Capítulo 4 · 24 min de leitura
Fato! Fé! Sentimento!
Estas três palavras representam três dos mais importantes fatores no caráter e na vida. Todos nós temos de lidar com elas de uma forma ou de outra, mas é, acima de tudo, necessário que as coloquemos na ordem certa.
A maioria das pessoas tenta pôr o Sentimento em primeiro lugar, com tanto êxito como se tentasse construir o andar de cima de uma casa antes de lançar os seus alicerces. A ordem dessas pessoas é ‑‑
SENTIMENTO, FATO, FÉ
ou
SENTIMENTO, FÉ, FATO
Outros buscam a Fé primeiro, sem considerar os Fatos sobre os quais unicamente a Fé e o Sentimento podem repousar. Assemelham-se ao homem que, desejando aquecer-se numa noite gélida, se recusa a aproximar-se do fogo que arde vivamente na lareira.
A única ordem possível que trará bênção e conforto ao coração é a indicada no nosso título: ‑‑
Os Fatos de Deus, assentados como um alicerce de adamante.
A nossa Fé, apreendendo-os e repousando sobre eles.
Os Sentimentos jubilosos, que virão, pode ser de imediato, ou depois de decorridos dias e meses, conforme Deus quiser.
FATO.
Os fatos de que a Bíblia nos fala são como pedras de passagem através de um riacho. Antes de você chegar aos baixios onde elas jazem, pergunta-se como conseguirá atravessar, mas, ao descer até a margem da água, elas transpõem o espaço de uma borda à outra. Quando você alcança uma, pode passar para outra, e assim por diante. É absurdo consultar o sentimento, ou procurar a fé, enquanto ainda se está a certa distância da beira do riacho, ou se você insiste em passar acima ou abaixo daquela primitiva ponte de pedras. Você deve descer até elas, examiná-las, ver quão firmemente estão fixadas no leito lodoso, notar com que facilidade os aldeões passam e repassam; então você se sentirá capaz de confiar nelas e, por fim, de coração leve e com grande sensação de alívio, passará de uma para outra.
Recordemos alguns fatos que talvez nos ajudem primeiro a chegar à fé e depois ao sentimento.
É um fato que Deus ama a cada um de nós com o mais terno e mais particular amor. Você pode não crer nisso, nem senti-lo; o cálido sol de verão pode estar a brilhar contra a sua janela de venezianas fechadas e cortinas corridas sem se fazer ver nem sentir lá dentro; mas o seu fracasso em perceber e apreciar o fato do amor de Deus por você não pode alterar que assim seja.
É um fato que, em Jesus, todo obstáculo foi removido do caminho do seu perdão e da sua aceitação imediatos. Deus estava no Salvador moribundo, tirando o pecado, levando os nossos pecados no seu próprio corpo sobre o madeiro, reconciliando o mundo consigo mesmo. Você pode não crer nisto, nem sentir a alegria disso, mas isso não altera o fato de que é assim.
Depois de assinada a paz entre o Norte e o Sul, na grande guerra americana, havia soldados escondidos nos bosques, definhando de fome à custa de frutos silvestres, que poderiam ter voltado para os seus lares. Ou não sabiam, ou não davam crédito às boas novas, e continuaram a passar fome muito depois de os seus companheiros terem sido acolhidos por suas esposas e filhos. A perda era deles, mas o seu fracasso em conhecer ou crer não alterava o fato de que a paz fora proclamada e de que a porta estava escancarada para o seu regresso.
Um amigo pode ter pago todas as minhas dívidas na minha aldeia natal, da qual fugi, temendo prisão e desonra. Pode tê-lo feito tão prontamente que o meu crédito nunca ficou abalado, nem o meu bom nome perdido. Pode haver todo o antigo amor e honra à espera de me saudar. Ele pode ter-mo dito; mas, se eu ainda me mantiver ausente e me recusar a voltar, a minha insensatez neste ponto não pode desfazer aqueles atos benéficos, ainda que perpetue a minha desdita.
