Até que Ele Venha
Laços de Amor; ou, União com Cristo

Capítulo 12 · 18 min de leitura

Laços de Amor; ou, União com Cristo

LAÇOS DE AMOR; OU, UNIÃO COM CRISTO. “Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor; e fui para eles como os que tiram o jugo de sobre as suas queixadas, e deitei-lhes o alimento.”—Oseias xi. 4.

LAÇOS DE AMOR; OU, UNIÃO COM CRISTO.

OS TEÓLOGOS sistemáticos costumam considerar a união com Cristo sob três aspectos: natural, místico e federal, e pode ser que estes três termos sejam abrangentes o bastante para compreender todo o assunto; mas, como o nosso objetivo é a simplicidade, sejamos perdoados se parecermos difusos ao seguir um método menos conciso.

1. Os santos estiveram, desde o princípio, unidos a Cristo por laços de amor eterno. Antes que Ele tomasse sobre Si a natureza deles, ou os trouxesse a um consciente gozo de Si mesmo, o Seu coração estava posto sobre as pessoas deles, e a Sua alma se deleitava neles. Muito antes de os mundos serem feitos, o Seu olhar presciente contemplou os Seus escolhidos, e os viu com deleite. Fortes eram os indissolúveis laços de amor que então uniam Jesus às almas que Ele determinara remir. Nem barras de bronze, nem tríplice aço poderiam ter sido vínculos mais reais e eficazes. O verdadeiro amor, de todas as coisas do universo, tem a maior força cimentadora, e suportará a maior tensão, e aguentará a mais pesada pressão: quem contará que provas o amor do Salvador tem suportado, e quão bem as tem sustentado? Nunca houve união mais verdadeira do que esta. Assim como a alma de Jônatas se ligou à alma de Davi, de modo que o amava como à sua própria alma, assim o nosso glorioso Senhor Se uniu e ligou a nós pelos laços de um amor fervoroso e fiel. O amor tem um poder mui potente em efetuar e sustentar a união, mas nunca ele mostra tão bem a sua força como quando o vemos trazer o Criador à unidade com a criatura, o divino à aliança com o humano. Isto, pois, deve ser tido como a alva da união—o amor de Cristo abraçando nas suas dobras toda a família eleita.

2. Há, além disso, uma união de propósito, bem como de amor. Pela primeira, vimos que os eleitos são feitos um com Jesus pelo ato e pela vontade do Filho; pela segunda, eles são unidos a Ele pela ordenação e pelo decreto do Pai. Estes atos divinos são coeternos. O Filho amou e escolheu o Seu povo para ser a Sua própria esposa, o Pai fez a mesma escolha, e decretou os escolhidos para sempre um com o Seu gloriosíssimo Filho. O Filho os amou, e o Pai os decretou a Sua porção e herança; o Pai os ordenou a ser o que o próprio Filho os fez.

No propósito de Deus eles têm estado eternamente associados como partes de um só desígnio. A salvação foi o plano preordenado pelo qual Deus Se engrandeceria, e um Salvador estava, nesse plano, por necessidade associado às pessoas escolhidas para serem salvas. O alcance da dispensação da graça incluía ambos; o círculo da sabedoria compreendia, na sua única circunferência, o Redentor e os redimidos. Eles não podiam ser dissociados na mente e na vontade do Jeová que tudo planeja.

“‘Seja Cristo o meu primeiro eleito’, disse Ele,

Então escolheu as nossas almas em Cristo, nossa Cabeça.”

O mesmo Livro que contém os nomes dos herdeiros da vida contém o nome do seu Redentor. Ele não poderia ser um Redentor a não ser que lhe tivessem sido dadas almas para remir, nem eles poderiam ter sido chamados os resgatados do Senhor, se Ele não Se houvesse comprometido a comprá-los. A redenção, quando determinada pelo Deus do céu, incluía em si tanto Cristo como o Seu povo; e por isso, no decreto que a fixou, eles foram trazidos a uma próxima e íntima aliança.

A previsão da Queda levou a mente divina a prover para a catástrofe em que os eleitos teriam perecido, se a sua ruína não houvesse sido impedida por graciosa intervenção. Daí se seguiram, como parte do arranjo divino, outras formas de união, as quais, além do seu objetivo imediato na salvação, tinham sem dúvida um propósito ulterior de ilustrar a condescendente aliança que Jesus havia formado com os Seus escolhidos. O ponto seguinte e os que se lhe seguem são desta natureza.

