Capítulo 14 · 22 min de leitura
A Alegria da Ceifa
“Alegram-se diante de ti como se alegram na ceifa” — Isaías 9:3 Outro dia participei da festa com uma companhia que bradava “Festa da Colheita”. Fiquei contente ao ver ricos e pobres alegrando-se juntos; e, quando a refeição festiva terminou, tive a alegria de transformar uma das mesas em púlpito e, no grande celeiro, pregar o evangelho do Deus para sempre bendito a uma plateia atenta. Meu coração estava alegre em harmonia com a ocasião, e agora vou manter-me no mesmo tom e falar-lhe um pouco sobre a alegria da ceifa. Os londrinos esquecem que é tempo de colheita; vivendo neste grande deserto de tijolos escurecidos, mal sabemos como é uma espiga de trigo, a não ser quando a vemos seca e branca na vitrine da loja de um comerciante de cereais; contudo, lembremo-nos todos de que existe uma estação como a da ceifa, quando, pela bondade de Deus, os frutos da terra são recolhidos.
Que é a alegria da ceifa, aqui tomada como símile da alegria dos santos diante de Deus? Receio que, para os espíritos de índole meramente egoísta, a alegria da ceifa seja simplesmente a da satisfação pessoal com o aumento das riquezas. Às vezes o agricultor só se alegra porque vê a recompensa dos seus labores e fica um homem muito mais rico. Espero que em muitos se misture a segunda causa de alegria, a saber, a gratidão a Deus por uma colheita abundante dar pão aos pobres e afastar a queixa das nossas ruas. Há, sem dúvida, uma alegria legítima na ceifa para o homem que por ela se enriquece; pois todo homem que trabalha arduamente tem o direito de alegrar-se quando enfim alcança o seu desejo.
Seria bom que os homens sempre se lembrassem de que a sua última e maior colheita lhes será segundo o seu labor. Aquele que semeia na sua carne, da carne ceifará corrupção; mas aquele que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna.
Um jovem começa a vida semeando o que ele chama de suas aveias bravas, que melhor lhe fora nunca ter semeado, pois lhe trarão uma colheita terrível. Ele espera que dessas aveias bravas venha a recolher uma colheita de verdadeiro prazer, mas isso não pode ser; os mais verdadeiros prazeres da vida brotam da boa semente da justiça, e não da cicuta do pecado. Assim como o homem que semeia cardos nos seus sulcos não deve esperar ceifar o dourado feixe de trigo, também aquele que segue os caminhos do vício não deve esperar felicidade.
Pelo contrário, eles semeiam ventos e ceifarão a tempestade. Quando o pecador sente as pontadas da consciência, bem pode dizer: “Isto foi o que semeei.” Quando enfim receber o castigo das suas más obras, não culpará a ninguém senão a si mesmo; semeou joio e há de ceifar joio. Por outro lado, o homem cristão, ainda que a sua salvação não seja das obras, mas da graça, receberá do seu Mestre uma recompensa cheia de graça. Aquele que sai chorando, levando a semente para semear, voltará para casa com brados de alegria, trazendo consigo os seus feixes. A alegria da ceifa consiste em parte na recompensa do labor; seja essa a nossa alegria ao servir o Senhor.
A alegria da ceifa tem em si outro elemento, a saber, o da gratidão a Deus pelos favores concedidos.
Somos singularmente dependentes de Deus, muito mais do que a maioria de nós imagina. Quando os filhos de Israel estavam no deserto, saíam todas as manhãs e recolhiam o maná. O nosso maná não nos chega todas as manhãs, mas chega uma vez por ano. É tão certamente um suprimento celestial como se jazesse à maneira de geada ao redor do arraial. Se saíssemos ao campo e recolhêssemos alimento caído das nuvens, teríamos isso por um grande milagre; e não é tão grande maravilha que o nosso pão suba da terra quanto o seria que descesse do céu? O mesmo Deus que mandou os céus destilar o alimento dos anjos manda a terra insensível dar, na estação devida, o cereal para a humanidade. Portanto, sempre que virmos chegar a colheita, sejamos gratos a Deus, e não deixemos passar a estação sem salmos de ação de graças. Creio que estarei certo se disser que nunca há no mundo, por via de regra, mais do que dezesseis meses de suprimento de alimento; isto é, quando a colheita é recolhida, pode haver dezesseis meses de suprimento; mas, ao tempo da ceifa, não costuma haver em todo o mundo trigo bastante para sustentar a população por mais de quatro ou cinco meses; de modo que, se a colheita não viesse, estaríamos à beira da fome. Ainda vivemos do que a mão leva à boca. Detenhamo-nos e bendigamos a Deus, e seja a alegria da ceifa a alegria da gratidão.