É um fato que, no instante em que uma alma confia em Cristo, ela nasce na família de Cristo e se torna um filho. Não há dúvida quanto a isto. Você pode não se sentir bom, nem fervoroso, nem solícito; pode até estar consciente de uma falha recente; pode estar a passar os seus dias sob um manto de sombria depressão; mas, se você recebeu a Cristo e verdadeiramente confiou nele, você nasceu de novo, não de homem, nem da vontade da carne, mas de Deus (João 1:12). Você pode ser um filho pródigo ou inconstante, mas é um filho. Se fosse sábio, tomaria o lugar do filho à mesa do Pai e desfrutaria do seu sorriso. Eles o aguardam. Mas, se você ainda permanecer fora, no frio, como o irmão mais velho da parábola, não altera o fato de que o seu lugar está pronto para você o ocupar quando quiser.
É um fato que Deus toma o que damos, e assim que o damos. Não há longo intervalo. Quando soltamos, ele recebe. Quando nos colocamos sobre o seu altar, somos imediatamente selados como seus. Quando nos consagramos, ele aceita. O ato divino é instantâneo. Você pode não estar ciente disto e continuar a entregar-se dia após dia. Se o fizer, sobrecarrega-se com ansiedade desnecessária; continua a oferecer o que já não é seu para dar, e perde a bem-aventurança de perceber o que é ser propriedade absoluta, posse e servo do bendito Mestre; mas o seu equívoco não pode alterar o fato de que Deus o tomou ao pé da letra quando você, pela primeira vez, se entregou a ele num solene ato de dedicação. “Porventura a nossa falta de fé anulará a fidelidade de Deus? ”
É um fato que, em Jesus Cristo, estamos assentados nos lugares celestiais.Não podemos alterar isto. Podemos não crer nisso, ou não nos valermos de todos os privilégios que ele implica, ou não desfrutarmos da bem-aventurança da proximidade de Jesus; mas essa é, não obstante, a nossa posição legítima na ordem divina. Se estamos unidos a Jesus pelo mais tênue fio de fé, somos tão um com ele quanto os mais elevados santos; e onde está a Cabeça, ali está também o Corpo. Nele morremos na cruz e, assim, satisfizemos as justas exigências da santa lei. Nele jazemos na sepultura e, assim, saímos da região governada pelo Príncipe da Potestade do ar. Nele ressuscitamos e subimos muito acima de todo poder e domínio, principado e potestade.
Está Satanás debaixo dos pés de Cristo? No propósito de Deus, ele está também debaixo dos nossos. Estão a morte e a sepultura para sempre atrás de Cristo? Assim, no propósito de Deus, passamos para o lado pascal de ambas e estamos a barlavento da tempestade. No que toca ao seu aguilhão ou terror, elas são como os egípcios mortos na praia do mar. Passou o grande Sumo Sacerdote através dos céus, para dentro do véu? Assim, no propósito de Deus, também nós passamos do átrio exterior para o Lugar Santo, onde oferecemos dádivas, sacrifícios, súplicas e intercessões por todos os homens.
Tudo isto pode parecer irreal e impossível, como a ideia de ser a noiva de um príncipe para uma pobre Gata Borralheira, mas é, não obstante, a nossa verdadeira posição. Estes são os fatos do mundo eterno, quer você se valha deles, quer não. Não são poucos os casos registrados de escravos que morreram de fome no cativeiro por não quererem valer-se da liberdade; e de nobres que levaram uma vida dura e difícil por não reclamarem os seus direitos!
É um fato que há uma parte no dom de Pentecostes à espera de cada membro de Cristo. Ele recebeu dons até para os rebeldes. A cada um foi dada a graça. A promessa do Espírito Santo é para tantos quantos o Senhor nosso Deus chamar. Sem dúvida você tem uma parte naquele enchimento, naquela unção divina, naquele maravilhoso poder no serviço, que transformou os apóstolos de tímidas ovelhas em leões na peleja. Você pode nunca ter reclamado o seu direito, mas não há graça que outros possuam que você não possa obter. Todas as coisas são suas. Deus transferiu para você as insondáveis riquezas de Cristo. Nem olho viu, nem ouvido ouviu, nem o coração do homem concebeu todos os tesouros de graça, amor e poder que são seus em Cristo, acumulando-se para você no Divino Banco de Depósitos. Parece uma imensa pena que você viva a vida de um mendigo quando tamanha riqueza e poder são seus; mas, se você persistir em fazê-lo, a sua insensatez e cegueira não alteram o fato de que a plenitude de Deus é sua em Cristo.
