Capítulo 26 · 7 min de leitura
Somente Cristo faz progredir este governo
A quinta conclusão é que este governo é estabelecido e promovido somente por Cristo; é ele quem leva o juízo à vitória. Tanto lutamos como prevalecemos na força do seu poder (Efésios 6:10); nós vencemos pelo espírito obtido mediante o sangue do Cordeiro (Apocalipse 12:11).
É somente ele quem ensina as nossas mãos para a guerra e os nossos dedos para a peleja (Salmos 144:1). A natureza, enquanto corrompida, favorece a própria existência e se mantém contra o governo de Cristo. A natureza, considerada em si mesma, não consegue elevar-se acima de si própria para ações espirituais de ordem e natureza superiores; por isso o poder divino de Cristo é necessário para nos levar acima de toda a nossa própria força, especialmente nos deveres em que encontramos maior oposição; pois nesses casos não só a natureza nos faltará, mas também a graça ordinária, a menos que haja um suprimento mais forte e novo. Ao levantar um fardo mais pesado que o comum, se não houver uma proporção de força maior que a do peso, quem o empreende ficará esmagado debaixo dele: assim, para cada embate forte, deve haver um novo suprimento de força; como em Pedro (Mateus 26:69), que, ao ser assaltado por uma tentação mais forte, não sendo sustentado e amparado por uma mão mais poderosa, apesar da força que antes tivera, caiu vergonhosamente. E, uma vez caídos, no nosso reerguer é Cristo quem deve realizar a obra: 1. Removendo; ou 2. Enfraquecendo; ou 3. Suspendendo os obstáculos contrários; 4. E fazendo avançar em nós o poder da sua graça, a um grau ainda maior do que tínhamos antes de cair; portanto, quando tivermos caído e, pelas quedas, tivermos recebido uma contusão, vamos logo a Cristo, para que de novo nos ature as feridas.
Saibamos, pois, que é perigoso buscar em nós mesmos aquilo que devemos receber de Cristo. Desde a queda, toda a nossa força reside nele, como a de Sansão residia em seus cabelos (Juízes 16:17); não passamos de agentes subordinados, movendo-nos conforme somos movidos, e agindo conforme primeiro somos influenciados, livres na medida em que somos libertados, não mais sábios nem mais fortes do que ele nos faz ser, no momento, em qualquer coisa que empreendemos. É o seu Espírito que aciona, vivifica e aplica o conhecimento e a força que temos; do contrário, tudo falha e jaz inútil em nós; trabalhamos quando trabalhamos apoiados numa força presente; por isso os espíritos dependentes são os mais sábios e mais capazes. Nada é mais forte que a humildade, que sai de si mesma; nem mais fraco que o orgulho, que se apoia sobre o seu próprio fundamento: e isto deve ser tanto mais observado porque, por natureza, arrogamo-nos uma espécie de divindade ao empreender ações na força das nossas próprias capacidades; ao passo que Cristo diz: sem mim, vós, apóstolos que estais em estado de graça, nada podeis fazer (João 15:5): ele não diz que podeis fazer pouco, mas nada. Por nós mesmos, quão facilmente somos vencidos! quão fracos para resistir! Somos como caniços agitados por todo vento; trememos ao simples ruído e ao só pensamento de pobreza, desonra, perdas, etc.; cedemos de imediato; não temos poder sobre os nossos olhos, línguas, pensamentos e afetos, mas deixamos o pecado entrar e sair. Quão depressa somos vencidos pelo mal! quando deveríamos vencer o mal com o bem. Quantos bons propósitos ficam presos ao nascer, sem força para vir à luz! Tudo isso mostra o quanto nada somos sem o Espírito de Cristo. Vemos quão fracos eram os próprios apóstolos, até serem revestidos de força lá do alto (Mateus 26:69): Pedro foi abatido pela fala de uma criada, mas, depois que o Espírito de Cristo caiu sobre eles, quanto mais sofriam, mais eram encorajados a sofrer: as suas consolações cresciam junto com as suas tribulações; portanto, em todos os embates, especialmente os difíceis, elevemos os nossos corações a Cristo, que tem Espírito bastante para todos nós, em todas as nossas necessidades; e digamos com o bom Josafá: Senhor, não sabemos o que fazer, mas os nossos olhos estão voltados para ti (2 Crônicas 20:12): a batalha que travamos é tua, e a força com que lutamos há de ser tua. Se não saíres conosco, certamente seremos derrotados. Satanás sabe que nada pode prevalecer contra Cristo, nem contra os que confiam no poder dele; por isso o seu empenho é como nos manter em nós mesmos e na criatura: mas devemos ter sempre isto em mente: que aquilo que começa na autoconfiança acabará em vergonha.