Para o cristão, deve ser grande alegria, por meio da colheita, receber a garantia da fidelidade de Deus. O Senhor prometeu que, enquanto a terra permanecer, sementeira e ceifa, frio e calor, verão e inverno, não cessarão. E, quando você vir o carro carregado recolhendo a safra, pode dizer consigo mesmo: “Deus é fiel à sua promessa.
Apesar do inverno sombrio e da primavera úmida, chegou o outono com o seu grão dourado.” Fique certo disto: que, assim como o Senhor guarda esta promessa, guardará todas as demais. Todas as suas promessas são sim e amém em Cristo Jesus; se ele guarda a sua aliança com a terra, muito mais guardará a sua aliança com o seu próprio povo, o qual amou com amor eterno. Vá, cristão, ao propiciatório com a promessa nos lábios e alegue-a. Esteja certo de que ela não é letra morta. Não deixe que a incredulidade o faça gaguejar ao mencionar a promessa diante do trono, mas diga-a com ousadia: “Cumpre a palavra dada ao teu servo, na qual me fizeste esperar.” Vergonha para nós que tão pouco cremos no nosso Deus. O mundo está cheio de provas da sua bondade. Cada sol que nasce, cada chuva que cai, cada estação que gira atesta a sua fidelidade. Por que, então, duvidamos dele? Se nunca duvidássemos dele até termos motivo para isso, jamais conheceríamos de novo a desconfiança. Animados pelo retorno da colheita, resolvamos, na força do Espírito de Deus, que não vacilaremos, mas creremos na palavra divina e nela nos alegraremos.
Mais uma vez. Para o cristão, na alegria da ceifa haverá sempre a alegria da expectativa. Assim como há uma colheita para o lavrador, pela qual ele espera com paciência, também há uma colheita para todos os fiéis que aguardam, os quais esperam a vinda e a manifestação do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. O cristão maduro, como a espiga madura de trigo, inclina a cabeça com santa humildade.
Quando ainda estava verde nas coisas de Deus, mantinha-se ereto e era um tanto jactancioso; mas agora que ficou cheio da bênção do Senhor, é por ela humilhado e se curva; espera pela foice, e não a teme, pois nenhum ceifeiro comum virá recolher o povo de Cristo — ele mesmo ceifará a colheita do mundo.
O Senhor deixa que o anjo destruidor ceife a vindima e a lance no lagar, para ser pisada com vingança; mas, quanto ao grão que ele mesmo semeou, ele próprio o recolherá com a sua própria foice de ouro. É por isto que aguardamos. Crescemos no meio do joio, e às vezes ficamos meio receosos de que o joio se torne mais forte do que nós e sufoque o trigo; mas dentro em pouco seremos separados, e, quando o trigo for bem joeirado e guardado no celeiro, ali estaremos. É esta expectativa que ainda agora faz o nosso coração palpitar de alegria. Fomos à sepultura com preciosos feixes que pertenciam ao nosso Mestre, e, quando ali estivemos, pensamos que quase poderíamos dizer: “Senhor, se dormem, passarão bem. Morramos com eles.” A nossa alegria da ceifa é a esperança de repousar com todos os santos, e para sempre com o Senhor.
A contemplação destas ceifas passageiras sobre a terra deveria alegrar-nos sobremaneira, porque são a imagem e o prenúncio da colheita eterna lá do alto.
Basta sobre a alegria da ceifa; mas apresso-me adiante. Que alegrias são aquelas que, para o crente, são como a alegria da ceifa? É noção comum que os cristãos são um povo infeliz. É verdade que somos provados, mas é falso que sejamos miseráveis. Com todas as suas provações, os crentes têm no amor de Cristo tamanha compensação que ainda são uma geração bem-aventurada, e deles se pode dizer: “Bem-aventurado és tu, ó Israel!”
