Susanna Wesley
Fogo e Perigo

Capítulo 8 · 24 min de leitura

Fogo e Perigo

A infância de CHARLES WESLEY foi mais longa que a da maioria das crianças, e ele ainda era um bebê indefeso quando, na noite de 9 de fevereiro de 1709, a casa paroquial de Epworth foi destruída pelo fogo. A Sra. Wesley escreveu um breve relato dessa calamidade ao seu filho mais velho, em Westminster, cinco dias depois — na verdade, assim que encontrou abrigo, descanso e roupas.

" QUERIDO SAMMY, " Epworth, 14 de fev. de 1708-9.

" Quando recebi sua carta, na qual você se queixava de falta de camisas, mal imaginava que em tão pouco tempo estaríamos todos reduzidos à mesma condição, e na verdade a uma pior. Suponho que você já tenha ouvido falar do incêndio da nossa casa, por qual acidente não conseguimos imaginar; mas o fogo irrompeu por volta das onze ou meia-noite, estando todos nós na cama, e não o percebemos até que o teto do paiol se queimou por completo, e o fogo caiu sobre a cama de sua irmã Hetty, que ficava no quartinho contíguo a ele. Ela acordou e imediatamente correu para chamar seu pai, que dormia no quarto vermelho; pois, estando eu doente, ele foi obrigado a dormir longe de mim. Ele diz que ouvira alguns gritarem ' Fogo ! ' na rua momentos antes, mas não compreendeu onde era até abrir a porta; chamou-nos em nosso quarto e mandou que todos nós tratássemos de salvar a vida, pois o teto desabava depressa, e nada além da parede fina impedia o fogo de alcançar a escada.

" Não tivemos tempo de pegar nossas roupas, mas todos saímos correndo despidos. Chamei Betty para tirar as crianças do quarto das crianças; ela pegou Patty e deixou Jacky para segui-la, mas este, indo até a porta e vendo tudo em chamas, correu de volta. Conseguimos abrir a porta da rua, mas o vento empurrava a chama com tal violência que ninguém conseguia resistir a ela. Tentei três vezes atravessar, mas fui repelida. Fiz nova tentativa e passei por entre o fogo, que não me causou outro dano além de chamuscar-me as pernas e o rosto. Quando estava no pátio, procurei ao redor por seu pai e pelas crianças; mas, não vendo ninguém, dei-os por perdidos. Mas, graças a Deus, eu estava enganada. Seu pai levara a irmã Emily, Sukey e Patty para o jardim; então, sentindo falta de Jacky, correu de volta à casa para ver se conseguia salvá-lo. Ouviu-o gritar miseravelmente no quarto das crianças e tentou várias vezes subir a escada, mas foi repelido pelas chamas; então o deu por perdido, entregou a sua alma a Deus e foi cuidar dos demais. A criança subiu até a janela e gritou para os que estavam no pátio; eles alcançaram a janela e o puxaram para fora bem no instante em que o teto desabou sobre o quarto. Harry quebrou o vidro da janela da sala e lançou para fora suas irmãs Matty e Hetty; e assim, pela grande misericórdia de Deus, todos escapamos. Não se desanime, Deus há de prover para você.

" SUSANNA WESLEY.'' Pode-se imaginar com que rapidez o fogo se espalhou por uma casa construída apenas de madeira e reboco, com telhado de palha, e como foi difícil escapar com a vida e os membros a salvo, sem parar para pegar roupas ou agasalhos. Um ou dois dias depois, o Sr. Wesley, que aparentemente ignorava que sua esposa reunira forças e energia para escrever ao filho mais velho em Westminster, escreveu um relato mais detalhado ao Duque de Buckingham : — " Justo é o Senhor, e reto em todos os seus juízos ! Aflige-me ter de escrever o que, receio, afligirá Vossa Graça, a respeito do seu ainda infeliz servo. Creio estar bastante refeito para dar um relato razoável do ocorrido.