3. Jesus é um com os Seus eleitos federalmente. Assim como cada herdeiro de carne e sangue tem um interesse pessoal em Adão, porque este é a cabeça pactual e o representante da raça, considerada sob a lei das obras; assim, sob a lei da graça, cada alma remida é uma com o Senhor que veio do céu, visto que Ele é o Segundo Adão, o Fiador e Substituto dos eleitos no novo concerto de amor. O apóstolo Paulo declara que Levi estava nos lombos de Abraão quando Melquisedeque o encontrou: é igualmente verdade que o crente estava nos lombos de Jesus Cristo, o Mediador, quando, na eternidade passada, os ajustes pactuais da graça foram decretados, ratificados e assegurados para sempre. Assim, tudo o que Cristo fez, Ele o fez em prol de todo o corpo da Sua Igreja. Fomos crucificados n’Ele, e sepultados com Ele (lede Col. ii. 10-13), e, para torná-lo ainda mais maravilhoso, ressuscitamos com Ele, e até ascendemos com Ele aos lugares celestiais (Ef. ii. 6). É assim que a Igreja cumpriu a lei, e é “aceita no Amado.” É assim que ela é contemplada com complacência pelo justo Jeová, pois Ele a vê em Jesus, e não a considera separada da sua Cabeça pactual. Como Redentor ungido de Israel, Cristo Jesus nada tem de distinto da Sua Igreja, mas tudo o que Ele tem, Ele o detém para ela. A justiça de Adão foi nossa enquanto ele a manteve, e o seu pecado foi nosso no momento em que o cometeu; e, do mesmo modo, tudo o que o Segundo Adão é, ou faz, é nosso, bem como Seu, visto que Ele é o nosso Representante. Aqui está o fundamento do concerto da graça. Este gracioso sistema de representação e substituição, que levou Justino Mártir a exclamar: “Ó bendita troca! Ó doce permutação!” isto, digo eu, é o próprio alicerce do evangelho da nossa salvação, e há de ser recebido com forte fé e arrebatada alegria. Em todo lugar, os santos são perfeitamente um com Jesus.

“Um no túmulo, um quando Ele ressurgiu,

Um quando triunfou sobre os Seus inimigos,

Um quando no céu tomou o Seu assento,

Enquanto os serafins cantavam a derrota de todo o inferno.

“Este sagrado laço proíbe os seus temores,

Pois tudo o que Ele é ou tem é deles;

Com Ele, a sua Cabeça, eles se firmam ou caem,

A sua vida, o seu Fiador, e o seu tudo.”

4. Para a realização das grandes obras da expiação e da perfeita obediência, era necessário que o Senhor Jesus tomasse sobre Si “a semelhança da carne do pecado.” Assim, Ele Se tornou um conosco na nossa natureza, pois, na Sagrada Escritura, todos os que participam da carne e do sangue são tidos como de uma só família. Pelo fato da descendência comum de Adão, todos os homens são de uma só raça, visto que “Deus de um só sangue fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra.” Daí que, na Bíblia, o homem é chamado universalmente “teu irmão” (Lev. xix. 17; Jó xxii. 6; Mat. v. 23, 24; Lucas xvii. 3; Rom. xiv. 10, &c., &c.); e “teu próximo” (Êxo. xx. 16; Lev. xix. 13-18; Mat. v. 43; Rom. xiii. 9; Tiago ii. 8); a quem, por causa da natureza e da descendência, somos obrigados a prestar bondade e boa vontade. Ora, ainda que o nosso grande Melquisedeque, na Sua divindade, seja sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo nem princípio de dias nem fim de vida, e esteja, tanto em essência como em posição, a uma distância infinita da humanidade decaída; contudo, quanto à Sua humanidade, Ele deve ser contado como um dos nossos. Nasceu de mulher, pendeu-Lhe dos seios, e foi embalado sobre os joelhos dela; cresceu da infância à juventude, e daí à idade adulta, e em cada etapa foi um verdadeiro e real participante da nossa humanidade. Ele é tão certamente da raça de Adão como é divino. Ele é Deus, sem ficção ou metáfora, e é homem, sem dúvida ou disputa. A Divindade não foi humanizada, e assim diluída; e a humanidade não foi transformada em divindade, e assim tornada mais do que humana. Nunca homem algum foi mais parte da sua espécie do que o foi o Filho do homem, o Homem de dores e o Experimentado nos trabalhos. Ele é o Irmão do homem, pois trouxe sobre Si toda a natureza do homem. “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós.” Aquele que era Deus verdadeiro de Deus verdadeiro fez-Se um pouco menor do que os anjos, e tomou sobre Si a forma de servo, e foi feito à semelhança dos homens.

