Capítulo 14 · 4 min de leitura · 5 min de escuta
A Respiga
“Deixem-na apanhar espigas até mesmo entre os feixes, e não a repreendam.” — Rute 2:15
Este capítulo é para quem, lá no fundo, acha que as coisas boas de Deus são para outras pessoas — os cristãos sérios, aqueles que têm a vida em ordem — e não exatamente para alguém como você.
Primeiro, o contexto. Rute estava praticamente no ponto mais baixo possível naquele mundo: pobre, viúva, estrangeira e sem nenhum direito. Para comer, ela saía para “respigar” — ia atrás dos trabalhadores da colheita catando as espigas que eles deixavam cair. Quem respigava ficava com as sobras. Era assim que funcionava. Mas o campo pertencia a um homem bom chamado Boaz, e Boaz reparou nela e fez uma coisa surpreendente. Ele disse aos trabalhadores: deixem que ela recolha bem no meio dos feixes bons — e nem pensem em fazê-la se sentir pequena. Depois, sem alarde, mandou que eles deixassem cair espigas a mais de propósito onde ela fosse encontrar. Ele preparou o campo a favor dela e nunca contou nada.
Spurgeon diz: esse é Deus, e você é Rute. Os “campos” são todas as riquezas que Deus tem — as promessas dele, o perdão dele, o tempo passado bem perto dele — e o cristão inseguro, trêmulo, do tipo “eu-não-sou-bom-o-bastante”, está convidado a entrar direto e recolher tudo o que couber nos braços. Você não está pegando sobras escondido na beirada da bondade de Deus. Você foi convidado para o meio do campo, e ele está deixando cair punhados de propósito para você encontrar. Esse é o evangelho inteiro numa imagem de fazenda.
Mas Spurgeon é honesto sobre a única condição, e ela não tem a ver com impressionar ninguém — tem a ver com estar disposto a se abaixar. Quem respiga precisa se curvar para pegar as coisas do chão. E ele diz que os orgulhosos voltam do campo mais rico de mãos vazias, não porque não havia nada ali, mas porque não quiseram se rebaixar para alcançar. As coisas boas de Deus ficam lá embaixo, ao alcance de qualquer um humilde o bastante para se curvar. Se você se acha esperto demais, descolado demais ou resolvido demais para se abaixar, vai passar fome num campo cheio. Quem volta para casa carregado é quem não foi orgulhoso demais para se curvar.
E depois — não pegue e perca. Spurgeon tem uma imagem genial, e meio engraçada, aqui: o gado pasta rápido, mas depois se deita e “rumina” — traz a comida de volta e mastiga de novo, devagar, e essa é a parte que realmente alimenta. Não é o que ele arranca do pasto que nutre; é o que ele digere. Com você é igual. Ouvir uma coisa boa sobre Deus uma vez, de passagem, e logo rolar a tela para a próxima quase não alimenta nada. Revirar aquilo na cabeça — pensar de novo mais tarde, deixar entrar fundo — é a mastigação que faz aquilo realmente valer. A maioria de nós arranca o tempo todo e quase não digere nada.
Mais uma imagem, porque ela é linda. Spurgeon diz que o amor de Cristo é como um perfume doce lacrado numa caixa — e só Jesus sabe abrir a caixa e deixar o aroma sair. Você não consegue forçar a sensação do amor de Deus na base do esforço. Mas quando ele abre, a sala inteira se enche. A sua parte é continuar aparecendo no campo, recolhendo e mastigando; a parte dele é abrir a caixa.
E repare como termina o dia de Rute: ela “comeu, ficou satisfeita” — e depois levou o que sobrou para casa, para alimentar alguém que não pôde ir. Quando Deus enche você, uma parte disso é para voltar para casa no seu bolso — para um amigo, um irmão, alguém que está com fome e não estava no campo hoje.
Uma coisa para tentar esta semana: pare de só arrancar e comece a mastigar. Pegue uma verdade sobre Deus — um versículo, uma frase deste livro — e volte a ela três vezes diferentes ao longo da semana, em vez de seguir direto para a próxima. Isso é respigar do jeito certo: abaixe-se para pegar, digira, e depois leve uma parte para casa, para outra pessoa.
Perguntas para pensar
Pense primeiro; depois toque numa pergunta para ver uma forma de respondê-la.
O que Boaz disse aos trabalhadores sobre Rute, a respigadora?
Que a deixassem recolher entre os feixes bons, que não a fizessem se sentir pequena e que, sem alarde, deixassem cair espigas a mais de propósito onde ela fosse encontrar.
Spurgeon diz que os orgulhosos voltam do campo mais rico de mãos vazias. Por quê?
Porque quem respiga precisa se abaixar. As coisas boas de Deus ficam lá embaixo, ao alcance de qualquer um humilde o bastante para se curvar; quem é orgulhoso demais para alcançá-las passa fome num campo cheio.
Você “arranca” muito conteúdo espiritual, mas digere pouco? Como seria ruminar, no seu caso?
O capítulo sugere pegar uma verdade sobre Deus e voltar a ela três vezes nesta semana, e depois levar uma parte para casa, para outra pessoa, como Rute fez.
Capítulo 14 concluído
A Respiga