Até que Ele Venha
Aquele que Levou o Pecado

Capítulo 21 · 19 min de leitura

Aquele que Levou o Pecado

UMA MEDITAÇÃO DE COMUNHÃO EM MENTONE. “Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados. Porque éreis como ovelhas desgarradas; mas agora tendes voltado ao Pastor e Bispo das vossas almas.”—1 Pedro ii. 24, 25.

AQUELE QUE LEVOU O PECADO.

ESTA maravilhosa passagem faz parte do discurso de Pedro aos servos; e, no seu tempo, quase todos os servos eram escravos. Pedro começa no versículo dezoito: “Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor aos vossos senhores, não somente aos bons e moderados, mas também aos maus. Porque isto é agradável: que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente. Pois que glória será essa, se, pecando, sois esbofeteados e o sofreis com paciência? Mas se, fazendo o bem, sois afligidos e o sofreis com paciência, isso é agradável a Deus. Porque para isto fostes chamados, pois também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas; o qual não cometeu pecado, nem na sua boca se achou engano; o qual, quando o injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente; levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados.” Se estamos numa condição humilde de vida, encontraremos o nosso melhor consolo ao pensar no humilde Salvador levando os nossos pecados com toda a paciência e submissão. Se somos chamados a sofrer, como muitas vezes o eram os servos nos tempos romanos, seremos consolados pela visão do nosso Senhor esbofeteado, açoitado e crucificado, e contudo silencioso na majestade da sua resignação. Se esses sofrimentos são inteiramente imerecidos, e somos grosseiramente caluniados, seremos consolados ao lembrar-nos daquele que não cometeu pecado, e em cujos lábios não se achou engano. O nosso Senhor Jesus é o Cabeça da Confraria dos Sofredores: fez o bem, e por isso sofreu, mas suportou-o com paciência. O nosso amparo debaixo da cruz que fomos designados a carregar só se encontra naquele “que levou ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro”.

Agora sabemos, por experiência própria, que não há lugar de consolo como a cruz. É uma árvore despojada de toda a folhagem, e aparentemente morta; contudo assentamo-nos à sua sombra com grande deleite, e o seu fruto é doce ao nosso paladar. Verdadeiramente, neste caso, “o semelhante cura o semelhante”. Pelo sofrimento do nosso Senhor Jesus, o nosso sofrimento é aliviado. O servo é consolado, pois Jesus tomou sobre si a forma de servo; o sofredor é animado “porque também Cristo padeceu por nós”; e o caluniado é fortalecido, porque também Jesus foi injuriado.

“Não é estranho que a hora mais sombria

que já raiou sobre a terra pecadora

toque o coração com poder mais terno

para consolar, que a alegria de um anjo?

Que para a cruz se voltem os olhos do que chora

antes que para onde ardem as estrelas do Natal?”

Estejamos firmes junto à cruz, se esperamos atravessar as tribulações deste mundo; pois, se ela se for, apaga-se a estrela solitária cuja luz alegra o subjugado, brilha sobre o injustiçado e traz luz ao oprimido. Se perdermos a cruz — se perdermos o sacrifício substitutivo do nosso Senhor Jesus Cristo — perdemos tudo.

O versículo sobre o qual agora desejamos meditar devotamente fala de três coisas: o levar dos nossos pecados, a mudança da nossa condição e a cura das nossas enfermidades espirituais. Cada uma delas merece a nossa mais cuidadosa atenção.

I. A primeira é o levar dos nossos pecados pelo nosso Senhor: “que levou ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro”. Estas palavras afirmam, nos termos mais claros, que o nosso Senhor Jesus realmente levou os pecados do seu povo. Quão literal é a linguagem! As palavras nada significam se aqui não se declara a substituição. Não conheço o sentido do capítulo cinquenta e três de Isaías se não é este o seu sentido. Ouvi as palavras do profeta: “O Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos”; “pela transgressão do meu povo foi ele ferido”; “as iniquidades deles levará sobre si”; “foi contado com os transgressores, e levou sobre si o pecado de muitos”.

