Capítulo 6 · 31 min de leitura
Especiarias Fragrantes dos Montes de Mirra
ESPECIARIAS FRAGRANTES DOS MONTES DE MIRRA.
QUÃO maravilhosas são estas palavras! “Tu és toda formosa, amiga minha, e não há mancha em ti.” O glorioso Esposo está encantado com a sua esposa, e canta suaves cânticos de admiração. Quando a esposa exalta o seu Senhor, não há de que admirar-se, pois Ele bem o merece, e nele há lugar para louvor sem possibilidade de lisonja. Mas será que Aquele que é mais sábio do que Salomão se digna a louvar esta Sulamita queimada de sol? É bem assim, pois estas são as suas próprias palavras, e foram proferidas por seus próprios doces lábios. Não, não duvides, ó jovem crente, pois temos maiores maravilhas a revelar! Há profundezas maiores nas coisas celestiais do que até agora ousaste esperar. A Igreja não somente é toda formosa aos olhos de seu Amado, mas, em certo sentido, sempre o foi.
“No decreto de Deus, contemplou a sua forma;
Toda formosa aos seus olhos ela estava,
Apresentada pelo nome eterno,
Desposada em amor, e livre de culpa.
“Não como ela ficou na queda de Adão,
Quando culpa e ruína tudo cobriram;
Mas como ela há de estar em outro dia,
Mais formosa que o raio meridiano do sol.”
Ele se deleitava nela antes que ela tivesse ser natural ou espiritual, e desde o princípio podia dizer: “as minhas delícias estavam com os filhos dos homens.” (Prov. viii. 31.) Havendo-se comprometido a ser o Fiador dos eleitos, e havendo determinado cumprir cada estipulação daquele concerto, Ele, desde toda a eternidade, deleitava-se em contemplar a aquisição do seu sangue, e regozijava-se em ver a sua Igreja, no propósito e no decreto, como já por Ele libertada do pecado, e exaltada à glória e à felicidade.
“Ó graça gloriosa, plano misterioso,
Grande demais para a mente angélica sondar,
Perdem-se os nossos pensamentos, faltam os números;
Salve, amor redentor, salve!”
Agora, com gozo e alegria, aproximemo-nos do tema do deleite de Cristo em sua Igreja, tal como declarado por Aquele que o Espírito selou em nossos corações como a Testemunha fiel e verdadeira.
O nosso primeiro feixe de mirra jaz na mão aberta do texto.
I. Cristo tem alta estima por sua Igreja. Ele não admira cegamente as faltas dela, nem sequer as esconde de si mesmo. Está a par do pecado dela, em toda a atrocidade de sua culpa, e no merecimento de sua punição. Esse pecado Ele não se esquiva de repreender. Suas próprias palavras são: “Eu repreendo e castigo a todos quantos amo.” (Ap. iii. 19.) Ele abomina o pecado nela tanto quanto no mundo ímpio, e até mais, pois vê nela um mal que não se acha nas transgressões dos outros,—o pecado contra o amor e a graça. Ela é negra aos seus próprios olhos; quanto mais aos olhos de seu onisciente Senhor! Contudo ali está, escrito pela inspiração do Espírito Santo, e brotando dos lábios do Esposo: “Tu és toda formosa, amiga minha, e não há mancha em ti.” Como pode ser isto, então? Será mero exagero do amor, um cântico entusiástico, que a mão sóbria da verdade deve despojar de suas fábulas resplandecentes? Oh, não! O Rei está cheio de amor, mas não está de tal modo dominado por ele a ponto de esquecer a sua razão. As palavras são verdadeiras, e Ele quer que as entendamos como a expressão honesta de seu juízo imparcial, depois de tê-la examinado pacientemente em cada parte. Ele não quer que diminuamos coisa alguma, mas que avaliemos o ouro de suas opiniões pelo brilho reluzente de suas expressões; e, portanto, para que não haja engano, Ele o afirma positivamente: “Tu és toda formosa, amiga minha,” e o confirma por uma negativa: “não há mancha em ti.”
Quando Ele fala positivamente, quão completa é a sua admiração! Ela é “formosa”, mas isto não é uma descrição plena; Ele a chama “toda formosa.” Ele a contempla em si mesmo, lavada em seu sangue que expia o pecado, e vestida em sua meritória justiça, e a considera cheia de graça e beleza. Não é de admirar que assim seja, visto que são apenas as suas próprias e perfeitas excelências que Ele admira, pois a santidade, a glória e a perfeição de sua Igreja são as suas próprias vestes sobre a sua bem-amada esposa, e ela é “osso de seus ossos, e carne de sua carne.” Ela não é simplesmente pura, ou bem proporcionada; ela é positivamente adorável e formosa! Ela tem mérito real! As suas deformidades de pecado são removidas; mas, mais que isso, ela obteve, por meio de seu Senhor, uma justiça meritória pela qual lhe é conferida uma beleza real. Aos crentes é dada uma justiça positiva quando se tornam “agradáveis no Amado.” (Ef. i. 6.)
