Capítulo 11 · 19 min de leitura
Jesus, o Grande Objeto de Assombro
UM DISCURSO DE COMUNHÃO EM MENTONE. “Eis que o meu Servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime. Como muitos pasmaram à vista de Ti; o Seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o de qualquer homem, e a Sua figura mais do que a dos filhos dos homens; assim borrifará muitas nações; os reis fecharão as suas bocas por causa d’Ele: porque aquilo que não lhes foi anunciado verão; e aquilo que não ouviram considerarão.”—Isaías lii. 13-15.
JESUS, O GRANDE OBJETO DE ASSOMBRO.
O NOSSO Senhor Jesus Cristo trouxe desde a antiguidade o nome de “Maravilhoso”, e a palavra parece por demais pobre para exprimir a Sua admirável pessoa e o Seu admirável caráter. Ele diz de Si mesmo, na linguagem do profeta,—“Eis-me aqui, eu e os filhos que o Senhor me deu, para sinais e para maravilhas.” Ele é uma fonte de assombro para todos os que O conhecem, e quanto mais O conhecem, mais “pasmam” diante d’Ele. É coisa assombrosa que tenha havido, de todo, um Cristo: a Encarnação é o milagre dos milagres; que Aquele que é o Infinito Se tornasse um infante, que Aquele que fez os mundos fosse envolto em faixas, permanece um fato do qual, como de uma colmeia, continuamente esvoaçam novas maravilhas. Na Sua natureza complexa Ele é tão misterioso, e contudo tão manifesto, que sem dúvida todos os anjos do céu se assombraram e ainda se assombram diante d’Ele. Ó Filho de Deus, e Filho do homem, quando Tu, o Verbo, Te fizeste carne, e habitaste entre nós, e os Teus santos contemplaram a Tua glória, era natural que muitos se assombrassem diante de Ti!
O nosso texto parece dizer que o nosso Senhor foi, primeiro, uma grande maravilha nas Suas dores; e, em segundo lugar, que foi uma grande maravilha na Sua glória.
I. Ele foi uma grande maravilha nas Suas dores: “Como muitos pasmaram à vista de Ti; o Seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o de qualquer homem, e a Sua figura mais do que a dos filhos dos homens.”
O Seu parecer estava desfigurado: sem dúvida o Seu semblante trazia os sinais de uma dor incomparável. Havia sulcos na Sua fronte, assim como nas Suas costas; o sofrimento, e o quebrantamento de espírito, e a angústia do coração haviam deixado a sua marca naquele belo rosto, até que a sua formosura, ainda que jamais pudesse ser destruída, ficou “tão” desfigurada que nunca outro rosto foi de tal modo estragado pela tristeza. Mas não foi só o Seu rosto: toda a Sua figura ficou mais desfigurada do que a dos filhos dos homens. O contorno da Sua humanidade corpórea mostrava as marcas de singulares assaltos da tristeza, tais como nunca haviam curvado outra figura tão baixo. Não sei se o Seu andar era encurvado, ou se os Seus joelhos vacilavam, e o Seu passo era débil; mas havia evidentemente algo n’Ele que Lhe dava a aparência de uma velhice prematura, pois aos judeus Ele parecia mais velho do que era, visto que, quando pouco mais tinha do que trinta anos, disseram-Lhe: “Ainda não tens cinquenta anos.” Não consigo conceber que Ele fosse deformado ou desengonçado; mas, apesar da Sua natural dignidade, o Seu aspecto gasto e emaciado O assinalava como “o Homem de dores”, e, ao olho carnal, toda a Sua forma natural e espiritual nada tinha que suscitasse admiração; assim como disse o profeta: “Quando o víssemos, não havia beleza para que o desejássemos.” A desfiguração não foi só daquele belo rosto, mas de toda a fábrica da Sua admirável humanidade, de modo que muitos pasmaram diante d’Ele.