Estes são alguns daqueles fatos, dados a conhecer a nós na Palavra de Deus, que nos conduzirão sobre o riacho da emoção turva até um chão firme onde nos pôr de pé. Deixemos de nos afligir com a nossa fé, ou de tomar o pulso à emoção, e venhamos repousar sobre eles, certos de que são mais estáveis do que o céu ou a terra.
FÉ.
Se você deseja uma fé verdadeira, não pense nela, mas volte o olhar para os fatos de que temos falado. Não achamos dificuldade em confiar nos nossos amigos, porque abrimos os nossos corações, como janelas voltadas para o sul, ao amor deles. Recordamos todas as suas intervenções em nosso favor. Lembramos tudo o que prometeram e cumpriram. Onde estaria a nossa dificuldade quanto à fé, se deixássemos de nos afligir com ela e nos ocupássemos com o objeto da fé ‑‑ Jesus Cristo, nosso Senhor?
A Fé é mais do que Credo. Num credo, cremos acerca de uma pessoa ou de uma circunstância; mas na fé depositamos a nossa confiança sobre uma pessoa. Não devemos crer apenas acerca de Cristo, mas nele, como fez Livingstone quando, em certa ocasião, ao anoitecer, foi confrontado por um exército de selvagens enfurecidos e foi tentado a esgueirar-se na escuridão; mas o seu olhar pousou sobre a promessa, “Eu estou convosco todos os dias, ” e ele escreveu: “Fui dormir porque sabia que era a palavra de um perfeito cavalheiro.” Não creia acerca de Cristo, mas nele.
A Fé ocupa-se com uma pessoa. Somos salvos e abençoados pela fé que passa através dos fatos da vida do nosso Salvador até ele mesmo. Repousamos não sobre a expiação, mas sobre aquele que a fez; não sobre a morte, mas sobre aquele que morreu; não sobre a ressurreição, mas sobre aquele que ressuscitou, subiu e vive eternamente para interceder; não em declarações acerca dele, mas nele, de quem elas são feitas.
Muitas vezes a pergunta é feita por quem indaga: “Tenho eu o tipo certo de fé?” É uma pergunta necessária, porque há uma fé morta e espúria que nos falhará na crise suprema, tal como as carnes mal enlatadas falharam à expedição de exploração ártica, que, ao regressar ao seu depósito de provisões, as encontrou imprestáveis e morreu de fome.
Há uma resposta simples: “Toda fé que se volta para Jesus é a fé certa.” Ela pode não trazer nenhum arrebatamento à consciência. Pode ser tão frágil como o toque da mulher na orla da sua veste. Pode ser pequena e insignificante como um grão de mostarda. Pode ser desesperada como o clamor de Pedro: “Senhor, salva-me, ou pereço!” Mas, se o seu mais profundo anseio for Cristo ‑‑ Cristo ‑‑ Cristo, ela é o fio tênue que trará a alma perdida através de passagens subterrâneas, nas quais quase se havia afogado, para a luz da vida.
A verdadeira Fé conta com a Fé de Deus. Na minha juventude, eu costumava buscar maior fé considerando quão grande Deus era, quão rico, quão forte; por que não haveria ele de me dar dinheiro para a sua obra, sendo tão rico? Por que não haveria de carregar todo o peso das minhas responsabilidades, sendo tão poderoso? Contudo, essas considerações me ajudaram menos do que a minha agora certa convicção de que ele é absolutamente fiel; fiel aos seus compromissos de aliança em Cristo, fiel às suas promessas e fiel à alma que, ao seu claro chamado, se lançou em algum empreendimento por ele. Podemos perder o ânimo e a esperança, a nossa cabeça pode girar tonta e o nosso coração desfalecer, o amado e o amigo podem ficar à distância, as vozes zombeteiras dos nossos inimigos podem sugerir que Deus se esqueceu ou nos abandonou; mas ele permanece fiel, não pode negar-se a si mesmo, não pode renegar o filho desamparado que gerou, por este padecer, não pode lançar de si as responsabilidades que assumiu. Ele fez, e ele deve sustentar.