Uma das primeiras estações em que conhecemos uma alegria igual à alegria da ceifa — estação que permaneceu conosco desde que começou — foi quando encontramos o Salvador e assim obtivemos a salvação. Vocês mesmos se lembram, irmãos e irmãs, do tempo em que a sua alma foi arada. Meu coração estava em pousio e coberto de ervas daninhas; mas, em certo dia, o grande Lavrador veio e começou a arar a minha alma. Dez cavalos negros formavam a sua junta, e era afiada a relha que ele usava, e os que aravam fizeram sulcos profundos. Os dez mandamentos eram aqueles cavalos negros, e a justiça de Deus, como uma relha de arado, rasgou o meu espírito. Eu estava condenado, arruinado, destruído, perdido, desamparado, sem esperança — pensei que o inferno estava diante de mim. Então veio uma aradura cruzada, pois, quando fui ouvir o evangelho, ele não me consolou; fez-me desejar ter parte nele, mas eu temia que tal dádiva estivesse fora de questão.
As mais seletas promessas de Deus franziam o cenho para mim, e as suas ameaças troavam contra mim. Eu orava, mas não achava resposta de paz. Assim se passou muito tempo comigo. Depois da aradura veio a sementeira. Deus, que arou o coração, fez com que ele tomasse consciência de que precisava do evangelho, e a semente do evangelho foi recebida com alegria. Você se lembra daquele dia auspicioso em que, por fim, começou a ter alguma pequena esperança? Era muito pequena — como a folha verde que espreita do solo; mal sabia você se era erva ou trigo, se era presunção ou verdadeira fé. Era uma pequena esperança, mas cresceu muito agradavelmente. Ai! veio uma geada de dúvida; caiu neve de temor; ventos frios de desânimo sopraram sobre você, e você disse: “Não pode haver esperança para mim.” Mas que dia glorioso foi aquele em que, por fim, amadureceu o trigo que Deus havia semeado, e você pôde dizer: “Olhei para ele e fui iluminado; lancei os meus pecados sobre Jesus, onde Deus os pôs desde a antiguidade, e eles foram tirados, e estou salvo.” Lembro-me bem daquele dia, e sem dúvida assim também muitos de vocês. Ó senhores! nenhum lavrador jamais bradou de alegria como bradou o nosso coração quando um precioso Cristo foi nosso, e pudemos agarrá-lo com plena certeza de salvação nele.
Muitos dias se passaram desde então, mas a alegria disso ainda está fresca conosco. E, bendito seja Deus, não é apenas a alegria do primeiro dia que recordamos; é a alegria de cada dia desde então, mais ou menos; pois a nossa alegria ninguém a tira de nós; ainda andamos em Cristo, assim como o recebemos.
Ainda agora toda a nossa esperança está firmada nele, todo o nosso socorro dele trazemos; e a nossa alegria e paz permanecem conosco porque se fundam num alicerce inabalável. Alegramo-nos no Senhor, sim, e nos alegraremos.
A alegria da ceifa geralmente se manifesta pelo agricultor oferecendo uma festa aos seus amigos e vizinhos; e, comumente, os que encontram a Cristo exprimem a sua alegria contando aos seus amigos e vizinhos quão grandes coisas o Senhor lhes fez. A graça de Deus é comunicativa. Um homem não pode ser salvo e sempre guardar silêncio a respeito; tanto valeria procurar coros mudos no céu como uma igreja silenciosa na terra. Se um homem teve sede e chegou à corrente viva, o seu primeiro impulso será clamar: “Ó vós, todos os que tendes sede!” Você sente a alegria da ceifa, a alegria que o faz desejar que outros a partilhem consigo? Se assim é, não reprima o impulso de proclamar a sua felicidade. Fale de Cristo a irmãos e irmãs, a amigos e parentes; e, se a linguagem for gaguejante, a mensagem em si é tão importante que as palavras em que você a envolve serão questão secundária. Conte, conte por toda parte — que há um Salvador, que você o encontrou, e que o seu sangue pode lavar a transgressão. Conte em toda parte; e assim a alegria da ceifa se espalhará por terra e mar, e Deus será glorificado.