" Na última quarta-feira, às onze e meia da noite, em um quarto de hora ou menos, minha casa em Epworth foi reduzida a cinzas — — por acidente, espero, mas Deus sabe de tudo. Estivéramos fazendo cerveja, mas já havíamos terminado tudo; cada faísca de fogo fora apagada antes das cinco horas daquela tarde — ao menos seis horas antes de a casa pegar fogo. Talvez a chaminé lá em cima tenha se incendiado (embora tivesse sido varrida não muito tempo antes) e irrompido pelo telhado de palha. Contudo, é estranho que eu não tenha visto nem sentido cheiro algum disso, tendo estado em meu escritório naquela parte da casa até depois das dez e meia. Então tranquei as portas daquela parte da casa onde estavam meu trigo e outros cereais, que já haviam sido debulhados, e fui para a cama.

" Os criados não estavam na cama havia nem um quarto de hora quando o fogo começou. Estando minha esposa perto do parto e muito fraca, eu dormia no quarto ao lado. Um pouco depois das onze, ouvi gritarem ' Fogo ! ' na rua, junto à qual eu dormia. Se eu estivesse em meu próprio quarto, como de costume, estaríamos todos perdidos. Lancei-me para fora da cama, vesti o colete e a camisola de dormir, e olhei pela janela; vi o reflexo da chama, mas não sabia onde era; corri ao quarto de minha esposa com uma só meia e os calções na mão; teria arrombado a porta, que estava trancada por dentro, mas não consegui. Meus dois filhos mais velhos (Susanna e Emilia) estavam com ela. Levantaram-se e correram em direção à escada para acordar o resto da casa. Então vi que era a nossa própria casa, toda em labaredas, e nada além de uma porta entre a chama e a escada.

" Corri de volta à minha esposa, que a essa altura já saíra da cama despida e abrira a porta. Ordenei-lhe que fugisse para salvar a vida. Tínhamos um pouco de prata e algum ouro — cerca de £20. Ela teria ficado para pegá-lo, mas eu a empurrei para fora; levei-a e aos meus dois filhos mais velhos para baixo (onde dois dos criados já se encontravam) e pedi as chaves. Nada sabiam delas. Subi correndo, achei-as, desci e abri a porta da rua. O colmo do telhado desabara, todo em fogo. O vento nordeste lançava-me todas as línguas de chama no rosto, como se reverberassem numa lâmpada. Subi duas vezes os degraus e fui repelido para baixo outra vez. Corri até a porta do jardim e a abri. Ali o fogo era mais moderado. Mandei que todos me seguissem, mas encontrei apenas dois comigo, e a criada com outro (Charles) nos braços, que não podia andar, todos despidos. Corri com eles até a minha latrina no jardim, fora do alcance das chamas; pus o menor no colo do outro; e, não vendo minha esposa seguir-me, corri de volta à casa para procurá-la. Os criados e duas das crianças haviam saído pela janela. Na cozinha encontrei minha filha mais velha, despida, e perguntei-lhe pela mãe. Não soube dizer-me onde ela estava. Tomei-a nos braços e levei-a aos demais no jardim; entrei uma segunda vez e subi correndo, com a chama irrompendo pela parede junto à escada; julguei que todos os meus filhos estavam a salvo e esperava que minha esposa de algum modo tivesse escapado. Lembrei-me então dos meus livros e apalpei o bolso à procura da chave do quarto que dava para o meu escritório. Não consegui achar a chave, embora a tenha procurado uma segunda vez. Tivesse eu aberto aquela porta, teria perecido.

" Desci correndo e fui ter com meus filhos no jardim, para ajudá-los a passar por cima do muro. Quando estava do lado de fora, ouvi um dos meus pobres cordeiros, ainda deixado lá em cima, com cerca de seis anos de idade, gritar lastimosamente, ' Socorro ! ' Entrei de novo para subir a escada, mas a escada estava agora toda em chamas. Tentei forçar passagem por ela uma segunda vez, segurando os calções sobre a cabeça, mas a torrente de fogo me derrubou. Julguei ter cumprido o meu dever; saí da casa e fui até a parte da minha família que eu salvara, no jardim, com o grito dilacerante do meu filho nos ouvidos. Fiz que todos se ajoelhassem, e oramos a Deus que recebesse a sua alma.