Muitas vezes fui a Deus em extrema necessidade, agravada por depressão nervosa e enfermidade do coração, e disse: “A minha fé está a bruxulear até se apagar. A sua mão parece paralisada, o seu olho, cego, o seu antigo canto alegre, silenciado para sempre. Mas tu és fiel, e eu conto contigo!” A alma ama ir por detrás das promessas de Deus até ele mesmo, que as fez, assim como a esposa não precisa citar as promessas feitas pelo marido no ofício do matrimônio quando está segura dele e sente a pressão da sua mão.
Não se preocupe com a sua Fé; conte com a Fidelidade de Deus. Se ele lhe ordena sair sobre as águas, ele sabe que pode trazê-lo de volta ao barco em segurança. Quando um guia alpino o conduz sobre um pedaço escarpado de gelo, ele considera se, no caso do seu completo colapso, não é capaz de o carregar através dele pela força do seu punho de ferro e do seu corpo vigoroso. O que o ferro é para o sangue, isso o pensamento da fidelidade de Deus é para a fé. “Sara recebeu força . . . porque teve por fiel aquele que lho prometera”; Abraão fortaleceu-se pela fé, dando glória a Deus.
A Fé produz Fruto. Não pode evitá-lo, porque liga a alma a Cristo, de modo que a energia da vida dele se derrama nela através da artéria da fé, e, à medida que entra, assim deve abrir caminho para si mesma para fora. O fruto é (por assim dizer) forçado a sair da alma que crê. Por que canta a cotovia? Não pode evitá-lo, porque o espírito da primavera foi derramado no seu coração. Por que o ramo produz fruto? Não pode evitá-lo, porque as forças da vida sobem sem cessar da raiz. Por que corre uma criança ao encontro da mãe? Não pode evitá-lo, porque o seu coração absorveu a natureza dela. Assim o crente, unido a Cristo, recebe graça sobre graça do coração dele, e, da abundância da sua habitação interior, a sua vida fala.
Não é difícil obter uma fé como esta. Ponha a sua vontade ao lado de Cristo ‑‑ não um desejo passageiro, mas todo o anelo e a escolha do seu ser. Esteja disposto a crer; ou esteja disposto a ser levado a querer crer. Levante os seus olhos para Cristo. Se você não consegue vê-lo, olhe para o lugar onde pensa que ele está. Lembre-lhe que ele é o autor da fé e que ela é dádiva dele. Reclame-a dele, e conte que, em resposta ao seu apelo, ele lhe confere esta dádiva inestimável. Você pode não sentir fé, mas achar-se-á inconscientemente a pensar em Cristo, a contar com Cristo, a ir em direção a Cristo; e esse envolvimento da alma com Cristo é fé.
Cuide da tenra planta que assim foi plantada dentro de você. Dê-lhe bastante sol. Viva fora de si mesmo, na consideração daquilo que Cristo é. Alimente a fé com o seu alimento nativo, a promessa, e deixe-a respirar o seu ar nativo nas colinas da comunhão. Trate todas as sugestões de dúvida como trataria perguntas quanto à fidelidade do seu mais querido amigo. Evite o vento frio que sopra dos livros e das conversas céticas. Certifique-se de viver à altura das suas mais elevadas concepções de dever para com Deus e para com o próximo. A sua fé estará em exata proporção à sua obediência. A incapacidade de confiar quase sempre denota alguma falta de obediência. Se a fé estiver a vacilar, pergunte a si mesmo se não deixou cair o fio da obediência, e volte ao lugar onde o perdeu. Cristão não pôde enfrentar os leões enquanto não refez, pesaroso, os seus passos até o caramanchão onde dormira e não recuperou o seu rolo.
