Conversas com o Lavrador ·O Trigo Principal

Capítulo 8 · 21 min de leitura

O Trigo Principal

“O trigo principal.” Isaías 28:25 O profeta o menciona como uma prova de sabedoria da parte do lavrador: ele sabe qual é a coisa principal a cultivar e faz dela o seu cuidado supremo. O texto, com o seu contexto, diz assim: “Porventura não semeia o lavrador o trigo principal?” Ele não vai ao celeiro e tira trigo, cominho, cevada e centeio para espalhá-los descuidadamente, mas avalia o valor de cada grão e os dispõe em sua mente segundo esse valor. Ele não pensa que o cominho e a alcaravia, que cultiva apenas para dar sabor à sua comida, tenham metade da importância do seu cereal de fazer pão; e, embora o centeio e a cevada tenham o seu valor, ele não os considera iguais àquilo que chama de “o trigo principal”. Ele é um homem de bom senso; ordena as coisas; coloca a lavoura mais importante na primeira fila e gasta com ela o maior cuidado.

Aprendamos aqui uma lição. Mantenha as coisas claras na sua mente — não confusas e embaralhadas por um pensar descuidado. Não viva uma vida atrapalhada, sem cuidado nem discernimento, misturando tudo; antes, separe as coisas, e divida e distinga entre o precioso e o vil. Veja quanto vale isto e quanto vale aquilo, e ponha os seus assuntos em ordem e hierarquia, fazendo de alguns o principal e de outros o secundário. Sugiro a vocês, jovens especialmente, que, ao começarem a vida, digam a si mesmos: “Para que havemos de viver? Há uma coisa principal para a qual devemos viver; qual será ela?” Você já considerou de fato essa pergunta, ou lançou-se a ela ao acaso? Para que você está vivendo? Qual é o seu alvo principal? Será o daquele velho senhor em Horácio, que dizia ao seu filho: “Ganha dinheiro; ganha-o honestamente, se puderes; mas, de todo modo, ganha dinheiro”? Você será um fazedor de dinheiro? Será o dinheiro o seu trigo principal?

Ou escolherá uma vida de prazer — “uma vida curta e alegre”, como tantos tolos disseram para sua profunda tristeza? É na dissipação que a sua vida há de ser gasta? Serão os cardos a sua principal colheita? Só porque há certo prazer em contemplar um cardo escocês, você pretende cultivar acres de vício prazeroso? E fará deles a sua cama quando vier a morrer? Busque e veja o que é digno de ser o objeto principal da vida; e, quando o tiver encontrado, peça então ao Espírito Santo que o ajude a escolher aquela única coisa e a dar todas as suas forças e faculdades ao cultivo dela. O lavrador, que descobre que o trigo deve ser a sua principal colheita, faz dele exatamente isso e dirige os seus esforços com esse fim em vista; aprenda com isso a ter um alvo central e a dar-lhe toda a sua mente.

Este lavrador foi sábio, porque considerou principal aquilo que era mais necessário. Sua família podia passar sem o cominho, que era apenas um tempero. Talvez a senhora reclamasse, ou a cozinheira resmungasse, mas isso não importava tanto quanto importaria se os filhos chorassem por pão. Eles certamente precisavam de trigo, pois o pão é o sustento da vida. É o pão que fortalece o coração do homem, e por isso o lavrador precisa cultivar trigo, ainda que não cultive mais nada. O que era necessário, ele o tinha por coisa principal. Não é isto simples bom senso? Se nos sentássemos a considerar com sabedoria, não diríamos: “Ter os meus pecados perdoados, estar em paz com Deus, ser santo, ser apto para viver eternamente no céu — eis a maior e mais necessária coisa para mim, e por isso farei dela o objeto principal da minha busca”? Uma criatura não pode ficar satisfeita se não estiver cumprindo o propósito para o qual foi criada; e o propósito de toda criatura inteligente é, primeiro, glorificar a Deus e, depois, desfrutar de Deus. Que alegria há de ser desfrutar do próprio Deus para todo o sempre! Outras coisas podem ser desejáveis, mas esta única coisa é necessária. Uma renda suficiente, certa medida de respeito entre os homens, algum grau de saúde — tudo isto é o tempero da vida; mas ser salvo no Senhor com salvação eterna é a própria vida. Jesus Cristo é o pão pelo qual se sustenta a melhor vida da nossa alma. Oh, quem dera fôssemos todos sábios o bastante para sentir que ser um com Cristo é a única coisa necessária; que estar em paz com Deus é a coisa principal; que ser trazido à harmonia com o Altíssimo é a verdadeira música do nosso ser. Outras ervas podem ocupar o seu lugar na devida ordem, mas a graça é o trigo principal, e devemos cultivá-la.