"Tentei derrubar a cerca para levar meus filhos para a rua, mas não consegui; então passei por baixo da chama e os fiz atravessar o muro. Vesti então os calções e saltei atrás deles. Uma das minhas criadas, que trouxera para fora o menor dos filhos, saiu quase ao mesmo tempo. Foi saudada com uma sonora maldição por um dos vizinhos, que lhe disse que nós mesmos havíamos ateado fogo à casa, pela segunda vez, de propósito. Andei de um lado para outro perguntando por minha esposa e pelas outras crianças; encontrei o homem principal e o chefe de polícia da cidade afastando-se da minha casa, e não indo em sua direção para me ajudar. Tomei-o pela mão e disse, ' Faça-se a vontade de Deus ! ' Sua resposta foi : ' Nunca desistirá dos seus truques ? Você já ateou fogo à sua casa uma vez; não ganhou o bastante com isso então, para tê-lo feito de novo ? ' Isso foi um consolo bem frio. Eu disse ' Deus lhe perdoe ! Vejo que continua sendo o homem principal.' Mas logo me senti um pouco melhor ao ouvir que minha esposa fora salva, e então me lancei sobre a mãe terra e bendisse a Deus. Fui até ela. Estava viva e mal podia falar. Julgara que eu perecera, e assim também todos os demais, não me tendo visto nem a nenhum dos oito filhos por um quarto de hora; e a essa altura todos os quartos e tudo o mais estavam reduzidos a cinzas, pois o fogo era mais forte que uma fornalha, e o vento violento o abatia sobre a casa. Depois ela me contou como escapou. Quando fui primeiro abrir a porta dos fundos, ela tentou forçar passagem pelo fogo na porta da frente, mas foi lançada de volta ao chão duas vezes. Pensou que ali morreria, mas orou a Cristo que a ajudasse. Encontrou novas forças, ergueu-se sozinha e atravessou dois ou três metros de chama, estando-lhe o fogo do chão até os joelhos. Nada tinha vestido além dos sapatos e de um roupão, e um casaco no braço. Enrolou-o em volta do peito e chegou a salvo ao pátio, mas ainda sem ninguém para ajudá-la. Nunca ergueu os olhos nem falou até que eu chegasse, salvo quando lhe trouxeram o último filho, quando mandou que o deitassem na cama. Este era o menino que eu ouvira gritar na casa, mas Deus o salvou quase por milagre. Só ele fora esquecido pelos criados na pressa. Correu para a janela voltada para o pátio, subiu numa cadeira e gritou por socorro. Havia agora algumas pessoas reunidas, uma das quais, que me tem afeição, ergueu outra até a janela. A criança, vendo um homem entrar pela janela, assustou-se e fugiu para o quarto da mãe. Não conseguiu abrir a porta, e por isso correu de volta. O homem havia caído da janela, e toda a cama e os cortinados do quarto em que ele estava ardiam em chamas. Ergueram o homem uma segunda vez, e o pobre Jacky saltou-lhe nos braços e foi salvo. Não pude acreditar até tê-lo beijado duas ou três vezes. Minha esposa então me disse, * Seus livros estão a salvo ? ' Respondi-lhe que isso pouco importava agora que ela e todos os demais estavam salvos, pois não perdemos uma só alma, ainda que eu tenha escapado por um triz. Um pouco de tralha foi salvo no andar de baixo, mas nem um trapo ou folha em cima. Encontramos parte da prata num bloco derretido, que enviarei ao Sr. Hoare para vendê-la por mim.

" O Sr. Smith, de Gainsborough, e outros, mandaram buscar alguns dos meus filhos. Deixei minha esposa em Epworth, trêmula; mas espero que Deus a preserve, e não duvido de que Ele há de prover para nós. Nada me falta, tendo mais da metade da minha cevada guardada, sem debulhar, em meus celeiros. Havia terminado, não faz muito, as minhas alterações na Vida de Cristo, e transcrevera três cópias dela. Mas tudo se perdeu. Louvado seja Deus !

