Capítulo 29 · 5 min de leitura

A Santidade — O Principal Objetivo do Estudo da Bíblia

«Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.» João 17:17.

Na sua grande oração intercessória, nosso Senhor falou das palavras que o Pai lhe havia dado, do fato de Ele mesmo as ter dado aos seus discípulos, e de eles as terem recebido e crido. Foi isto que os fez discípulos. Foi o guardarem essas palavras o que realmente os capacitaria a viver a vida e a fazer a obra de verdadeiros discípulos. Receber de Cristo as palavras de Deus e guardá-las é a marca e o poder do verdadeiro discipulado.

Ao orar ao Pai para que os guardasse no mundo quando Ele o tivesse deixado, nosso Senhor pede que Ele os santifique na verdade, tal como ela habita e opera na sua palavra. Cristo havia dito de si mesmo: «Eu sou a verdade.» Ele era o unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. O seu ensino não era como o da lei, que veio por Moisés, dando um conhecimento, uma promessa de bens futuros que era apenas uma imagem ou uma sombra.

«As palavras que eu vos disse são espírito e vida», comunicando a própria substância, o poder e a posse divina daquilo de que falam. Cristo havia falado do Espírito como o Espírito da verdade, que conduziria a toda a verdade que havia nele mesmo — não como questão de conhecimento ou doutrina, mas à sua experiência e fruição reais.

E então Ele ora para que, nesta verdade viva — tal como ela habita na Palavra e é revelada nele pelo Espírito —, o Pai os santifique. «Por eles», diz Ele, «me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade.» E pede ao Pai que, no seu poder e no seu amor, tome conta deles, para que o seu objetivo — santificá-los na verdade, por meio da sua palavra, que é a verdade — se realize, para que eles, como Ele mesmo, sejam santificados na verdade. Estudemos as maravilhosas lições aqui dadas a respeito da palavra de Deus.

«Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.» O grande objetivo da palavra de Deus é tornar-nos santos. Nenhuma diligência ou êxito no estudo da Bíblia nos aproveitará de fato, a menos que nos torne homens mais humildes e mais santos. Em todo o nosso uso da Sagrada Escritura, este deve ser, sem dúvida, o nosso principal objetivo. A razão por que muitas vezes há tanta leitura da Bíblia com tão pouco resultado real num caráter semelhante ao de Cristo é que não se busca verdadeiramente a «salvação, em santificação do Espírito e fé na verdade». As pessoas imaginam que, se estudarem a Palavra e aceitarem as suas verdades, isso, de algum modo, por si só, lhes trará proveito.

Mas a experiência ensina que não. O fruto de um caráter santo, de uma vida consagrada, de poder para abençoar os outros não vem, pela simples e mais natural razão de que só recebemos aquilo que buscamos. Cristo nos deu a Palavra de Deus para nos tornar santos; é somente quando fazemos disto o nosso alvo definido em todo o estudo da Bíblia que a verdade — não a verdade doutrinária, mas o seu poder vivificante e divino, que comunica a própria vida de Deus, e que ela contém como semente — pode abrir-se e comunicar-se a nós.

«Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.» É o próprio Deus, e somente Ele, quem pode tornar-nos santos por meio da sua Palavra. A palavra, separada de Deus e da sua operação direta, de nada pode servir. A palavra é um instrumento: o próprio Deus precisa usá-la. Deus é o único Santo. Só Ele pode santificar. O inefável valor da palavra de Deus está em ser ela o meio de santidade de Deus. O terrível engano de muitos é esquecerem que só Deus pode usá-la ou torná-la eficaz. Não basta que eu tenha acesso à botica de um médico. Preciso que ele prescreva. Sem ele, o meu uso dos seus remédios poderia ser fatal. Assim foi com os escribas. Gloriavam-se da lei de Deus; deleitavam-se no estudo da Escritura e, contudo, permaneciam não santificados. A palavra não os santificou, porque não buscavam isto na palavra, e não se entregavam a Deus para que Ele o fizesse por eles.

«Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade.» Esta santidade por meio da Palavra deve ser buscada de Deus e esperada dele em oração. Nosso Senhor não somente ensinou aos seus discípulos que deviam ser santos; não somente se santificou por eles, para que fossem santificados na verdade, mas também levou as suas palavras e a sua obra ao Pai com a oração de que Ele os santificasse. É sumamente necessário conhecer a palavra de Deus e meditar nela. É sumamente necessário pôr o coração em ser santo, como o nosso primeiro e principal objetivo no estudo da Palavra. Mas tudo isto não basta; tudo depende de seguirmos Cristo, pedindo ao Pai que nos santifique por meio da Palavra. É Deus, o Pai santo, quem nos torna santos, pelo Espírito de santidade que habita em nós. Ele opera em nós a própria mente e a disposição de Cristo, que é a nossa santificação. «Não há santo como o SENHOR»; toda santidade é dele, e daquilo que Ele concede pela sua santa Presença.

O tabernáculo e o templo não eram santos em virtude de purificação, separação ou consagração. Tornaram-se santos pela vinda e pela habitação de Deus. O tomar Ele posse os tornou santos. Deus, assim também, torna-nos santos por meio da sua palavra, trazendo Cristo e o Espírito Santo para dentro de nós. E o Pai não pode fazer isto senão à medida que aguardamos diante dele, e nos aquietamos, e, em profunda dependência e plena entrega, nos rendemos a Ele. É na oração oferecida no Nome, na comunhão e na fé do Grande Intercessor — «Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade» — que se encontrará o poder santificador do Pai, e o nosso conhecimento da palavra de Deus verdadeiramente nos tornará santos.

Quão sagrada é a Vigília Matinal! Essa hora é especialmente dedicada a que a alma se entregue à santidade de Deus, para ser santificada por meio da Palavra. Lembremo-nos sempre de que o único alvo da palavra de Deus é tornar-nos santos. Seja esta a nossa oração contínua: «Pai, santifica-me na tua verdade.»

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