O nosso assombro, quando na contemplação vemos o nosso Senhor sofredor, há de nascer da consideração do que deve ter sido a Sua beleza natural, guardado como esteve, desde o princípio, dentro de um corpo perfeito. Concebido sem pecado, e assim nascido de uma virgem pura sem mácula de pecado hereditário, não duvido de que Ele fosse a flor e o esplendor da humanidade quanto à Sua forma, e, desde a Sua tenra juventude, Ele deve ter sido uma alegria aos olhos de Sua mãe. Grandes mestres dos tempos antigos empregaram toda a sua arte no santo menino Jesus, mas não cabe às cores da terra retratar o Senhor que veio do céu. Aquela “coisa santa” que nasceu de Maria foi “vista dos anjos”, e encantou os seus olhos. Deverá tal formosura ser desfigurada? Cada olhar Seu era puro, cada pensamento Seu era santo, e portanto a expressão do Seu rosto devia ser celestial, e contudo devia ser desfigurada. A pobreza havia de marcá-lo; a fome, e a sede, e o cansaço haviam de sulcá-lo; as dores do coração haviam de retalhá-lo e cobri-lo de cicatrizes; o escarro havia de manchá-lo; as lágrimas haviam de escaldá-lo; os golpes haviam de contundi-lo; a morte havia de torná-lo pálido e exangue. Bem canta Bernardo—
“Ó sacra Cabeça, outrora ferida,
De dor e tormento carregada,
Quão desprezada, rodeada
De espinhos, tua única coroa;
Quão pálida estás de angústia,
De cruel afronta e escárnio!
Como esmorece esse semblante,
Que outrora era brilhante como a aurora!”
O segundo assombro para nós há de ser que pudesse ser tão desfigurado Aquele que nada tinha em Seu caráter que Lhe desfigurasse o semblante. O pecado é uma triste deformação de rostos que na primeira infância eram sumamente atraentes. A paixão, se lhe damos rédeas, logo põe um selo de deformidade no semblante. Os homens que se lançam no vício trazem nas suas feições os traços dos fogos vulcânicos dos seus corações. A maioria de nós conhece alguns seres murchos, cuja beleza foi consumida pelos ferozes fogos do excesso, até se tornarem um horror de se ver, como se sobre eles estivesse posto o sinal de Caim. Todo pecado deixa a sua linha num belo rosto. Mas não havia pecado algum no bendito Jesus, nenhum mau pensamento que Lhe desfigurasse a natural perfeição. Nenhuma vermelhidão dos olhos jamais Lhe veio por demorar-se junto ao vinho; nenhuma ira profana jamais Lhe afogueou a face; nenhuma cobiça deu ao Seu olho um lampejo de lobo; nenhum cuidado egoísta emprestou às Suas feições um aspecto agudo e ansioso. Uma vida tão altruísta e santa como a Sua deveria tê-Lo tornado, se fosse possível, mais belo a cada dia. Entregue a tal benevolência, permanecendo em tal comunhão com Deus, decerto o rosto de Cristo devia, na ordem natural das coisas, assombrar cada vez mais todos os observadores compassivos com os seus transcendentes encantos. Mas a tristeza veio gravar o seu nome onde o pecado nunca dera um traço, e ela fez a sua obra tão eficazmente que o Seu parecer ficou mais desfigurado do que o de qualquer homem, ainda que o Deus de misericórdia saiba que houve outros rostos que foram consumidos pela dor e pela angústia para além de todo reconhecimento. Não preciso repetir sequer uma das muitas histórias de aflição humana: a do nosso Senhor supera todas.
Lembrai-vos de que o rosto do nosso Amado, bem como toda a Sua figura, devia ser um índice exato da Sua alma. A fisiognomia é uma ciência com muita verdade nela, quando trata de homens verazes. Os homens desmamados da simplicidade sabem como dominar o semblante; o astuto parecerá honesto, o endurecido dará mostras de compadecer-se do aflito, o vingativo imitará a boa vontade. Há alguns que continuamente usam o semblante como usam a fala, para ocultar os seus sentimentos; e é quase um ponto de cortesia para eles nunca se mostrarem, mas andarem sempre mascarados entre os seus semelhantes.