Isto foi feito com o mais excelente desígnio no que toca à nossa redenção, porquanto era necessário que, como o homem havia pecado, o homem sofresse; mas sem dúvida teve um motivo ulterior: o de honrar a Igreja, e o de capacitar o seu Senhor a compadecer-se dela. O apóstolo mui docemente observa: “E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também Ele participou das mesmas coisas, para que pela morte aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo; e livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão” (Heb. ii. 14, 15); e ainda: “Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Heb. iv. 15). Assim, em laços de sangue, Jesus, o Filho do homem, é um com todos os herdeiros do céu: “Por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos” (Heb. ii. 11). Que razão temos aqui para a mais forte consolação e o mais forte deleite, visto que “assim o que santifica como os que são santificados, são todos de um.” Podemos dizer do nosso Senhor o que a pobre Noemi disse do generoso Boaz: “Este homem é nosso parente chegado, um dos nossos parentes mais próximos.” Assoberbados pela liberalidade do nosso bendito Senhor, somos muitas vezes levados a clamar com Rute: “Por que achei graça em teus olhos, para que faças caso de mim, sendo eu uma estrangeira?” e não estamos prontos a morrer de assombro quando, em resposta a tal pergunta, Ele nos diz que é o nosso Irmão, osso dos nossos ossos, e carne da nossa carne?

Se, em todas as nossas dificuldades e angústias, entesourássemos sempre na mente a lembrança da humanidade do nosso Redentor, nunca lamentaríamos a ausência de um coração solidário, pois teríamos sempre a Sua abundante compaixão para a nossa consolação. Ele não é um estranho, Ele é capaz de entrar na amargura do coração, pois Ele mesmo provou o absinto e o fel. Nunca duvidemos do Seu poder de compadecer-se de nós nas nossas fraquezas e tristezas.

Há um aspecto deste assunto da nossa união natural com Cristo que seria impróprio passar em silêncio, pois é muito precioso para o crente. Enquanto o Senhor Jesus toma sobre Si a nossa natureza (2 Pedro i. 4), Ele restaura em nós aquela imagem de Deus (Gên. i. 27) que foi manchada e desfigurada pela queda de Adão. Ele nos levanta da degradação do pecado à dignidade da perfeição. De modo que, num duplo sentido, a Cabeça e os membros são de uma só natureza, e não como aquela monstruosa imagem que Nabucodonosor viu no seu sonho. A cabeça era de ouro fino, mas o ventre e as coxas eram de bronze, as pernas de ferro, e os pés, em parte de ferro e em parte de barro. O corpo místico de Cristo não é nenhuma absurda combinação de opostos; a Cabeça é imortal, e o corpo é imortal também, pois assim reza o registro: “Porque eu vivo, e vós vivereis.” “Qual o celestial, tais também os celestiais.” “Assim como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem do celestial:” e isto, dentro de mais alguns anos, nos será mais plenamente manifesto, pois “importa que este corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este mortal se revista da imortalidade.” Qual é a Cabeça, tal é o corpo, e cada membro em particular;—uma Cabeça escolhida, e membros escolhidos; uma Cabeça aceita, e membros aceitos; uma Cabeça viva, e membros vivos. Se a Cabeça é de ouro puro, todas as partes do corpo são também de ouro puro. Assim há uma dupla união de natureza, como base para a mais estreita comunhão.

Detém-te aqui, e vê se consegues, sem extático assombro, contemplar a infinita condescendência do Filho de Deus em exaltar a tua miséria à bendita união com a Sua glória. És tão vil que, lembrando a tua mortalidade, podes dizer à corrupção: “Tu és meu pai,” e ao verme: “Tu és minha irmã;” e, contudo, em Cristo, és tão honrado que podes dizer ao Todo-Poderoso: “Aba, Pai,” e ao Deus Encarnado: “Tu és meu Irmão e meu Esposo.” Certamente, se as relações com famílias antigas e nobres fazem os homens ter alta opinião de si mesmos, temos de que nos gloriar acima de todos eles. Lança mão deste privilégio; não deixes que uma insensata indolência te torne negligente em traçar esta linhagem, e não consintas que nenhum tolo apego às vaidades presentes ocupe os teus pensamentos, a ponto de excluírem este glorioso privilégio, esta celestial honra da união com Cristo.

