Capítulo 33 · 5 min de leitura

Ele a Sós

Sabendo, pois, Jesus que estavam para vir arrebatá-lo, para o fazerem rei, retirou-se de novo, ele sozinho, para o monte. João 6:15.

Os Evangelhos nos falam com frequência de como Cristo se retirava para a solidão a fim de orar. Lucas menciona onze vezes que ele orava. Marcos nos diz, logo no seu primeiro capítulo, que, depois de uma tarde em que toda a cidade se ajuntara à porta e ele curara a muitos: "De madrugada, muito antes de clarear o dia, levantou-se e, saindo, foi para um lugar deserto, e ali orava." Antes de escolher os seus doze apóstolos: "Naqueles dias, retirou-se para o monte a fim de orar, e passou a noite toda em oração a Deus." Este pensamento de completo recolhimento parece ter impressionado profundamente os discípulos, dando origem à expressão significativa que João emprega: "Jesus retirou-se de novo, ele sozinho, para o monte", como também Mateus escrevera: "Subiu ao monte, à parte, para orar. Chegada a tarde, estava ali sozinho." Cristo sentia a necessidade de perfeita solidão. Procuremos humildemente descobrir o que isto significa.

1. Ele a sós. Inteiramente por si mesmo, a sós consigo mesmo. Sabemos quanto o convívio com os homens nos arranca de nós mesmos e esgota as nossas forças. O homem Cristo Jesus também o sabia e sentia a necessidade de voltar a si mesmo, de reunir todas as suas forças, ou de renovar a consciência do que era e do que precisava, de perceber plenamente o seu elevado destino, a sua fraqueza humana e a sua inteira dependência do Pai. Quanto mais não precisa disto o filho de Deus? Quer seja em meio à distração dos afazeres do mundo ou do serviço religioso, quer seja para a manutenção da nossa própria vida cristã ou para a renovação do nosso poder de influenciar os homens para Deus, há sempre um apelo urgente a todo crente para que siga as pegadas do seu Mestre e encontre o lugar e o tempo em que possa de fato estar a sós consigo mesmo.

2. Ele a sós, com as realidades espirituais. É no completo afastamento do contato com as coisas que se veem e que são temporais que ficamos livres para nos entregarmos plenamente aos poderes do mundo invisível e deixar que eles nos dominem. Jesus precisava, sempre de novo, de tempo e de quietude para perceber o poder do reino das trevas, com o qual viera lutar e o qual viera vencer; a necessidade deste grande mundo da humanidade, que viera salvar; a presença e o poder do Pai, cuja vontade viera fazer. Nada é mais indispensável no serviço cristão do que o homem, de tempos em tempos, dispor-se a pensar intensamente nas realidades espirituais que, quanto ao conhecimento, lhe são tão familiares e que, contudo, tantas vezes exercem tão pouco poder sobre o coração e a vida.

As verdades da eternidade têm um poder infinito; muitas vezes são tão impotentes apenas porque não lhes damos o tempo de se revelarem. Ele a sós — este é o único remédio.

3. Ele a sós, com Deus, o Pai. Diz-se, e há verdade nisto, que o trabalho é adoração, que o serviço é comunhão. Se alguma vez houve um homem que pudesse prescindir de tempos especiais de solidão e de comunhão, foi o nosso bendito Senhor. Mas ele não podia realizar a sua obra, nem manter a sua comunhão em pleno poder, sem os seus momentos de quietude. Sentia, como homem, a necessidade de trazer toda a sua obra, passada e futura, e pô-la diante do Pai; de renovar o seu senso de absoluta dependência do amor do Pai, em tempos de comunhão especial. Quando disse: "o Filho nada pode fazer de si mesmo", "como ouço, assim falo", não estava senão exprimindo a simples verdade da sua relação com Deus; foi isto que fez do seu retirar-se à parte uma necessidade e um gozo indizível. Prouvera a Deus que todo servo seu compreendesse e praticasse esta bendita arte, e que a Igreja soubesse educar os seus filhos em algum senso deste alto e santo privilégio: que todo crente pode e deve ter o seu tempo em que esteja de fato — ele a sós com Deus. Oh! O pensamento de ter Deus todo só para mim, e de saber que Deus me tem todo só para si.

4. Ele a sós, com a Palavra. Como homem, o nosso Senhor teve de aprender a Palavra de Deus quando criança; durante os longos anos da sua vida em Nazaré, alimentou-se daquela Palavra e a fez sua. Na sua solidão, conferenciava com o Pai acerca de tudo o que aquela Palavra dizia dele, acerca de toda a vontade de Deus que ela lhe revelava para fazer. Na vida do cristão, uma das mais profundas lições que ele tem a aprender é que a Palavra, sem o Deus vivo, de pouco aproveita; que a bênção da Palavra vem quando ela nos leva ao Deus vivo; que a Palavra que recebemos da boca de Deus traz o poder de a conhecer e de a praticar.

Aprendamos a lição: somente a comunhão pessoal com Deus, em secreto, pode fazer que a Palavra seja vida e poder.

5. Ele a sós, em oração. Que privilégio indizível é a oração, pois permite ao homem abrir toda a sua vida diante de Deus e pedir o seu ensino e a sua força. Tenta apenas, por um momento, pensar no que a oração significava para Jesus — que adoração reverente, que humilde amor, que súplica de criança por tudo de que necessitava. Por menos que possamos conceber isto retamente, tampouco podemos avaliar que bem-aventurança aguarda o homem que sabe seguir as pegadas de Cristo e provar até onde vai o que Deus pode fazer por aquele que faz disto o seu principal gozo — estar com ele, ele a sós.

Ele a sós. Quão profundamente estas palavras nos abrem o segredo da vida de Cristo na terra e da vida que ele agora vive em nós. Da vida que ele vive em nós pelo seu Espírito Santo, este é um dos elementos mais benditos: que ele nos revela e nos comunica tudo o que a Palavra significa — ele a sós.

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