Nem é a Igreja apenas adorável, ela o é superlativamente. O seu Senhor a chama: “ó tu, a mais formosa entre as mulheres.” (Cânt. i. 8.) Ela tem um valor e uma excelência reais que não podem ser rivalizados por toda a nobreza e realeza do mundo. Se Jesus pudesse trocar a sua eleita esposa por todas as rainhas e imperatrizes da terra, ou mesmo pelos anjos no céu, não o faria, pois a põe em primeiro e principal lugar,—“a mais formosa entre as mulheres.” Nem é esta uma opinião de que Ele se envergonhe, pois convida todos os homens a ouvi-la. Ele lhe põe adiante um “eis”, uma especial nota de exclamação, convidando e prendendo a atenção. “Eis que és formosa, amiga minha; eis que és formosa.” (Cânt. iv. 1.) A sua opinião Ele a publica por toda parte ainda agora, e um dia, do trono de sua glória, avocará a verdade dela diante do universo reunido. “Vinde, benditos de meu Pai” (Mat. xxv. 34), será a sua solene afirmação da beleza dos seus eleitos.
Notemos bem as repetidas sentenças de sua aprovação.
“Eis que és formosa! eis que és formosa!
Duas vezes formosa és, digo eu;
A minha justiça e as minhas graças são
O teu duplo e brilhante ornamento.
“Mas visto que a tua fé mal pode reconhecer
A minha beleza sobre ti posta;
Eis! eis! duas vezes seja sabido
Tu és toda formosa para Mim!”
Ele volta de novo ao tema, uma segunda vez fita aqueles olhos de pomba dela, e escuta os seus lábios que gotejam mel. Não lhe basta dizer: “Eis que és formosa, amiga minha;” Ele toca de novo aquele sino de ouro, e canta de novo, e outra vez: “Eis que és formosa.”
Depois de haver contemplado toda a sua pessoa com arrebatado deleite, Ele não pode ficar satisfeito até que lhe lance um segundo olhar, e de novo enumere as suas belezas. Fazendo pouca diferença entre a sua primeira descrição e a última, acrescenta expressões extraordinárias de amor para manifestar o seu crescente deleite. “Formosa és, amiga minha, como Tirza, aprazível como Jerusalém, terrível como um exército com bandeiras. Desvia de mim os teus olhos, porque eles me venceram; o teu cabelo é como o rebanho de cabras que aparecem em Gileade. Os teus dentes são como o rebanho de ovelhas que sobem do lavadouro, e das quais todas produzem gêmeos, e nenhuma há estéril entre elas. A tua fronte é qual um pedaço de romã entre as tuas tranças. . . . Uma só é a minha pomba, a minha imaculada; é a única de sua mãe, a escolhida daquela que a deu à luz.” (Cânt. vi. 4-7, 9.)
A beleza que Ele admira é universal: Ele está tão encantado com a fronte dela quanto com o seu seio. Todos os seus ofícios, todas as suas puras devoções, todos os seus fervorosos labores, todos os seus constantes sofrimentos, são preciosos ao seu coração. Ela é “toda formosa.” O seu ministério, os seus salmos, as suas intercessões, as suas esmolas, as suas vigílias, tudo lhe é admirável, quando feito no Espírito. A sua fé, o seu amor, a sua paciência, o seu zelo, são igualmente, na sua estima, como “fiadas de joias” e “colares de ouro.” (Cânt. i. 10.) Ele a ama e a admira em toda parte. Na casa da servidão, ou na terra de Canaã, ela é sempre formosa. No cimo do Líbano o seu coração é arrebatado por um dos olhos dela, e nos campos e nas aldeias Ele recebe alegremente os seus amores. Ele a estima acima do ouro e da prata nos dias de suas graciosas manifestações, mas tem igual apreço por ela quando se retira, pois foi logo depois de haver dito: “Até que refresque o dia, e fujam as sombras, irei ao monte da mirra, e ao outeiro do incenso” (Cânt. iv. 6), que Ele exclama, nas palavras do nosso texto: “Tu és toda formosa, amiga minha.” Em todas as estações os crentes estão muito perto do coração do Senhor Jesus; são sempre como a menina dos seus olhos, e a joia da sua coroa. O nosso nome está ainda sobre o seu peitoral, e as nossas pessoas estão ainda em sua graciosa lembrança. Ele nunca pensa levianamente do seu povo; e, certamente, em toda a extensão da sua Palavra não há uma só sílaba que se pareça com desprezo por eles. São eles o escolhido tesouro e a peculiar porção do Senhor dos exércitos; e que rei subestimará a sua própria herança? Que esposo amoroso desprezará a sua própria esposa? Chamem outros a Igreja como quiserem, Jesus não vacila em seu amor por ela, e não difere em seu juízo sobre ela, pois ainda exclama: “Quão formosa, e quão aprazível és, ó amor em delícias!” (Cânt. vii. 6.)