Não posso imaginar que o Espírito Santo tivesse usado linguagem tão expressiva se não pretendesse ensinar-nos que o nosso Salvador de fato levou os nossos pecados, e sofreu em nosso lugar. Que outra coisa poderia significar textos como estes — “Cristo foi oferecido uma vez para levar os pecados de muitos” (Hb. ix. 28); “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós, para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co. v. 21); “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gl. iii. 13); “Cristo também nos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” (Ef. v. 2); “uma vez, na consumação dos séculos, apareceu para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hb. ix. 26)? Digo modestamente, mas com firmeza, que estas Escrituras ou ensinam o levar dos nossos pecados pelo nosso Senhor Jesus, ou não ensinam nada. Nestes dias, entre muitos erros e negações da verdade, surgiu um ensino do “pensamento moderno” que explica e faz desvanecer a doutrina da substituição e do sacrifício vicário. Um sábio chegou ao ponto de dizer que a transferência do pecado ou da justiça é impossível, e outra criatura da mesma escola estigmatizou a ideia como imoral.

“Ele levou no madeiro a sentença por mim.”

Se a dor tivesse sido figurada, o levar do pecado poderia ter sido mítico; mas um fato corre paralelo ao outro. Não há figura no nosso texto; é um fato nu e literal: “que levou ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro”. Oh, quem dera que os homens abandonassem as suas cavilações! Questionar e debater junto à cruz é ato aparentado ao crime dos soldados quando repartiram entre si as suas vestes, e lançaram sortes sobre a sua túnica.

Notai quão pessoais são os termos aqui empregados! Quão expressamente fala o Espírito Santo! “Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados.” Não foi por delegação, mas “ele mesmo”; e não foi em imaginação, mas “em seu próprio corpo”. Observai também a personalidade do nosso lado da questão: ele “levou os nossos pecados”, isto é, os meus pecados e os vossos pecados. Há aqui uma espécie de cadência musical — “ele mesmo”, “os nossos pecados”. Tão certamente quanto foi o próprio Cristo que sofreu na cruz, tão verdadeiramente foram os nossos próprios pecados que Jesus levou em seu corpo sobre o madeiro. O nosso Senhor compareceu em juízo por nós, aceitando o nosso lugar no banco dos réus: “foi contado com os transgressores”. Mais ainda, compareceu por nós no lugar da execução, e sofreu a pena de morte no patíbulo da condenação em nosso lugar. In propria persona, o nosso Redentor foi acusado, embora inocente; veio a estar debaixo da maldição, embora eternamente bendito; e sofreu até à morte, embora nada tivesse feito digno de culpa. “Ele foi ferido pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados.”

Este levar do pecado da parte do nosso Senhor foi contínuo. A passagem diante de nós tem sido forçada para além do seu ensino, ao fazerem-na afirmar que o nosso Senhor Jesus levou os nossos pecados em nenhum outro lugar senão na cruz: isto as palavras não dizem. “O madeiro” foi o lugar onde, acima de todos os outros, vemos o nosso Senhor levando o castigo devido aos nossos pecados; mas antes disso ele já sentira o peso da enorme carga. É errado fundamentar uma grande doutrina na forma incidental de uma única passagem da Escritura, especialmente quando essa passagem comporta outro sentido.

A leitura marginal, que é perfeitamente correta, é “que levou ele mesmo em seu corpo os nossos pecados até o madeiro”. O nosso Senhor carregou o fardo dos nossos pecados até o madeiro, e ali, então, deu-lhe fim. Ele já carregara aquela carga muito antes, pois João Batista disse dele: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira” (o verbo está no presente, “que tira”) “o pecado do mundo” (João i. 29). O nosso Senhor estava então levando o pecado do mundo como o Cordeiro de Deus. Desde o dia em que iniciou o seu ministério divino — eu diria mesmo antes disso — ele levou os nossos pecados. Era o Cordeiro “morto desde a fundação do mundo”; assim, quando subiu ao Calvário, carregando a sua cruz, estava levando os nossos pecados até o madeiro. Contudo, de modo especial e peculiar, na sua agonia de morte esteve em nosso lugar, e sobre a sua alma e o seu corpo irrompeu a tempestade da justiça que se acumulara por causa das nossas transgressões.

Este levar do pecado é definitivo. Ele levou os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro, mas já não os leva mais. O pecador e o Fiador do pecador estão ambos livres, pois a lei foi vindicada, a honra do governo foi restabelecida, o sacrifício substitutivo está completo. Ele já não morre mais; a morte já não tem domínio sobre ele; pois terminou a sua obra, e clamou: “Está consumado”. Quanto aos pecados que levou em seu corpo sobre o madeiro, não podem ser achados, porque deixaram de existir, segundo aquela antiga promessa: “Naqueles dias, e naquele tempo, diz o Senhor, buscar-se-á a iniquidade de Israel, e não haverá; e os pecados de Judá, e não se acharão” (Jeremias i. 20). A obra do Messias era “acabar com a transgressão, dar fim aos pecados, expiar a iniquidade e trazer a justiça eterna” (Daniel ix. 24). Ora, se ao pecado se deu fim, ele está terminado; e se a transgressão está “acabada”, não há mais nada a dizer sobre ela.

