Capítulo 18 · 29 min de leitura
A Quarta Etapa
Ora, depois de terem comido e bebido, e conversado ainda um pouco, seu guia lhes disse: O dia declina; se vos parecer bem, preparemo-nos para partir. Levantaram-se, pois, para seguir, e os meninos iam à frente; mas Cristã esqueceu de levar consigo o seu frasco de cordial, e por isso mandou o filhinho de volta para buscá-lo. Então disse Misericórdia: Creio que este é um lugar de perdas: aqui Cristão perdeu o seu rolo, e aqui Cristã deixou para trás o seu frasco. Senhor, qual é a causa disto? Respondeu o guia, e disse: A causa é o sono, ou o esquecimento: alguns dormem quando deveriam velar, e alguns esquecem quando deveriam lembrar; e esta é justamente a razão por que muitas vezes, nos lugares de descanso, alguns peregrinos saem perdendo em certas coisas. Os peregrinos deveriam velar, e lembrar-se do que já receberam, mesmo em seus maiores deleites; mas por não o fazerem, muitas vezes a sua alegria termina em lágrimas, e o seu sol se cobre de nuvem: testemunha disso é a história de Cristão neste lugar.
Quando chegaram ao lugar onde Desconfiado e Temeroso encontraram Cristão, para persuadi-lo a voltar por medo dos leões, avistaram como que um cadafalso, e diante dele, voltada para a estrada, uma larga placa com uns versos nela escritos, e por baixo se dava a razão de se ter levantado aquele cadafalso naquele lugar. Os versos eram:
“Aquele que vir este cadafalso, atente bem
Para o seu coração e a sua língua;
Para que, se não o fizer, aqui pereça
Como já outros há muito pereceram.”
As palavras por baixo dos versos eram estas: “Este cadafalso foi erguido para punir aqueles que, por timidez ou desconfiança, tiverem medo de prosseguir na peregrinação. Também sobre este cadafalso foram Desconfiado e Temeroso queimados na língua com ferro em brasa, por procurarem impedir Cristão em sua jornada.”
Então disse Misericórdia: Isto muito se assemelha ao dito do Amado: “Que te será dado, ou que te será feito, ó língua enganosa? Setas agudas do poderoso, com brasas de zimbro. Salmos 120:3,4.
Assim seguiram até avistarem os leões. Ora, o Sr. Grande-Coração era um homem forte, de modo que não temia um leão; mas, ainda assim, quando chegaram ao lugar onde estavam os leões, os meninos, que iam à frente, agora bem contentes se acolheram para trás, pois tinham medo dos leões; e por isso recuaram, e foram para a retaguarda. Ao ver isto, o guia sorriu, e disse: Que é isto, meus meninos? Gostais de ir à frente quando nenhum perigo se aproxima, e gostais de ficar atrás logo que os leões aparecem?
Ora, enquanto avançavam, o Sr. Grande-Coração desembainhou a sua espada, com o intento de abrir caminho para os peregrinos, a despeito dos leões. Então apareceu um que, ao que parece, se havia encarregado de apoiar os leões; e disse ao guia dos peregrinos: Qual é a causa de virdes até aqui? Ora, o nome daquele homem era Sombrio, ou o Homem-Sanguinário, por causa da sua matança de peregrinos; e era da raça dos gigantes.
Sr. Grande-Coração: Então disse o guia dos peregrinos: Estas mulheres e crianças vão em peregrinação, e este é o caminho por onde devem ir; e por ele hão de passar, a despeito de ti e dos leões.
Sombrio: Este não é o caminho deles, nem por ele hão de ir. Saí para resistir-lhes, e para esse fim apoiarei os leões.
Ora, para dizer a verdade, por causa da ferocidade dos leões, e do porte torvo daquele que os apoiava, este caminho ultimamente jazia muito desocupado, e estava quase todo coberto de mato.
Cristã: Então disse Cristã: Ainda que as estradas tenham estado desocupadas até agora, e ainda que os viajantes tenham sido obrigados, nos tempos passados, a andar por atalhos, não há de ser assim agora que eu me levantei, agora que me levantei como mãe em Israel. Juízes 5:6,7.
Sombrio: Então jurou pelos leões que assim seria; e por isso mandou que se desviassem, pois não teriam passagem por ali.
Mas Grande-Coração, seu guia, avançou primeiro contra Sombrio, e o golpeou tão pesadamente com a sua espada que o forçou a recuar.
Sombrio: Então disse aquele que tentava apoiar os leões: Matar-me-ás em meu próprio terreno?