Devemos agora refazer os nossos passos até aos montes antigos, e contemplar esta união numa das suas formas mais primitivas.

5. Cristo Jesus está também unido ao Seu povo numa união mística. Tomando mais uma vez emprestado da história de Rute, observamos que Boaz, ainda que um com Rute por parentesco, não descansou até haver entrado numa união ainda mais estreita, a saber, a do casamento; e do mesmo modo há, acrescentada à união natural de Cristo com o Seu povo, uma união mística pela qual Ele assume a posição de Esposo, enquanto a Igreja é reconhecida como a Sua noiva. Em amor Ele a desposou para Si, como a uma virgem casta, muito antes que ela caísse sob o jugo da servidão. Cheio de ardente afeto, Ele trabalhou como Jacó por Raquel, até que todo o preço do seu resgate houvesse sido pago, e agora, tendo-a buscado pelo Seu Espírito, e trazido-a a conhecê-Lo e amá-Lo, Ele aguarda a gloriosa hora em que a mútua bem-aventurança de ambos será consumada na ceia das bodas do Cordeiro. Ainda não apresentou o glorioso Esposo a Sua noiva, aperfeiçoada e completa, perante a Majestade do céu; ainda não entrou ela, de fato, no gozo das suas dignidades como Sua esposa e rainha; ela é ainda uma peregrina num mundo de aflição, uma moradora nas tendas de Quedar; mas ela é, mesmo agora, a noiva, a esposa de Jesus, querida ao Seu coração, preciosa aos Seus olhos, e unida à Sua pessoa. Em amor e ternura, Ele lhe diz,—

“Não te esquecerei, não o posso, o teu nome

Gravado em Meu coração para sempre permanece:

As palmas das Minhas mãos, enquanto as contemplo, mostram-Me

As feridas que recebi quando sofria por ti.”

Ele exerce para com ela todos os afetuosos ofícios de Esposo. Faz rica provisão para as suas necessidades, paga todas as suas dívidas, permite-lhe tomar o Seu nome, e partilhar de toda a Sua riqueza. Nem jamais agirá de outro modo para com ela. A palavra divórcio Ele nunca a mencionará, pois “Ele odeia o repúdio.” A morte há de romper o vínculo conjugal entre os mais amorosos mortais, mas não pode dividir os elos deste imortal casamento. No céu eles não casam, mas são como os anjos de Deus; contudo há esta única e maravilhosa exceção à regra, pois no céu Cristo e a Sua Igreja celebrarão as suas jubilosas núpcias. E esta afinidade, sendo mais duradoura, é também mais íntima do que o matrimônio terreno. Por mais puro e fervoroso que seja o amor do esposo, ele é apenas um pálido retrato da chama que arde no coração de Jesus. Sobrepujando toda união humana é aquele místico apego à Igreja, pelo qual Cristo deixou Seu Pai, e Se fez uma só carne com ela.

Se esta é a união que subsiste entre as nossas almas e a pessoa do nosso Senhor, quão profundo e largo é o canal da nossa comunhão! Este não é um estreito cano por onde um fio de água possa serpear o seu caminho, é um canal de assombrosa profundidade e largura, ao longo de cuja largura e comprimento uma ponderosa massa de água viva pode rolar toda a sua força. Eis que Ele pôs diante de nós uma porta aberta; não sejamos lentos em entrar. Esta cidade de comunhão tem muitas portas de pérola, cada uma das várias portas é de uma só pérola, e cada porta está escancarada ao máximo para que entremos, seguros de sermos bem-vindos. Se houvesse apenas uma pequena fresta pela qual falar com Jesus, seria um alto privilégio passar uma palavra de comunhão pela estreita abertura; quanto mais somos abençoados por ter uma entrada tão ampla! Se o Senhor Jesus estivesse longe de nós, com muitos mares tempestuosos de permeio, ansiaríamos por enviar-Lhe um mensageiro para levar-Lhe o nosso amor, e trazer-nos notícias da casa de Seu Pai; mas vede a Sua bondade: Ele edificou a Sua casa ao lado da nossa, aliás, mais ainda, Ele Se hospeda conosco, e habita em pobres e humildes corações, para assim ter perpétuo trato conosco. Oh, quão insensatos havemos de ser, se não vivermos em habitual comunhão com Ele! Quando o caminho é longo, e perigoso, e difícil, não é de admirar que os amigos raramente se encontrem uns com os outros; mas, quando eles vivem juntos, esquecerá Jônatas o seu Davi? Uma esposa pode, quando o seu marido está em viagem, passar muitos dias sem conversar com ele; mas nunca poderia suportar estar separada dele se soubesse que ele está num dos aposentos da sua própria casa. Busca o teu Senhor, pois Ele está perto; abraça-O, pois Ele é teu Irmão; segura-O firme, pois Ele é teu Esposo; aperta-O contra o teu coração, pois Ele é da tua própria carne.