Olhemos para trás com santa fé, e vejamos Jesus levando a estupenda carga dos nossos pecados até o madeiro, e sobre o madeiro; e vejamos quão eficaz foi o seu sacrifício para saldar toda a massa da nossa responsabilidade moral, tanto no que se refere à culpa diante de Deus como ao castigo que dela decorre. É lei da natureza que nada pode estar em dois lugares ao mesmo tempo; e se o pecado foi levado embora pelo nosso Senhor, não pode repousar sobre nós. Se pela fé aceitamos o Substituto que o próprio Deus aceitou, então não pode ser que a pena seja exigida duas vezes, primeiro do Fiador e depois daqueles por quem ele se pôs. O Senhor Jesus levou embora os pecados do seu povo, assim como o bode emissário, na figura, levava o pecado de Israel para uma terra não habitada. Os nossos pecados se foram para sempre. “Quanto está longe o oriente do ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões.” Ele lançou todas as nossas iniquidades nas profundezas do mar; lançou-as para trás das suas costas, onde não mais serão vistas.

Amados amigos, falamos com muita calma e frieza sobre esta coisa, mas ela é a maior maravilha do universo; é o milagre da terra, o mistério do céu, o terror do inferno. Se pudéssemos compreender plenamente a culpa do pecado, o castigo que lhe é devido e a substituição literal de Cristo, isso operaria em nós um intenso entusiasmo de gratidão, amor e louvor. Não me admira que os nossos amigos metodistas gritem: “Aleluia!” Isto basta para nos fazer gritar e cantar, enquanto vivermos: “Glória, glória ao Filho de Deus!” Que maravilha que o Príncipe da glória, em quem não há pecado, que era de fato incapaz de mal, condescendesse em entrar em tal contato com o nosso pecado como está implícito em ser “feito pecado por nós”! O nosso Senhor Jesus não manejou o pecado com tenazes de ouro, mas levou-o sobre os seus próprios ombros. Não o ergueu com varais de ouro, como os sacerdotes carregavam a arca; mas ele mesmo levou a hedionda carga do nosso pecado em seu corpo sobre o madeiro. Este é o mistério da graça para o qual os anjos desejam atentar. Eu o pregaria para sempre na linguagem mais simples e inequívoca.

II. Em segundo lugar, observemos brevemente a mudança na nossa condição, que o texto descreve como decorrente do levar dos nossos pecados pelo Senhor: “para que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça”. A mudança é um morrer e um reviver, um sepultamento e uma ressurreição: somos trazidos da vida para a morte, e da morte para a vida.

Doravante estamos legalmente mortos para o castigo do pecado. Se eu fosse condenado a morrer por um delito, e outro morresse em meu lugar, então eu teria morrido naquele que morreu por mim. A lei não poderia, uma segunda vez, apresentar a sua acusação contra mim, e trazer-me de novo diante do juiz, e condenar-me, e conduzir-me para fora a fim de morrer. Onde estaria a justiça de tal procedimento? Já estou morto: como posso morrer de novo? Suportei a ira de Deus na pessoa do meu glorioso e sempre bendito Substituto; como, então, posso suportá-la outra vez? De que serviria um Substituto, se eu também tiver de suportá-la? Se Satanás viesse diante de Deus lançar uma acusação contra mim, a resposta é: “Este homem está morto. Ele suportou a pena, e está ‘morto para os pecados’, pois a sentença contra ele foi executada em Outro.” Que maravilhoso livramento para nós! Bendize ao Senhor, ó minha alma!