Sr. Grande-Coração: É a estrada do Rei que estamos trilhando, e foi neste caminho que puseste os leões; mas estas mulheres, e estas crianças, ainda que fracas, hão de prosseguir o seu caminho a despeito dos teus leões. E com isto lhe desferiu outro golpe certeiro, e o pôs de joelhos. Com este golpe também lhe partiu o elmo, e com o seguinte lhe decepou um braço. Então rugiu o gigante tão medonhamente que a sua voz assustou as mulheres; contudo elas se alegraram de vê-lo estendido no chão. Ora, os leões estavam acorrentados, e por isso, de si mesmos, nada podiam fazer. Portanto, morto o velho Sombrio, que pretendia apoiá-los, disse o Sr. Grande-Coração aos peregrinos: Vinde agora, e segui-me, e nenhum mal vos acontecerá da parte dos leões. Seguiram, pois, adiante, mas as mulheres tremiam ao passar por eles; também os meninos pareciam prestes a morrer; mas todos passaram sem mais dano.
Ora, quando estavam à vista da portaria do Porteiro, logo chegaram a ela; mas depois disto apressaram-se ainda mais para lá chegar, porque é perigoso viajar por ali de noite. Assim, quando chegaram à porta, o guia bateu, e o Porteiro bradou: Quem está aí? Mas assim que o guia disse: Sou eu, reconheceu-lhe a voz, e desceu, pois o guia muitas vezes ali chegara antes, como condutor de peregrinos. Quando desceu, abriu a porta; e, vendo o guia parado bem diante dela (pois não via as mulheres, porque estavam atrás dele), disse-lhe: Que é isto, Sr. Grande-Coração? Que vos traz aqui tão tarde da noite? Trouxe, disse ele, alguns peregrinos até aqui, onde, por mandamento do meu Senhor, hão de hospedar-se: teria chegado há algum tempo, se não me houvesse oposto o gigante que costumava apoiar os leões. Mas eu, depois de um longo e fatigante combate com ele, o abati, e trouxe os peregrinos até aqui em segurança.
O Porteiro: Não quereis entrar, e ficar até de manhã?
Sr. Grande-Coração: Não, esta noite voltarei ao meu Senhor.
Cristã: Ó senhor, não sei como consentir que nos deixeis em nossa peregrinação: fostes tão fiel e amoroso para conosco, lutastes tão valentemente por nós, fostes tão cordial em nos aconselhar, que nunca esquecerei o favor que nos fizestes.
Misericórdia: Então disse Misericórdia: Oxalá pudéssemos ter a tua companhia até o fim da nossa jornada! Como poderão pobres mulheres como nós resistir num caminho tão cheio de aflições como este, sem um amigo e defensor?
Tiago: Então disse Tiago, o mais novo dos meninos: Rogo-te, senhor, deixa-te persuadir a ir conosco, e a ajudar-nos, porque somos tão fracos, e o caminho é tão perigoso.
Sr. Grande-Coração: Estou às ordens do meu Senhor; se ele me designar para ser vosso guia por todo o caminho, de bom grado vos servirei. Mas nisto falhastes desde o princípio; pois, quando ele me mandou vir até aqui convosco, então deveríeis ter-me pedido a ele para ir convosco por todo o caminho, e ele vos teria concedido o pedido. Contudo, por ora devo retirar-me; e assim, boa Cristã, Misericórdia, e meus bravos filhos, adeus.
Então o Porteiro, o Sr. Vigilante, perguntou a Cristã sobre a sua terra, e a sua parentela. E ela disse: Vim da cidade da Destruição. Sou mulher viúva, e o meu marido está morto; o seu nome era Cristão, o peregrino. Como! disse o Porteiro, era ele o teu marido? Sim, disse ela, e estes são os filhos dele; e esta, apontando para Misericórdia, é uma das mulheres da minha cidade. Então o Porteiro tocou o seu sino, como costuma em tais ocasiões, e veio à porta uma das donzelas, cujo nome era Mente-Humilde; e a ela disse o Porteiro: Vai lá dentro anunciar que Cristã, a esposa de Cristão, e os seus filhos, chegaram aqui em peregrinação. Foi ela, pois, para dentro, e o anunciou. Mas, oh, que rumor de alegria houve lá dentro, quando a donzela apenas deixou escapar aquilo da sua boca!
Então vieram com pressa ter com o Porteiro, pois Cristã se detivera à porta. Então alguns dos mais respeitáveis lhe disseram: Entra, Cristã, entra, tu, esposa daquele bom homem; entra, tu, mulher bem-aventurada, entra, com todos os que estão contigo. Entrou, pois, ela, e seguiram-na os que eram seus filhos e companheiros. Ora, depois de entrarem, foram levados a uma sala espaçosa, onde os convidaram a assentar-se; assentaram-se, pois, e chamaram os principais da casa para verem e darem as boas-vindas aos hóspedes. Então entraram, e, sabendo quem eram, saudaram-se uns aos outros com um beijo, e disseram: Bem-vindos, ó vasos da graça de Deus; bem-vindos a nós, vossos amigos.