Este lavrador foi sábio, porque fez coisa principal aquilo que era mais apropriado para sê-lo. É claro que a cevada é útil como alimento, pois nações viveram de pão de cevada, e viveram com saúde; e o centeio tem sido o alimento de milhões; nem passaram fome com aveia e outros grãos.

Ainda assim, dê-me um pedaço de pão de trigo, pois é o melhor sustento para a jornada da vida. Este lavrador sabia que o trigo era o alimento mais adequado ao homem, e por isso não pôs o grão inferior, que poderia servir de substituto, no lugar de destaque; antes, deu preferência ao seu trigo. Ele não disse “a cevada principal”, nem “o centeio principal”, muito menos “o cominho principal” ou “a ervilhaca principal”, mas “o trigo principal”.

E que há, irmãos, tão apropriado ao coração, à mente, à alma do homem, quanto conhecer a Deus e ao seu Cristo? Outros alimentos da mente, como os frutos do conhecimento e as delícias da ciência, por mais excelentes que sejam, são nutrição inferior e inadequada para edificar o homem interior.

No meu Deus e meu Salvador encontro o meu céu e o meu tudo. Minha alma se nutre de uma migalha de verdade acerca de Jesus e acha profunda satisfação em viver dela. Quanto mais conhecemos a Deus, e desfrutamos de Deus, e nos tornamos semelhantes a Deus, e quanto mais Cristo é o nosso pão de cada dia, tanto mais percebemos a adequação de tudo isto à nossa natureza renascida. Ó amados, façam objeto principal aquilo que é a mais digna busca de uma mente imortal.

“A religião é o cuidado supremo Dos mortais aqui de baixo; Que eu aprenda a sua grande importância, E conheça a sua soberana virtude!” “Mais necessária esta do que a riqueza reluzente, Ou tudo o que o mundo concede; Nem reputação, nem alimento, nem saúde Podem dar-nos tal repouso.”

Além disso, este lavrador foi sábio, porque fez coisa principal aquilo que era mais proveitoso. Sob certas circunstâncias, em nosso próprio país, o trigo não é a colheita mais lucrativa que um homem pode cultivar; mas, de ordinário, é a melhor colheita que a terra produz, e por isso o texto fala do “trigo principal”. Nossos avós costumavam contar com a meda de trigo para pagar o seu aluguel. Olhavam para o seu cereal como a fonte da sua força; e, embora talvez não seja assim hoje, foi assim antigamente, e talvez ainda venha a ser assim de novo.

De qualquer modo, a ilustração se aplica com verdade no tocante à verdadeira religião. Esta é a coisa mais proveitosa.

Dizem-me que os ricos acham muito difícil garantir hoje em dia algo que renda cinco por cento; mas este bendito temor do Senhor é um investimento extraordinariamente proveitoso, pois não rende cem por cento, nem mil por cento, mas o homem começa com nada e todas as coisas se tornam suas pela fé.

Sendo gratuitamente perdoados dos nossos pecados, somos, por transbordante graça, grandemente enriquecidos, de modo que contamos entre os nossos bens o próprio céu, o próprio Cristo, o próprio Deus. Todas as coisas são nossas. Oh, que bendita colheita para semear! Que ceifa dela procede! A piedade é proveitosa para a vida presente e para a vida vindoura. A piedade é uma bênção para o corpo do homem — guarda-o da embriaguez e do vício; e é uma bênção para a sua alma — torna-o brando e puro. É uma bênção para ele de todas as maneiras. Se eu tivesse de morrer como um cão, preferiria viver como um cristão. Se não houvesse porvir, ainda assim, por conforto e alegria, dê-me a vida de quem se esforça por viver como Cristo. Há uma verdade prática e cotidiana no verso: “A religião é que pode dar As mais doces alegrias enquanto vivemos; A religião é que há de suprir O sólido conforto quando morrermos.” Só que essa religião não pode ser da espécie comum; deve ter por raiz uma fé sincera em Jesus Cristo. Cuide disso. A nossa religião há de ser ou tudo ou nada, ou a primeira coisa ou coisa nenhuma. Faça dela “o trigo principal”, e ela lhe dará ricos frutos.