Lembremo-nos de que Aquele que declara serem a Igreja e cada crente individual “toda formosa” não é outro senão o glorioso Filho de Deus, que é “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.” Por isso a sua declaração é decisiva, visto que a infalibilidade a proferiu. Não pode haver engano onde o Jeová que tudo vê é o Juiz. Se Ele a declarou incomparavelmente formosa, ela o é, sem dúvida; e, embora difícil de receber para a nossa pobre e débil fé, é, não obstante, uma verdade tão divina quanto qualquer das indubitáveis doutrinas da revelação.
Havendo assim declarado que ela é positivamente cheia de beleza, Ele agora confirma o seu louvor por uma preciosa negativa: “Não há mancha em ti.” Como se ocorresse ao Esposo o pensamento de que o mundo maldizente insinuaria que Ele mencionara apenas as partes formosas dela, e omitira de propósito aquelas feições que eram disformes ou maculadas, Ele resume tudo declarando-a universal e inteiramente formosa, e de todo desprovida de mácula. Uma mancha pode ser logo removida, e é a menor coisa que pode desfigurar a beleza; mas até desta pequena mácula é a Igreja livrada à vista de seu Senhor. Se Ele tivesse dito que não há cicatriz hedionda, nem horrível deformidade, nem imunda úlcera, poderíamos até então ter-nos maravilhado; mas quando Ele testifica que ela está livre da mais leve mancha, todas essas coisas ficam incluídas, e a profundeza do assombro cresce. Se Ele apenas tivesse prometido remover todas as manchas, teríamos eterno motivo de alegria; mas quando fala disto como já feito, quem pode conter as mais intensas emoções de satisfação e deleite? Ó minha alma, aqui há tutano e gordura para ti; come até fartar-te, e alegra-te abundantemente nisto!
Cristo Jesus não tem contenda com a sua esposa. Ela muitas vezes se desvia dele, e entristece o seu Espírito Santo, mas Ele não permite que as faltas dela afetem o seu amor. Ele por vezes repreende, mas é sempre da maneira mais terna, com as mais bondosas intenções;—é “amiga minha” até então. Não há lembrança de nossas loucuras; Ele não guarda maus pensamentos a nosso respeito, mas perdoa, e ama tão bem depois da ofensa quanto antes dela. É bom para nós que assim seja, pois, se Jesus fosse tão atento às injúrias como nós somos, como poderia Ele ter comunhão conosco? Muitas vezes um crente se indispõe com o Senhor por algum leve revés na providência, mas o nosso precioso Esposo conhece bem demais os nossos tolos corações para ofender-se com as nossas más maneiras.
Se Ele fosse tão facilmente provocado como nós somos, quem entre nós poderia esperar um olhar reconfortante ou uma saudação amável? mas Ele é “pronto a perdoar, tardio em irar-se.” (Ne. ix. 17.) Ele é como os filhos de Noé, vai de costas, e lança uma capa sobre a nossa nudez; ou podemos compará-lo a Apeles, que, quando pintou Alexandre, pôs o dedo sobre a cicatriz na face, para que não fosse vista no quadro. “Não viu iniquidade em Jacó, nem contemplou perversidade em Israel” (Núm. xxiii. 21); e por isso Ele pode ter comunhão com os errantes filhos dos homens.
Mas volta a pergunta:—Como é isto? Poderá ser explicado, de modo a não colidir com o fato tão evidente de que o pecado permanece ainda nos corações dos regenerados? Poderão os nossos próprios prantos diários pelo pecado admitir algo como a perfeição enquanto conquista presente? O Senhor Jesus o diz, e portanto deve ser verdade; mas em que sentido se há de entender? Como somos nós “toda formosa”, ainda que nós mesmos sintamos que somos negros, porque o sol nos olhou? (Cânt. i. 6.) A resposta está pronta, se considerarmos a analogia da fé.
1. Na matéria da justificação, os santos são completos e sem pecado. Como diz Durham, estas palavras são ditas “no que respeita à imputação da justiça de Cristo, com que estão adornados, e que revestiram, o que os torna muito gloriosos e amáveis, de modo que são formosos acima de todos os outros, pela graça dele posta sobre eles.”