Temos outra alegria que é semelhante à alegria da ceifa. Também a temos com frequência. É a alegria da oração respondida. Espero que você saiba o que é orar com fé. Certa oração não vale as palavras usadas em apresentá-la, porque não há fé misturada com ela. “Com todas as tuas ofertas oferecerás sal”, e o sal da fé é necessário se quisermos que os nossos sacrifícios sejam aceitos. Os que estão familiarizados com o propiciatório sabem que a oração é uma realidade, e que a doutrina das respostas divinas à oração não é ficção. Às vezes Deus tarda em responder por sábias razões; então os seus filhos devem clamar, e clamar, e clamar de novo. Estão na condição do lavrador que precisa esperar pelos preciosos frutos da terra; e, quando enfim vem a resposta à oração, ficam então na posição do lavrador quando recebe a colheita. Lembre-se do lamento de Ana e da palavra de Ana. Na amargura da sua alma clamou a Deus, e, quando lhe foi dado o filho, chamou-lhe “Samuel”, que significa “Pedido a Deus”; “Por este menino orava eu, e o SENHOR me concedeu a petição que lhe fiz.” 1 Samuel 1:27.
Ele lhe era um filho querido, porque era um filho de oração. Qualquer misericórdia que lhe venha em resposta à oração será a sua misericórdia-Samuel, a sua misericórdia predileta. Você dirá dela: “Por esta misericórdia orava eu,” e ela trará a alegria da ceifa ao seu espírito.
Temos outra alegria da ceifa dentro de nós quando vencemos uma tentação. Sabemos o que é entrar às vezes sob uma nuvem; o pecado dentro de nós se levanta com força que escurece, ou uma adversidade externa nos anuvia, e perdemos o caminho plano em que estávamos acostumados a andar. Um filho de Deus, em tais horas, clamará poderosamente por socorro, pois teme a si mesmo e teme o que o cerca. Alguns do povo de Deus estiveram por semanas e meses a fio expostos à dupla tentação, de fora e de dentro, e clamaram a Deus em amarga angústia. É uma luta muito dura; a ação pecaminosa foi pintada em cores mui fascinantes, e a voz de sereia da tentação quase os enfeitiçou. Mas, quando por fim atravessaram o vale da sombra da morte sem terem escorregado com os pés; quando, apesar de tudo, não foram destruídos por Apoliom, mas saíram de novo à luz do dia, sentem uma alegria indizível, em comparação com a qual a alegria da ceifa é mera folia infantil. Conhecem a alegria profunda os que sentiram a amarga tristeza. À medida que o homem sente que ficou mais forte pelo conflito, à medida que sente que colheu experiência e fé mais forte por ter passado pela provação, ele levanta o coração e se alegra, não em si mesmo, mas diante do seu Deus, com a alegria da ceifa. Irmãos amados, vocês sabem o que isso significa.
De novo, existe algo como a alegria da ceifa quando fomos feitos úteis. A paixão soberana de todo cristão é ser útil. Deveria haver dentro de nós um zelo ardente pela glória de Deus. Quando o homem que deseja ser útil traça os seus planos e põe mãos à obra, começa a esperar pelos resultados; mas talvez se passem semanas, ou anos, antes que os resultados venham. O trabalhador não é de culpar por ainda não haver frutos, mas é de culpar se estiver contente em ficar sem frutos.
Um pregador pode pregar sem conversões, e quem o culpará? mas, se ele ficar contente, quem o desculpará? Cabe a nós quebrantar o nosso próprio coração se não pudermos, pela graça de Deus, quebrantar o coração de outros homens; se outros não quiserem chorar pelos seus pecados, deveria ser o nosso hábito constante chorar por eles. Quando o coração se torna sério, ardente, zeloso, Deus costuma dar certa medida de êxito, algum a cinquenta por um, algum a cem por um. Quando vem o êxito, é deveras a alegria da ceifa. Não posso deixar de ser bastante egoísta ao mencionar a alegria que senti quando pela primeira vez ouvi que uma alma havia encontrado paz por meio do meu ministério juvenil.
Eu vinha pregando numa aldeia por alguns poucos domingos, com uma congregação crescente, mas não ouvira falar de nenhuma conversão, e pensei: “Talvez eu não seja chamado por Deus. Ele não pretende que eu pregue, pois, se pretendesse, dar-me-ia filhos espirituais.” Certo domingo, o meu bom diácono disse: “Não se desanime. Uma pobre mulher foi salvificamente tocada no domingo passado.” Quanto tempo você supõe que passou antes de eu ver aquela mulher? Foi apenas o tempo que levei para chegar à sua choupana. Eu estava ávido por ouvir dos seus próprios lábios se fora ou não uma obra da graça de Deus. Sempre olhei para ela com interesse, embora fosse apenas a esposa de um pobre trabalhador, até que foi levada ao céu, depois de ter vivido uma vida santa.
