Capítulo 3 · 23 min de leitura
Objeções Populares
Passaremos agora a considerar algumas das objeções mais contundentes às boas-novas de que Aquele que perdoa todas as nossas iniquidades,"tão verdadeira e plenamente também" sara todas as nossas enfermidades."
1. A Era dos Milagres passou: isso é comumente pressuposto como um axioma, e quase citado como um texto bíblico. Em resposta, perguntemos: em que era estamos? Houve, e haverá, várias Eras e Dispensações, a saber: a Paradisíaca, a Antediluviana, a Patriarcal, a Mosaica, a Cristã, a Milenar, a Eterna. Não estamos na Patriarcal nem na Mosaica, não estamos na Milenar; devemos, portanto, estar na Cristã. Mas talvez existam duas ou três Eras Cristãs; uma para Cristo e Seus Apóstolos, e outra para nós. E, no entanto, Paulo diz que viveu "nestes últimos dias." Ele fala das pessoas de sua geração como aquelas sobre quem "os fins dos séculos têm chegado." E Pedro, em seu sermão no Dia de Pentecostes, reivindica para o seu tempo uma profecia de Joel a respeito dos últimos dias. Devemos, então, estar na Era de Cristo e do Cristianismo; e se aquela não foi a Era dos Milagres, então qual foi? Mas talvez devesse haver um grande abismo entre os primeiros e os últimos períodos desta Era. Talvez ela devesse apenas começar com manifestações especiais do Poder Divino e depois esmaecer numa sóbria banalidade. Por que, então, diria Joel que o notável derramamento do Espírito Santo se daria "nos últimos dias," e que os dons especiais do Espírito sobre as servas e os servos, e os sinais e prodígios sobrenaturais tanto na Terra como no Céu, se dariam de modo especial "antes que venha o grande e terrível dia do Senhor," isto é, para o fim da Era Cristã, e antes do Advento? Por que também insistiria Paulo tão fortemente, em I Cor. xii, em que a Igreja de Cristo é um só corpo, não dois, e em que os dons de cada parte pertencem ao todo? Se houver uma diferença essencial entre a Era Apostólica e a posterior, então a Igreja não é um só corpo, mas dois; então os dons daqueles membros não fluem para os nossos membros; então a gloriosa figura e o poderoso raciocínio daquele capítulo são falsos e enganadores. Se somos o mesmo corpo, temos a mesma vida e o mesmo poder.
O que tornou os Apóstolos mais poderosos do que os homens comuns? Não foi a sua convivência com Jesus; foi o dom do Espírito Santo. Não temos nós o mesmo? E não estaremos exaltando os homens e menosprezando o Espírito que os fez o que eram, quando falamos do seu poder como excepcional e transitório? Funções peculiares e excepcionais eles de fato tiveram, como testemunhas da ressurreição de Cristo e organizadores da Igreja na terra; mas, para mostrar aos homens que os dons miraculosos da Igreja não se limitavam a eles, estes são especialmente distinguidos do Apostolado em I Cor. xii. Foram conferidos em grau preeminente a Estêvão, Filipe e outros que não eram apóstolos de modo algum, e foram confiados por Tiago ao presbitério ordinário e permanente da Igreja. Não, o amado Mestre nunca contemplou ou propôs qualquer abismo pós-apostólico de impotência e fracasso. A incredulidade e o pecado do homem o produziram. A própria corrupção da Igreja o causou. Mas Ele nunca o desejou nem proveu para ele. Postado a meio caminho entre a terra e o céu, e olhando para o século dezenove com um amor tão terno, e uma graça tão plena e potente, quanto exerceu para com os primeiros, e falando no tempo presente, como se todos estivéssemos igualmente perto Dele, que nunca se separaria de nós, Ele disse: "Todo o poder me é dado no CÉU E NA TERRA, e eis que EU ESTOU convosco TODOS OS DIAS, até ao Fim da ERA" (Grego). Havia de ser uma só era, não duas, e todo o Seu poder nunca foi retirado. Ele havia de ser um perpétuo EU SOU, e de estar tão perto no fim quanto no princípio. Na verdade, a obra que havíamos de fazer não seria senão o complemento da Sua própria, ou melhor, a Sua própria obra; pois Lucas diz: "Começou a fazer e a ensinar." Ele deve, portanto, estar ainda terminando a Sua obra. E é exatamente isso o que Ele mesmo disse que seria a nossa obra: "Aquele que crê em mim, também fará as obras que eu faço (isto é, serão a obra de Cristo e a nossa, em parceria), nem serão em nada diminuídas pela Sua aparente ausência; pois "maiores obras do que estas fará, porque eu vou para o meu Pai."