" Não sei como escrever ao meu pobre menino (Samuel) sobre isso; mas devo fazê-lo, ou então ele pensará que todos nós estamos perdidos. Pode Vossa Graça perdoar isto ? Espero que minha esposa se recupere e não perca a criança, mas que Deus me dê o meu décimo nono filho. Ela queimou as pernas, mas estão sarando. Quando cheguei até ela, seus lábios estavam negros. Não a reconheci. Algumas das crianças estão um pouco queimadas, mas não feridas nem desfiguradas. Eu só tive uma pequena bolha na mão. Os vizinhos nos mandam roupas, pois faz frio sem elas.

" SAMUEL WESLEY."

O reitor escreveu de modo bastante animado, considerando quão grande fora a provação. Os livros que ele reunira com cuidado, um ou dois de cada vez, e pagara com dinheiro que só à custa de abnegação podia ser poupado, eram apenas um pouco menos queridos que os filhos, e sua coleção de poesia e hinos hebraicos tinha valor considerável. Um grande número de cartas de amigos e de relações literárias também foi consumido, bem como documentos ligados à família Annesley e os registros paroquiais. Apenas um item restou, e foi um hino de seis estrofes, escrito pelo Sr. Wesley e musicado, ao que se supõe, por Purcell ou pelo Dr. Blow. Está incorporado ao hinário metodista, e é o único exemplar da versificação do velho Sr. Wesley que ele contém : as palavras iniciais são "Behold the Saviour of Mankind." Havia ainda os móveis já bem gastos, embora úteis, e as roupas de todos, a pequena reserva de dinheiro e os confortos indispensáveis preparados para o bebê esperado — tudo foi levado em poucos minutos. As crianças foram dispersas; mas Emilia, a filha mais velha, que tinha cerca de dezessete anos, ficou para cuidar da mãe no alojamento em que ela e os pais se abrigavam em Epworth, e tornou-se sua enfermeira paciente e alegre e sua companheira constante por quase um ano. Era uma moça excepcionalmente bem instruída, tendo partilhado as lições que o pai dava a Samuel enquanto este permaneceu em casa, e pretendia-se que ganhasse o próprio sustento, assim que tivesse idade, como governanta. Amava a mãe com aquela afeição extremada que às vezes se vê numa filha mais velha, com idade suficiente para simpatizar com as provações da mãe, e considerou os meses em que a teve quase só para si como um dos tempos mais felizes de sua vida. O dia todo ela se ocupava, mas à noite lia, em voz alta ou para si mesma, e sentia-se muito feliz e contente.

Em março de 1709, cerca de um mês após o incêndio, nasceu Kezia, que veio a ser a última dos filhos da Sra. Wesley. Que fosse doentia e frágil era de esperar, considerando o que passara sua mãe, que tinha apenas quarenta anos de idade.

Cinco meses depois, a Sra. Wesley, a pedido de um clérigo vizinho, escreveu-lhe um relato um pouco mais completo do incêndio : — " Epworth, 24 de agosto de 1709.

" Na noite de quarta-feira, 9 de fevereiro, entre as onze e as doze horas, algumas faíscas caíram do teto da nossa casa sobre os pés de uma das crianças. Ela correu de imediato ao nosso quarto e nos chamou. O Sr. Wesley, ouvindo um grito de fogo na rua, levantou-se de um salto (como eu estava muito doente, ele dormia num quarto separado do meu) e, ao abrir a porta, verificou que o fogo estava em sua própria casa. Veio logo ao meu quarto e mandou que eu e minhas filhas mais velhas nos levantássemos depressa e cuidássemos de nós mesmas. Então correu e arrombou a porta do quarto das crianças, e chamou a criada para trazer as crianças para fora. Os dois pequeninos estavam na cama com ela; os outros três em outra cama. Ela agarrou o mais novo e mandou que os demais a seguissem, o que as três mais velhas fizeram. Quando chegamos ao vestíbulo e estávamos cercados de chamas, o Sr. Wesley percebeu que deixara as chaves das portas lá em cima. Subiu correndo e as recuperou um minuto antes de a escada pegar fogo. Quando abrimos a porta da rua, o forte vento nordeste empurrou as chamas para dentro com tal violência que ninguém conseguia resistir a elas. Mas alguns dos nossos filhos saíram pelas janelas, e o restante por uma portinha para o jardim. Eu não estava em condições de subir até as janelas, nem conseguia chegar à porta do jardim. Tentei três vezes forçar passagem pela porta da rua, mas outras tantas fui repelida pela fúria das chamas. Nessa aflição, supliquei ao nosso bendito Salvador que me ajudasse, e então atravessei o fogo, despida como estava, o que não me causou dano maior do que chamuscar um pouco as mãos e o rosto. Quando o Sr. Wesley viu as outras crianças a salvo, ouviu a criança chorar no quarto das crianças. Tentou subir a escada, mas estava toda em fogo e não suportava o seu peso. Vendo ser impossível prestar qualquer ajuda, ajoelhou-se no vestíbulo e entregou a alma da criança a Deus.