Desde então tenho me alegrado no Senhor, mas aquele primeiro selo do meu ministério me era peculiarmente caro. Deu-me um gole da alegria da ceifa. Se alguém me tivesse deixado uma fortuna, isso não me teria causado a centésima parte do deleite que tive ao descobrir que uma alma fora conduzida ao Salvador. Estou certo de que os cristãos que não têm essa alegria perderam um dos mais seletos deleites que um crente pode conhecer aquém do céu. Na verdade, quando vejo almas salvas, não invejo a Gabriel o seu trono, nem aos anjos as suas harpas. Será o nosso céu estar fora do céu por uma estação, contanto que possamos levar outros a conhecer o Salvador e assim acrescentar novas joias à coroa do Redentor.
Mencionarei outro deleite que é como a alegria da ceifa, e esse é a comunhão com o Senhor Jesus Cristo. Isto não é tanto algo de que se fale, mas algo que se experimenta e se desfruta. Se tentamos descrever o que é a comunhão com Cristo, fracassamos. Salomão, o mais sábio dos homens, quando inspirado a escrever sobre a comunhão da igreja com o seu Senhor, teve de usar alegorias e linguagem simbólica, e, embora para uma mente espiritual o Cântico dos Cânticos seja sempre deleitoso, para uma mente mundana parece apenas um poema de amor. O homem natural não recebe as coisas do Espírito de Deus, porque elas se discernem espiritualmente. 1 Coríntios 2:14 Mas, oh, a felicidade de saber que Cristo é seu, e de estar perto dele! Tocar o seu lado e pôr o dedo na marca dos cravos; estas não são alegrias de todo dia. Mas, quando tal comunhão íntima e pessoal nos vem nos nossos dias especiais, ela eleva a nossa alma como os carros de Aminadabe, ou, se preferir, permite-nos caminhar por cima do mundo e de tudo o que ele chama de grande ou valioso.
As nossas circunstâncias nada significam se Cristo está conosco — ele é o nosso Deus, o nosso consolo e o nosso tudo, e nos alegramos diante dele como nos alegramos na ceifa.
Não tenho tempo de entrar em mais detalhes, porque quero terminar com uma palavra prática. Muitos de nós anseiam ardentemente por uma colheita que nos traga alegria intensa. Ultimamente, várias pessoas me contaram quão profundamente sentem compaixão pelas almas das pessoas. Outros de nós sentimos um impulso misterioso de orar mais do que jamais oramos, e de importar-nos mais do que jamais nos importamos com que Cristo salve os que estão perecendo. Não ficaremos satisfeitos enquanto não houver um completo despertar espiritual nesta terra. Não fomos nós que criamos esse sentimento, e não queremos suprimi-lo. Não cremos que possa ser suprimido; e outros sentirão a mesma preocupação celestial, e suspirarão e clamarão a Deus dia e noite até que venha a bênção. Isto é a sementeira, isto é a aradura, isto é o gradeamento — que continue até a colheita. Anseio por ouvir os meus irmãos e irmãs por toda parte dizendo: “Estamos cheios de angústia; estamos em agonia até que as almas sejam salvas.” O clamor de Raquel, “Dá-me filhos, senão morro,” é hoje o clamor do seu ministro, e o anelo de milhares mais. À medida que esse desejo se fortalece, um avivamento se aproxima. Precisamos ter filhos espirituais para Cristo, ou o nosso coração se partirá pelo anseio da sua salvação. Oh, por mais destes anseios, anelos, desejos e esforços! Se orarmos até que venha a colheita do avivamento, participaremos da sua alegria.