A Fé é preeminentemente a faculdade receptiva. Ela não apenas conta com que Deus dá, mas estende a mão para tomar. “A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” (João 1:12). Recebemos a expiação do Senhor que morreu, e recebemos a abundância da graça de Deus do Senhor que vive eternamente, de modo que reinamos nesta vida mortal como esperamos reinar quando os céus e a terra tiverem passado, e não houver mais mar a separar-nos do nosso amado (Romanos 5:11,17). As belas vestes estão preparadas; a fé se reveste delas.
A armadura pende da parede; a fé cinge-se com ela. A água da vida jorra a seus pés, mas a fé a recolhe, como fizeram os trezentos homens de Gideão. Assim a fé lida de modo definido com Deus. Ela não vê simplesmente as suas dádivas como o transeunte vê as joias na vitrine da loja, mas sabe que todas as insígnias reais do reino de Deus são suas, e as toma como quiser. Ela ouve a voz de seu Pai a dizer: “Tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas.”
Não bastava que Deus desse a terra de Canaã, por promessa e aliança, à raça escolhida. Eles tinham de entrar para possuí-la, de pôr o pé sobre o seu solo, de lavrar os seus campos e de viver dos seus ricos produtos. Assim deve ser com o crente. Primeiro ele é unido a Jesus por uma fé viva, que repousa nele como Salvador, Amigo e Rei; depois conta que o Filho de Deus é bem capaz de o fazer co-herdeiro de toda a sua ilimitada riqueza; e, por fim, aprende a arte de receber e usar a farta herança, e, ano após ano, empurra mais para longe as cercas da sua possessão, tomando cada vez mais daquela vasta extensão de território que lhe foi designada em Jesus.
Oh! colono no ilimitado continente da plenitude de Deus em Jesus, suba ao alto monte. Olhe para o norte, para o sul, para o oriente e para o ocidente, sobre os comprimentos, as larguras, as profundidades e as alturas do amor de Deus. Tudo é seu, desde o rio do Tempo que nasce a seus pés até o mais remoto mar da Eternidade. Não seja remisso em subir e possuir a terra, e em herdar tudo o que Deus livremente lhe concedeu no Filho do seu amor.
SENTIMENTO.
Os nossos sentimentos são muito enganosos, porque tão facilmente influenciados de fora. São afetados pelo estado da nossa saúde, pelas mudanças do tempo, pela companhia ou ausência daqueles que nos amam. Quando o ar está leve, e o sol brilha, e dormimos bem, é mais provável que nos sintamos dispostos para com Deus do que quando o gotejante nevoeiro de novembro encharca os bosques. O Pai que nos fez e conhece a nossa estrutura entende isto; tanto assim que, quando Elias, depois da tensão do Carmelo, da sua rápida fuga e do seu desapontamento com a continuada obstinação de Jezabel, se lançou debaixo do zimbro e pediu uma morte rápida, Deus lhe enviou sono para o seu esgotado sistema nervoso e alimento para a sua fome.
Em regra, a Fé frutifica em Sentimento. “Justificados, pois, pela fé, temos paz com Deus . . . . e não somente isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo.” “Crendo, vos alegrais com alegria indizível e cheia de glória.” Quando o pródigo voltou, o pai mandou matar o novilho cevado, dizendo: “Comamos e regozijemo-nos.” Há alívio de um pesado fardo de pecado, o êxtase do perdão, a luz do rosto do Pai, o sentido de retidão, a serena expectativa do futuro. Quando o Rei chega ao que é seu, os sinos repicam os seus toques no ar que os aguarda, como que embriagados de deleite!
O sentimento feliz e bem-aventurado é o efeito da obra do Espírito na alma.“O fruto do Espírito é amor, gozo, paz . . .” Ele é o penhor da nossa herança e, embora na nossa menoridade não possamos esperar entrar na plenitude do nosso legado, temos o privilégio de desfrutar as suas primícias. Há goles antecipados do rio dos seus prazeres, e notas soltas do pleno coro da bem-aventurança. Quando o Espírito Santo revela o Esposo, o coração amoroso se alegra, ainda que as núpcias ainda não se tenham celebrado.