E, de fato, enquanto a antiga Igreja reteve, ainda que em medida limitada, a fé e a santidade dos primeiros dias, as mesmas obras foram uniformemente encontradas. Nos séculos segundo, terceiro e quarto, pais tão famosos como Irineu e Tertuliano dão testemunho da prevalência de muitos indubitáveis milagres de cura, e até da ressurreição de mortos em nome de Jesus. E ainda no século quinto, eventos sobrenaturais, no caso de numerosos homens e mulheres bem conhecidos e vivos, são atestados por autoridades tão elevadas como Procópio e Justiniano, com evidências tão fortes que o sóbrio editor de Mosheim declara que quem delas duvidar deve estar pronto a questionar todos os fatos da história. A Era dos Milagres não passou. A Palavra de Deus nunca indicou o menor sinal de tal fato. Pelo contrário, eles hão de estar entre os sinais do último dia; e o próprio adversário há de falsificá-los, e enviar por fim os espíritos de demônios que operam milagres aos reis da terra. De modo que a única defesa contra os falsos milagres serão os verdadeiros. Estamos na Era dos milagres, a Era de Cristo, a Era que se situa entre dois Adventos, e sob o olhar de uma incessante Presença Divina, a Era do Poder, a Era que, acima de todas as outras eras do tempo, deveria estar intensamente viva.
2. Diz-se que os mesmos resultados que se reivindicam para a fé na cura das enfermidades também acompanham as práticas do Espiritismo, do Magnetismo Animal, da Clarividência, etc. Não negaremos que, embora algumas das manifestações do Espiritismo sejam indubitáveis fraudes, há muitas que são inquestionavelmente sobrenaturais, e são produzidas por forças para as quais a Ciência Física não tem explicação. De nada adianta tentar enfrentar esse terrível monstro do ESPIRITISMO — que, como diz Joseph Cook, é talvez o grande SE do nosso futuro imediato na Inglaterra e na América — com a apressada e superficial negação dos fatos, ou com a sua explicação como truques de prestidigitação. Muitas vezes são, sem dúvida, reais e sobre-humanos. São "os espíritos de demônios que operam milagres," reunindo os homens para o Armagedom. São as forças revividas dos magos egípcios, dos oráculos gregos, dos harúspices romanos, dos curandeiros índios. Não são divinos, são menos que onipotentes, mas são mais que humanos. Nosso Senhor expressamente nos advertiu a respeito deles, e nos disse que os provássemos, não pelo seu poder, mas pelos seus frutos, sua santidade, humildade e reverência ao nome de Jesus e à Palavra de Deus; e a sua própria existência torna ainda mais imperativo que sejamos capazes de apresentar contra eles — como a vara de Moisés que engoliu as dos magos, e por fim silenciou o seu limitado poder — as forças vivas de um Cristianismo santo, tanto no mundo físico como no espiritual.
3. Os milagres de Cristo e de Seus Apóstolos foram destinados a estabelecer os Fatos e as Doutrinas do Cristianismo; não precisamos de sua continuação. Por que, então, põem os críticos em dúvida a existência desses fatos e a credibilidade desses escritos? Como hão de os habitantes de novas terras conhecer a divindade desses oráculos? Que acesso têm eles, ou de fato as grandes massas de homens por toda parte, aos arquivos da erudição, ou aos manuscritos da Bíblia? Não, cada geração precisa de um Cristo vivo, e cada nova comunidade precisa que "estes sinais a acompanhem," para confirmar a palavra. E às vezes temos visto o plausível e persistente Agnóstico, a quem nenhuma razão podia satisfazer, silenciado e confundido ao ser posto face a face com alguma humilde mulher iletrada, quando ela lhe contava, com uma honestidade radiante que ele sentia no fundo do coração, que fora levantada de uma invalidez que durara a vida inteira somente pela palavra e pelo nome de Jesus. Até que Ele venha outra vez, o mundo nunca deixará de precisar do toque do Seu Poder e da Sua Presença, "testificando Deus com eles, por sinais, e milagres, e várias maravilhas, e dons do Espírito Santo, distribuídos segundo a sua vontade."