" SUSANNA WESLEY/' A extremidade do homem é a oportunidade de Deus; e John Wesley cria que fora no momento em que seu pai assim entregava o seu espírito ao Deus que o dera, que ele despertou, e não antes; acrescentando : "Eu não chorei, como imaginaram, a não ser depois. Lembro-me de todas as circunstâncias tão nitidamente como se fosse ontem. Vendo que o quarto estava muito iluminado, chamei a criada para me tirar dali. Mas, como ninguém respondesse, pus a cabeça para fora das cortinas e vi estrias de fogo no alto do quarto. Levantei-me e corri até a porta, mas não pude ir além, pois tudo para lá dela estava em chamas. Subi então sobre a arca que ficava perto da janela; alguém no pátio me viu e propôs correr para buscar uma escada. Outro respondeu, ' Não haverá tempo ;

mas pensei em outra experiência. Vejam, vou firmar-me contra a parede, erguer um homem leve e colocá-lo sobre os meus ombros.' Assim fizeram, e ele me tirou pela janela. Nesse exato instante todo o teto desabou; mas caiu para dentro, ou teríamos sido todos esmagados de uma só vez. Quando me levaram para a casa onde estava meu pai, ele exclamou : ' Venham, vizinhos, ajoelhemo-nos; demos graças a Deus ! Ele me deu todos os meus oito filhos; que a casa se vá. Sou bastante rico.' No dia seguinte, enquanto caminhava pelo jardim e examinava as ruínas da casa, ele apanhou parte de uma folha da sua Bíblia Poliglota, na qual apenas estas palavras estavam legíveis : Vade : vende omnia quo habes ; et attolle crucem, et sequere me"

Não há muitas discrepâncias nos três relatos; pois pai, mãe e filho eram todos pessoas de raciocínio claro, e a mente de John Wesley, por toda a vida, foi singularmente livre de qualquer coisa parecida com " confusão. Na verdade, a organização do metodismo é prova suficiente da exatidão com que seu cérebro funcionava. Ele nem esquecia nem imaginava coisas, nem se apressava nem descansava, mas fazia tudo com precisão tão bem dirigida que suas regras e regulamentos eram forças vivas, em vez de ossos secos.

O incêndio provocou mais mudança na vida de Susanna e Hetty (Mehetabel) do que na dos outros filhos, pois seus tios Samuel Annesley e Matthew Wesley mandaram buscá-las para virem ficar em Londres; e então se lançou o fundamento de uma afeição muito calorosa entre este último e suas sobrinhas espertas e vivazes. Não parece, contudo, que tenham conseguido dar muita informação do que se seguiu à calamidade ao irmão delas em Westminster, pois em junho ele escreveu a seguinte carta à mãe : — " St. Peter's College, Westminster, " SENHORA, 9 de junho de 1709.