O modo pelo qual Cristo leva o juízo à vitória é fazendo-nos ver a necessidade de dependermos dele: daí procedem aquelas deserções espirituais em que ele muitas vezes nos deixa entregues a nós mesmos, tanto quanto à graça como quanto ao consolo, para que saibamos que a fonte destes está fora de nós. É por isso que no monte, isto é, nas extremidades, Deus mais se faz ver (Gênesis 22:13). É por isso que somos salvos pela graça da fé, que nos leva para fora de nós mesmos, a confiar em outro; e que a fé opera melhor quando está sozinha, quando tem o menor apoio exterior. É por isso que muitas vezes falhamos nos conflitos menores e resistimos nos maiores: porque, nos menores, apoiamo-nos mais em nós mesmos; nos maiores, refugiamo-nos na rocha da nossa salvação, que é mais alta do que nós. É por isso também que somos mais fortes depois das derrotas: porque a corrupção oculta, antes não percebida, é agora descoberta, e daí somos levados a lançar mão da misericórdia que perdoa e do poder que sustenta. Um dos principais fundamentos desta dispensação é que saibamos que é Cristo quem dá tanto o querer como o realizar, e isso como uma obra voluntária, segundo a sua própria boa vontade. E por isso devemos operar a nossa salvação com um zeloso temor e tremor (Filipenses 2:12), para que, por um andar irreverente e presunçoso, não lhe demos motivo para suspender a sua graciosa influência e nos deixar às trevas do nosso próprio coração.
Aqueles que estão sob o governo de Cristo têm o espírito de revelação, pelo qual veem e sentem um poder divino a capacitá-los, suave e fortemente, para preservar a fé quando sentem o contrário, e para esperar num estado sem esperança, e para amar a Deus sob sinais do seu desagrado, e para ter a mente voltada ao céu em meio a negócios e atrativos mundanos que os arrastam em sentido contrário: eles sentem um poder que preserva a paciência, mais ainda, a alegria em meio a motivos de luto, e a paz interior em meio aos assaltos. De onde vem que, quando somos assaltados pela tentação e cercados de tribulações, temos permanecido firmes, senão de uma força secreta que nos sustenta? Fazer que tão pouca graça seja tão vitoriosa sobre tão grande massa de corrupção requer um espírito mais que humano; isto é como conservar fogo dentro do mar, e um pedaço do céu como que dentro do inferno. Aqui sabemos onde obter este poder e a quem devolver o louvor por ele. E é a nossa felicidade que ele esteja tão seguramente escondido em Cristo para nós, em alguém tão próximo de Deus e de nós. Desde a queda, Deus não nos confia a nossa própria salvação, mas ela é tanto adquirida como guardada por Cristo para nós, e nós somos guardados para ela mediante a fé, operada pelo poder de Deus e que se apega a esse mesmo poder: poder esse que é gloriosamente descrito por São Paulo: 1. um grande poder; 2. um poder sobre-excelente; 3. um poder eficaz e poderoso; 4. um poder tal como o que se operou ao ressuscitar Cristo dentre os mortos (Efésios 1:19). Aquela graça que não passa de uma oferta persuasiva, deixada ao nosso arbítrio de aceitar ou recusar, não é a graça que nos conduz ao céu; mas o povo de Deus sente uma obra poderosa do Espírito, que não só nos revela a nossa miséria e o livramento por meio de Cristo, mas também nos esvazia de nós mesmos, como que redimidos de nós próprios, e infunde em nós uma vida nova, e depois nos fortalece e nos revigora quando desfalecemos e deixamos cair as asas, e jamais nos abandona até a vitória perfeita.