Capítulo 12 · 21 min de leitura
A Ovelha Diante dos Tosquiadores
“Como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.” — Isaías 53:7 Nosso Senhor Jesus tomou o nosso lugar de modo tão completo que, neste capítulo, somos comparados a ovelhas: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas” (Isaías 53:6), e ele também é comparado a uma ovelha: “Como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.” É admirável quão completa foi a troca de lugares entre Cristo e o seu povo. Ele se tornou o que eles eram para que eles pudessem tornar-se o que ele é. Podemos facilmente compreender como nós somos as ovelhas e ele o Pastor; mas comparar o Filho do Altíssimo a uma ovelha teria sido presunção inaceitável se o seu próprio Espírito não tivesse escolhido esta humilde imagem.
Embora esta imagem seja cheia de graça, o seu uso aqui não é incomum. Muito antes dos dias de Isaías, nosso Senhor foi prefigurado no cordeiro da Páscoa. Mais tarde foi proclamado como “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (João 1:29), e até mesmo na sua glória ele é descrito como o Cordeiro no meio do trono.
Ao desdobrar esta imagem divina, convido você a considerar, em primeiro lugar, a paciência do nosso Salvador, mostrada na imagem de uma ovelha silenciosa perante os seus tosquiadores.
Nosso Senhor foi levado perante os tosquiadores para ser despojado do seu conforto, despojado da sua honra, despojado até do seu bom nome e, por fim, despojado da própria vida; contudo, sob os tosquiadores, ele permaneceu silencioso como uma ovelha. Pense em quão paciente ele foi diante de Pilatos, de Herodes e de Caifás, e sobre a cruz. Não há registro de que tenha clamado com impaciência por causa da dor e da vergonha que sofreu às mãos daqueles homens perversos. Nem uma só palavra amarga lhe escapou.
Pilatos disse: “Nada respondes? Vê quantas acusações levantam contra ti” (Marcos 15:4). Herodes ficou profundamente desapontado, porque esperava vê-lo realizar algum milagre. As poucas palavras que nosso Senhor de fato pronunciou foram brandas e submissas, como o suave balido de uma ovelha, mas infinitamente cheias de significado. Ele disse: “Para isso nasci, e para isso vim ao mundo: para dar testemunho da verdade” (João 18:37), e: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23:34). Fora isto, permaneceu paciente e silencioso.
Repare, em primeiro lugar, que nosso Senhor permaneceu silencioso e não abriu a sua boca contra os seus inimigos. Não acusou um único deles de crueldade ou injustiça. Caluniaram-no, mas ele não respondeu. Levantaram-se falsas testemunhas, mas ele não lhes respondeu. Você poderia pensar que ele teria falado quando lhe cuspiram no rosto. Não poderia ter dito: “Amigo, por que fazes isto? Por qual das minhas obras me insultas?” Mas o tempo para tais perguntas já havia passado. Quando o feriram no rosto com as mãos, não teria sido de admirar que perguntasse: “Por que me feres?” Mas não— ele agiu como se não ouvisse os seus insultos. Não trouxe acusação alguma diante do seu Pai. Bastava-lhe erguer os olhos ao céu, e legiões de anjos teriam expulsado os soldados zombadores. Um só lampejo da asa de um serafim, e Herodes teria perecido; Pilatos poderia ter caído sob o juízo que merecia como juiz injusto. O outeiro da cruz poderia ter-se tornado como a boca de um vulcão para engolir a multidão que ali estava a escarnecer e a zombar dele. Mas não houve tal demonstração de poder. Antes, houve uma demonstração muito maior de domínio sobre si mesmo.
Ele refreou a própria onipotência com uma força que ultrapassa toda medida.
Novamente, assim como ele não disse palavra alguma contra os seus inimigos, também não disse palavra alguma contra nenhum de nós. Você se lembra de como Zípora disse a Moisés: “Certamente me és um esposo de sangue!” (Êxodo 4:25), ao ver o seu filho a sangrar. Certamente Jesus poderia ter dito à sua igreja: “Tu me és uma esposa custosa, que me trazes toda esta vergonha e todo este derramamento de sangue.” Mas dele está escrito que “a todos dá liberalmente e não censura” (Tiago 1:5). Ele abriu a própria fonte do seu coração e não nos repreendeu. Havia calculado de antemão todo o custo. Por isso suportou a cruz, desprezando a vergonha.