II. Em segundo lugar, o lavrador nos serve de lição porque dá a esta coisa principal o lugar principal. Verifico que o hebraico é traduzido por alguns eminentes eruditos assim: “Ele põe o trigo no lugar principal.” Aquele punhadinho de cominho, para a esposa temperar os bolos, ele o cultiva num canto; e as várias ervas ele as coloca nos seus devidos canteiros. A cevada ele a põe no seu talhão, e o centeio no seu acre; mas, se há um bom pedaço de solo rico — o melhor que possui —, ele o destina ao trigo principal. Ele dá os seus melhores campos àquilo que há de ser o principal meio do seu sustento.

Ora, aqui está uma lição para você e para mim. Demos à verdadeira piedade as nossas principais forças e capacidades. Demos às coisas de Deus o nosso melhor e mais intenso pensamento.

Peço-lhe, não receba a religião de segunda mão, do que eu lhe digo, ou do que outra pessoa lhe diz; antes, medite nela. Leia, note, aprenda e digira interiormente a palavra de Deus. O cristão que reflete é o cristão que cresce. Lembre-se: o serviço de Deus merece a nossa primeira consideração e o nosso primeiro empenho. Somos coisas pobres no nosso melhor, mas devemos dar ao Senhor nada menos que o nosso melhor. Deus não quer que o sirvamos descuidadamente, mas quer que usemos todo o cérebro, o intelecto e a mente que temos no estudo e na prática da sua palavra. “Apega-te, pois, a Deus e terás paz” (Jó 22:21). “Medita estas coisas; ocupa-te inteiramente nelas” (1 Timóteo 4:15). Se a sua mente estiver mais clara e ativa numa ocasião do que noutra, então semeie o trigo principal. Se você se sentir mais disposto e mais inclinado a pensar numa hora do dia do que noutra, dirija então a sua mente para as melhores coisas.

Cuide também de dar a este assunto o seu amor mais ardente. O melhor campo na pequena propriedade da humanidade não é a cabeça, mas o coração; semeie ali o trigo principal. Oh, ter a verdadeira religião no coração; amar aquilo que conhecemos — amá-lo intensamente; segurá-lo firme como que com as garras da vida e da morte — jamais soltá-lo! O Senhor diz: “Dá-me, filho meu, o teu coração” (Provérbios 23:26), e ele não se contentará com nada menos que o nosso coração. Oh, quando o seu zelo estiver mais ardente e o seu amor mais fervoroso, deixe que todo o calor e todo o fervor se dirijam ao Senhor seu Deus, e ao serviço daquele que o remiu com o seu precioso sangue. Que o trigo principal tenha a parte principal da sua natureza. Para Deus e o seu Cristo volte também os seus mais fervorosos desejos. Quando alargar o seu desejo, deseje a Cristo; quando se tornar ambicioso, seja toda a sua ambição para Deus. Que a sua fome e a sua sede sejam de justiça. Que as suas aspirações e os seus anseios sejam todos para a santidade e para as coisas que o farão semelhante a Cristo. Dê a este trigo principal os seus principais desejos.

Depois, que o Senhor tenha o respeito atento da sua vida. Que o trigo principal seja semeado em cada ação. Se somos verdadeiramente cristãos, devemos ser tão cristãos fora da igreja quanto dentro dela. Havemos de procurar que o nosso comer e o nosso beber, e tudo quanto fizermos, tendam para a glória de Deus.

Não trace linha alguma entre a parte secular e a parte religiosa da sua conduta; antes, faça com que o secular se torne religioso por um devoto desejo de glorificar a Deus numa coisa tanto quanto na outra (1 Coríntios 10:31).

Adoremos a Deus nos mais comuns deveres da vida, assim como o fazem aqueles que estão diante do seu trono.

Assim deve ser. Semeemos o trigo principal em todos os campos da nossa conversação, nos negócios, na família, entre os amigos e com os nossos filhos.

