O Segredo da Orientação Divina
O Segredo da Habitação de Cristo

Capítulo 3 · 14 min de leitura

O Segredo da Habitação de Cristo

É justo que a maior igreja da maior cidade gentia do mundo seja dedicada ao apóstolo Paulo, pois os gentios têm para com ele uma grande dívida como o apóstolo dos gentios. É a ele que devemos, sob o Espírito de Deus, o desvelar de dois grandes mistérios, que nos tocam de maneira especial como gentios.

O primeiro deles, glorioso como é, não podemos agora deter-nos para discutir, embora tenha operado uma revolução quando foi pela primeira vez pregado e sustentado pelo apóstolo diante da mais tenaz oposição. Até então, esperava-se que os gentios se tornassem judeus antes de serem cristãos, e que passassem pela sinagoga para chegar à igreja. Mas ele mostrou que isso não era necessário, e que os gentios estavam no mesmo nível dos judeus quanto aos privilégios do evangelho ‑‑ co-herdeiros, e membros do mesmo corpo, e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho (Efésios 3:6).

O segundo, porém, bem merece a nossa reflexão mais demorada, pois, se ao menos pudesse ser realizado pelos filhos de Deus, eles começariam a viver de modo tão divino a ponto de silenciar o inimigo e o vingador, e de repetir, em alguma pequena medida, a vida de Jesus na terra.

Este mistério é que o Senhor Jesus está disposto a habitar no coração gentio. Que Ele habitasse no coração de um filho de Abraão era tido como um maravilhoso ato de condescendência; mas que Ele encontrasse um lar no coração de um gentio era algo incrível. Esse equívoco, contudo, dissipou-se diante da radiante revelação da verdade feita àquele que, em seu próprio juízo, não era digno de ser chamado apóstolo, porque havia perseguido a Igreja de Deus. Aprouve a Deus dar a conhecer, por meio dele, “as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é CRISTO EM VÓS, a esperança da glória” (Colossenses 1:27).

“Mestre, onde moras?” perguntavam os antigos. E, em resposta, Jesus os levou da margem apinhada do Jordão à frágil tenda de vimes entrelaçados onde Ele se hospedava temporariamente. Mas, se agora dirigimos a Ele a mesma pergunta, Ele apontará, não para a alta e sublime abóbada do céu, não para a esplêndida estrutura de pedra ou mármore, mas para o espírito feliz que O ama, que nele confia e que a Ele obedece. “Eis que”, diz Ele, “estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa.” “Viremos”, disse Ele, incluindo consigo o seu Pai, “e faremos nele morada.” Ele prometeu estar dentro de cada crente como um morador numa casa; como a seiva no ramo; como o sangue vital e a energia vital em cada membro, por mais débil que seja, do corpo.

I. ‑‑ O MISTÉRIO.

Cristo está no crente. Ele habita o coração pela fé, como o sol habita as mais humildes flores que desdobram suas pétalas e desnudam seu coração aos seus raios. Não porque somos bons. Não porque estamos tentando ser íntegros em nossa consagração. Não porque O retemos pela tenacidade do nosso amor. Mas porque cremos, e, ao crer, escancaramos todas as portas e janelas da nossa natureza. E Ele entrou.

Ele provavelmente entrou tão silenciosamente que não conseguimos perceber a sua entrada. Não houve passos pelo corredor. O tilintar dos sinos de ouro na orla da sua veste sacerdotal não O traiu. Ele entrou furtivamente nas asas da manhã, ou como o silêncio com que a natureza desperta do seu sono de inverno e se enfeita com as vestes que o seu Criador lhe preparou. Mas este é o modo de Cristo. Ele não contende, nem clama, nem levanta ou faz ouvir a sua voz. O seu passo é tão leve que não quebra os caniços rachados; o seu sopro, tão suave que pode reacender as faíscas moribundas. Não se surpreenda, portanto, se você não puder dizer o dia ou a hora em que o Filho do Homem veio habitar em você. Saiba apenas que Ele veio. “Não reconheceis, quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós, a menos que sejais reprovados?” (2 Coríntios 13:5.)