“Foi isto compaixão digna de um Deus, que, quando o Salvador soube que o preço do perdão era o seu sangue, a sua compaixão jamais se retirou.” Sem dúvida ele olhou através das eras, pois os seus olhos não estavam turvos, mesmo quando cheios de sangue sobre o madeiro. Ele deve ter previsto a sua indiferença e a minha, os nossos corações frios e a nossa infidelidade. Poderia ter deixado palavras como estas: “Estou sofrendo por aqueles que são indignos do meu amor. O amor deles será um pobre retorno ao meu. Ainda que eu lhes dê todo o meu coração, quão morno será o amor deles para comigo. Estou cansado deles; entristece-me dar a minha vida por tal povo.” Mas não há vestígio de tal pensamento. Não. “Havendo amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13:1). Ele não pronunciou uma única palavra que soasse como pesar ou queixa por sofrer em favor deles, nem qualquer tristeza por haver começado a obra.
E assim como não houve palavra contra os seus inimigos, nem palavra contra você ou contra mim, também não houve palavra contra o seu Pai, nem uma só sílaba de queixa quanto à severidade do castigo que sobre ele foi posto por causa de nós. Você e eu nos queixamos sob tribulações muito mais leves, sentindo que fomos tratados injustamente. Chegamos até a ousar clamar a Deus: “O meu rosto está inflamado de tanto chorar, e sobre as minhas pálpebras está a sombra da morte, ainda que não haja violência nas minhas mãos e seja pura a minha oração” (Jó 16:16–17). Mas não assim o Salvador. Nenhuma queixa se achou na sua boca. Não conseguimos sequer começar a entender quão profundamente o Pai o oprimiu e o esmagou, contudo não houve rebeldia. “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27:46) foi um clamor de tristeza atônita, não uma queixa. Revelou verdadeira humanidade na fraqueza, mas não humanidade em revolta. Jeremias escreveu muitas lamentações, mas Jesus pronunciou poucas. Jesus chorou, e Jesus suou grandes gotas de sangue, contudo jamais murmurou ou se rebelou no seu coração.
Olhe para o seu Senhor e Salvador jazendo em quieta entrega debaixo dos tosquiadores, enquanto lhe tiram tudo o que lhe é caro, e contudo ele não abre a sua boca. Aqui vemos a sua completa submissão. Ele se entregou por inteiro; não houve retração alguma. O sacrifício não precisou ser atado com cordas às pontas do altar. Quão diferente de você e de mim! Ele esteve disposto a sofrer, a ser cuspido, a ser vergonhosamente tratado e a morrer, pois estava plenamente rendido. Estava inteiramente entregue a fazer a vontade do Pai e a realizar a nossa redenção. Houve também completo domínio de si mesmo. Nenhuma parte dele se levantou para exigir liberdade ou para escapar do sofrimento. Nenhuma parte do seu corpo, nenhum pensamento da sua mente, nenhum poder do seu espírito resistiu.
Tudo se submeteu à vontade de Deus. O Cristo inteiro deu todo o seu ser a Deus, para que pudesse oferecer-se a si mesmo perfeitamente, sem mácula, pela nossa redenção. Houve não apenas domínio próprio, mas completa concentração na sua missão. A ovelha ali deitada não pensa nas pastagens; entrega-se ao tosquiador. O zelo pela casa de Deus consumiu o nosso Senhor no pretório de Pilatos tanto quanto em qualquer outro lugar, pois ali ele fez a boa confissão. A sua única preocupação era sustentar a honra de Deus e salvar o seu povo escolhido. Irmãos e irmãs, quem dera pudéssemos chegar a este ponto: entregar todo o nosso espírito a Deus, aprender o domínio próprio e dar o nosso eu vencido inteiramente a ele.