Possa cada um de nós sentir: “Para mim, o viver é Cristo. Não posso viver sem Cristo, nem para outra coisa que não seja Cristo” (Filipenses 1:21). Que toda a sua natureza se entregue a Jesus, e a nenhum outro.

Devemos dar a este trigo principal os nossos mais fervorosos labores. Devemos gastar-nos pela difusão do evangelho. Um cristão deve empenhar-se ao máximo em servir a Jesus. Detesto ver um homem professante zeloso na política e morno na devoção; todo em fogo numa reunião paroquial e frio como o inverno quando chega a uma reunião de oração. Alguns voam como águias quando estão servindo ao mundo, mas têm uma asa quebrada no serviço de Deus. Assim não deveria ser. Se alguma coisa pudesse despertar-nos e fazer rugir em sua força o leão que há dentro de nós, deveria ser quando enfrentamos os inimigos de Jesus ou combatemos na sua causa. O serviço do nosso Senhor é o trigo principal; trabalhemos ao máximo em ligação com ele.

Isto, penso eu, também deveria apoderar-se de nós a ponto de conduzir aos nossos maiores sacrifícios. O amor de Cristo deveria ser tão forte que engolisse o eu e fizesse do sacrifício a nossa alegria diária. Por amor do nome de Cristo, deveríamos estar dispostos a suportar pobreza, opróbrio, calúnia, exílio, morte. Nada deveria ser caro a um cristão em comparação com Cristo. Ora, eu lhe pergunto se é assim ou não. É o amor de Jesus o trigo principal entre nós? Estamos dando à nossa religião o lugar de destaque, ou não? Receio que algumas pessoas tratem a religião como certos senhores tratam uma fazenda arrendada de longe; põem nela um feitor e só lhe lançam um olhar de quando em quando. O ministro deles é o feitor, e esperam que ele cuide de tudo por eles. Essas fazendas geridas à distância são negócios que dão prejuízo.

Olhe para esses irmãos meio a meio. Têm religião? Certamente. Mas são como o homem de quem a criança falou na escola dominical. “Seu pai é cristão?”, perguntou o mestre. “Sim”, respondeu a criança, “mas ele não tem trabalhado muito nisso ultimamente.” Eu poderia apontar vários dessa espécie, que semeiam o seu trigo muito escassamente e escolhem o pedaço mais estéril para semeá-lo. Professam ser cristãos, mas a religião é um artigo de décima categoria na sua fazenda. Alguns têm uma vasta extensão para o mundo e um pobre e pequeno talhão para Cristo. São cultivadores do prazer mundano e da autoindulgência, e semeiam um pouco de religião à beira do caminho por causa das aparências. Isto não serve.

De Deus não se zomba assim (Gálatas 6:7). Se o desprezarmos, a ele e à sua verdade, seremos tidos em pouca conta. Ó vinde, demos o nosso principal tempo, talento, pensamento e esforço àquilo que é o cuidado supremo dos espíritos imortais. Possamos imitar o lavrador que dá ao trigo principal o lugar principal na sua fazenda.

III. Aprendamos uma terceira lição. O lavrador seleciona o grão principal para a semeadura quando vai semear o seu trigo. Quando um lavrador põe de lado trigo para a sementeira, não escolhe o grão refugado nem o pior da sua produção, mas, se é um homem sensato, gosta de semear o melhor trigo do mundo.

Muitos lavradores percorrem toda a região à procura de uma boa amostra de trigo para semear, pois não esperam colher boa ceifa de má semente. O lavrador é ensinado por Deus a pôr na terra “o trigo principal”. Que eu aprenda que, se vou semear para o Senhor e ser cristão, devo semear a melhor espécie de cristianismo.

Devo procurar fazer isto, primeiro, crendo as doutrinas de maior peso. Eu creria não neste “ismo” nem naquele, mas na verdade não adulterada que Jesus ensinou; pois um caráter santo só crescerá, pelo Espírito de Deus, a partir da doutrina verdadeira. A falsidade gera o pecado; a verdade gera e nutre a santidade. Você e eu, portanto, devemos escolher a nossa semente com cuidado e lançar fora todo o erro. Se formos sábios, daremos maior importância às verdades mais importantes, pois tenho conhecido pessoas que atribuem a maior importância às menores coisas. Elas brigam por causa da ervilhaca e deixam o trigo para os corvos. Quanto a mim, disputem sobre taças e trombetas os que quiserem; eu pregarei principalmente a doutrina do precioso sangue e as gloriosas verdades da substituição e da expiação. Estas doutrinas são o trigo principal, e por isso serão a minha escolha.