E o Dr. Gill exprime excelentemente a mesma ideia, quando escreve: “embora todo pecado seja visto por Deus, in articulo providentiae, na matéria da providência, em que nada escapa ao seu olho que tudo vê; contudo in articulo iustificationis, na matéria da justificação, Ele não vê pecado algum em seu povo, de modo a imputá-lo a eles, ou a condená-los por isso; pois todos eles estão ‘santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis perante ele.’” (Col. i. 22.) O sangue de Jesus remove toda mácula, e a sua justiça confere perfeita beleza; e, portanto, no Amado, o verdadeiro crente está nesta hora tão aceito e aprovado, à vista de Deus, quanto estará quando comparecer diante do trono no céu. A beleza da justificação está em sua plenitude no momento em que uma alma é, pela fé, recebida no Senhor Jesus. Esta é uma justiça tão transcendente que ninguém pode exagerar o seu glorioso mérito. Visto que esta justiça é a de Jesus, o Filho de Deus, ela é, portanto, divina, e é, na verdade, a santidade de Deus; e, por isso, Kent não foi ousado demais quando, num arrojado voo de arrebatamento, cantou:—
“No teu Fiador tu estás livre,
As suas queridas mãos foram traspassadas por ti;
Com a sua imaculada veste posta,
Santo como o Santo.
“Ó, as alturas e as profundezas da graça,
Fulgurando com brilho meridiano;
Aqui os sagrados registros mostram
Pecadores negros, mas também formosos!”
2. Mas talvez seja melhor entender isto como relativo ao desígnio de Cristo a respeito deles. É o seu propósito apresentá-los sem “mácula, nem ruga, nem coisa semelhante.” (Ef. v. 27.) Serão eles santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis à vista do onisciente Deus. Em vista disto, a Igreja é considerada como sendo virtualmente aquilo que em breve há de ser realmente. Nem é isto uma frívola antecipação de sua excelência; pois lembre-se sempre de que o Representante, no qual ela é aceita, é, de fato, completo em todas as perfeições e glórias neste mesmo instante. Como a Cabeça do corpo já está sem pecado, não sendo outro senão o Senhor do céu, é apenas coerente que todo o corpo seja declarado formoso e belo pela glória da Cabeça. O fato de sua futura perfeição é tão certo que dele se fala como se já estivesse consumado, e, na verdade, assim é na mente daquele para quem mil anos são como um só dia. “Cristo muitas vezes interpreta um crente honesto a partir de seu próprio coração, propósito e desígnio; pelo que eles recebem muitos títulos, de outro modo inadequados à sua condição presente.” (Durham.) Engrandeçamos o nome do nosso Jesus, que nos ama tão bem que há de saltar por sobre os anos que dividem a nossa peregrinação, para que nos dê já agora o louvor que parece apenas próprio da perfeição do Paraíso. Como canta Erskine:—
“Amor meu, tu pareces um verme repugnante:
Contudo, tais são as tuas belezas,
Que só falei metade de tua formosa forma;
Tu és inteiramente formosa para Mim.
“Toda justificada, em vestes perfeitas;
Nem a justiça, nem a lei
Podem, no teu manto de justiça,
Discernir a menor falha.
“Sim, santificada em cada parte,
Tu és perfeita em desígnio:
E eu te julgo pelo que tu és
na tua intenção e na Minha.
“Formoso amor, pela graça completa em Mim,
Além de todas as belas esposas;
Cada mancha que jamais te maculou
A minha veste de púrpura a esconde.”