A calma e a submissão do nosso Senhor são ilustradas ainda mais claramente se for verdade que as ovelhas do Oriente são mais dóceis do que as nossas. Aqueles que já viram o barulho e o trato rude em muitas das nossas tosquias talvez tenham dificuldade em crer no testemunho do antigo escritor Fílon de Alexandria, que disse que as ovelhas vinham de boa vontade para ser tosquiadas. Ele escreveu que os carneiros cobertos de lã, pesados de espessos velos, se colocam nas mãos do pastor para que lhes seja cortada a lã, como que pagando o seu tributo anual ao homem, o seu senhor natural. A ovelha permanece numa postura quieta e inclinada, sem constrangimento, sob a mão do tosquiador. Isto pode soar estranho aos que não conhecem a mansa natureza das ovelhas, mas ele insiste que é verdade. Quão admirável foi tal submissão no caso do nosso Senhor. Admiremo-la e procuremos seguir o seu exemplo.
Procurei, ainda que imperfeitamente, descrever a paciência do nosso amado Mestre. Agora, em segundo lugar, consideremos a nossa própria situação sob a mesma imagem usada a respeito do nosso Senhor.
Não disse eu no princípio que, por sermos ovelhas, ele se dispôs a comparar-se a uma ovelha? Olhemos para isto sob outro ângulo. Nosso Senhor foi uma ovelha perante os tosquiadores, e assim como ele é, assim somos nós neste mundo. Embora nunca sejamos oferecidos como cordeiros no templo em sacrifício expiatório, todavia, por eras, os santos têm sido tratados como um rebanho para o matadouro. Como está escrito: “Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; fomos considerados como ovelhas para o matadouro” (Romanos 8:36). Jesus nos envia como ovelhas no meio de lobos (Mateus 10:16), e devemos ver-nos como sacrifícios vivos, prontos a ser oferecidos. Mas quero deter-me especialmente nesta segunda imagem: somos levados como ovelhas sob a mão do tosquiador.
Assim como a ovelha é tomada pelo tosquiador e a sua lã é cortada, assim o Senhor às vezes toma o seu povo e o tosquia, removendo os seus confortos terrenos e deixando-o despojado.
Quem dera que, quando chegar a nossa vez de passar por esta tosquia, se pudesse dizer de nós como se disse do nosso Senhor: “Como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca.” Temo que falemos demais e nos queixemos sem cessar, muitas vezes sem causa real, ou por motivos muito pequenos. Mas consideremos agora a própria imagem.
Em primeiro lugar, lembre-se de que a ovelha retribui ao seu dono todo o cuidado e esforço dele deixando-se tosquiar. Até onde sei, não há mais nada que uma ovelha possa dar em troca. Ela fornece alimento quando é morta, mas, enquanto vive, o único pagamento que pode fazer ao pastor é entregar o seu velo no tempo devido. Alguns do povo de Deus podem oferecer a Cristo o tributo da gratidão por meio do serviço ativo, e devem fazê-lo com alegria todos os dias da sua vida. Mas muitos outros não podem fazer muito em serviço ativo, e quase o único retorno que podem dar ao seu Senhor é entregar o seu velo por meio do sofrimento quando ele os chama a sofrer, cedendo em silêncio a ser despojados do conforto pessoal quando chega o tempo da paciente resistência.
Aqui vem o tosquiador. Ele toma a ovelha e começa a cortar, cortar, cortar, tirando a lã em grandes punhados. A aflição é muitas vezes a grande tesoura. Um marido, ou talvez uma esposa, é tirado. Filhinhos são levados. A propriedade é cortada, e a saúde se vai. Às vezes a tesoura tira o bom nome de alguém; a calúnia se levanta e os confortos desaparecem. Pois bem, este é o seu tempo de tosquia, e pode ser que você não consiga glorificar a Deus de nenhum modo exterior grandioso senão passando por este processo. Se é assim, não deveríamos nós, como boas ovelhas que pertencem a Cristo, entregar-nos de boa vontade, dizendo: “Deito-me com esta intenção: que tomes de mim qualquer coisa e tudo, e faças de mim o que quiseres; pois não sou meu, porque fui comprado por bom preço” (1 Coríntios 6:19–20)?
Repare que a própria ovelha se beneficia do ato da tosquia. Antes de as ovelhas serem tosquiadas, a lã está longa e velha, e cada arbusto e espinheiro a repuxa até que a ovelha pareça esfarrapada e miserável.
Se a lã fosse deixada sobre ela quando chegasse o calor do verão, a ovelha mal conseguiria suportá-la.