Há também um equívoco corrente a respeito de todo o propósito dos milagres de Cristo, que lhes tira metade da beleza e do valor. São vistos única e principalmente como testemunhos especiais do poder e da divindade de Cristo. Mas, se isso fosse tudo, uns poucos casos especiais e notáveis teriam sido suficientes. Ele não teria, então, curado os milhares que diariamente O apinhavam. Mas dizem-nos, pelo contrário, que não foram isolados e ocasionais, mas numerosos e quase universais. "Curou todos os que tinham necessidade de cura, e todos os que estavam enfermos, não tanto como prova do Seu poder, quanto para mostrar aquilo que Ele agora desejava que soubessem — o Seu amor sem limites — para cumprir o antigo quadro profético do bendito Cristo, e para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías: "Ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e levou as nossas doenças." Mas, se era necessário que Ele cumprisse aquele caráter então, tão necessário é ainda; tão necessário ainda que Ele nunca deixe de ser fiel ao quadro que Deus traçou Dele, e que Ele traçou de Si mesmo. Se isso não for ainda verdadeiro para nós, então "Jesus Cristo" NÃO "é o mesmo, ontem, hoje, e eternamente." Se isso não for ainda verdadeiro para nós, então — talvez — as demais promessas da Escritura também não sejam verdadeiras para nós, e Ele não levou os nossos pecados mais do que a nossa enfermidade e o nosso sofrimento. Não, "o Seu coração é ainda o mesmo:—
Parente, Amigo e Irmão mais Velho, É o Seu nome eterno; Tu és Tudo em Todos para mim, ó Vivente de Betânia."
4. Uma objeção comum é apresentada desta maneira: — a última promessa de Cristo em Marcos abrange muito mais do que a cura; mas, se reivindicas uma, deves reivindicar todas. Se esperas a cura dos enfermos, deves também incluir o dom de línguas e o poder de vencer venenos malignos; e, se o dom de línguas cessou, do mesmo modo cessou também o poder sobre a doença. Aceitamos de bom grado a severa lógica; não podemos nos dar ao luxo de abrir mão de nenhuma das promessas. Confessamos a nossa crença na presença do Curador em todos os carismas da Igreja Pentecostal. Não vemos razão pela qual um humilde servo de Cristo, empenhado na obra do Mestre, não possa reivindicar, em simples fé, o poder de resistir à malária e a outros venenos e perigos malignos; e cremos que o dom de línguas só foi retirado da Igreja primitiva à medida que foi abusado para vã ostentação, ou à medida que se tornou desnecessário para o uso prático, pela rápida evangelização do mundo; e será repetido assim que a Igreja humildemente o reivindicar para a difusão universal do Evangelho. De fato, não faltam agora exemplos de sua aparente restauração nos labores missionários, tanto na Índia como na África.
5. Talvez nenhuma objeção seja mais fortemente apresentada do que a glória que redunda para Deus pela nossa submissão à Sua vontade na enfermidade, e os felizes resultados da aflição santificada. Ora, se aqueles que apresentam e afirmam praticar essa sugestão realmente aceitassem a sua enfermidade, e jazessem passivos sob ela, seriam ao menos coerentes. Mas não mandam chamar um médico, e fazem o possível para escapar dessa doce vontade de Deus? É isso submeter-se mansamente à aflição, e não vem a submissão, em geral, quando já se sabe que o resultado é inevitável? Não negamos os felizes resultados de muitos casos de enfermidade dolorosa em desviar a alma de algum caminho proibido e conduzi-la a experiências mais profundas de Deus; nem questionamos a profunda e fervorosa piedade, e o progresso espiritual de muitos inválidos que não conseguem confiar em Deus para a cura; mas estamos certos de que há uma imensa quantidade de mal-entendidos vagos e antibíblicos a respeito dos princípios da disciplina cristã. Não cremos que Deus castigue um filho obediente simplesmente para torná-lo bom. "Por causa disso há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem; porque, se nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados." Eis uma lei definida e imutável do trato de Deus com Seus amados filhos. Quando nos julgamos a nós mesmos, não seremos julgados. Enquanto ouvimos e obedecemos, Ele "não porá sobre nós nenhuma destas enfermidades que pôs sobre os egípcios." O estado normal que Ele quer para os Seus fiéis filhos é a saúde de corpo, alma e espírito (I Tess. v. 23). A Sua própria oração por eles é que tenham saúde e prosperem, assim como prospera a sua alma. A Sua vontade para eles é que ajam nestas coisas segundo a Sua palavra. É sempre "todo o desejo da sua bondade," e "a boa, e agradável, e perfeita vontade de Deus." "Muitas," é verdade, "são as aflições do justo;" mas também é verdade que "o Senhor o livra de todas elas. Ele guarda todos os seus ossos; nem um deles se quebra." E entre a "aflição" e a enfermidade deve-se bem lembrar que há uma distinção muito clara. Em Mara, os filhos de Israel tiveram de beber água amarga, e ela foi apenas adoçada, não removida; assim como muitas provações são santificadas e abençoadas. Mas foi ali mesmo que Ele estabeleceu um estatuto e uma ordenança de cura, e lhes disse que, se O obedecessem, não adoeceriam, e Ele seria o seu constante Curador, mostrando-lhes assim que Mara não era enfermidade. E em exato paralelo, Tiago nos diz, v. 13: "Está alguém entre vós aflito? Ore;" isto é, por graça e força. Mas: "Está alguém enfermo? Chame os presbíteros da igreja," e seja curado. A aflição é "padecer com Cristo;" e Ele não esteve enfermo. "No mundo tereis aflições;" mas tanto mais precisamos de um coração são e forte, para suportar e vencer.