Ora, porque já era um tanto tarde, e porque os peregrinos estavam fatigados da sua jornada, e também abatidos com a visão da luta, e dos terríveis leões, desejaram, o mais cedo possível, preparar-se para ir descansar. Não, disseram os da família, refazei-vos primeiro com um bocado de carne; pois lhes tinham preparado um cordeiro, com o molho costumeiro que lhe pertence, Êxodo 12:21; João 1:29; porque o Porteiro ouvira antes da sua vinda, e o anunciara aos que estavam dentro. Assim, depois de cearem, e de terminarem a sua oração com um salmo, desejaram poder ir descansar.
Mas deixai-nos, disse Cristã, se nos for permitido tal ousadia de escolher, ficar naquele quarto que era do meu marido quando aqui esteve; e assim os conduziram para lá, e todos se deitaram num só aposento. Quando estavam repousando, Cristã e Misericórdia entraram em conversa sobre coisas proveitosas.
Cristã: Bem pouco pensei eu, outrora, quando o meu marido partiu em peregrinação, que algum dia o seguiria.
Misericórdia: E tão pouco pensavas em deitar-te no leito dele, e em repousar no quarto dele, como agora fazes.
Cristã: E muito menos jamais pensei em ver o seu rosto com alegria, e em adorar o Senhor, o Rei, ao lado dele; e contudo agora creio que o farei.
Misericórdia: Escuta, não ouves um rumor?
Cristã: Sim, é, segundo creio, um rumor de música, pela alegria de estarmos aqui.
Misericórdia: Que maravilha! Música na casa, música no coração, e música também no céu, pela alegria de estarmos aqui! Assim conversaram por algum tempo, e depois se entregaram ao sono.
Assim, pela manhã, quando despertaram, disse Cristã a Misericórdia: Que foi aquilo que te fez rir dormindo esta noite? Suponho que estavas sonhando.
Misericórdia: Estava, sim, e foi um doce sonho; mas tens certeza de que ri?
Cristã: Sim, riste de coração; mas rogo-te, Misericórdia, conta-me o teu sonho.
Misericórdia: Eu sonhava que estava sentada, toda sozinha, num lugar solitário, lamentando a dureza do meu coração. Ora, não havia estado ali muito tempo, quando me pareceu que muitos se ajuntavam ao meu redor para me ver, e para ouvir o que eu dizia. Escutaram, pois, e eu prossegui lamentando a dureza do meu coração. Ao ouvir isto, alguns deles riram de mim, outros me chamaram de tola, e outros começaram a empurrar-me de um lado para outro. Então me pareceu que ergui os olhos e vi um que vinha para mim com asas. Veio ele direto a mim, e disse: Misericórdia, que tens? Ora, quando ouviu a minha queixa, disse: A paz seja contigo; e enxugou-me também os olhos com o seu lenço, e vestiu-me de prata e ouro. Ezequiel 16:8-11. Pôs-me um colar ao pescoço, e brincos nas orelhas, e uma bela coroa sobre a cabeça. Então tomou-me pela mão, e disse: Misericórdia, segue-me. E subiu, e eu o segui, até chegarmos a uma porta de ouro. Então bateu; e, quando os de dentro abriram, o homem entrou, e eu o segui, até um trono, sobre o qual estava assentado alguém; e ele me disse: Bem-vinda, filha. O lugar parecia luminoso e cintilante, como as estrelas, ou antes como o sol; e pareceu-me ver ali o teu marido; então despertei do meu sonho. Mas terei rido mesmo?
Cristã: Rir! Ah, e bem podias, ao ver-te em tão bom estado. Pois hás de permitir-me dizer-te que foi um bom sonho; e que, assim como começaste a achar verdadeira a primeira parte, assim acharás a segunda por fim. “Deus fala uma vez, sim, duas vezes, mas o homem não atenta para isso; em sonho, em visão de noite, quando cai sono profundo sobre os homens, no adormecer sobre a cama.” Jó 33:14,15. Não é preciso, quando estamos no leito, permanecer acordados para falar com Deus; ele pode visitar-nos enquanto dormimos, e fazer-nos então ouvir a sua voz. O nosso coração muitas vezes vela quando dormimos, e Deus pode falar-lhe, seja por palavras, seja por provérbios, por sinais e símiles, tão bem como se estivéssemos acordados.
Misericórdia: Pois bem, alegro-me com o meu sonho; pois espero, dentro em breve, vê-lo cumprido, de modo a fazer-me rir de novo.
Cristã: Creio que já é bem tempo de levantar-nos, e de saber o que devemos fazer.