Mas a falta de sentimento nem sempre indica que estamos errados. Pode haver causas, como vimos, que expliquem a nossa depressão. Pode ser que Cristo queira ensinar-nos a distinguir entre o amor e a emoção do amor, entre a alegria e o arrebatamento da alegria, entre a paz e o sentido da paz. Ou talvez ele deseje averiguar se nos apegamos a ele por ele mesmo ou pelas suas dádivas.
As crianças saúdam o pai da janela, quando ele dobra a esquina e desce a rua. Ele ouve o rebuliço dos seus pés ao longo do corredor enquanto mete a chave na fechadura da porta. Mas um dia ele começa a indagar se elas o saúdam pelo amor que lhe têm ou pelas dádivas com que ele nunca esquece de encher os bolsos. Um dia, portanto, ele lhes dá o devido aviso de que não haverá dádivas quando voltar à noite. Os seus rostos entristecem-se, mas, quando chega a hora do regresso, elas estão à janela como de costume, e há o mesmo tropel de pezinhos até a porta. “Ah”, diz ele, “os meus filhos amam-me por mim mesmo”, e ele se alegra.
O nosso Pai às vezes corta o suprimento da alegria e permite que passemos fome, para que conheça o que há nos nossos corações, e se o amamos por ele mesmo. Se ainda nos apegamos a ele, como Jó fez, ele se alegra e restaura os consolos aos que choram, com ambas as mãos.
Busque o sentimento e você o perderá; contente-se em viver sem ele, e você terá tudo de que precisa. Se você está sempre a reparar nos seus batimentos cardíacos, dará causa a uma doença do coração. Se está sempre a agasalhar-se contra o frio, tornar-se-á muito sujeito a resfriados. Se está perpetuamente a pensar na sua saúde, provocará doença. Se está sempre a consultar os seus sentimentos, viverá numa terra seca e sedenta, onde não há água. Quem salva a sua alma perdê-la-á.
Seja indiferente à emoção. Se ela estiver presente, seja grato; se estiver ausente, prossiga a fazer a vontade de Deus, contando com ele, falando bem dele nas suas costas e, acima de tudo, sem dar sinais do que está a sofrer, para que não seja pedra de tropeço para outros. Então a alegria o alcançará como uma inundação. Ele o fará assentar-se à sua mesa, e cingir-se-á para vir e servi-lo.
ADVERTÊNCIAS.
Há cinco advertências finais para o cultivo da vida devota, cuja observância geralmente resultará em santa alegria e paz.
1. Devemos estar quietos diante de Deus. A vida ao nosso redor, nesta era, é preeminentemente de correria e esforço. É a era do trem expresso e do telégrafo elétrico. Anos são comprimidos em meses, e semanas em dias. Esta febril pressa ameaça a vida religiosa. A corrente já entrou nas nossas igrejas e agitou os seus tranquilos remansos. As reuniões amontoam-se sobre reuniões. As mesmas almas enérgicas estão presentes em todas elas, e ocupadas em muitas outras boas obras além dessas. Mas devemos acautelar-nos para não substituir o contemplativo pelo ativo, o cume do monte pelo vale. Nenhum dos dois pode, com segurança, ser divorciado do outro. As ovelhas devem entrar e sair. O sangue deve voltar ao coração para ser recarregado e habilitado a ser de novo impelido às extremidades.
Devemos reservar tempo para estar a sós com Deus. O quarto e a porta fechada são indispensáveis. Devemos perder o clarão da ensolarada varanda para que possamos ver as serenas figuras angélicas inclinando-se sobre o altar. Devemos escapar do alarido do mundo, para nos acostumarmos aos acentos da voz mansa e delicada. Como Davi, devemos assentar-nos diante do Senhor. Bem-aventurados os que têm um observatório na casa do seu coração, ao qual muitas vezes se podem retirar sob o grande arco da Eternidade, voltando o seu telescópio para as poderosas constelações que giram para além da febre da vida, e alcançando regiões aonde o sopro do aplauso ou da censura humana não pode seguir!