" Se minha avó não me tivesse dito, da última vez que estive lá, que a senhora estava perto do parto — ocasião em que julguei ser inútil escrever o que a senhora não poderia ler —, eu lhe teria enviado cartas repetidas vezes antes desta. Rogo-lhe, portanto, que não a atribua à minha negligência, da qual por certo jamais poderei ser culpado, enquanto desfruto daquilo que a senhora me deu — a vida. Meu pai deixa-me na mais profunda ignorância quanto às suas circunstâncias em Epworth, e não ouvi uma palavra do interior desde a primeira carta que me enviou depois do incêndio; de modo que tenho muita vergonha de procurar qualquer um dos meus parentes, com medo de ser ridicularizado sem parar. Perguntam-me se meu pai pretende deixar Epworth. Se está reconstruindo a casa ? Se há contribuições a esperar? Qual foi a última criança, um menino ou uma menina ? Qual era o seu nome ? Se meu pai perdeu todos os seus livros e papéis ? Se nada se salvou ? A tudo isso sou forçado a responder, ' Não sei dizer, não sei; não ouvi nada.' Fiz ao meu pai algumas dessas perguntas, mas continuo um ignorante. Se a senhora julgar que o meu ' Cowley ' e o meu ' Hudibras ' valem a pena ser aceitos, terei muito prazer em enviá-los à minha mãe, que mos deu. Espero que estejam todos bem, como todos estão na cidade.

" Seu filho mais afeiçoado, "SAM WESLEY."

Como a mãe, justamente então, tinha mais tempo livre do que de costume, é mais que provável que tenha respondido às perguntas do filho, embora sua carta não se tenha preservado. Escreveu-lhe de novo no outono do mesmo ano, como segue : — " Epworth, outubro de 1709. " MEU QUERIDO SAMMY, " Espero que você conserve as impressões da sua educação, e não tenha esquecido que os votos de Deus estão sobre você. Você sabe que as primícias pertencem ao Céu por direito inalienável, e que, assim como os seus pais o consagraram ao serviço do altar, também você mesmo o escolheu quando ao seu pai foi oferecido outro modo de vida para você. Mas terá você considerado devidamente o que tal escolha e tal dedicação implicam? Considere bem que separação do mundo, que pureza, que devoção, que virtude exemplar são exigidas daqueles que hão de guiar outros à glória ! Digo exemplar; pois graus baixos e comuns de piedade não bastam aos que exercem a função sagrada. Você não deve pensar em viver como o resto do mundo; a sua luz deve resplandecer de tal modo diante dos homens, que vejam as suas boas obras e assim sejam levados a glorificar o seu Pai que está nos céus. De minha parte, não consigo ver com que rosto os clérigos podem repreender pecadores, ou exortar os homens a levar uma vida boa, quando eles próprios se entregam às suas próprias inclinações corruptas e, com a sua conduta, contradizem a sua doutrina. Se o santo Jesus é de fato o Mestre deles, e eles são realmente Seus embaixadores, por certo lhes convém viver como Seus discípulos; e, se não o fazem, que triste conta hão de prestar da sua mordomia !

Eu lhe aconselharia, tanto quanto possível nas suas atuais circunstâncias, a organizar os seus afazeres segundo um certo método, pelo qual aprenderá a aproveitar cada precioso momento e encontrará uma facilidade indescritível no cumprimento dos seus respectivos deveres. Comece e termine o dia com Aquele que é o Alfa e o Ômega, e, se você realmente experimentar o que é amar a Deus, resgatará todo o tempo que puder para o serviço mais imediato dEle. Vou lhe dizer que regra eu costumava observar quando estava na casa de meu pai e tinha tão pouca liberdade quanto, se não menos do que, você tem agora. Costumava permitir-me tanto tempo para o lazer quanto o que passava em devoção particular; não que eu sempre gastasse tanto, mas dava a mim mesma licença de ir até ali, e não além. Assim, em todas as demais coisas, destine certo tempo para o sono, as refeições, a companhia, etc.; mas, acima de tudo, meu querido Sammy, eu lhe ordeno, eu lhe peço, eu lhe suplico, que seja muito rigoroso em guardar o Dia do Senhor. Em tudo, procure agir por princípio, e não viva como o resto da humanidade, que passa pelo mundo como palhas sobre um rio, levadas para onde a corrente ou o vento as impele. Faça muitas vezes a si mesmo esta pergunta: Por que faço isto ou aquilo ? Por que oro, leio, estudo ou pratico a devoção, etc. ? Por esse meio você chegará a tal firmeza e coerência nas suas palavras e ações como convém a uma criatura racional e a um bom cristão.