Misericórdia: Rogo-te, se nos convidarem a ficar algum tempo, aceitemos de bom grado a oferta. Estou tanto mais disposta a demorar-me aqui um pouco, para conhecer melhor estas donzelas: parece-me que Prudência, Piedade e Caridade têm semblantes muito graciosos e sóbrios.
Cristã: Veremos o que elas farão.
Assim, depois de se levantarem e aprontarem, desceram, e perguntaram uns aos outros sobre o seu descanso, e se fora reparador ou não.
Misericórdia: Muito bom, disse Misericórdia: foi uma das melhores hospedagens noturnas que jamais tive em minha vida.
Então disseram Prudência e Piedade: Se vos deixardes persuadir a ficar aqui um tempo, tereis o que a casa puder oferecer.
Caridade: Sim, e isso de muito boa vontade, disse Caridade. Consentiram, pois, e ali ficaram cerca de um mês ou mais, e tornaram-se muito proveitosos uns aos outros. E, porque Prudência desejava ver como Cristã havia criado os seus filhos, pediu-lhe licença para catequizá-los. E ela deu de bom grado o seu consentimento. Então começou pelo mais novo, cujo nome era Tiago.
Prudência: E disse: Vem, Tiago, podes dizer-me quem te fez?
Tiago: Deus Pai, Deus Filho, e Deus Espírito Santo.
Prudência: Bom menino. E podes dizer quem te salvou?
Tiago: Deus Pai, Deus Filho, e Deus Espírito Santo.
Prudência: Continuas a ser um bom menino. Mas como te salva Deus Pai?
Tiago: Pela sua graça.
Prudência: Como te salva Deus Filho?
Tiago: Pela sua justiça, morte e sangue, e vida.
Prudência: E como te salva Deus Espírito Santo?
Tiago: Pela sua iluminação, pela sua renovação, e pela sua preservação.
Então disse Prudência a Cristã: És digna de louvor por criares assim os teus filhos. Suponho que não preciso fazer aos demais estas perguntas, visto que o mais novo deles as responde tão bem. Voltar-me-ei, pois, agora para o segundo mais novo.
Prudência: Então disse: Vem, José (pois o seu nome era José), deixas que eu te catequize?
José: De todo o coração.
Prudência: Que é o homem?
José: Uma criatura racional, assim feita por Deus, como disse o meu irmão.
Prudência: Que se supõe por esta palavra, salvo?
José: Que o homem, pelo pecado, se lançou a si mesmo num estado de cativeiro e miséria.
Prudência: Que se supõe pelo ser ele salvo pela Trindade?
José: Que o pecado é um tirano tão grande e poderoso que ninguém pode arrancar-nos das suas garras senão Deus; e que Deus é tão bom e amoroso para com o homem, que deveras o arranca deste estado miserável.
Prudência: Qual é o desígnio de Deus em salvar os pobres homens?
José: A glorificação do seu nome, da sua graça e justiça, etc., e a felicidade eterna da sua criatura.
Prudência: Quem são os que serão salvos?
José: Os que aceitam a sua salvação.
Prudência: Bom menino, José; a tua mãe te ensinou bem, e tu deste ouvidos ao que ela te disse.
Então disse Prudência a Samuel, que era o segundo mais velho,
Prudência: Vem, Samuel, estás disposto a que eu te catequize?
Samuel: Sim, em verdade, se te aprouver.
Prudência: Que é o céu?
Samuel: Um lugar e estado bem-aventuradíssimo, porque Deus ali habita.
Prudência: Que é o inferno?
Samuel: Um lugar e estado deploradíssimo, porque é a morada do pecado, do diabo e da morte.
Prudência: Por que quererias ir para o céu?
Samuel: Para que eu veja a Deus, e o sirva sem cansaço; para que eu veja a Cristo, e o ame eternamente; para que eu tenha em mim aquela plenitude do Espírito Santo que de modo nenhum posso aqui desfrutar.
Prudência: Um menino muito bom, e que aprendeu bem.
Então dirigiu-se ao mais velho, cujo nome era Mateus; e disse-lhe: Vem, Mateus, hei de catequizar-te também?
Mateus: De muito boa vontade.
Prudência: Pergunto, então, se houve alguma vez algo que tivesse existência anterior a, ou antes de, Deus?
Mateus: Não, pois Deus é eterno; nem há coisa alguma, exceto ele mesmo, que tivesse existência até o princípio do primeiro dia. Pois em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar, e tudo o que neles há.
Prudência: Que pensas da Bíblia?
Mateus: É a santa palavra de Deus.
Prudência: Não há nada escrito nela senão o que entendes?
Mateus: Sim, e muito.
Prudência: Que fazes quando encontras nela passagens que não entendes?
