junto ao nosso Juiz, pode facilmente trazer-nos o perdão do nosso Pai. Oh, sim, é bem fácil para Cristo dizer outra vez: “Os teus pecados estão perdoados”! “Mas sinto-me tão inapto, tão incapaz de desfrutar a comunhão.” Aquele que curou toda sorte de doenças corporais pode curar com uma palavra as tuas enfermidades espirituais. Lembra-te do homem cujos tornozelos receberam força, de modo que andou e saltou; e daquela que ardia em febre, e foi curada de imediato, e se levantou, e servia ao seu Senhor. “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” “Mas tenho tais aflições, tais tribulações, tais tristezas, que estou esmagado, e não posso erguer-me à comunhão jubilosa.” Sim, mas Jesus pode tornar leve todo fardo, e fazer suave cada jugo. As tuas provações podem ser feitas auxiliar o teu curso rumo ao céu, em vez de impedi-lo. Sei tudo a respeito desses pesos pesados, e percebo que não podes levantá-los; mas engenheiros hábeis podem dispor cordas e roldanas de tal modo que pesos pesados levantem outros pesos. O Senhor Jesus é insuperável em maquinaria de graça, e possui a arte de fazer que um peso de tribulação levante de nós uma carga de morte espiritual, de modo que ascendemos por aquilo mesmo que, como uma mó, ameaçava afundar-nos.

Que mais impede? Estou certo de que, se fosse uma pura impossibilidade, o Senhor Jesus poderia removê-la, pois as coisas impossíveis aos homens são possíveis a Deus. Mas alguém objeta: “Sou tão indigno de Cristo. Posso compreender que eminentes santos e discípulos amados sejam grandemente favorecidos, mas eu sou um verme, e não um homem; totalmente abaixo de tamanha condescendência.” É assim que dizes? Não sabes que a dignidade de Cristo cobre a tua indignidade, e que Ele foi feito por Deus, para ti, sabedoria, justiça, santificação e redenção? Em Cristo, o Pai não pensa de ti tão baixamente quanto tu pensas de ti mesmo; não és digno de ser chamado seu filho, mas Ele te chama assim, e te conta entre as suas joias. Escuta, e o ouvirás dizer: “Visto que foste precioso aos meus olhos, também foste honrado, e eu te amei. Dei o Egito por teu resgate, a Etiópia e Sebá por ti.” Assim, então, nada resta que Jesus não possa transpor de um salto, se resolver vir a ti, e restabelecer a tua comunhão quebrada.

Para concluir, o nosso Senhor pode fazer tudo isto imediatamente. Assim como num abrir e fechar de olhos os mortos serão ressuscitados incorruptíveis, também num momento podem as nossas mortas afeições erguer-se à plenitude do deleite. Ele pode dizer a este monte: “Ergue-te, e lança-te no meio do mar,” e assim se fará. Nos sagrados emblemas que agora estão sobre esta mesa da ceia, Jesus já está entre nós. A fé clama: “Ele veio!” Como João Batista, ela o contempla intensamente, e clama: “Eis o Cordeiro de Deus!” A esta mesa Jesus nos alimenta com o seu corpo e o seu sangue. A sua presença corporal não a temos, mas a sua real presença espiritual nós a percebemos. Somos como os discípulos, quando nenhum deles ousava perguntar-lhe: “Quem és tu?” sabendo que era o Senhor. Ele veio. Ele espreita por estas janelas,—refiro-me a este pão e a este vinho; mostrando-se através das grades desta instrutiva e afetuosa ordenança. Ele fala. Ele diz: “Já passou o inverno; a chuva cessou, e se foi.” E assim é; sentimos que assim é: uma primavera celestial aquece os nossos corações gelados. Como a esposa, clamamos maravilhados: “Antes que eu o percebesse, a minha alma me pôs como os carros de Aminadabe.” Agora, em feliz comunhão, vemos o Amado, e ouvimos a sua voz; o nosso coração arde; as nossas afeições ardem; estamos felizes, tranquilos, transbordando de deleite. O Rei nos trouxe à sua casa do banquete, e o seu estandarte sobre nós é o amor. É bom estar aqui!

Amigos, temos agora de seguir cada um o seu caminho. Uma voz diz: “Levantai-vos, vamo-nos daqui.” Ó tu, Senhor dos nossos corações, vai conosco! O lar não será lar sem ti. A vida não será vida sem ti. O próprio céu não seria céu se tu estivesses ausente. Fica conosco. O mundo escurece, o crepúsculo do tempo se aproxima. Fica conosco, pois a tarde já vem. Os nossos anos aumentam, e nos aproximamos da noite em que o orvalho cai frio e gelado. Um grande futuro está todo ao nosso redor, os esplendores da última era estão descendo; e enquanto esperamos em solene e reverente expectativa, o nosso coração clama continuamente dentro de si: “Até que refresque o dia, e fujam as sombras, volta, amado meu, e faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes da divisão.”

“Apressa, Senhor! a hora prometida;

Vem em glória e em poder;

Ainda os teus inimigos não estão subjugados;

A natureza suspira por ser renovada.

O tempo quase alcançou o seu termo,

Todas as coisas com a tua esposa dizem ‘Vem;’

Jesus, a quem todos os mundos adoram,

Vem e reina para todo o sempre!”

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