6. Objeta-se que é presunçoso reivindicar a cura da doença de modo absoluto, e que o modelo de toda verdadeira oração são as palavras de Cristo no jardim: "Se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres." Sim, mas esqueceram-se de que Ele sabia não ser possível que aquele cálice passasse, que neste caso Ele pedia algo para o qual, no mínimo, não tinha promessa nem garantia, e que Ele repudiou instantaneamente, dizendo: "Salva-me desta hora; mas para isto vim a esta hora. Pai, glorifica o teu nome." Certamente, em quaisquer circunstâncias semelhantes, quando levados por extrema angústia a pedir algo para o qual não temos garantia clara, promessa ou indicação favorável da vontade Divina, devemos sempre submeter o assunto ao arbítrio daquela vontade desconhecida. Mas, quando sabemos, pela Sua própria palavra a nós, que uma bênção está de acordo com a Sua vontade, que ela está provida, comprada e prometida, não é realmente evasivo, dissimulado, insincero, e de fato uma afetação, chegar a Ele em dúvida e incerteza, ou formular os nossos pedidos na linguagem da ambiguidade? Não é muito semelhante a um filho na faculdade que continuasse a escrever pedindo a tua permissão para coisas acerca das quais já lhe havias dado as mais completas instruções na tua primeira carta? Orou Cristo assim, quando pediu coisas que sabia estarem de acordo com a vontade de Deus? Não nos é tão lícito imitá-Lo numa oração como noutra, em Betânia tanto quanto no Getsêmani? E ali, o que disse Ele? "Pai, eu sei que sempre me ouves," e ainda: "Pai, quero que eles estejam comigo." Em Seu nome, não podemos orar assim como Ele, onde a Sua vontade se faz claramente conhecida? "Se vós permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que QUISERDES, e vos será feito." Oramos com indefinição quando pedimos perdão? Nós o tomamos e o reivindicamos, e, sendo fortes na fé, glorificamos assim a Deus da maneira mais eficaz.
7. Dizem-nos que há muitos casos de fracasso; e Paulo e seus companheiros são os primeiros enumerados. O inevitável espinho de Paulo é guardado como uma preciosa relíquia para atormentar os cristãos duvidosos; e Trófimo e Epafrodito são arrastados em seus leitos para encorajar o disposto paciente no hospital do Castelo da Dúvida. Quanto ao espinho de Paulo, devemos dizer, primeiro: é muito incerto que fosse doença; era um mensageiro de Satanás para o esbofetear, isto é, alguma humilhação — talvez a gagueira. Segundo: fosse o que fosse, foi de tal modo curado, e mais que curado, que fez o poder de Cristo repousar sobre ele tão poderosamente que ele foi abundantemente habilitado para todos os seus labores e deveres, e ansiava por mais dessas ocasiões de bênção. E quem consegue ver nisto um débil inválido afastado do trabalho está afligido de estrabismo espiritual. Terceiro: antes que as pessoas possam afirmar que a sua enfermidade é uma visitação celestial como a de Paulo, para impedi-las de se exaltarem em demasia, precisariam ter estado com ele no terceiro céu, e ouvido coisas que não é lícito ao homem proferir! E quarto: Paulo de fato nos dá em outro lugar o relato de sua cura (II Cor. i. 10); e foi inconfundivelmente pela oração da fé e por uma poderosa fé no próprio Deus que ressuscita os mortos. Quanto a Epafrodito, foi curado pela misericórdia de Deus. Trófimo, sem dúvida, também o foi, embora deva ter sido de modo demorado. A cura, mesmo pela fé, nem sempre é instantânea. Há "milagres" e "dons de curar," uns repentinos e estupendos, outros simples e provavelmente graduais. Que o próprio Trófimo fosse o culpado por sua doença ou lentidão de fé não é de admirar; e que haja apenas dois casos assim em todos esses esboços pessoais inspirados é o que mais admira.