Mateus: Penso que Deus é mais sábio do que eu. Oro também para que se digne dar-me a conhecer nela tudo o que ele sabe que será para o meu bem.
Prudência: Que crês a respeito da ressurreição dos mortos?
Mateus: Creio que ressuscitarão os mesmos que foram sepultados; os mesmos em natureza, ainda que não em corrupção. E creio nisto por dupla razão: primeiro, porque Deus o prometeu; segundo, porque ele é poderoso para o cumprir.
Então disse Prudência aos meninos: Deveis ainda dar ouvidos à vossa mãe; pois ela pode ensinar-vos mais. Deveis também prestar diligente atenção às boas palavras que ouvirdes de outros: é por amor de vós que eles falam boas coisas. Observai também, e com cuidado, o que os céus e a terra vos ensinam; mas sobretudo detende-vos muito na meditação daquele livro que foi a causa de vosso pai ter-se tornado peregrino. Eu, de minha parte, meus filhos, vos ensinarei o que puder enquanto aqui estiverdes, e me alegrarei se me fizerdes perguntas que conduzam à edificação piedosa.
Ora, quando estes peregrinos já haviam estado neste lugar uma semana, Misericórdia teve um visitante que fingia certa boa-vontade para com ela, e o seu nome era Sr. Vivaz; homem de alguma educação, e que se fazia de religioso, mas homem que se apegava muito ao mundo. Veio ele, pois, uma vez ou duas, ou mais, a Misericórdia, e ofereceu-lhe o seu amor. Ora, Misericórdia era de belo semblante, e por isso ainda mais atraente.
O seu espírito era também de estar sempre ocupada em fazer algo; pois, quando não tinha nada que fazer para si mesma, punha-se a fazer meias e vestes para outros, e as dava aos que tinham necessidade. E o Sr. Vivaz, não sabendo onde nem como ela dispunha do que fazia, parecia grandemente encantado, por a encontrar nunca ociosa. Hei de garantir que é boa dona de casa, disse consigo mesmo.
Misericórdia então revelou o caso às donzelas que eram da casa, e indagou delas a respeito dele, pois o conheciam melhor do que ela. E disseram-lhe que era um moço muito diligente, e que se fazia de religioso, mas que era, segundo temiam, estranho ao poder daquilo que é bom.
Pois então, disse Misericórdia, não olharei mais para ele; pois proponho-me a nunca ter um estorvo para a minha alma.
Prudência então respondeu que não era preciso dar-lhe grande desânimo; o continuar ela assim como começara a fazer pelos pobres logo esfriaria o seu ardor.
Assim, da próxima vez que veio, encontrou-a em seu antigo trabalho, fazendo coisas para os pobres. Então disse ele: Como, sempre nisto? Sim, disse ela, ou para mim ou para outros. E quanto podes ganhar por dia? disse ele. Faço estas coisas, disse ela, para ser rica em boas obras, entesourando para mim mesma um bom fundamento para o tempo futuro, para lançar mão da vida eterna. 1 Timóteo 6:17-19. Ora, rogo-te, que fazes com elas? disse ele. Visto os nus, disse ela. Com isto lhe caiu o semblante. E deixou de tornar a procurá-la. E, quando lhe perguntaram a razão, disse que Misericórdia era uma moça bonita, mas atormentada de más disposições.
Quando ele a deixou, disse Prudência: Não te disse eu que o Sr. Vivaz logo te abandonaria? Sim, e há de levantar um mau boato a teu respeito; pois, apesar da sua pretensão de religião, e do seu aparente amor a Misericórdia, contudo Misericórdia e ele são de índoles tão diferentes que creio que jamais se unirão.
Misericórdia: Poderia eu ter tido maridos antes de agora, embora nada disso falasse a ninguém; mas eram tais que não gostavam das minhas disposições, ainda que nenhum deles jamais achasse falta na minha pessoa. Assim, eles e eu não pudemos concordar.
Prudência: A misericórdia, em nossos dias, pouco é estimada além do seu nome: a prática que é manifesta nas tuas disposições, poucos há que a possam suportar.
Misericórdia: Pois bem, disse Misericórdia, se ninguém me quiser, morrerei solteira, ou as minhas disposições me servirão de marido: pois não posso mudar a minha natureza; e ter alguém que a mim se oponha nisto, proponho-me a nunca admitir enquanto viver. Tive uma irmã chamada Generosa, que se casou com um destes grosseiros, mas ele e ela nunca puderam concordar; e, porque a minha irmã estava resolvida a fazer como começara, isto é, a mostrar bondade aos pobres, por isso o marido primeiro a denunciou publicamente na praça, e depois a expulsou de sua casa.
Prudência: E, contudo, era ele um que fazia profissão de fé, garanto?
Misericórdia: Sim, um tal como ele era, e de tais como ele está o mundo agora cheio: mas não sou para nenhum deles.