Estaria tão sobrecarregada de velo que ficaria tão incomodada quanto nós ficamos quando conservamos as nossas pesadas roupas de inverno tempo demais na estação. Assim, irmãos e irmãs, quando o Senhor nos tosquia, não apreciamos o processo mais do que as ovelhas; mas, primeiro, é para a sua glória, e, segundo, é para o nosso bem. Portanto, estamos obrigados a submeter-nos de boa vontade. Há muitas coisas que gostaríamos de ter conservado que, se as tivéssemos conservado, não teriam sido bênçãos, mas maldições.
Uma bênção que se estragou torna-se uma maldição. O maná, embora viesse do céu, só era bom enquanto Deus mandava que fosse guardado para o tempo devido. Quando era guardado além daquele tempo, “criava bichos e cheirava mal” (Êxodo 16:20), e então não era bênção alguma. Muitos guardariam as suas misericórdias até que apodrecessem, mas Deus não o permite. Até certo ponto, a sua riqueza era uma bênção; para além daquele ponto não o teria sido, e por isso o Senhor a tirou.
Até aquele ponto, o seu filho era um dom; para além dele, não o teria sido, e por isso veio a doença e a criança morreu. Você talvez não consiga vê-lo, mas é verdade: quando Deus remove uma bênção do seu povo, ele a tira porque ela não teria permanecido bênção.
Antes de serem tosquiadas, as ovelhas são sempre lavadas. Você já viu a cena quando elas são conduzidas ao ribeiro? Homens ficam em filas que levam ao pastor, que espera na água. As ovelhas são levadas para baixo; os homens as agarram, lançam-nas no tanque, mantêm-lhes a cabeça acima da água e as giram e regiram para lavar a lã antes de cortá-la. Então você as vê saindo do outro lado tremendo, pobres criaturas, sem saber o que virá a seguir. Quero sugerir a você, irmãos e irmãs, que, sempre que uma provação ameaçar sobrevir-lhe, você peça ao Senhor que a santifique para você. Se o bom Pastor está prestes a cortar a sua lã, peça-lhe que a lave antes de removê-la. Peça para ser purificado em espírito, alma e corpo. Os cristãos têm o bom hábito de pedir uma bênção sobre as suas refeições antes de comer o pão. Não será ainda mais necessário pedir uma bênção sobre as nossas tribulações antes de entrarmos nelas? O seu querido filho pode estar próximo da morte; não quererão vocês, queridos pais, reunir-se e pedir a Deus que abençoe até mesmo a morte daquela criança, se ela tiver de acontecer? A colheita falha; não seria justo dizer: “Senhor, santifica esta pobreza, esta perda, esta má colheita. Faze dela um meio de graça para nós”? Por que não pedir uma bênção sobre o cálice de amargura tanto quanto sobre o cálice de ação de graças? Peça para ser lavado antes de ser tosquiado, e, se a tosquia tiver de vir, seja a sua principal preocupação oferecer lã limpa.
Depois da lavagem, quando a ovelha se seca, ela perde o que era o seu conforto. É lançada ao chão, e os tosquiadores começam o seu trabalho. A pobre criatura perde o seu velo quente. Você também terá de separar-se dos seus confortos. Lembre-se disto: da próxima vez que receber uma bênção nova, chame-a de empréstimo. Pobre ovelha, não há lã sobre as suas costas que um dia não venha a ser cortada. Filho de Deus, não há conforto terreno em sua posse que ou não o deixe, ou do qual você não venha a partir. Nada verdadeiramente nos pertence senão o nosso Deus. “Por quê”, diz alguém, “não o nosso pecado?” O pecado era nosso, mas Jesus o tomou sobre si, e ele se foi.
Nada é verdadeiramente nosso senão o nosso Deus, pois todos os seus dons são conservados por empréstimo e podem ser reclamados segundo a sua soberana vontade. Tolamente pensamos que as nossas misericórdias nos pertencem e, quando o Senhor as tira, começamos a queixar-nos. Diz-se que um empréstimo deve voltar para casa rindo, e assim também devemos regozijar-nos quando o Senhor retoma o que nos emprestou. Todas as nossas posses são breves favores tomados de empréstimo por um tempo. Assim como a ovelha entrega a sua lã e perde o seu conforto, assim também nós devemos abrir mão de todas as nossas posses terrenas. Ou, se elas permanecerem conosco até a morte, então as deixaremos. Não levaremos uma só delas conosco através do rio da morte.