Ainda há casos de fracasso, mas eles podem ser explicados, talvez por conhecimento defeituoso ou incredulidade, por desobediência a Deus de algum modo, por não seguir coerentemente os ensinos da Palavra e do Espírito, ou por uma disciplina espiritual mais profunda. E há fracassos na vida espiritual, pelas mesmas causas ou por causas semelhantes — os quais de modo algum refutam a realidade das promessas Divinas ou a suficiência da graça de Cristo. "Seja Deus verdadeiro," ainda que "todo homem" seja "mentiroso."
8. Mas dizem-nos que, se estas coisas são assim, as pessoas nunca deveriam morrer. Por que não? Por que deveria a fé ir além da Palavra? Tudo o que vai além disso é presunção. A Palavra estabelece um limite à vida humana, e tudo o que a fé bíblica pode reivindicar é suficiência de saúde e força para a nossa obra de vida e dentro dos seus justos limites. Pode ser mais longa ou mais curta, mas não precisa, como os ímpios, deixar de viver a metade dos seus dias. Deveria ser completa, satisfatória, e tão longa quanto ainda estiver por terminar a obra da vida. E então, quando chega o fim, por que haveria de ser com uma enfermidade dolorosa e deprimente, como a maçã podre que cai em junho por doença, e com um verme na raiz? Por que não poderia ser antes como aquela maçã madura que cairia em setembro, amadurecida, macia, e pronta a cair sem luta na mão do jardineiro? Assim Jó retrata o fim da vida de um homem bom como a plena maturidade do "feixe de trigo que se recolhe a seu tempo."
9. Alguns nos perguntam: não fez Deus todos esses meios, e não quer Ele que os usemos? E, de fato, não é presunção esperarmos que Ele faça algo, a menos que façamos tudo o que podemos por nós mesmos? Respondemos, primeiro: Deus em lugar algum prescreveu meios medicinais, e não temos direito de inferir que os remédios sejam ordinariamente os Seus meios. Eles não são, como o alimento, referidos vez após vez como necessários ou ordenados para o nosso uso. É um fato muito singular e irrespondível que em toda a história dos patriarcas não se faz referência alguma ao uso de tais meios. Na história de Jó, tão cheia de detalhes vívidos, todos os demais são descritos, exceto o médico, e tudo no universo, exceto os remédios. Não há médico algum em atendimento, ou certamente teríamos entrevisto um vislumbre dele naquele aposento; e, quando Jó se recupera, é inteiramente pela mão direta de Deus, e quando ele mesmo desce ao seu verdadeiro lugar de humildade para com Deus e de amor para com o próximo. Nas prescrições, proibições e determinações ainda mais elaboradas do Livro de Levítico acerca de todos os detalhes da vida humana, incluindo até a doença da lepra, não há a mais remota insinuação de um médico ou de uma farmácia. E é somente depois do tempo de Salomão, e da importação, sem dúvida, da cultura e da ciência ímpias do Egito, que encontramos o primeiro caso definido de tratamento médico; e ali o paciente morre, e morre sob o estigma da incredulidade e do afastamento de Deus. No Novo Testamento, tais "meios" são mencionados em termos dificilmente mais lisonjeiros, quando é descrita a mulher que tocou a orla de Sua veste. Se Lucas era médico, abandonou o seu ofício pela obra evangelística, como fortemente se pode inferir de sua vida itinerante; pois nenhuma prática poderia ser mantida em tais circunstâncias. Sem ir mais longe, ao menos isto é claro:
Primeiro, que Deus não prescreveu remédio.
Segundo, que Ele prescreveu outro caminho no Nome de Jesus, e proveu para ele na expiação, designou uma ordenança para assinalá-lo, e de fato o ordenou e o impôs.