Ora, Mateus, o filho mais velho de Cristã, adoeceu, e a sua enfermidade lhe era penosa, pois sentia muitas dores nas entranhas, de modo que às vezes era como que repuxado por ambas as extremidades ao mesmo tempo. Habitava também, não longe dali, um tal Sr. Perícia, médico antigo e mui aprovado. Assim, Cristã o desejou, e ele entrou no quarto, e, tendo observado um pouco o menino, concluiu que padecia de cólicas. Então disse à mãe: De que dieta se tem Mateus alimentado ultimamente? Dieta! disse Cristã, de nada senão do que é saudável. Respondeu o médico: Este menino andou mexendo em alguma coisa que lhe jaz no estômago sem digerir, e que não sairá sem remédio. E digo-te que ele há de ser purgado, ou então morrerá.
Samuel: Então disse Samuel: Mãe, que foi aquilo que o meu irmão apanhou e comeu, logo que chegamos da porta que está no começo deste caminho? Sabes que havia um pomar à mão esquerda, do outro lado do muro, e alguns dos ramos das árvores pendiam por cima do muro, e o meu irmão colheu e comeu.
Cristã: É verdade, meu filho, disse Cristã, ele tomou dele, e comeu: menino travesso como era, repreendi-o, e contudo ele quis comer daquilo.
Sr. Perícia: Bem sabia eu que ele havia comido algo que não era alimento saudável; e esse alimento, a saber, aquele fruto, é justamente o mais nocivo de todos. É o fruto do pomar de Belzebu. Admiro-me de que ninguém vos tenha advertido disso; muitos morreram por causa dele.
Cristã: Então Cristã começou a chorar; e disse: Oh, menino travesso! e oh, mãe descuidada! que farei pelo meu filho?
Sr. Perícia: Vamos, não te abatas demais; o menino pode ainda ficar bom, mas há de purgar e vomitar.
Cristã: Rogo-te, senhor, emprega com ele o máximo da tua perícia, custe o que custar.
Sr. Perícia: Não, espero ser razoável. Preparou-lhe, pois, uma purga, mas era demasiado fraca; dizia-se que era feita do sangue de um bode, das cinzas de uma novilha, e de um pouco do sumo de hissopo. Hebreus 9:13,19; 10:1-4. Quando o Sr. Perícia viu que aquela purga era fraca demais, preparou uma eficaz. Era feita ex carne et sanguine Christi (bem sabes que os médicos dão estranhos remédios aos seus doentes); e foi feita em pílulas, com uma promessa ou duas, e uma quantidade proporcional de sal. Marcos 9:49. Ora, devia tomá-las três de cada vez, em jejum, em um oitavo de quartilho das lágrimas do arrependimento. Zacarias 12:10.
Quando esta poção foi preparada, e trazida ao menino, relutava ele em tomá-la, embora dilacerado pelas cólicas como se fosse feito em pedaços. Vamos, vamos, disse o médico, deves tomá-la. Repugna ao meu estômago, disse o menino. Hei de fazer que a tomes, disse a mãe. Tornarei a vomitá-la, disse o menino. Rogo-te, senhor, disse Cristã ao Sr. Perícia, que gosto tem ela? Não tem mau gosto, disse o médico; e com isto ela tocou uma das pílulas com a ponta da língua. Oh, Mateus, disse ela, esta poção é mais doce do que o mel. Se amas a tua mãe, se amas os teus irmãos, se amas a Misericórdia, se amas a tua vida, toma-a. Assim, com muito custo, depois de uma breve oração pela bênção de Deus sobre ela, tomou-a, e ela lhe fez efeito benigno. Fê-lo purgar; fê-lo dormir, e repousar sossegado; pô-lo num bom calor e num suor de transpiração, e livrou-o de todo das suas cólicas. Assim, em pouco tempo levantou-se, e andava com um bordão, e ia de quarto em quarto, e conversava com Prudência, Piedade e Caridade, sobre a sua enfermidade, e sobre como fora curado.
Assim, quando o menino ficou curado, Cristã perguntou ao Sr. Perícia, dizendo: Senhor, com que ficarás contente pelo teu trabalho e cuidado para com o meu filho? E ele disse: Deves pagar ao mestre do Colégio dos Médicos, Hebreus 13:11-15, segundo as regras feitas e estabelecidas para tal caso.
Cristã: Mas, senhor, disse ela, para que mais serve esta pílula?
Sr. Perícia: É uma pílula universal; é boa contra todas as doenças a que os peregrinos estão sujeitos; e, quando bem preparada, conserva-se boa por tempo imemorial.
Cristã: Rogo-te, senhor, prepara-me doze caixas delas; pois, se puder obtê-las, nunca tomarei outro remédio.