Mas o Cristo não aprendera tais artes. Ele era tão sincero, tão transparente, tão semelhante a uma criança e tão verdadeiro, que tudo o que se agitava dentro d’Ele se tornava aparente aos que estavam ao Seu redor, na medida em que eram capazes de compreender a Sua grande alma. Lemos d’Ele que foi “movido de compaixão.” A palavra grega significa que Ele experimentou uma comoção admirável de toda a Sua natureza, ficou vibrado por ela, e os Seus discípulos viram quão profundamente Ele Se comovia pelo povo, que era como ovelhas sem pastor. Embora não Se confiasse aos homens, Ele não Se ocultava, mas trazia o coração à mostra, e todos podiam ver o que Ele era, e sabiam que estava cheio de graça e de verdade. Não nos surpreendemos, portanto, quando devotamente consideramos o caráter do nosso Senhor, de que o Seu parecer e a Sua figura indicassem as íntimas agonias do Seu terno espírito; não podia ser que o Seu rosto fosse falso ao Seu coração. Os que aravam fizeram profundos sulcos na Sua alma, bem como nas Suas costas, e o Seu coração era rasgado por convulsões interiores, que não podiam deixar de afetar toda a Sua aparência. Aqueles olhos viam o que os que estavam ao Seu redor não podiam ver; aqueles ombros carregavam um fardo constante que os outros não podiam conhecer; e, portanto, o Seu semblante e a Sua figura o traíam. Ó querido, querido Salvador, quando pensamos em Ti, e na Tua majestade e pureza, assombramo-nos de novo de que aflições viessem sobre Ti tão dolorosamente a ponto de desfigurar o Teu parecer e a Tua figura!
Agora pensai, queridos amigos, quais foram as causas desta desfiguração. Não foi a velhice que Lhe havia enrugado a fronte, pois Ele ainda estava na flor da vida, nem foi uma enfermidade pessoal que Lhe houvesse causado a decadência; muito menos foi qualquer fraqueza ou doença congênita, que ao fim se traísse, pois na Sua carne não havia possibilidade de impureza, que, na morte, tivesse levado à corrupção. Foi ocasionada, primeiro, pela Sua constante compaixão para com os que sofriam. Havia um pesado desgaste ocasionado pela extraordinária compaixão da Sua alma. Em três anos, isso se manifestara n’Ele do modo mais evidente, até que o Seu parecer ficou mais desfigurado do que o de qualquer outro homem. Havia n’Ele uma espécie de absorção, para dentro de Si mesmo, de todo o sofrimento daqueles a quem abençoava. Ele sempre trazia sobre Si o fardo da aflição mortal. Lemos que Cristo curava todos os enfermos, “para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías, que diz: Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças.” Sim, Ele tomou aquelas enfermidades e doenças, de algum modo místico, sobre Si mesmo, assim como ouvi dizer de certas árvores que espalham saúde, porque elas mesmas absorvem o miasma, e sugam para dentro de si aqueles vapores nocivos que de outro modo envenenariam a humanidade. Assim, sem se poluírem, elas desinfetam a atmosfera ao seu redor. Isto o nosso Salvador fazia, mas o custo era grande para Ele. Podeis imaginar, vivendo Ele como vivia no meio de um vasto hospital, quão constantemente devia ver cenas que O entristeciam e afligiam. Além disso, com uma natureza tão pura e amorosa, Ele devia ser diariamente torturado pelo pecado, e pela hipocrisia, e pela opressão que tanto abundavam nos Seus dias. Em certo sentido, Ele sempre estava dando a Sua vida pelos homens, pois consumia-Se a serviço deles, torturado pelo pecado deles, e oprimido pela tristeza deles. Quanto mais olhamos para aquele parecer desfigurado, mais nos assombraremos da angústia que ele indicava.