Quem terá a maior alegria? Aqueles que mais se preocuparam com ela. Aqueles de vocês que não oram em particular, e que não vêm às reuniões de oração, não terão alegria quando vier a bênção e a igreja crescer. Vocês não tiveram parte na sementeira, portanto terão pouca parte na colheita. Aqueles que nunca falam a outros sobre a sua alma, que não participam da escola dominical nem da obra missionária, mas apenas desfrutam das bênçãos — esses não terão nenhuma da alegria da ceifa, porque não trabalham para o Senhor. E quem desejaria que os preguiçosos fossem felizes? Ao contrário, no nosso zelo e cuidado, sentimos vontade de dizer: “Amaldiçoai a Meroz; amaldiçoai amargamente os seus moradores, porque não vieram em socorro do SENHOR, em socorro do SENHOR contra os valentes.” — Juízes 5:23 Se você vier ajudar o Senhor pelo seu Espírito, partilhará a alegria da ceifa. Talvez ninguém tenha mais alegria do que aqueles que veem os seus entes queridos trazidos a Deus. Alguns de vocês têm filhos que são uma provação para vocês sempre que pensam neles; sejam eles uma provação que os leve à oração constante por eles, e, se vier a bênção, por que não haveria de vir a eles? Se acontecer um avivamento, por que não haveria de converter-se a sua filha, por que não haveria de ser salvo o seu filho rebelde, ou mesmo o seu pai de cabeça grisalha, que tem sido cético e incrédulo — por que não haveria a graça de Deus de alcançá-lo? E oh, que alegria você terá então!
Que felicidade encherá o seu espírito quando você vir os seus parentes unidos a Cristo, o seu Senhor!
Ore fervorosamente por eles, e você ainda experimentará a alegria da ceifa no seu próprio lar, um brado de festa da colheita na sua própria família.
Talvez, meu ouvinte, você tenha pouco a ver com esta alegria porque não é salvo. Contudo, é coisa maravilhosa para uma pessoa não convertida estar sob um ministério abençoado por Deus, e entre pessoas que oram por conversões. É uma bênção para você, jovem, ter uma mãe cristã.
É grande bênção para você, ó mulher não convertida, ter uma irmã piedosa. Estas nos dão esperança a seu respeito. Enquanto os seus parentes oram, temos esperança por você. Que o Senhor Jesus venha a ser seu ainda.
Mas, oh, se você permanecer incrédulo, por mais rica que seja a bênção que vem a outros, ela não lhe aproveitará. “Se quiserdes, e obedecerdes, comereis o bem desta terra.” — Isaías 1:19 Mas alguns podem clamar com tristeza: “Passou a sega, findou o verão, e nós não estamos salvos.” — Jeremias 8:20 Tem-se observado que os que passam por um avivamento e permanecem não convertidos muitas vezes ficam mais endurecidos do que antes. Creio nisso, e por isso oro para que o Espírito de Deus venha com tal poder que nenhum escape à sua influência.
Que você possa orar: “Não me passes ao largo, ó Espírito poderoso!
Podes fazer o cego ver; testemunha do mérito de Jesus, dize-me a palavra de poder, a mim também.”
“Terei eu dormido longamente no pecado, longamente te ignorando e entristecendo?
Terá o mundo retido o meu coração?
Oh, perdoa e resgata-me, a mim também.”
Oh, por oração fervorosa e persistente de todos os crentes ao redor do mundo! Se as nossas igrejas fossem incitadas à oração contínua e intensa, não dando a Deus descanso até que ele faça de Sião um louvor na terra, poderíamos ver vir o reino de Deus e quebrado o poder de Satanás.
Tantos quantos de vocês amam a Cristo, eu os exorto pelo seu nome a orar fervorosamente; tantos quantos de vocês amam a Igreja e desejam o seu crescimento, eu lhes rogo que não se retraiam neste tempo de oração. Que o Senhor os leve a orar até que seja concedida a alegria da ceifa. Você se lembra de que eu disse, certo domingo: “O Senhor os tratará conforme vocês tratarem a obra dele durante o mês vindouro”? Sinto que será verdade para muitos — que o Senhor os tratará conforme vocês tratarem a sua Igreja. Se você semear pouco, ceifará pouco; se orar pouco, receberá pouco favor. Mas, se agir com zelo e fé, e orar e trabalhar muito para o Senhor, boa medida, recalcada e transbordante, lhe será dada. Se você regar outros com gotas, receberá gotas; mas, se o Espírito o ajudar a derramar rios de água viva da sua alma, torrentes de graça celestial fluirão para o seu espírito. Que Deus traga os não convertidos e os leve à simples confiança em Jesus; então também eles conhecerão a alegria da ceifa. Pedimo-lo em seu nome. Amém.