Sr. Perícia: Estas pílulas são boas para prevenir doenças, bem como para curar quando alguém está enfermo. Sim, ouso dizê-lo, e sustentá-lo, que, se um homem apenas usar este remédio como deve, ele o fará viver para sempre. João 6:51. Mas, boa Cristã, não deves dar estas pílulas de outro modo senão como as prescrevi; pois, se o fizeres, de nada aproveitarão. Assim deu a Cristã remédio para si mesma, e para os seus meninos, e para Misericórdia; e recomendou a Mateus que tomasse cuidado em não comer mais ameixas verdes; e beijou-os, e seguiu o seu caminho.
Foi dito anteriormente que Prudência recomendara aos meninos que, se em algum momento o quisessem, lhe fizessem algumas perguntas que fossem proveitosas, e ela lhes diria algo.
Mateus: Então Mateus, que estivera doente, perguntou-lhe por que o remédio, na maior parte das vezes, há de ser amargo ao nosso paladar.
Prudência: Para mostrar quão indesejáveis são a palavra de Deus e os seus efeitos a um coração carnal.
Mateus: Por que o remédio, se faz bem, purga, e faz vomitar?
Prudência: Para mostrar que a palavra, quando opera eficazmente, purifica o coração e a mente. Pois vê: o que um faz ao corpo, o outro faz à alma.
Mateus: Que devemos aprender ao ver a chama do nosso fogo subir para cima, e ao ver os raios e as doces influências do sol descerem para baixo?
Prudência: Pela subida do fogo, somos ensinados a ascender ao céu por meio de desejos fervorosos e ardentes. E pelo sol, que envia para baixo o seu calor, os seus raios e as suas doces influências, somos ensinados que o Salvador do mundo, ainda que nas alturas, se abaixa com a sua graça e o seu amor até nós, cá embaixo.
Mateus: De onde tiram as nuvens a sua água?
Prudência: Do mar.
Mateus: Que podemos aprender disso?
Prudência: Que os ministros devem buscar em Deus a sua doutrina.
Mateus: Por que se esvaziam elas sobre a terra?
Prudência: Para mostrar que os ministros devem transmitir ao mundo o que sabem de Deus.
Mateus: Por que o arco-íris é causado pelo sol?
Prudência: Para mostrar que a aliança da graça de Deus nos é confirmada em Cristo.
Mateus: Por que as fontes vêm do mar até nós através da terra?
Prudência: Para mostrar que a graça de Deus vem a nós através do corpo de Cristo.
Mateus: Por que algumas das fontes brotam do cimo de altos montes?
Prudência: Para mostrar que o Espírito da graça há de brotar em alguns que são grandes e poderosos, tanto como em muitos que são pobres e humildes.
Mateus: Por que o fogo se prende ao pavio da vela?
Prudência: Para mostrar que, se a graça não se acender no coração, não haverá em nós verdadeira luz de vida.
Mateus: Por que o pavio, e o sebo, e tudo, se consomem para manter a luz da vela?
Prudência: Para mostrar que o corpo e a alma, e tudo, devem estar a serviço de, e consumir-se para manter em bom estado, aquela graça de Deus que há em nós.
Mateus: Por que o pelicano trespassa o próprio peito com o bico?
Prudência: Para nutrir os seus filhotes com o seu sangue, e assim mostrar que Cristo, o bendito, de tal modo amou os seus pequenos (o seu povo), que os salvou da morte pelo seu sangue.
Mateus: Que se pode aprender ao ouvir o galo cantar?
Prudência: Aprende a lembrar-te do pecado de Pedro, e do arrependimento de Pedro. O canto do galo mostra também que o dia se aproxima: que o cantar do galo te faça, pois, lembrar daquele último e terrível dia do juízo.
Ora, por este tempo terminava o seu mês; pelo que deram a entender aos da casa que lhes convinha erguer-se e partir. Então disse José à mãe: Convém que não te esqueças de mandar recado à casa do Sr. Intérprete, para rogar-lhe que conceda que o Sr. Grande-Coração seja enviado a nós, para que seja o nosso condutor pelo resto do caminho. Bom menino, disse ela, quase me esquecera. Redigiu, pois, uma petição, e rogou ao Sr. Vigilante, o porteiro, que a mandasse por algum homem idôneo ao seu bom amigo, o Sr. Intérprete; o qual, quando ela chegou, e ele viu o teor da petição, disse ao mensageiro: Vai, dize-lhes que eu o enviarei.