Não vos admireis de que Ele fosse mais desfigurado do que qualquer homem, pois era mais sensível do que os outros homens. Nenhuma parte d’Ele era calejada, Ele não tinha consciência cauterizada, nem sensibilidade embotada, nem nervo entorpecido e amortecido. A Sua humanidade estava na sua glória, na perfeição em que Adão estava quando Deus o fez à Sua própria imagem, e portanto Ele estava mal alojado num mundo assim decaído. Lemos de Cristo que ficou “contristado pela dureza dos seus corações,” “estava admirado da incredulidade deles,” “suspirando profundamente em seu espírito,” “moveu-se muito em espírito, e perturbou-se.” Isto, porém, era apenas o começo da desfiguração.
As Suas mais profundas dores e a mais grave desfiguração vieram da Sua obra substitutiva, ao suportar a pena do nosso pecado. Uma só palavra recorda muito da Sua aflição: é “Getsêmani.” Traído por Judas, o Seu amigo de confiança, para que se cumprisse a Escritura: “O que come pão comigo levantou contra mim o seu calcanhar;” abandonado até por João, pois todos os discípulos O deixaram e fugiram; nenhum de todos os entes queridos com Ele: Ele foi deixado sozinho. Havia lavado os pés deles, mas eles não puderam vigiar com Ele uma só hora; e naquele jardim Ele lutou com o nosso mortal inimigo, até que o Seu suor se fez como grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão, e, como diz Hart, Ele—
“Suportou tudo o que o Deus Encarnado podia suportar,
Com força bastante, mas nenhuma de sobra.”
Creio deveras que aquele verso é verdadeiro. Nisto vedes o que Lhe desfigurou o semblante, e a figura, mesmo ainda em vida. Toda a Sua humanidade sentiu aquele terrível abalo, quando Ele e o príncipe das trevas, em pavoroso duelo, o travaram em meio à sombra das oliveiras, naquela fria meia-noite em que a nossa redenção começou a ser plenamente realizada.
Toda a Sua paixão desfigurou o Seu semblante e a Sua figura com os seus incógnitos sofrimentos. Contenho-me, para que esta meditação não se torne demasiado dolorosa. Ligaram-No, açoitaram-No, escarneceram-No, arrancaram-Lhe os cabelos do rosto, cuspiram sobre Ele, e por fim cravaram-No no madeiro, e ali Ele pendeu. Só a Sua dor física deve ter sido muito grande, mas todo esse tempo havia dentro da Sua alma um tormento interior que somava incomensuravelmente aos Seus sofrimentos. O Seu Deus O desamparou. “Eloi, Eloi, lama, sabachthani?” é um brado suficiente para fender as rochas, e por certo nos deixa a todos assombrados quando, na luz que retorna, olhamos para o Seu parecer, e temos certeza de que nunca o rosto de homem algum foi antes tão desfigurado, e nunca a figura de nenhum filho do homem foi tão gravemente desfeita. Chorando e maravilhando-nos, pasmados e adorando, deixamos as dores do nosso próprio querido Senhor, e, com amoroso interesse, voltamo-nos para a porção mais luminosa da Sua incomparável história.
“Contemplai o vosso Rei! Ainda que o luar se esgueire
Por entre os prateados ramos da oliveira,
Nenhum cetro engastado de estrelas ou coroa ele revela,
Na solene sombra de Getsêmani.
Apenas uma figura de prostrada dor,
Caída, esmagada, como uma folha quebrada!
Oh, pensai na Sua tristeza, para que conheçamos
A profundidade do amor na profundidade da aflição!
“Contemplai o vosso Rei, coroado com a Sua tristeza,
Sozinho, sozinho no vale está Ele!
As sombras da morte se ajuntam ao redor,
E a cruz há de seguir-se a Getsêmani.
Cada vez mais densa a treva há de cair,
Cheio está o cálice, Ele há de bebê-lo todo!