É muito maravilhoso. Sim; os céus, e até os céus dos céus, com toda a sua luz e glória, apenas parecem dignos dele. Mas nem mesmo ali Ele está mais em casa do que está com o espírito humilde e contrito que simplesmente confia nele. Em sua vida terrena, Ele disse que o Pai habitava nele tão realmente que as palavras que Ele falava e as obras que Ele fazia não eram suas, mas do seu Pai. E Ele deseja estar em nós como o seu Pai estava nele, para que os fluxos da nossa vida possam ser canais pelos quais Ele, oculto no interior, se derrame sobre os homens.

Não é geralmente reconhecido. Não é; embora isso não o desminta. Deixamos de reconhecer muitas coisas em nós mesmos e na natureza ao redor que, no entanto, são verdadeiras. Mas há uma razão pela qual muitos, cuja natureza é certamente o templo de Cristo, permanecem ignorantes da presença do maravilhoso Morador que neles se hospeda. Ele habita tão profundamente. Abaixo da vida do corpo, que é como a cortina da tenda; abaixo da vida da alma, onde o pensamento e o sentimento, o juízo e a imaginação, a esperança e o amor vão e vêm, ministrando como sacerdotes de estola branca no lugar santo; abaixo do jogo de luz e sombra, resolução e vontade, memória e esperança, o perpétuo fluxo e refluxo das marés da autoconsciência, ali, pelo Espírito Santo, Cristo habita, como outrora a Shequiná habitava no Santo dos Santos, estreitamente velada da vista do homem.

É comparativamente raro entrarmos nesses departamentos mais profundos do nosso ser. Contentamo-nos em viver a vida superficial dos sentidos. Comemos, bebemos, dormimos. Entregamo-nos ao desfrute da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da soberba da vida. Cumprimos os desejos da carne e da mente. Ou nos entregamos à busca do conhecimento e da cultura, da ciência e da arte. Fazemos breves incursões no reino da moral, aquele senso de certo e errado que faz parte da constituição do homem. Mas temos um conhecimento demasiado escasso da câmara mais profunda e misteriosa do espírito. Ora, é por isso que a maioria dos crentes é tão insensível ao seu Residente divino e maravilhoso, que faz do espírito regenerado a sua morada.

Deve ser aceito pela fé. Repetimos aqui o nosso constante equívoco a respeito das coisas de Deus. Tentamos senti-las. Se as sentimos, cremos nelas; do contrário, não fazemos caso delas. Invertemos a ordem divina. Dizemos: sentimento, FÉ, FATO. Deus diz FATO, FÉ, sentimento. Para Ele, o sentimento é de pouca importância ‑‑ Ele só nos pede que estejamos dispostos a aceitar a sua própria Palavra e a apegar-nos a ela porque Ele a falou, em total desconsideração daquilo que possamos sentir.

Sou distintamente informado de que Cristo, embora esteja no Trono em sua glória ascendida, também está dentro de mim pelo Espírito Santo. Confesso que não O sinto ali. Muitas vezes, em meio ao assalto da tentação ou à fúria da tempestade que varre a superfície da minha natureza, não consigo distinguir a sua forma nem ouvi-Lo dizer: “Sou eu.” Mas ouso crer que Ele está ali; não fora de mim, mas dentro; não como um hóspede passageiro por uma noite, mas como um morador perpétuo; não alterado pelas minhas mudanças do fervor à letargia, do verão do amor ao inverno do desânimo, mas sempre e imutavelmente o mesmo. E digo repetidas vezes: “Jesus, Tu estás aqui. Não sou digno de que entres sob o meu teto; mas Tu vieste. Afirma-te. Derruba todo domínio, autoridade e poder. Sai da tua câmara secreta e possui tudo o que há em mim, para que isso bendiga o teu santo nome.”

Catarina de Sena certa vez passou três dias em um retiro solitário, orando por uma maior plenitude e alegria da presença divina. Em vez disso, pareceu que legiões de espíritos malignos a assaltavam com pensamentos blasfemos e sugestões más. Por fim, uma grande luz pareceu descer do alto. Os demônios fugiram, e o Senhor Jesus conversou com ela. Catarina Lhe perguntou:

“Senhor, onde estavas Tu quando o meu coração estava tão atormentado?”

“Eu estava no teu coração”, Ele respondeu.

“Senhor, Tu és a verdade eterna”, ela respondeu, “e humildemente me inclino diante da tua palavra; mas como posso crer que estavas no meu coração quando ele estava cheio de pensamentos tão detestáveis?”

“Esses pensamentos te davam prazer ou dor?”, Ele perguntou.

“Uma dor e uma tristeza extremas”, foi a sua resposta.