Depois disso, devemos semear os mais nobres exemplos. Muitos homens ficam atrofiados porque escolhem um mau modelo para começar. Imitam o querido e velho senhor Fulano de Tal até se tornarem admiravelmente parecidos com ele, deixando de fora o que ele tinha de melhor. Acontece de um ministro ser de índole sombria, e ele prega a experiência profunda dos filhos de Deus, e por consequência um grupo de boa gente julga ser seu dever andar melancólico. Por que haveriam de cair numa vala só porque o seu guia se salpicou de lama?

Nunca deveríamos copiar as enfermidades de homem algum. Para ser como Paulo, não é preciso ter olhos fracos; para ser como Tomé, não há necessidade de duvidar. Se você copia algum homem bom, há um ponto em que deve parar. Se eu tivesse de ter um modelo humano, preferiria um dos mais valentes santos de Deus; mas oh, quanto melhor é seguir aquele padrão perfeito que você tem em Cristo Jesus!

Semearíamos o melhor trigo cuidando de ter o mais puro espírito. Ai! quão depressa os espíritos se maculam pelo eu, ou pelo orgulho, ou pelo desânimo, ou pela preguiça, ou por alguma mácula terrena. Mas que coisa grandiosa é viver no espírito de Cristo! Possamos ser humildes, mansos, ousados, abnegados, puros, castos e santos.

E há ainda mais um modo de semear semente selecionada. Devemos esforçar-nos por viver na mais estreita comunhão com Deus. Um querido irmão orou ainda há pouco para que tivéssemos tanta graça quanto fôssemos capazes de receber, e para que Deus nos trouxesse a tal estado que não o impedíssemos em nada que ele quisesse fazer por meio de nós. Esta é uma boa oração. Deve ser o nosso desejo elevar-nos à mais alta forma de vida espiritual. Se você semeia este trigo principal, obtenha a melhor espécie dele.

Há espírito e espírito; e há doutrinas e doutrinas; o melhor é o melhor para você. Ó jovens, se pretendem ter piedade, busquem-na a fundo. Não passem furtivamente pelo mundo como se tivessem vergonha do seu Senhor. Se você é de Cristo, mostre as suas cores. Reúna-se sob a sua bandeira, congregue-se ao chamado da sua trombeta, e então levante-se, levante-se por Jesus. Se há alguma virilidade em você, esta grande causa reclama-a por inteiro; demonstre-a, e que o Espírito de Deus o ajude a fazê-lo.

IV. Em quarto lugar, o lavrador cultiva o trigo principal com o cuidado principal. Alguns críticos dizem que a tradução correta é que o lavrador planta o seu trigo em fileiras. Diz-se que as grandes colheitas na Palestina em tempos antigos se deviam ao fato de plantarem o trigo. Punham-no em linhas, de modo que não fosse impedido nem sufocado por ficar demasiado espesso num lugar, nem havia receio de ficar demasiado ralo noutro. O trigo era plantado, e então corredeiras de água eram dirigidas com o pé a cada planta em particular. Não é de admirar, portanto, que a terra produzisse abundantemente.

Esta é uma lição para nós. Não devemos dar às coisas de Deus uma atenção descuidada e sem entusiasmo.

O trigo principal requer cultivo cuidadoso — o nosso coração, a nossa mente e a nossa vida devem ser deliberadamente treinados para a santidade. Como está escrito: “E outra parte caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e a sufocaram” (Mateus 13:7). Evitemos semear o melhor do nosso coração de modo distraído e mundano, ou acharemos a nossa fecundidade sufocada.

Assim como o lavrador rega cada fileira, assim também devemos nutrir cada parte da nossa vida espiritual. “Mas o que foi semeado em boa terra é aquele que ouve a palavra e a compreende; este é o que dá fruto, e produz a cem, a sessenta e a trinta por um” (Mateus 13:23). O cuidado que damos ao nosso trigo principal — a nossa devoção a Cristo, o nosso amor a Deus, a nossa obediência — determina a abundância da ceifa. Não negligencie o principal; dê o seu melhor pensamento, o seu mais profundo amor, os seus mais fortes esforços ao cultivo da sua alma em Cristo.