Mas Pedro pretende também recordar-nos que, por meio e através da influência da morte de Cristo em nossos corações, o Espírito Santo nos fez agora estar realmente “mortos para os pecados”: isto é, já não os amamos, e eles deixaram de ter domínio sobre nós. O pecado já não está em casa em nossos corações; se ali entra, é como um intruso. Já não somos os seus servos voluntários. O pecado chama-nos pela tentação, mas não lhe damos resposta, porque estamos mortos à sua voz. O pecado promete-nos uma alta recompensa, mas não consentimos, porque estamos mortos aos seus engodos. Pecamos, mas a nossa vontade não é pecar. Seria o céu para nós sermos perfeitamente santos. O nosso coração e a nossa vida vão atrás da perfeição, mas o pecado é abominado pela nossa alma. “Ora, se eu faço o que não quero, já não sou eu que o faço, mas o pecado que habita em mim.” O nosso mais verdadeiro e real eu detesta o pecado; e ainda que caiamos nele, é uma queda — estamos fora do nosso elemento, e fugimos do mal com toda a rapidez. A vida recém-nascida dentro de nós nada tem a ver com o pecado; está morta para o pecado.

A palavra grega aqui usada não pode ser plenamente vertida para a nossa língua; significa “ser desnascido para os pecados”. Nascemos em pecado, mas pela morte de Cristo, e pela obra do Espírito Santo em nós, esse nascimento é desfeito: “somos desnascidos para os pecados”. O que foi operado em nós pelo pecado, já no nosso nascimento, é, pela morte de Jesus, contrariado pela nova vida que o seu Espírito nos comunica. “Somos desnascidos para os pecados.” Agrada-me a expressão, por mais insólita que soe. Parecerá possível que o nascimento seja revertido: o nascido desnascido? Contudo é assim. O verdadeiro ego, o mais real “eu”, está agora desnascido para os pecados, pois somos “nascidos, não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. Estamos desnascidos para os pecados, e nascidos para Deus.

Mas o levar do pecado pelo nosso Senhor trouxe-nos também para a vida. Mortos para o mal segundo a lei, vivemos também em novidade de vida no reino da graça. O objetivo do nosso Senhor é “que vivamos para a justiça”. Não só as nossas vidas devem ser justas — o que espero que sejam — mas somos vivificados e tornados sensíveis e vigorosos para a justiça: pela morte do nosso Senhor somos feitos prontos de olhos, prontos de pensamento, prontos de lábios e prontos de coração para a justiça. Certamente, se a doutrina do seu sacrifício expiatório não nos vivifica, nada o fará. Quando pecamos, é o triste resultado da nossa antiga morte; mas quando praticamos a justiça, lançamos nela toda a nossa alma: “vivemos para a justiça”. Porque o nosso divino Senhor morreu, sentimos que devemos entregar-nos por inteiro ao seu louvor. A árvore que trouxe a morte ao nosso Salvador é para nós uma árvore de vida. Assentai-vos debaixo desta verdadeira arbor vitae, e sacudireis a fraqueza e a doença que entraram por aquela árvore do conhecimento do bem e do mal. Livingstone, na África, usava certos remédios conhecidos como os Despertadores de Livingstone; mas que despertadores são aquelas gloriosas verdades que se extraem da madeira amarga da cruz! Ó meus irmãos, mostremos nas nossas vidas que maravilhas o nosso Senhor Jesus fez por nós pela sua agonia e suor de sangue, pela sua cruz e paixão!

III. O apóstolo fala então da cura das nossas enfermidades pela morte de Cristo: “por cujas feridas fostes sarados. Porque éreis como ovelhas desgarradas; mas agora tendes voltado ao Pastor e Bispo das vossas almas.”

Fomos sarados, e assim permanecemos. Não é algo a fazer-se no futuro; já foi realizado. Pedro descreve a nossa enfermidade nas palavras que compõem o versículo vinte e cinco. Qual era ela, então?

Primeiro, era embrutecimento. “Éreis como ovelhas.” O pecado fez de nós tais que só nos prestamos a ser comparados a animais, e aos de menor inteligência. Às vezes a Escritura compara o homem não regenerado a um jumento. Diz-se que o homem “nasce como a cria do jumento montês”. Amós compara Israel às “vacas de Basã”, e lhes diz: “Saireis pelas brechas, cada uma em frente de si.” Davi comparou-se a Beemote: “Assim me embruteci, e nada sabia; era como um animal diante de ti.” Não somos nada melhores que animais até que Cristo venha a nós. Mas não o somos depois disso: uma natureza viva, celestial e espiritual é criada dentro de nós quando entramos em contato com o nosso Redentor. Ainda carregamos conosco a velha natureza bruta, mas pela graça de Deus ela é posta em sujeição, e ali mantida; e a nossa comunhão agora é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo. “Éramos como ovelhas”, mas agora somos homens remidos para Deus.