Ao que o Senhor disse: “Estavas em aflição e tristeza porque Eu estava no meio do teu coração. Foi a minha presença que tornou aqueles pensamentos insuportáveis para ti. Quando decorreu o período que Eu havia determinado para a duração do combate, fiz sair os raios da minha luz, e as sombras do inferno se dissiparam, porque não podem resistir àquela luz.”

II. ‑‑ A GLÓRIA DESTE MISTÉRIO.

Quando os segredos de Deus se abrem, fazem-no em glória. A riqueza da raiz oculta no solo revela-se nos matizes da orquídea ou no perfume da rosa. A beleza escondida de um raio de luz desdobra-se na cor sétupla do arco-íris. A vida enxameante e infinitesimal dos mares do sul irrompe em ondas de fosforescência quando fendida pela quilha do navio. E, sempre que o mundo invisível se revelou aos olhos mortais, foi em glória. Assim foi especialmente na Transfiguração, quando a natureza do Senhor rompeu a forte contenção dentro da qual Ele a confinava e se revelou ao olhar do homem. “O seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.”

Assim, quando aceitamos o fato da sua existência dentro de nós, mais profunda do que a nossa própria, e fazemos de um dos alvos da nossa vida o extrair dela e desenvolvê-la, teremos consciência de uma glória que transfigura a nossa vida e ilumina as coisas comuns, de tal modo que fará da terra, com seus afazeres mais corriqueiros, como que o vestíbulo do céu.

A esposa de Jonathan Edwards havia sido alvo de grandes oscilações na experiência religiosa e de frequente depressão, até que chegou ao ponto de renunciar ao mundo e de entregar-se para ser possuída por estas poderosas verdades. Mas, tão logo isso aconteceu, uma mudança maravilhosa ocorreu. Ela começou a experimentar um repouso constante e ininterrupto; doce paz e serenidade de alma; um contínuo regozijo em todas as obras das mãos de Deus, quer da natureza, quer da providência diária; um maravilhoso acesso a Deus pela oração, como que O vendo e com Ele imediatamente conversando; todas as lágrimas enxutas; todas as antigas angústias e tristezas da vida esquecidas, exceto o pesar pelos pecados passados e pela desonra feita a Cristo no mundo; um sensível fazer e sofrer tudo por Deus, dia a dia, e fazer tudo com uma contínua e ininterrupta alegria, paz e gozo.

Tal glória ‑‑ o penhor certo da glória que há de ser revelada ‑‑ está ao alcance de cada leitor destas linhas que ousar, dia após dia, considerar que Cristo vive no seu interior, e se contentar em morrer para as energias e os impulsos da vida do eu, a fim de que haja lugar para que a vida de Cristo se revele. “Estou crucificado com Cristo”, disse o maior mestre humano desta arte divina; “Cristo vive em mim; vivo na fé do Filho de Deus.”

III. ‑‑ AS RIQUEZAS DA GLÓRIA DESTE MISTÉRIO.

Quando este mistério, ou segredo da vida divina no homem, é apreendido e utilizado, ele confere grande riqueza à vida. Se todos os tesouros de sabedoria, conhecimento, poder e graça residem em Jesus, e Ele se tornou o querido e honrado morador da nossa natureza, é claro que nós também devemos ser grandemente enriquecidos. É como um homem pobre que tem um amigo milionário vindo morar com ele.

Há riquezas de paciência. A vida não é fácil para nenhum de nós. Nenhum ramo escapa à faca de podar; nenhuma joia, à roda; nenhum filho, à vara. As pessoas nos tiranizam e nos exasperam quase além do suportável. As circunstâncias nos tensionam até que as cordas do nosso coração ameaçam romper-se. O nosso sistema nervoso é sobrecarregado pela pressa e pela competição dos nossos tempos. Deveras, temos necessidade de paciência!

Nunca relaxar a autovigilância; nunca ceder a críticas rudes ou irrefletidas dos outros; nunca proferir a palavra apressada, nem permitir a réplica ferina; nunca se queixar senão a Deus; nunca permitir que pensamentos duros e desconfiados se alojem na alma; ser sempre mais atencioso para com os outros do que para consigo mesmo; enxergar o único ponto azul no céu nublado; estar atento para achar uma desculpa para os que são obstinados e ríspidos; suportar as dores e os padecimentos, as privações e as provações da vida com doçura, submissão e confiança; beber o cálice amargo, com o olhar fixo no rosto do Pai, sem um murmúrio ou queixa: ‑‑ isto requer paciência, que o mero estoicismo jamais poderia dar.