Que o trigo principal tenha o cuidado principal na sua vida. Que o seu coração, a sua mente e a sua conduta sejam todos dedicados a Deus. Semeie diligentemente, regue fielmente, guarde cuidadosamente. Então você verá a bênção de uma ceifa fecunda, e a sua vida produzirá abundantemente para a glória de Deus.

Devemos dar a nossa principal atenção à coisa mais importante. A nossa piedade deve ser levada a cabo com cuidado e reflexão. Irmãos, somos suficientemente cuidadosos no nosso andar espiritual? Você examinou a profundidade da sua profissão de fé? Por que você é membro de determinada igreja? Porque a sua mãe o era? Isso é alguma razão, mas não basta para justificá-lo diante de Deus. Insto que você avalie honestamente a sua posição. Se algum ministro cristão tem medo de chamá-lo a este dever, eu o interrogo. Eu não tenho medo. Peço-lhe que examine tudo o que eu ensino, pois não quero ser responsável pelas crenças de outro homem. Como os bereanos, verifique e veja se estas coisas são verdadeiras segundo as Escrituras (Atos 17:11).

Uma das maiores bênçãos para a igreja seria um espírito de investigação que provasse tudo diante da Palavra de Deus. Se as pessoas falam contra a Escritura, é porque nelas não há luz. Sirva a Deus tão cuidadosamente quanto um lavrador oriental plantava o seu trigo, dispondo-o em fileiras ordenadas com cuidado e precisão. Você serve a um Deus preciso, portanto sirva-o com precisão. Ele é um Deus zeloso, portanto tenha o cuidado de evitar até o menor erro ou forma de idolatria de si mesmo (Êxodo 20:5).

Também, regue cada parte da sua vida espiritual como o lavrador rega cada planta. Ore por graça do alto, para que nenhuma parte da sua fé, esperança ou amor jamais seque. Sirva cada parte da sua alma como o lavrador serve o seu trigo. Faça da graça o seu principal cuidado, pois ela o merece.

Com isto concluo: concentre-se nisto, porque disto você pode esperar a sua principal ceifa. Se a religião é a coisa mais importante, dela você pode esperar a sua principal recompensa. A ceifa virá de várias maneiras. Você alcançará o maior êxito na vida se viver inteiramente para a glória de Deus.

O êxito ou o fracasso dependem em grande parte do foco dos nossos esforços. É inútil eu tentar reger um coro — não fui feito para isso —, mas posso ter êxito em pregar, porque essa é a minha vocação.

Cristão, se você viver para o mundo, não prosperará, pois não foi feito para ele. A graça o tornou impróprio para o pecado. Se você viver para Deus de todo o coração, terá êxito, porque Deus o fez para este propósito. Assim como fez o peixe para a água e as aves para o ar, fez o crente para a santidade e para servi-lo. Você estará fora do seu elemento, como um peixe fora da água ou uma ave dentro do rio, se abandonar o serviço de Deus. O êxito do lavrador oriental depende do seu trigo; o seu depende da sua devoção a Deus. Busque na piedade a sua alegria. Há alguma felicidade como a de saber que você está em Cristo e é amado pelo Senhor? É na sua fé que você achará conforto num leito de doença e de morte, e essa hora pode chegar em breve.

Na vida vindoura, que ceifa resultará de servir ao Senhor! Que dá o mundo?

Só fumaça. Um homem pode ganhar um milhão de dólares e morrer — que ganhou ele? A fama de um homem pode espalhar-se por toda a terra, e todavia ele morre — que lhe resta? Viver para o mundo é como crianças que brincam na rua por moedas ou conchas. A vida para Deus é real e duradoura; todo o resto é desperdício. Lembremo-nos disto e dediquemo-nos a servir ao Senhor. Que o Espírito nos ajude a semear o “trigo principal” e a viver na alegre expectativa de ceifar uma colheita, conforme a promessa: “Os que semeiam em lágrimas segarão com alegria” (Salmos 126:5).

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Conversas com o Lavrador Charles H. Spurgeon

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