II. A admiração do nosso Senhor é adoçada pelo amor. Ele se dirige à esposa como “amiga minha.” As virgens a chamavam “a mais formosa entre as mulheres”; elas viram e admiraram, mas ao seu Senhor estava reservado amá-la. Quem pode dizer plenamente a excelência do seu amor? Oh, como o seu coração se derrama sobre os seus remidos! Quanto ao amor de Davi e Jônatas, é de longe superado em Cristo. Nenhum terno esposo foi jamais tão afeiçoado como Ele. Nenhuma figura pode exprimir por completo a afeição do seu coração, pois ela ultrapassa todo o amor que homem ou mulher jamais ouviu ou imaginou. O nosso bendito Senhor, Ele mesmo, quando quis declarar a grandeza dela, foi obrigado a comparar uma coisa inconcebível com outra, a fim de exprimir os seus próprios pensamentos. “Como o Pai me amou, também eu vos amei.” (João xv. 9.) Toda a eternidade, o fervor, a imutabilidade e a infinitude que se acham no amor de Jeová o Pai para com Jeová-Jesus o Filho, são copiados à letra no amor do Senhor Jesus para com os seus escolhidos. Antes da fundação do mundo Ele amou o seu povo; em todos os seus desvios os amou; e, até ao fim, permanecerá no seu amor. (João xiii. 1.) Ele lhes deu a melhor prova de sua afeição, em que se entregou a si mesmo à morte pelos pecados deles, e lhes revelou o perdão completo como resultado de sua morte. A boa vontade com que morreu é ainda outra confirmação de seu ilimitado amor. Como se deleitava Cristo na obra da nossa redenção! “Eis aqui venho; no rolo do livro está escrito de mim: Deleito-me em fazer a tua vontade, ó Deus meu.” (Salmo xl. 7, 8.) Quando Ele veio ao mundo para sacrificar a sua vida por nós, foi uma oferta voluntária. “Importa que eu seja batizado com um batismo.” (Lucas xii. 50.) Cristo havia de ser, por assim dizer, batizado no seu próprio sangue, e como ansiava por aquela hora! “E como me angustio até que venha a cumprir-se!” Não houve hesitação, nem desejo de livrar-se de seu compromisso. Ele foi à sua crucificação sem parar uma só vez pelo caminho para deliberar se devia completar o seu sacrifício. A estupenda massa da nossa terrível dívida Ele a pagou de uma vez, não pedindo demora nem redução. Desde o momento em que disse: “não se faça a minha vontade, mas a tua” (Lucas xxii. 42), o seu curso foi veloz e inabalável; como se estivesse apressando-se para uma coroa, e não para uma cruz. A plenitude dos tempos foi o seu único lembrete; Ele não foi levado por oficiais de justiça a saldar as obrigações da sua Igreja, mas, jubilosamente, ainda que cheio de tristeza, cumpriu a lei, respondeu às suas exigências, e clamou: “Está consumado.”
Quão difícil é falar do amor de modo a transmitir com isso o nosso sentido! Quantas vezes os nossos olhos se encheram de lágrimas quando compreendemos o pensamento de que Jesus nos ama! Como o nosso espírito se derreteu dentro de nós à certeza de que Ele pensa em nós, e nos traz sobre o seu coração! Mas não podemos acender a mesma emoção nos outros, nem podemos dar, por palavras da boca, sequer uma tênue ideia da bem-aventurança que se aninha naquela exclamação: “Oh, como Ele ama!” Vem, leitor, podes dizer de ti mesmo: “Ele me amou”? (Gál. ii. 20.) Então olha para o fundo deste mar de amor, e esforça-te por adivinhar-lhe a profundeza. Não faz cambalear a tua fé que Ele te ame? Ou, se tens forte confiança, dize: não envolve o teu espírito numa chama de gratidão admirada e adorante? Ó vós, anjos, tal amor como este vós nunca conhecestes! Jesus não traz os vossos nomes sobre as suas mãos, nem vos chama de sua esposa. Não! esta altíssima comunhão Ele a reserva para vermes cuja única retribuição são lágrimas, ação de graças cordial e amor.
III. Notemos que Cristo se deleita em pensar em sua Igreja, e em contemplar a sua beleza. Como a ave volta muitas vezes ao seu ninho, e como o viandante se apressa para o seu lar, assim a mente persegue continuamente o objeto de sua escolha. Não podemos olhar com demasiada frequência para aquele rosto que amamos; desejamos ter sempre as nossas coisas preciosas à nossa vista. É bem assim com o nosso Senhor Jesus. Desde toda a eternidade, “as suas delícias estavam com os filhos dos homens;” os seus pensamentos rolavam adiante para o tempo em que os seus eleitos haveriam de nascer no mundo; Ele os contemplava no espelho de seu presciência. “No teu livro”, diz Ele, “todos os meus membros foram escritos; os quais em continuação foram formados, quando ainda não havia nenhum deles.” (Sl. cxxxix. 16.) Quando o mundo foi posto sobre os seus alicerces, Ele ali estava, e fixou os limites dos povos segundo o número dos filhos de Israel. Muitas vezes, antes de sua encarnação, Ele desceu a esta terra à semelhança de um homem; nas planícies de Manre (Gên. xviii.), junto ao ribeiro de Jaboque (Gên. xxxii. 24-30), sob os muros de Jericó (Jos. v. 13), e na fornalha ardente da Babilônia (Dan. iii. 19-25), o Filho do homem visitou o seu povo. Porque a sua alma se deleitava neles, Ele não podia repousar longe deles, pois o seu coração ansiava por eles. Nunca estiveram ausentes do seu coração, pois havia escrito os nomes deles sobre as suas mãos, e os gravara sobre o seu coração. Assim como o peitoral que continha os nomes das tribos de Israel era o mais brilhante ornamento usado pelo sumo sacerdote, assim os nomes dos eleitos de Cristo eram as suas mais preciosas joias, que Ele sempre trazia junto ao coração. Podemos muitas vezes esquecer-nos de meditar nas perfeições do nosso Senhor, mas Ele nunca cessa de lembrar-se de nós. Ele não se importa nem pela metade com qualquer de suas mais gloriosas obras tanto quanto com os seus filhos. Embora o seu olho veja tudo o que tem beleza e excelência, Ele nunca fixa o seu olhar em coisa alguma com aquela admiração e deleite que despende sobre os seus remidos. Ele dá ordens aos seus anjos a respeito deles, e chama aqueles santos seres a regozijarem-se com Ele por causa da sua ovelha perdida. (Lucas xv. 4-7.) Ele falava deles consigo mesmo, e mesmo na árvore da condenação não cessou de meditar a respeito deles. Ele viu o fruto do trabalho da sua alma, e ficou abundantemente satisfeito.