É só em tais momentos que os melhores dons espirituais surgirão à nossa vista, ou que teremos graça para recebê-los. É impossível irromper na presença de Deus, agarrar o que quer que nos apeteça e sair correndo com isso. Tentá-lo terminará em mera ilusão e desapontamento. A natureza não desvendará a sua mais rara beleza ao turista casual. Quadros que são o resultado de uma vida de trabalho não revelam a sua secreta formosura a quem passeia por uma galeria. Nenhuma carta se lê num relance. E o melhor de Deus não pode ser nosso à parte da paciente espera na sua santa presença. Ao superficial se pode enganar com uma parábola, uma bela história, mas a tal não é dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus.
2. Devemos ser possuídos por um anseio ardente. Há diferença entre desejar uma coisa e querê-la. Numa única hora podemos desejar uma centena de objetos diferentes, e esquecê-los. Mas quão diferente disto é a determinação fixa, o firme propósito da vontade!
O rapaz vislumbra algum equipamento para o seu esporte, o estudante um livro precioso, o apaixonado um raro ornamento cravejado de joias que cobiça para aquela que ama ‑‑ e, em cada caso, a vontade é trabalhada até resolver adquiri-lo a qualquer custo. Então a privação, o autossacrifício e a demora são alegremente enfrentados. Nada pode extinguir ou afrouxar a determinação que segue de perto o seu objeto. Assim conosco. Devemos ter fome e sede; devemos ser possuídos por um forte e apaixonado desejo; devemos estar resolvidos até a usar de violência para tomar o Reino dos Céus. As expressões da Escritura são todas tão intensas ‑‑ o cervo brama pelas correntes das águas; Jacó não deixa ir o anjo; a viúva importuna o juiz injusto dia e noite. Também nós podemos ter este forte desejo, se deixarmos que o Espírito de Deus o produza dentro dos nossos corações. Mas o mercador deve estar decidido a buscar e achar a boa pérola. Devemos esforçar-nos por entrar pela porta estreita. Devemos agonizar (para usar a palavra do Apóstolo) como o atleta pela coroa.
3. Devemos ter uma promessa na mão. Este é o verdadeiro método de tratar com Deus. Busque na Bíblia alguma santa palavra que se ajuste exatamente ao seu caso. Não será difícil achar uma, visto que ela abunda em incidentes pessoais, colhidos de toda concebível variedade de vida. Então, quando ela for descoberta e, talvez, gravada em você pelo divino Espírito, leve-a consigo à presença de Deus, ou ponha o dedo sobre ela ao entrar na câmara da presença com passo silencioso e reverente. As promessas são o nosso inventário de posse, e a nossa necessidade deveria levar-nos a buscar no alto e a reclamar a bênção destinada a supri-la.
4. Conte com Deus. Se você deseja dons espirituais, não para a sua própria gratificação, mas para a glória de Cristo; se, tanto quanto sabe, o seu coração está livre do mal, e a sua vida, do hábito pecaminoso; se percebe que a promessa é para você, porque você não é apenas um filho, mas um herdeiro de Deus, e co-herdeiro com Cristo; se sente um anseio ardente que Deus infundiu para conduzi-lo a este mesmo ponto ‑‑ então abra bem a boca, e creia que Deus a enche; abra todas as janelas, e creia que a luz entra; escancare toda abertura, e creia que recebeu o que necessitava e buscava. Segundo a sua fé, assim lhe será feito.
Em algum momento de necessidade, ou quando você menos o espera, ou quando ocupado nas tarefas habituais, alguma jubilosa consciência de alegria, ou paz, ou proximidade de Cristo, ou poder sobre outros, será a evidência de que você de fato recebeu.
5. Devemos cuidar dos outros. Nenhuma vida pode ser abençoada se for egocêntrica e fechada, como o Mar Morto, por muralhas gigantescas. O segredo de ter é dar; o de aprender é ensinar; o de subir ao trono é abaixar-se para lavar os pés dos discípulos. Pense mais nos outros do que em si mesmo, e a sua própria vida nunca será senão rica e próspera. “Quero ‑‑ quero ‑‑ quero que os cristãos vão por todo o mundo e espalhem o Evangelho.” Estas palavras, ditas com o fôlego difícil, foram quase as últimas proferidas por um amado obreiro cristão.
Capítulo 4 concluído
Fato! Fé! Sentimento!