Quando a família onde Cristã estava viu que tinham o propósito de seguir adiante, reuniram toda a casa, para darem graças ao seu Rei por lhes ter enviado hóspedes tão proveitosos como estes. Feito isto, disseram a Cristã: E não te mostraremos algo, como é nosso costume fazer aos peregrinos, sobre o qual possas meditar quando estiveres a caminho? Levaram, pois, Cristã, os seus filhos, e Misericórdia, ao gabinete, e mostraram-lhes uma das maçãs de que Eva comeu, e que também deu ao seu marido, e por comerem a qual foram ambos expulsos do paraíso; e perguntaram-lhe o que julgava que fosse aquilo. Então disse Cristã: É alimento ou veneno, não sei qual. Então lhe explicaram o assunto, e ela ergueu as mãos e se maravilhou. Gênesis 3:6; Romanos 7:24.
Então a levaram a um lugar, e mostraram-lhe a escada de Jacó. Gênesis 28:12. Ora, naquele momento havia alguns anjos que subiam por ela. Cristã olhou e tornou a olhar para ver os anjos subirem; e o mesmo fez o restante da companhia. Então iam a outro lugar, para lhes mostrar outra coisa; mas Tiago disse à mãe: Rogo-te, pede-lhes que fiquem aqui um pouco mais, pois esta é uma visão curiosa. Voltaram, pois, de novo, e ficaram deliciando os olhos com tão aprazível panorama.
Depois disto, os levaram a um lugar onde pendia uma âncora de ouro. Então mandaram que Cristã a tirasse dali; pois, disseram, hás de levá-la contigo, porque te é de absoluta necessidade, para que te possas segurar naquilo que está dentro do véu, Hebreus 6:19, e permaneças firme, caso venhas a encontrar tempo tormentoso, Joel 3:16: com o que muito se alegraram.
Então os tomaram, e os levaram ao monte sobre o qual Abraão, nosso pai, ofereceu Isaque, seu filho, e mostraram-lhes o altar, a lenha, o fogo, e a faca, pois permanecem para serem vistos até o dia de hoje. Gênesis 22:9. Quando o viram, ergueram as mãos, e se benzeram, e disseram: Oh, que homem, em amor ao seu Senhor, e em renúncia de si mesmo, foi Abraão!
Depois de lhes terem mostrado todas estas coisas, Prudência os levou a uma sala de jantar, onde havia um excelente par de virginais; e ela os tocou, e transformou o que lhes mostrara nesta excelente canção, dizendo:
“A maçã de Eva vos mostramos;
Disso ficai avisados:
Também vistes a escada de Jacó,
Sobre a qual estão os anjos.
Uma âncora recebestes;
Mas não vos baste isto,
Até que, com Abraão, tenhais dado
O vosso melhor, em sacrifício.”
Ora, por este tempo, alguém bateu à porta; então o Porteiro abriu, e eis que ali estava o Sr. Grande-Coração. Mas, quando ele entrou, que alegria houve! pois lhes tornou agora de novo à memória como, havia pouco, ele matara o velho Sombrio, o Homem-Sanguinário, o gigante, e os livrara dos leões.
Então disse o Sr. Grande-Coração a Cristã e a Misericórdia: O meu Senhor enviou a cada uma de vós um frasco de vinho, e também um pouco de grão torrado, juntamente com um par de romãs; enviou também aos meninos alguns figos e passas; para vos refrescar no caminho.
Então dispuseram-se para a sua jornada, e Prudência e Piedade foram com eles. Quando chegaram à porta, Cristã perguntou ao Porteiro se alguém passara ultimamente. Ele disse: Não; somente um, há algum tempo, que também me contou que ultimamente houvera um grande roubo cometido na estrada do Rei, por onde se vai. Mas, disse ele, os ladrões estão presos, e em breve serão julgados por suas vidas. Então Cristã e Misericórdia tiveram medo; mas Mateus disse: Mãe, nada temas, enquanto o Sr. Grande-Coração for conosco, e for o nosso condutor.
Então disse Cristã ao Porteiro: Senhor, muito te fico devendo por todas as bondades que me mostraste desde que aqui cheguei; e também por teres sido tão amoroso e bondoso para com os meus filhos. Não sei como retribuir a tua bondade; pelo que, rogo-te, como sinal do meu respeito por ti, aceita esta pequena dádiva. E colocou-lhe na mão um anjo de ouro; e ele lhe fez uma profunda reverência, e disse: “Sejam sempre alvas as tuas vestes, e nunca falte o óleo sobre a tua cabeça.” Eclesiastes 9:8. Viva Misericórdia, e não morra, e não sejam poucas as suas obras. Deuteronômio 33:6. E aos meninos disse: Fugi das paixões da mocidade, e segui a piedade com os que são sérios e sábios, 2 Timóteo 2:22: assim poreis alegria no coração de vossa mãe, e obtereis o louvor de todos os que têm mente sóbria. Então agradeceram ao Porteiro, e partiram.
Capítulo 18 concluído
A Quarta Etapa