E terceiro, que todas as provisões da graça são pela fé, não pelas obras. O uso de remédios, se bem-sucedido, geralmente dá a glória ao homem, e Deus não fará isso. Se a cura da enfermidade é uma das aquisições da expiação de Cristo, e uma das Suas prerrogativas como nosso Redentor, então Ele é zeloso dela, e nós também seremos zelosos. Se ela é parte do plano da salvação, então sabemos que todo o plano é formado segundo a "lei da fé;" se as palavras de Tiago são um mandamento, então elas excluem o tratamento da doença por remédios humanos tanto quanto a contratação de um médico excluiria o tratamento de outro ao mesmo tempo e para o mesmo caso. Se este é o modo de cura de Deus, então os outros métodos devem ser os modos do homem, e deve haver algum risco em deliberadamente repudiar o primeiro pelo segundo. Não queremos com isso dar a entender que a profissão médica seja pecaminosa, ou que o uso de meios seja sempre errado. Pode haver, sempre haverá, inúmeros casos em que a fé não é exercida; e, se os meios naturais têm, como de fato têm, um valor limitado, há amplo espaço para o seu emprego nesses casos. Mas, para o filho de Deus que confia e obedece, há o caminho mais excelente que a Sua Palavra prescreveu claramente, e pelo qual o Seu nome será sempre glorificado de novo, e a nossa vida espiritual continuamente renovada. A era é de crescente racionalismo, e a incredulidade se esforça constantemente por eliminar do universo todo vestígio de operação sobrenatural direta, e por explicar tudo por causas secundárias e desenvolvimento natural; e Deus, por esta mesma razão, quer mostrar a Sua operação imediata onde quer que a nossa fé Lhe conceda uma oportunidade. A Alta Crítica está diligentemente retirando o miraculoso das nossas Bíblias, e um padrão inferior de vida cristã está ocupado em tirar da nossa vida tudo o que é divino. Que todos os que creem num Deus vivo estejam dispostos a provar a uma geração escarnecedora que "o eterno Deus, o Senhor, o Criador dos confins da terra, nem se cansa nem se fatiga," pois "nele vivemos, e nos movemos, e existimos," e que ainda "nada há demasiadamente difícil para o Senhor."
10. Referir-nos-emos apenas, em conclusão, à objeção de que estas visões da verdade exaltam indevidamente a vida corporal, e desviam as mentes dos homens do interesse transcendente da alma imortal, promovendo o fanatismo, além de conduzir a outros males.
A mesma objeção poderia ser levantada contra os primeiros anos do ministério de nosso Senhor, quando a cura do corpo era feita uma via para alcançar as almas dos homens, e um testemunho dos Seus ensinos espirituais. A doutrina do poder curador de Cristo está tão estreitamente ligada à necessidade da santidade, e às verdades e experiências mais profundas da vida espiritual, que tende, em grau preeminente, a promover a pureza e o fervor. O poder que cura o corpo geralmente confere ao coração um batismo muito mais rico do Espírito Santo, e a conservação desta vida e saúde Divinas exige tão constante comunhão com Deus, e tão consagrado serviço ao Mestre, que os resultados espirituais superam de longe os temporais; e é um dos mais poderosos freios e impulsos nas vidas daqueles que verdadeiramente o receberam. Os abusos de que se reclama costumam ser encontrados ligados a falsos ensinos e a perversões antibíblicas daquelas coisas que pessoas precipitadas ou ambiciosas disseminam para os seus próprios fins ímpios. A verdadeira doutrina da cura por meio do Senhor Jesus Cristo é sumamente humilhante, santa e prática; não exalta homem algum, não poupa pecado algum, não oferece promessas aos desobedientes, não dá força para a complacência egoísta ou para fins mundanos, mas exalta o nome de Jesus, glorifica a Deus, inspira a alma com fé e poder, convoca a uma vida de abnegação e santo serviço, e desperta uma Igreja adormecida e um mundo incrédulo com os solenes sinais de um Deus vivo e de um Mestre que retorna.
Extravagâncias, perversões e falsificações, sabemos que as há; curadores não autorizados e autoconstituídos, impostores mercenários, que se apregoam como sendo "algum grande homem," unções precipitadas e indiscriminadas de pessoas que só trazem descrédito à verdade por sua ignorância e incoerência, e lobos em pele de ovelha, que reivindicam o nome de Jesus para os passes da clarividência, a feitiçaria do espiritismo, e as performances do magnetismo animal. Mas a verdade de Deus não é responsável pelo erro humano, e a falsificação é muitas vezes o melhor testemunho do genuíno. Que os ministros do Senhor Jesus respondam e ponham de lado esses males, reivindicando e exercendo, no poder do Espírito Santo, os dons e ofícios que uma vez lhes foram confiados, e que o povo de Deus, nestes tempos perigosos, "discerna entre o justo e o ímpio, entre o que serve a Deus e o que não o serve."
Capítulo 3 concluído
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