Os tosquiadores têm o cuidado de não ferir a ovelha. Cortam o mais rente possível, mas não cortam a pele. Se lhes é possível evitá-lo, não fazem sangue, nem a menor quantidade. Quando um corte de fato acontece, é geralmente porque a ovelha não fica quieta. Um tosquiador cuidadoso mantém a sua tesoura livre de sangue. Sobre isto escreveu Thomson no seu poema As Estações, e os versos ilustram belamente todo o assunto: “Quão mansa, quão paciente, jaz a dócil criatura! Que brandura no seu rosto melancólico, que silenciosa e sofredora inocência transparece!
Não temais, ó mansos rebanhos! Não é a faca do terrível matadouro erguida sobre vós; não, é a cuidadosa e guiada tesoura do pastor, que, havendo tomado emprestado o vosso velo como pagamento pelo seu cuidado anual, vos mandará de volta às colinas leves e livres.” São os coices e a luta que tornam a tosquia difícil. Se ficarmos silenciosos perante os tosquiadores, nenhum mal virá. O Senhor pode cortar bem rente. Tenho conhecido pessoas que ele despojou tão completamente que pareciam nada ter deixado, como Jó quando disse: “Nu saí do ventre de minha mãe, e nu para lá tornarei” (Jó 1:21). Contudo, também disseram com Jó: “O Senhor o deu, e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1:21).
Repare que os tosquiadores sempre escolhem o tempo certo. Seria cruel e insensato começar a tosquia no inverno. Há um ditado sobre Deus “abrandar o vento para o cordeiro tosquiado.” Seja isto exato ou não, seria de fato cruel tosquiar cordeiros quando sopram ventos cortantes. As ovelhas são tosquiadas em tempo quente e agradável, quando podem dar-se ao luxo de perder o velo e estão melhor sem ele. À medida que o verão se aproxima, chega o tempo da tosquia. Você não notou que, quando o Senhor nos aflige, ele escolhe o melhor tempo possível? Ele ensinou os seus discípulos a orar: “Orai para que a vossa fuga não seja no inverno” (Mateus 24:20). O espírito daquela oração pode ser visto no momento em que vêm as nossas tristezas. Ele não envia as nossas mais pesadas provações nos nossos momentos mais fracos. Se a sua alma já está profundamente abatida, o Senhor não acrescenta então o fardo mais pesado. Ele guarda tais cargas para os tempos em que “a alegria do Senhor” é a sua força. Muitas vezes sentimos que, quando a alegria aumenta, uma provação pode estar próxima; e quando a tristeza se aprofunda, o livramento pode estar chegando. O Senhor não envia dois fardos ao mesmo tempo, ou, se o faz, dá força dobrada. O seu tempo de tosquia é escolhido com terna sabedoria.
Há ainda outra coisa a lembrar. Como acontece com a ovelha, cresce lã nova. Sempre que o Senhor remove confortos terrenos com uma das mãos—um, dois, três—com a outra mão restitui seis, vinte, cem. Choramos e nos queixamos pela pequena perda, e todavia aquela perda é necessária para que possamos receber um ganho maior. Sim, assim será. Teremos razão para nos regozijar, pois “o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Salmos 30:5). Se perdemos uma posição, outra nos espera. Se somos expulsos de um lugar, um refúgio melhor está preparado. A Providência abre uma segunda porta quando fecha a primeira. Se o Senhor tirou o maná de Israel, foi porque eles comeram do produto da terra de Canaã. Se a água da rocha já não os seguia, foi porque bebiam do Jordão e dos ribeiros. Ó ovelha do aprisco do Senhor, lã nova está a chegar. Portanto, não se inquiete com a tosquia. Disse estas coisas brevemente para que possamos chegar ao ponto final.
Procuremos seguir o exemplo do nosso bendito Senhor quando chegar a nossa vez de sermos tosquiados. Sejamos silenciosos perante os tosquiadores, submissos e quietos, como ele foi.
Tudo o que disse dá uma razão para agir assim. A nossa tosquia por meio da aflição glorifica a Deus, honra o Pastor e nos beneficia. O Senhor mede e modera as nossas provações e as envia no tempo certo. De muitas maneiras mostrei que é sábio submeter-se como faz a ovelha, e que, quanto mais completamente o fizermos, melhor.