“Aquele dia agudo de ignominiosa dor,
Foi, não obstante, em sentido perfeito,
‘O dia da alegria do seu coração,’ pois o gozo
De que os seus remidos fossem enfim trazidos ao lar
(Aprontados como em vestes nupciais de alvura),
Estava vividamente posto diante dele,—Ele olhou;—
E por aquela felicidade antecipada,
O suportar de todo tormento, de toda desgraça,
Pareceu leve aflição ao seu coração de amor.”
Como uma terna mãe, Cristo Jesus, o nosso três vezes bendito Senhor, vê cada despontar de excelência, e cada botão de bondade em nós, dando grande valor às nossas pequenezas, e regozijando-se sobre os começos de nossas graças. Assim como Ele há de ser o nosso cântico sem fim, assim nós somos a sua perpétua oração. Quando está ausente, Ele pensa em nós, e na treva negra tem uma janela pela qual olha para nós. Quando o sol se põe numa parte da terra, ele nasce em outro lugar além do nosso horizonte visível; e do mesmo modo Jesus, o nosso Sol da Justiça, apenas derrama luz sobre o seu povo de maneira diferente, quando, à nossa percepção, parece haver-se posto nas trevas. O seu olho está sempre sobre a vinha, que é a sua Igreja: “Eu, o Senhor, a guardo, e a cada momento a regarei; para que ninguém lhe faça dano, de noite e de dia a guardarei.” (Is. xxvii. 3.) Ele não confiará aos seus anjos que o façam, pois é o seu deleite fazer tudo com as suas próprias mãos. Sião está no centro do seu coração, e Ele não a pode esquecer, pois todos os dias os seus pensamentos estão postos sobre ela. Quando a esposa, por negligenciá-lo, se escondeu da sua vista, Ele não pode ficar quieto até que de novo a contemple. Ele a chama para fora com as mais ternas palavras: “Ó pomba minha, que andas pelas fendas das rochas, no oculto das ladeiras, mostra-me o teu rosto, faze-me ouvir a tua voz; porque a tua voz é doce, e o teu rosto formoso.” (Cânt. ii. 14.) Ela julga-se indigna de fazer companhia a tal Príncipe, mas Ele a atrai do seu esconderijo, e, ao passo que ela sai tremendo, e envergonhada cobre o rosto com o seu véu, Ele lhe manda descobrir o rosto, e deixar que o seu Esposo a contemple. Ela tem vergonha de fazê-lo, pois é negra em sua própria estima, e por isso Ele insiste que ela é formosa para Ele.
Nem se contenta Ele com olhar; deve alimentar os ouvidos tanto quanto os olhos, e por isso elogia a fala dela, e roga-lhe que O deixe ouvir a sua voz. Vede quão verdadeiramente o nosso Senhor se regozija em nós. Não é isto amor sem par! Temos ouvido falar de príncipes que foram feridos pela beleza da filha de um camponês, mas que é isto? Aqui está o Filho de Deus enamorado de um verme, olhando com olhos de admiração para um pobre filho de Adão, e escutando com gozo os balbucios de pobre carne e sangue. Não deveríamos ficar sobremodo encantados por tão inigualável condescendência? E não deveriam os nossos corações deleitar-se nele tanto quanto Ele se deleita em nós? Ó verdade surpreendente! Cristo Jesus se regozija sobre o seu pobre, tentado, provado e errante povo.
IV. Não se deve esquecer que às vezes o Senhor Jesus conta ao seu povo os seus pensamentos de amor. “Ele não julga suficiente dizê-lo pelas costas dela, mas na sua própria presença diz: ‘Tu és toda formosa, amiga minha.’ É verdade, este não é o seu método ordinário; Ele é um sábio amante, que sabe quando reter a manifestação do amor, e quando deixá-la sair; mas há tempos em que Ele não fará segredo algum dela; tempos em que a porá acima de toda disputa nas almas do seu povo.”