E não podemos viver tal vida enquanto não aprendermos a valer-nos das riquezas do Cristo que habita em nós. O amado apóstolo fala de ser participante da paciência que há em Jesus (Apocalipse 1:9). Assim possamos nós ser. Aquela paciência serena, sem murmúrio e sem injúria, que fez o Cordeiro de Deus emudecer diante dos seus tosquiadores, é nossa.

Robert Hall foi certa vez ouvido a dizer, no calor de uma discussão: “Acalma-me, ó Cordeiro de Deus!”

Mas podemos ir mais longe e dizer: “Senhor Jesus, faze que a tua paciência se levante em mim, como uma fonte de água doce num mar salgado.”

Há riquezas de graça. Sozinha entre as grandes cidades do mundo, Jerusalém não tinha rio. Mas o glorioso Senhor estava no meio dela, e Ele se tornou um lugar de amplos rios e correntes, suprindo de si mesmo tudo o que os rios davam às cidades, a cujos pés dos muros as águas acolhedoras marulhavam (Isaías 32:21).

Este é um quadro do que temos, nós que ousamos contar com a habitação do nosso glorioso Senhor, como Rei, Legislador e Salvador. Ele faz abundar para nós toda a graça, de modo que temos suficiência para todas as emergências e podemos abundar em toda boa obra. Na sua força, sempre a levantar-se dentro de nós, somos capazes de fazer tanto quanto aqueles que são dotados dos maiores dons mentais e naturais, e escapamos das tentações à vanglória e ao orgulho que a estes assediam.

A graça da pureza e do domínio próprio, da oração fervorosa e do entendimento nas Escrituras, do amor aos homens e do zelo por Deus, da humildade e da mansidão, da brandura e da bondade ‑‑ tudo está em Cristo; e, se Cristo está em nós, tudo é também nosso. Oxalá ousássemos crê-lo, e dele extrair, descendo o cântaro da fé ao poço profundo da habitação de Cristo, aberto dentro de nós pelo Espírito Santo!

É impossível, nestes breves limites, elaborar mais este maravilhoso pensamento. Mas se ao menos, diante de cada chamado, dificuldade e provação, não disséssemos, como tantas vezes fazemos, “Nunca serei capaz de atravessar isto”, mas antes disséssemos, “Eu não posso; mas Cristo está em mim, e Ele pode”, descobriríamos que todas as provações se destinavam a revelar e desdobrar a riqueza escondida dentro de nós, até que Cristo fosse literalmente formado em nós, e a sua vida se manifestasse no nosso corpo mortal (2 Coríntios 4:10).

(1) Aquiete-se cada dia por um breve tempo, assentando-se diante de Deus em meditação, e peça ao Espírito Santo que lhe revele a verdade da habitação de Cristo. Peça a Deus que se digne dar a conhecer a você quais são as riquezas da glória deste mistério (Colossenses 1:27).

(2) Reverencie a sua natureza como o templo do Senhor que nela habita. Assim como o oriental descobre os pés, e o ocidental a cabeça, ao entrar no recinto de um templo, seja muito cuidadoso com qualquer coisa que profane o corpo ou manche a alma. Nenhuma fera deve rondar nos átrios do templo. Faça com que Cristo as expulse. “Não sabeis que sois templo de Deus? O templo de Deus é santo, e tal sois vós.”

(3) Odeie a sua própria vida. “Se alguém não aborrece a sua própria vida”, disse o nosso Senhor, “não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:26). E a palavra traduzida por “vida” é alma, a sede e o centro da vida do eu, com suas energias e atividades inquietas, suas escolhas e decisões, seus incessantes esforços por independência e liderança. Este é o maior empecilho ao nosso desfrute do Cristo que habita em nós. Se adquirirmos o hábito de dizer “Não”, não apenas ao nosso mau eu, mas também ao nosso bom eu; se, dia após dia, nos entregarmos à morte por amor de Jesus; se tomarmos a nossa cruz e seguirmos o Mestre, ainda que seja até a sua sepultura, tornar-nos-emos cada vez mais conscientes de sermos possuídos por uma vida mais rica, mais profunda, mais divina do que a nossa própria.

Capítulo 3 concluído

O Segredo da Habitação de Cristo

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