Lutamos demais, e muitas vezes nos desculpamos por isso. Às vezes dizemos: “Isto é doloroso demais; não consigo ter paciência. Eu poderia ter suportado qualquer coisa, menos isto.” Quando um pai disciplina o seu filho, escolhe ele algo agradável? Não. A dor faz parte da disciplina. Do mesmo modo, a amargura da tristeza faz parte da nossa correção. “Pelas feridas o coração é curado” (veja Provérbios 20:30). Não se queixe porque a sua provação lhe parece aguda e incomum. Isso seria como dizer: “Se tudo correr do meu jeito, eu me submeto; mas, se não correr, eu me rebelo.” Esse não é o espírito de um filho de Deus.
Às vezes nos queixamos da nossa fraqueza. “Senhor, se eu fosse mais forte não me importaria com esta pesada perda; mas sou frágil, como uma folha seca levada pela tempestade.” Mas quem decide qual provação lhe convém—Deus ou você? Visto que o Senhor julga esta provação adequada à sua fraqueza, você pode ter certeza de que assim é. Fique quieto. Fique quieto. “Mas a minha dor vem de uma fonte cruel”, diz você. “Este mal não veio diretamente de Deus. Veio por meio do meu primo ou do meu irmão, que deveria ter-me tratado melhor.
Se tivesse sido um inimigo, eu poderia tê-lo suportado.” Meu irmão, a provação não vem verdadeiramente de um inimigo. Deus está por trás de toda a sua tribulação. Olhe além das causas secundárias para a grande Causa Primeira. É um grave erro fixar-se no instrumento humano que nos fere e esquecer a mão que segura a vara. Se eu bato num cão, ele morde o pau. Pobre criatura, não sabe fazer melhor. Se pudesse pensar com mais clareza, ou me morderia, ou aceitaria quietamente o golpe. Você não deve pôr-se a morder o pau. É o seu Pai celestial quem o usa. Quer a vara seja feita de ébano ou de espinho, está na mão dele. É melhor deixar de tentar escolher as nossas provações e entregar tudo nas mãos da sabedoria infinita.
O cerne da minha mensagem é este: crente, entregue-se. Fique quieto nas mãos de Deus. Não lute. Não há proveito em lutar. Se o grande Tosquiador tenciona tosquiar, ele o fará. Como disse antes, quando a ovelha se debate, pode ser ferida pela tesoura. Se lutarmos contra Deus, podemos receber dois golpes em vez de um. Na verdade, não há na provação metade da dor que há em lutar contra ela. O lavrador do Oriente usa um aguilhão para guiar o boi. O suave estímulo faz pouco dano, mas, se o boi dá coices, crava o aguilhão em si mesmo e sangra. Assim é conosco. É duro “dar coices contra os aguilhões” (Atos 26:14). Sofremos mais por meio da rebeldia do que sofreríamos se nos submetêssemos à vontade de Deus.
Que proveito vem de nos preocuparmos? Não podemos tornar “um só cabelo branco ou preto” (Mateus 5:36). Você, que está aflito, não pode mudar o tempo com os seus suspiros.
Alguma vez você ganhou um centavo afligindo-se, ou pôs pão sobre a mesa queixando-se? Queixar-se desperdiça o fôlego, e preocupar-se desperdiça o tempo. Ficar quieto na mão de Deus traz bênção à alma.
Quem dera eu fosse mais calmo e senhor de mim mesmo. Anseio por dizer continuamente: “Senhor, faze o que quiseres, quando quiseres, como quiseres, comigo, teu servo. Dá-me honra ou desonra, riqueza ou pobreza, doença ou saúde, alegria ou tristeza, e de boa vontade o receberei da tua mão.” Uma pessoa não está longe das portas do céu quando está plenamente submissa à vontade do Senhor.
Você, que foi tosquiado, recebeu, espero, consolo por meio do bendito Espírito de Deus. Que Deus o abençoe. E que também o pecador se humilhe debaixo da poderosa mão de Deus. “Humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus” (1 Pedro 5:6). Sujeitai-vos a Deus (Tiago 4:7). Levai cativo a ele todo pensamento (2 Coríntios 10:5), e que o Senhor envie a sua bênção, por amor de Cristo. Amém.