Estamos também curados da propensão a desgarrar-nos, tão notável nas ovelhas. “Éreis como ovelhas desgarradas” — sempre a desgarrar-se, amando desgarrar-se, deleitando-se nisso, nunca tão felizes como quando vagueiam para longe do aprisco. Ainda vagueamos, mas não como as ovelhas vagueiam: agora buscamos o caminho reto, e desejamos seguir o Cordeiro para onde quer que ele vá. Se vagueamos, é por ignorância ou tentação. Podemos verdadeiramente dizer: “A minha alma segue apegada a ti.” A cruz do nosso Senhor pregou-nos firmemente pelas mãos e pelos pés: já não podemos correr avidamente atrás da iniquidade; antes dizemos: “Volta, minha alma, ao teu repouso, pois o Senhor te fez muito bem!”

“As minhas andanças, Senhor, chegaram ao fim,

eis que agora voltei para ti:

Sê tu meu Pai e meu Amigo,

sê tudo em tudo para mim.”

Outra das nossas enfermidades era a incapacidade de voltar: “Éreis como ovelhas desgarradas; mas agora tendes voltado.” Cães e até porcos são mais propensos a voltar para casa do que ovelhas desgarradas. Mas agora, amados, ainda que tenhamos vagueado, voltamos, e continuamos a voltar para o nosso Pastor. Como a pomba de Noé, não achamos lugar de repouso para a planta do pé em parte alguma fora da arca, e por isso voltamos a ele, e ele graciosamente nos recolhe para junto de si. Se em algum momento vagueamos, bendizemos a Deus por haver dentro de nós algo sagrado que não nos deixa descansar, e por haver algo muito mais poderoso acima de nós que nos atrai de volta. Somos como a agulha da bússola: tocai essa agulha com o dedo, e obrigai-a a apontar para o oriente, ou para o sul, e ela poderá fazê-lo por um momento; mas retirai a pressão, e num instante ela volta para o polo. Assim devemos voltar para Jesus; devemos voltar para o Bispo das nossas almas. A nossa alma clama: “A quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra nada há que eu deseje além de ti.” Assim, pela virtude da morte do nosso Senhor, um amor imortal é criado em nós, que nos leva a buscar a sua face, e a renovar a nossa comunhão com ele.

A morte do nosso Senhor curou-nos também da nossa prontidão em seguir outros líderes. Se uma ovelha passa por uma brecha na cerca, todo o rebanho a segue. Estávamos acostumados a seguir os que iam à frente no pecado ou no erro: estávamos por demais prontos a seguir o costume, e a fazer o que se julga próprio, respeitável e usual; mas agora estamos resolvidos a não seguir a ninguém senão a Jesus, segundo a sua palavra: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem. A um estranho não seguirão, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.” De minha parte, estou resolvido a não seguir nenhum líder humano. A fé em Jesus cria uma sagrada independência de espírito. Aprendemos uma dependência tão inteira do nosso Senhor crucificado que não nos sobra nenhuma para os homens.

Finalmente, amados amigos, quando vagueávamos éramos como ovelhas expostas aos lobos, mas somos livrados disso por estarmos junto ao Pastor. Estávamos em perigo de morte, em perigo do diabo, em perigo de mil tentações que, como feras vorazes, rondavam ao nosso redor. Terminada a nossa peregrinação errante, estamos agora em lugar seguro. Quando o leão ruge, somos impelidos para mais perto do Pastor, e alegramo-nos de que o seu cajado nos proteja. Ele diz: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu as conheço, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão.”

Que maravilhosa obra de graça foi operada em nós! Devemos tudo isto, não ao ensino de Cristo, embora este nos tenha ajudado grandemente; não ao exemplo de Cristo, embora este nos encante a imitá-lo com diligência; mas devemos tudo às suas feridas: “por cujas feridas fostes sarados”. Irmãos, pregamos Cristo crucificado, porque fomos salvos por Cristo crucificado. A sua morte é a morte dos nossos pecados. Nunca podemos abandonar a doutrina do sacrifício substitutivo de Cristo, pois é o poder pelo qual esperamos ser feitos santos. Não somente somos lavados da culpa no seu sangue, mas por esse sangue vencemos o pecado. Nunca, enquanto restar fôlego ou pulso, poderemos ocultar a bendita verdade de que “ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça”. Conceda-nos o Senhor conhecer muito mais disto do que posso exprimir, por amor de Jesus Cristo! Amém.

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