O Espírito Santo com frequência se compraz, da maneira mais graciosa, em testemunhar com o nosso espírito acerca do amor de Jesus. Ele toma das coisas de Cristo, e no-las revela. Nenhuma voz se ouve das nuvens, e nenhuma visão se vê de noite, mas temos um testemunho mais seguro do que qualquer destes. Se um anjo voasse do céu, e informasse pessoalmente ao santo o amor do Salvador por ele, a evidência não seria nem um átimo mais satisfatória do que aquela que é dada no coração pelo Espírito Santo. Pergunta àqueles do povo do Senhor que viveram mais perto das portas do céu, e eles te dirão que tiveram tempos em que o amor de Cristo para com eles foi um fato tão claro e certo, que já não podiam duvidar dele mais do que poderiam questionar a sua própria existência.
Sim, amado crente, tu e eu tivemos tempos de refrigério da presença do Senhor, e então a nossa fé se ergueu aos mais elevados cumes da certeza. Tivemos a confiança de reclinar as nossas cabeças sobre o seio do nosso Senhor, e não tivemos mais dúvida quanto à afeição do nosso Mestre do que teve João naquela bendita postura; ou antes, nem tanta; pois a sombria pergunta: “Senhor, sou eu quem te há de trair?” foi posta bem longe de nós. Ele nos beijou com os beijos do seu amor, e matou as nossas dúvidas com a proximidade do seu abraço. O seu amor foi mais doce do que o vinho para as nossas almas. Sentimos que podíamos cantar: “A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a sua direita me abrace.” (Cânt. viii. 3.) Então todas as tribulações terrenas foram leves como a palha da eira, e os prazeres do mundo tão insípidos como a clara do ovo. Teríamos dado boas-vindas à morte como à mensageira que nos apresentaria ao nosso Senhor, para quem estávamos ansiosos por partir; pois o seu amor nos havia despertado a desejar mais dele, sim, a sua imediata e gloriosa presença. Tenho, por vezes, quando o Senhor me assegurou do seu amor, sentido como se não pudesse conter mais gozo e deleite. Os meus olhos escorriam lágrimas de gratidão. Caí de joelhos para bendizê-lo, mas de novo me levantei às pressas, sentindo como se nada mais tivesse a pedir, mas devesse pôr-me de pé e louvá-lo; então ergui as mãos ao céu, ansiando por encher os meus braços dele; ofegante por falar com Ele, como um homem fala com o seu amigo, e por vê-lo em sua própria pessoa, para que lhe pudesse dizer quão feliz havia feito o seu indigno servo, e para que caísse de rosto em terra, e lhe beijasse os pés em indizível gratidão e amor. Tal banquete tive sobre uma só palavra do meu Amado,—“tu és meu,”—que desejei, como Pedro, edificar tabernáculos naquele monte, e habitar para sempre. Mas, ai, nem todos nós ainda aprendemos como preservar aquela bendita certeza. Despertamos o nosso Amado e o acordamos, então Ele deixa a nossa câmara inquieta, e nós O buscamos às apalpadelas, e fazemos muitas fatigantes jornadas tentando encontrá-lo.
Se fôssemos mais sábios e mais cuidadosos, poderíamos preservar a fragrância das palavras de Cristo por muito mais tempo; pois elas não são como o maná ordinário que logo apodrecia, mas comparáveis àquele gômer dele que foi posto no vaso de ouro, e conservado por muitas gerações. Sabe-se que o doce Senhor Jesus escreveu os seus pensamentos de amor no coração do seu povo de modo tão claro e profundo, que eles, por meses, e até por anos, gozaram um permanente senso de sua afeição. Umas poucas dúvidas passaram voando por suas mentes, como nuvens tênues diante do sol de verão, mas o calor de sua certeza permaneceu o mesmo por muitos dias de alegria. A sua vereda tem sido lisa; têm-se apascentado nos verdes pastos junto às águas tranquilas, pois a sua vara e o seu cajado os consolaram, e a sua destra os conduziu. Inclino-me a pensar que há mais disto na Igreja do que alguns homens admitiriam. Temos um bom número dos que habitam sobre os montes, e contemplam a luz do sol. Há gigantes nestes dias, ainda que os tempos não sejam tais que lhes deem espaço para exibir a sua gigantesca força; em muitos humildes casebres, em muitas apinhadas oficinas, em muitas casas paroquiais de aldeia, acham-se homens da casa de Davi, homens segundo o coração de Deus, ungidos com o óleo santo. É, contudo, uma triste verdade que fileiras inteiras no exército do nosso Senhor se compõem de anãos Pequenas-fés. Os homens de mente medrosa e coração abatido veem-se por toda parte. Por que é isto? Será culpa do Mestre, ou nossa? Certamente Ele não pode ser culpado. Não será, então, matéria de indagação em nossas próprias almas: Não posso eu tornar-me mais forte? Devo ser um pranteador todos os meus dias? Como posso livrar-me de minhas dúvidas? A resposta há de ser: sim, podes ser consolado, mas somente a boca do Senhor o pode fazer, pois qualquer coisa menos do que isto será insatisfatória.