6. Até aqui consideramos apenas os atos de Cristo por nós, pelos quais Ele efetua e prova a Sua união conosco; devemos agora chegar a formas mais pessoais e sensíveis desta grande verdade.

Aqueles que são separados para o Senhor são, a seu tempo, apartados da impura massa da humanidade decaída, e são, pela graça soberana, enxertados na pessoa do Senhor Jesus. Isto, a que chamamos união vital, é antes matéria de experiência do que de doutrina; deve ser aprendida no coração, e não pela cabeça. Como toda outra obra do Espírito, a real implantação da alma em Cristo Jesus é uma operação misteriosa e secreta, e não pode ser compreendida pela razão carnal, tal como não o pode o novo nascimento, do qual ela é companheira. Contudo, o homem espiritual a discerne como coisa das mais essenciais na salvação da alma, e vê claramente como uma união viva com Cristo é a segura consequência da influência vivificadora do Espírito Santo, e é, na verdade, sob certos aspectos, idêntica a ela.

Quando o Senhor, em misericórdia, passou junto de nós e nos viu no nosso sangue, disse primeiramente: “Vive”; e isto Ele fez em primeiro lugar, porque, sem vida, não pode haver conhecimento, sentimento ou movimento espiritual. A vida é uma das coisas absolutamente essenciais nas matérias espirituais; e, até que ela seja concedida, somos incapazes de participar das coisas do reino. Ora, a vida que a graça confere aos santos no momento da sua vivificação não é outra senão a vida de Cristo, a qual, como a seiva a partir do tronco, corre para dentro de nós, os ramos, e estabelece uma viva conexão entre as nossas almas e Jesus. A fé é a graça que percebe esta união, e dela procede como o seu primeiro fruto. Ela é, para usar uma metáfora dos Cânticos, o pescoço que liga o corpo da Igreja à sua gloriosíssima Cabeça.

“Ó Fé! tu, vínculo de união com o Senhor,

Não é teu este ofício? e o teu nome apropriado,

Na economia dos tipos do evangelho,

E dos símbolos ajustados—o pescoço da Igreja;

Identificando-a em vontade e obra

Com Aquele que ascendeu?”

A fé lança mão do Senhor Jesus com uma firme e determinada preensão. Ela conhece a Sua excelência e o Seu valor, e nenhuma tentação a pode induzir a depositar a sua confiança em outra parte; e Cristo Jesus deleita-Se de tal modo com esta celestial graça, que nunca cessa de fortalecê-la e sustentá-la pelo amoroso abraço e pelo todo-suficiente amparo dos Seus eternos braços. Aqui, pois, se estabelece uma união viva, sensível e deleitosa, que lança de si correntes de amor, confiança, simpatia, complacência e alegria, das quais tanto a noiva como o Esposo gostam de beber. Quando o olho é claro, e a alma pode evidentemente perceber esta unidade entre si mesma e Cristo, o pulso pode ser sentido como batendo por ambos, e o mesmo sangue pode ser conhecido como fluindo pelas veias de cada um. Então o coração é feito sobremaneira alegre, está tão perto do céu quanto jamais pode estar na terra, e está preparado para o gozo do mais sublime e espiritual gênero de comunhão. Esta união pode ser igualmente verdadeira quando somos perturbados por dúvidas a seu respeito, mas não pode dar consolação à alma a não ser que seja indisputavelmente comprovada e seguramente sentida; então é ela deveras um favo de mel a destilar doçura, uma preciosa joia a cintilar de luz. Atentai bem para este assunto, ó santos do Altíssimo!

Capítulo 12 concluído

Laços de Amor; ou, União com Cristo

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