Capítulo 25 · 6 min de leitura
O governo de Cristo será abertamente vitorioso
Não se diz apenas que o juízo será vitorioso, mas que Cristo o levará abertamente à vitória. Donde observamos que a graça se tornará glória, e ficará à vista de todos. Agora Cristo vence e alcança os seus próprios fins, mas de certo modo invisivelmente: os seus inimigos, dentro e fora de nós, parecem levar vantagem. Mas ele levará o juízo à vitória, à vista de todos. Os ímpios que agora fecham os olhos hão de vê-lo, para o seu tormento. Não estará no poder dos homens astutos ver ou não ver o que quiserem; Cristo terá poder sobre os corações deles; e, assim como a sua ira se apoderará imediatamente das almas deles contra a sua vontade, também terá poder sobre os olhos das suas almas, para verem e conhecerem aquilo que aumentará a sua desgraça; a dor estará presa a todos os sentidos deles, e os seus sentidos, à dor.
Então todos os falsos vernizes que eles põem sobre as coisas serão apagados. Os homens desejam ter a reputação do bem e, ao mesmo tempo, a doçura do mal; nada é por eles tão cordialmente combatido como aquela verdade que os expõe a si mesmos e aos olhos dos outros; sendo o seu principal cuidado como dissimular perante o mundo e a própria consciência. Mas virá o tempo em que serão expulsos desse paraíso de tolos, e quanto mais astuto tiver sido o seu manejo das coisas, tanto maior será a sua vergonha. Cristo, a quem Deus escolheu para manifestar a principal glória das suas excelências, está agora velado no que diz respeito ao seu corpo, a igreja, mas em breve virá para ser glorificado nos seus santos (2 Tessalonicenses 1:10), sem perder a clara manifestação de nenhum dos seus atributos; e declarará a todo o mundo o que ele é, quando não houver outra glória senão a de Cristo e a da sua esposa. Aqueles que agora são como o pavio que fumega hão então de brilhar como o sol no firmamento (Mateus 13:43), e a sua justiça resplandecerá como o sol ao meio-dia (Salmos 37:6). A imagem de Deus em Adão tinha em si uma majestade imponente, de modo que todas as criaturas o reverenciavam; muito mais a imagem de Deus, em sua perfeição, imporá respeito em todos. Mesmo agora há um secreto temor lançado nos corações dos maiores diante daqueles em quem veem alguma graça resplandecer; foi daí que Herodes temeu João Batista; mas o que não será isto no dia em que forem manifestados, o qual é chamado o dia da revelação dos filhos de Deus? (Romanos 8:19). Haverá tempos mais gloriosos, quando os reinos da terra pertencerão ao Senhor Jesus Cristo (Apocalipse 11:10), e ele reinará para sempre; então o juízo e a verdade terão a sua vitória; então Cristo defenderá a sua própria causa; a verdade não mais será chamada de heresia e cisma, nem a heresia de doutrina católica; a maldade não mais andará mascarada e disfarçada; a bondade aparecerá em seu próprio esplendor e brilhará com os seus próprios raios; as coisas serão o que são; nada há de oculto que não venha a ser revelado (Mateus 10:26); a iniquidade não mais será conduzida em mistério; os dissimuladores profundos, que pensam esconder do Senhor os seus desígnios, não mais andarão invisíveis, como que envoltos em nuvens. Assim como Cristo não apagará a menor fagulha por ele mesmo acesa, também abafará a mais bela chama de aparências vistosas que não vêm do alto.
Se nisto se cresse, os homens dariam mais valor à sinceridade, a única que nos dará confiança, e não buscariam disfarces para as suas vergonhas; a confiança neles, assim como agora torna os homens mais presunçosos, também os exporá adiante a maior vergonha.
Se o juízo há de ser levado à vitória, então aqueles que foram governados pelo próprio coração enganoso e por um espírito de erro serão levados à desonra: aquele Deus que uniu a graça e a verdade à honra, uniu enfim o pecado e a vergonha; toda a astúcia e o poder do homem jamais serão capazes de separar o que Deus juntou. A verdade e a piedade podem ser pisoteadas por um tempo, mas assim como as duas testemunhas (Apocalipse 11:11), depois de mortas, tornaram a viver e se puseram em pé, assim também tudo o que é de Deus por fim se firmará sobre o seu próprio fundamento. Haverá uma ressurreição não só dos corpos, mas também das reputações. Podemos pensar que aquele que lançou os anjos para fora do céu permitirá que o pó e o pasto dos vermes sigam um curso contrário, e sempre saiam vencedores assim? Não; tão certamente como Cristo é Rei dos reis e Senhor dos senhores (Apocalipse 19:16), assim também despedaçará, como a um vaso de oleiro, todos aqueles punhados de terra que se levantam contra ele (Salmos 2:9). Houve alguma vez alguém que se enfureceu contra Deus e prosperou? (Jó 9:4). Não; sem dúvida, a ira do homem se converterá em louvor de Cristo (Salmos 76:10). O que se disse de Faraó se dirá de todos os inimigos obstinados, que preferem perder a alma a perder a própria vontade: que foram levantados apenas para que Cristo obtenha glória para si mesmo na ruína deles.
Tomemos, pois, cuidado para não seguirmos os caminhos daqueles homens, cujos fins nos farão tremer: não há juízo mais temível que possa cair sobre a natureza humana do que ser entregue a um discernimento reprovado a respeito de pessoas e coisas, pois cai sob um ai chamar o mal de bem e o bem de mal (Isaías 5:20).
Como não serão carregados de maldições, num dia futuro, aqueles que corrompem o discernimento dos outros por meio de sofismas e lisonjas, enganadores e enganados? Então a queixa da nossa primeira mãe Eva será retomada, mas em vão (Gênesis 13:3); a serpente me enganou; Satanás, por meio deste ou daquele, me enganou; o pecado me enganou; um coração insensato me enganou. É um dos mais altos pontos da sabedoria considerar sobre que fundamentos arriscamos as nossas almas. Felizes serão os homens que, pela luz de Cristo, têm um reto discernimento das coisas e permitem que esse discernimento prevaleça sobre os seus corações.
A alma da maioria dos homens está afogada nos seus sentidos e arrastada por opiniões frágeis, nascidas de erros comuns e de sombras das coisas. E Satanás está pronto a ampliar a imaginação do bem exterior e do mal exterior, tornando-os maiores do que são, e as coisas espirituais menores, apresentando-as por meio de lentes falsas. E assim os homens, confiando na vaidade, vencem a si mesmos nas suas próprias imaginações. Que condição lamentável, quando tanto nós como aquilo que muito estimamos desaparecermos juntos — o que sucederá tão certamente como o juízo de Cristo há de chegar à vitória; e na medida em que o vão coração do homem se tiver dilatado para conceber nas coisas deste mundo um bem maior do que o que nelas há, nessa mesma medida a alma se dilatará para sentir com mais intensidade a desgraça, quando enxergar o seu erro. Esta é a diferença entre o homem piedoso e sábio e o mundano iludido: aquilo que um agora julga ser vão, o outro sentirá que o é mais tarde, quando já for tarde demais. Mas esta é a vaidade da nossa natureza: embora acima de tudo evitemos ser enganados e iludidos nas coisas presentes, contudo nos maiores assuntos de todos somos voluntariamente ignorantes e desencaminhados.