Não duvido de que haja meios, pelo uso dos quais os que agora são fracos e trementes possam alcançar ousadia na fé e confiança na esperança; mas não vejo como isto se possa fazer, a menos que o Senhor Jesus Cristo lhes manifeste o seu amor, e lhes fale da sua união com Ele. Isto Ele fará, se o buscarmos dele. O suplicante importuno não ficará sem a sua recompensa. Apressa-te para Ele, ó tímido, e dize-lhe que nada te contentará senão um sorriso de seu próprio rosto, e uma palavra de seus próprios lábios! Fala com Ele, e dize: “Ó meu Senhor Jesus, não posso descansar enquanto não souber que me amas! Desejo ter prova do teu amor sob a tua própria mão e selo.
Não posso viver de conjeturas e suposições; nada senão a certeza satisfará o meu coração trêmulo. Senhor, olha para mim, se, de fato, me amas, e, ainda que eu seja menor do que o menor de todos os santos, dize à minha alma: ‘Eu sou a tua salvação.’” Quando esta oração é ouvida, o castelo do desespero há de cambalear; não há nele uma só pedra que possa ficar sobre outra, se Cristo sussurra o seu amor. Até mesmo Desânimo e Muito-medo dançarão, e Pronto-a-Claudicar saltará sobre as suas muletas.
Oh, por mais dessas visitas de Betel, visitações mais frequentes do Deus de Israel! Oh, quão doce ouvi-lo dizer-nos, como disse a Abraão: “Não temas, Abrão; eu sou o teu escudo, o teu grandíssimo galardão.” (Gên. xv. 1.) Ser tratado como Daniel foi outrora: “ó homem muito amado” (Dan. x. 19), vale mais do que mil eras da alegria deste mundo. Que mais pode uma criatura desejar deste lado do céu, para torná-la tranquila e feliz, do que uma clara declaração de amor dos próprios lábios de seu Senhor? Deixa-me sempre ouvir-te falar em misericórdia à minha alma, e, ó meu Senhor, nada mais peço enquanto aqui habito na terra da minha peregrinação!
Irmãos, esforcemo-nos por obter uma confiante certeza do deleite do Senhor em nós, pois isto, ao capacitá-lo a ter comunhão conosco, será um dos mais prontos meios de produzir um sentimento semelhante em nossos corações para com Ele. Cristo está bem satisfeito conosco; aproximemo-nos dele com santa familiaridade; abramos-lhe o peito com os nossos pensamentos, pois o seu deleite em nós nos garantirá uma audiência. O filho pode manter-se afastado do pai, quando está consciente de haver despertado o desagrado do pai, mas por que havemos de nos manter à distância quando Cristo Jesus está sorrindo para nós? Não! visto que os seus sorrisos nos atraem, entremos em seus átrios, e toquemos o seu cetro de ouro. Ó Espírito Santo, ajuda-nos a viver em feliz comunhão com Aquele cuja alma está unida à nossa!
“Ó Jesus! que eternas bênçãos habitem
sobre o teu arrebatador nome. * * *
Que eu seja todo teu desde esta bendita hora.
Que a tua amada imagem esteja para sempre presente;
De ti sejam todos os meus pensamentos, e que a minha língua
seja santificada com o celestial tema.
Habita nos meus lábios, ó nome mais querido e doce!
Habita nos meus lábios, até o último suspiro da partida!
Então deixa-me morrer, e levar o encantador som
em triunfo aos céus. Em outros acentos,
em linguagem toda divina, então te louvarei;
enquanto toda a Divindade se abre à vista
do amor de um Redentor. Aqui deixa-me contemplar,
para sempre contemplar; a brilhante variedade
dará gozo e admiração sem fim.
Que eu seja todo teu desde esta bendita hora.
Fugi da minha alma, todas as imagens dos sentidos,
deixai-me em silêncio possuir o meu Senhor:
a minha vida, os meus prazeres, fluem só dele,
a minha força, a minha grande salvação, e a minha esperança.
O teu nome é toda a minha confiança; ó nome divino!
Sê gravado na minha alma mais íntima,
e deixa-me reconhecer-te com o meu derradeiro alento,
confessar-te em face de todo horror,
que a morte ameaçadora ou o invejoso inferno possa levantar;
até que, subjugada toda a sua força, a minha alma que parte
lance um desafio à fúria infernal,
e cante salvação ao Cordeiro para sempre.”
Capítulo 6 concluído
Especiarias Fragrantes dos Montes de Mirra