Oh, pensai na Sua tristeza, para que conheçamos
O Seu maravilhoso amor na Sua maravilhosa aflição!”
II. Há um assombro igual diante das Suas glórias. Não duvido de que, se pudéssemos vê-Lo agora, como Ele apareceu a João em Patmos, sentiríamos que devemos fazer exatamente o que fez o discípulo amado, pois ele deliberadamente escreveu: “Quando o vi, caí a seus pés como morto.” O seu assombro foi tão grande que ele não pôde suportar a visão. Sem dúvida ele muitas vezes ansiara por contemplar aquele rosto e aquela figura glorificados, mas o privilégio foi demais para ele. Enquanto estamos embaraçados por estes corpos frágeis, não nos é próprio contemplar o nosso Senhor, pois morreríamos de excesso de deleite se de repente contemplássemos aquela visão de esplendor. Oh, por aqueles gloriosos dias em que jazeremos para sempre a Seus pés, e veremos o nosso exaltado Senhor!
“Eis que o meu servo procederá com prudência; será exaltado, e elevado, e mui sublime.” Observai as três palavras, “exaltado, e elevado, e mui sublime;” a linguagem ofega por expressão. O nosso Senhor está agora exaltado, tendo sido levantado da sepultura, levantado acima de todos os anjos, e principados, e potestades. O homem Cristo Jesus é o mais próximo do trono eterno, sim, o Cordeiro está diante do trono. “E olhei, e eis que estava no meio do trono e dos quatro seres viventes, e no meio dos anciãos, um Cordeiro, como havendo sido morto.” Ele está, no Seu próprio estado e pessoa, exaltado, e então, pelo louvor que Lhe é rendido, é elevado, pois é adorado e reverenciado por todo o universo. Todo louvor sobe agora diante d’Ele, de modo que os homens O elevam, enquanto “Deus também o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra; e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.” Profundas foram as Suas dores, mas tão altas são as Suas alegrias. Diz-se que, ao redor de muitos dos lagos da Escócia, as montanhas são tão altas quanto as águas são profundas; e assim as glórias do nosso Senhor são tão incomensuráveis quanto foram as Suas aflições. Que meditação nos oferecem estas duplas e incalculáveis alturas e profundidades! O nosso texto diz que Ele há de “ser mui sublime.” Não nos pode dizer quão sublime. É inconcebível quão grande e glorioso, sob todos os aspectos, o Senhor Jesus Cristo é neste momento. Oh, que Ele seja mui sublime na nossa estima! Ele ainda não está exaltado e elevado em nenhum dos nossos corações como merece estar. Quisera que O amássemos mil vezes mais do que O amamos, mas o nosso coração inteiro vai atrás d’Ele, não vai? Não morreríamos por Ele? Não O poríamos num trono tão alto quanto sete céus, e ainda pensaríamos que não tínhamos feito o bastante por Ele, que é agora o nosso tudo em todos, e mais do que tudo?
Notai o que se diz, a respeito do Cristo, como a coisa mais assombrosa de todas: “Assim borrifará muitas nações.” Ora, é a glória do nosso ressuscitado Senhor, neste momento, que o Seu precioso sangue há de salvar muitas nações. Diante do trono, homens de todas as nações hão de cantar: “Tu foste morto, e com o teu sangue nos remiste para Deus.” Não só a nação inglesa será purificada pelo Seu sangue expiatório, mas muitas nações Ele borrifará com o Seu sangue reconciliador, assim como o Israel de outrora foi aspergido com o sangue do sacrifício. Lemos no décimo capítulo da Epístola aos Hebreus, no versículo vinte e dois, de “tendo os nossos corações purificados de má consciência,” e isto se efetua por aquele precioso sangue pelo qual fomos uma vez purificados tão eficazmente que não temos mais consciência de pecados, mas entramos em perfeita paz. O sangue de touros e de bodes, e a cinza de uma novilha, aspergindo os imundos, santificava para a purificação da carne; quanto mais o sangue de Cristo purificará a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo.
