Capítulo 18 · 5 min de leitura
Docilidade
Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas." — Mateus 11:29.
A primeira virtude de um aluno é a docilidade e a disposição de ser ensinado. O que isto implica? A consciência da própria ignorância, a prontidão para abandonar o seu próprio modo de pensar ou de agir e para olhar as coisas do ponto de vista do mestre, a quieta confiança de que o mestre sabe e lhe mostrará como aprender a saber também. O espírito manso e humilde escuta com atenção para conhecer qual é a vontade do mestre, e de imediato se apressa a cumpri-la. Se este é o espírito de um aluno, há de ser culpa do mestre se ele não aprende.
E como se explica que, tendo a Cristo por mestre, haja, com tanto fracasso, tão pouco crescimento real no conhecimento espiritual? Tanto ouvir e ler da Bíblia, tanta profissão de fé nela como a nossa única regra de vida, e no entanto tamanha falta da manifestação do seu espírito e do seu poder? Tanta aplicação, muitas vezes honesta e fervorosa, no aposento e no círculo bíblico, com tão pouco da alegria e da força que a Palavra de Deus poderia dar?
A questão é da máxima importância. Precisa haver alguma causa por que existem tantos discípulos de Jesus que julgam desejar honestamente conhecer e fazer a Sua vontade, e que, contudo, pela sua própria confissão e pelo testemunho dos que os cercam, não estão apresentando a palavra da vida como uma luz no mundo. Se se pudesse encontrar a resposta a essa questão, as suas vidas poderiam ser transformadas.
O nosso texto sugere a resposta: “Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.” Muitos tomaram a Cristo como Salvador, mas não como Mestre. Puseram a sua confiança nEle como o Bom Pastor que deu a vida pelas ovelhas; mas pouco conhecem da realidade do Seu pastorear diário do Seu rebanho, chamando cada uma pelo nome, ou de assim ouvir a Sua voz e segui-Lo somente a Ele. Pouco conhecem do que é seguir o Cordeiro; do que é, antes de tudo, receber dEle a natureza de cordeiro, e procurar, como Ele, ser manso e humilde de coração. Foi pelo curso de três anos na Sua escola que os discípulos de Cristo foram preparados para o batismo do Espírito Santo, e para o cumprimento de todas as maravilhosas promessas que Ele lhes havia dado.
É sob o ensino pessoal do nosso Senhor Jesus, e por meio daquela docilidade do coração manso e humilde que diariamente espera, recebe e segue esse ensino, que podemos verdadeiramente encontrar descanso para as nossas almas. Todo o cansaço e o peso do esforço, do fracasso e da decepção dão então lugar àquela paz divina que sabe que tudo está sendo cuidado pelo próprio Cristo.
Esse tomar o jugo de Cristo e aprender dEle a Sua mansidão e humildade de coração, e, com isso, a docilidade que se recusa a saber ou a fazer qualquer coisa pela sua própria sabedoria, há de ser o espírito de toda a nossa vida, cada dia e o dia inteiro. Mas é especialmente na hora da manhã que isto deve ser cultivado, e buscar-se livramento de si mesmo e de toda a sua energia. É ali, enquanto nos ocupamos com as palavras de Deus, de Cristo e do Espírito Santo, que precisamos diariamente perceber que elas só aproveitam à medida que conduzem ao ensino pessoal de Cristo, e por ele são abertas.
É ali que diariamente precisamos experimentar que somente quando o vivo Senhor Jesus — “nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”, nEle em quem toda a nossa vida e salvação estão reunidas — Ele mesmo se aproxima e assume o cuidado de nós, é que o Seu ensino pode ser recebido. E é ali que precisamos pedir de modo definido, e cultivar, a docilidade que toma sobre si o Seu jugo e aprende dEle. Mais uma vez, a docilidade é tudo. Se é verdade do Espírito Santo que habita em nós, o Espírito de Cristo Jesus, que “Ele vos ensinará todas as coisas”, e se toda a Sua vida e obra em nós é um ensino Divino, é igualmente verdade que toda a nossa vida deve ser uma docilidade Divina. Só assim pode a nossa comunhão diária com a Palavra de Deus, e a nossa vida diária, ser aquilo que o nosso Senhor Jesus pode torná-la.
Desaprender é muitas vezes a parte mais importante do aprender: impressões erradas, preconceitos e ideias preconcebidas são obstáculos insuperáveis no caminho do aprender. Enquanto não forem removidos, o mestre trabalha em vão.
O conhecimento que ele comunica toca apenas a superfície: bem abaixo da superfície, o aluno é guiado por aquilo que se tornou nele uma segunda natureza. A primeira obra do mestre é descobrir esses obstáculos, fazer o aluno vê-los, e removê-los.
Não pode haver verdadeiro e frutífero aprender de Cristo onde não estamos prontos a desaprender. Por hereditariedade, por educação, por tradição, temos os nossos pensamentos acerca da religião e da Palavra de Deus, que muitas vezes são o maior obstáculo, na proporção da nossa certeza de que são de fato a verdade. Aprender de Cristo requer a disposição de submeter cada verdade que sustentamos à Sua inspeção, para crítica e correção. A humildade é a virtude que está na raiz da vida cristã. A lei é absoluta no Reino de Deus: “aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado.” A nossa decepção ao lutar por graus mais altos de graça, fé, conhecimento espiritual, amor às almas e poder para abençoar, deve-se toda a isto. Não aceitamos a humildade de Cristo como o princípio e a perfeição da Sua salvação. “Dá graça aos humildes.” tem uma aplicação muito mais ampla e profunda do que pensamos.
A docilidade é uma forma de humildade. Na vigília da manhã, colocamo-nos como aprendizes na escola de Cristo; seja a docilidade, seja a humildade a marca distintiva do aprendiz; e, se sentimos quão pouco dela temos, escutemos a voz que diz: “Tomai sobre vós o meu jugo”, e, por tudo o que isto implica: “aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.”