" Sua mãe afeiçoada, "Sus. WESLEY.*' Verdadeiramente a mãe colocou um alto ideal diante do filho; e, ainda que ele não viesse a ser o gênio e o teólogo da família, ela teve a sua recompensa, do modo como se cumprem a maioria dos desejos humanos. Samuel foi sempre um bom filho e um cristão exemplar, mas foi John quem se tornou um apóstolo e uma força no mundo. Não exatamente aquilo que ela desejara desde o próprio nascimento do seu primeiro filho varão, e mesmo antes disso, mas uma bênção ainda melhor.

As cartas da Sra. Wesley às filhas não são muito numerosas, pois, naturalmente, elas estavam em casa com ela, enquanto os meninos estavam fora, na escola e na faculdade. Ela, contudo, escreveu uma muito longa, na qual estava incorporada uma exposição do Credo dos Apóstolos, a Susanna, quando esta se achava em Londres, durante o ano que se seguiu ao incêndio: — "Epworth, " QUERIDA SUKEY, 13 de janeiro de 1709-10.

" Visto que os nossos infortúnios nos separaram um do outro, e já não podemos desfrutar das oportunidades que outrora tínhamos de conversar juntas, de nenhum outro modo posso cumprir o dever de mãe, ou atender à minha inclinação de lhe fazer todo o bem que puder, senão por escrito.

" Você sabe muito bem o quanto a amo. Amo o seu corpo e suplico fervorosamente ao Deus Todo-Poderoso que o abençoe com saúde e com tudo o que é necessário ao seu conforto e sustento neste mundo. Mas o meu mais terno cuidado é pela sua alma imortal e pela sua felicidade espiritual — cuidado que não posso exprimir melhor senão esforçando-me por incutir na sua mente aqueles princípios de conhecimento e virtude que são absolutamente necessários para que você leve uma vida boa aqui, o que é a única coisa capaz de assegurar infalivelmente a sua felicidade no porvir.

"A principal coisa que agora se deve fazer é lançar um bom fundamento, para que você possa agir por princípios e esteja sempre apta a satisfazer a si mesma e a dar aos outros a razão da fé que há em você; pois quem faz profissão de religião apenas por ser o costume do país em que vive, ou porque os pais o fazem, ou porque com isso seu interesse mundano se assegura ou se promove, jamais conseguirá permanecer firme no dia da tentação, nem entrará no reino do Céu. E, embora talvez você não possa no momento compreender tudo o que eu disser, guarde esta carta consigo; e, à medida que crescer em anos, a sua razão e o seu juízo se aprimorarão, e você obterá um entendimento mais claro em todas as coisas.

" Você já foi instruída em alguns dos primeiros princípios da religião : que há um, e um só Deus; que na unidade da Divindade existem três pessoas distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo; que a este Deus se deve prestar adoração. Você aprendeu algumas orações, o seu credo e o seu catecismo, nos quais se compreende, em resumo, o seu dever para com Deus, para consigo mesma e para com o próximo. Mas, Sukey, não é decorar essas coisas, nem dizer algumas orações de manhã e à noite, que a levará ao céu; você deve entender o que diz e deve praticar o que sabe; e, visto que o conhecimento é requisito para a prática, esforçar-me-ei, do modo mais simples que puder, por instruí-la em alguns daqueles pontos fundamentais que são mais necessários de conhecer e mais fáceis de compreender. E suplico fervorosamente ao grande Pai dos espíritos que guie a sua mente para o caminho da verdade.

" Não sei dizer se você alguma vez considerou seriamente a condição perdida e miserável em que se acha por natureza. Se não o fez, é mais que hora de começar a fazê-lo; e suplicarei fervorosamente ao Todo-Poderoso que ilumine a sua mente, que a renove e a santifique pelo seu Espírito Santo, para que você seja filha dEle por adoção aqui, e herdeira do seu bendito reino, no porvir."

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