A aspersão do sangue destinava-se também a confirmar o concerto: assim Moisés “aspergiu tanto o livro como todo o povo, dizendo: Este é o sangue do testamento que Deus vos ordenou.” O próprio Senhor disse: “Isto é o meu sangue, o sangue do novo concerto, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados.” Mas não é coisa maravilhosa que Ele morresse como um malfeitor no madeiro, em meio ao escárnio e ao ridículo, e que, contudo, esteja hoje trazendo nações ao concerto com Deus? Outrora tão desprezado, e agora: tão poderoso! Deus O deu “como concerto do povo, e para luz dos gentios.” Muitas nações serão por Ele unidas em concerto com o Deus de toda a terra. Não caiais na errônea ideia de que este mundo é como um grande navio naufragado, prestes a despedaçar-se numa costa de rochedos; mas antes esperemos a conversão do mundo ao Senhor Jesus. Como recompensa do trabalho da Sua alma, Ele fará que muitas nações “exultem de alegria”, pois assim alguns leem a passagem; os povos da terra não só se assombrarão das Suas dores, mas admirarão as Suas glórias, adorarão as Suas perfeições, e serão cheios de um assombro de alegria com a Sua vinda e o Seu reino. Não consigo conceber nada, no futuro, grande e glorioso demais para resultar da paixão e da morte do nosso divino Senhor.
Escutai isto: “Os reis fecharão as suas bocas por causa d’Ele.” Eles verão um Rei tal como eles mesmos nunca foram; falam livremente aos seus irmãos-reis, mas não ousarão falar-Lhe, e, quanto a falar contra Ele, isso estará totalmente fora de questão.
“Os reis se prostrarão diante d’Ele,
E ouro e incenso trarão.”
“Porque aquilo que não lhes foi anunciado verão.” Os reis estão muitas vezes fora do alcance do evangelho, eles não o ouvem, ele não lhes é anunciado. Eles desprezariam o humilde pregador, e as pequenas reuniões de crentes ajuntados para adorar; só dariam ouvidos a discursos pomposos, que não tocam o coração nem a consciência. Os grandes da terra são, em geral, os menos propensos a conhecer as coisas de Deus, pois, enquanto aos pobres se prega o evangelho, é mais provável que os príncipes ouçam brandas lisonjas e belos discursos. Virá o tempo, porém, em que César se inclinará diante de um verdadeiro Imperador, e os monarcas contemplarão o Príncipe dos reis da terra. “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus.” Eles verão a Sua majestade, da qual nem sequer lhes fora dito.
“Aquilo que não ouviram considerarão.” Serão obrigados, mesmo nos seus tronos, a pensar no reino do Rei dos reis, e recolher-se-ão aos seus aposentos para confessar os seus pecados, e para vestir-se de saco e cinza, e para dar ouvidos às palavras da sabedoria. “Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra.” Hoje, os humildes escutam a Cristo, mas dentro em pouco os mais poderosos dentre os poderosos voltarão para Ele todos os seus pensamentos. Ele ajuntará molhos de cetros debaixo do Seu braço, e coroas serão espalhadas a Seus pés; e “ele reinará para todo o sempre,” e “do aumento do seu governo e da paz não haverá fim.” Se nos assombramos com a desfiguração do Seu rosto, muito mais nos assombraremos com a magnificência da Sua glória. Sobre o Seu trono, ninguém questionará a Sua supremacia, ninguém duvidará da Sua formosura; mas os Seus inimigos hão de chorar e prantear por causa d’Aquele a quem traspassaram; enquanto Ele há de ser admirado em todos os que creem. Adorável Senhor, ansiamos pela Tua gloriosa aparição! Rogamos-Te, não tardes!
“Vem, e começa o Teu reinado
De paz eterna;
Vem, toma para Ti o reino,
Grande Rei da Justiça!”
Capítulo 11 concluído
Jesus, o Grande Objeto de Assombro