O Peregrino
A Décima Etapa

Capítulo 11 · 23 min de leitura

A Décima Etapa

Então Cristão dirigiu-se assim ao seu companheiro:

Cristão: Pois bem, vem, meu bom Esperançoso, vejo que eu e tu havemos de caminhar sozinhos outra vez.

Vi então em meu sonho que eles seguiram adiante a passos rápidos, e Ignorância vinha coxeando atrás. Disse então Cristão ao seu companheiro: Tenho grande pena deste pobre homem; certamente as coisas acabarão mal para ele.

Esperançoso: Ai! há grande número em nossa cidade na mesma condição, famílias inteiras, sim, ruas inteiras, e isso também de peregrinos; e se há tantos em nossas partes, quantos, imaginas tu, haverá no lugar onde ele nasceu?

Cristão: Deveras, a palavra diz: “Cegou-lhes os olhos, para que não vejam”, etc.

Mas, agora que estamos a sós, que pensas de tais homens? Não terão eles, em tempo algum, imaginas tu, convicções do pecado e, por consequência, temores de que o seu estado é perigoso?

Esperançoso: Não; responde tu mesmo a essa pergunta, pois és o mais velho.

Cristão: Digo, então, que às vezes (segundo penso) podem tê-los; mas, sendo naturalmente ignorantes, não compreendem que tais convicções tendem para o seu bem; e por isso procuram desesperadamente sufocá-las, e presunçosamente continuam a lisonjear-se a si mesmos no caminho do seu próprio coração.

Esperançoso: Creio, como dizes, que o temor tende muito para o bem dos homens, e para os endireitar no seu começo, ao empreenderem a peregrinação.

Cristão: Sem dúvida alguma, se for reto; pois assim diz a palavra: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria.” Jó 28:28; Salmos 111:10; Provérbios 1:7; 9:10.

Esperançoso: Como descreverás o temor reto?

Cristão: O temor verdadeiro, ou reto, revela-se por três coisas:

1. Pela sua origem: é causado por convicções salvadoras do pecado.

2. Impele a alma a lançar mão firmemente de Cristo para a salvação.

3. Gera e conserva na alma uma grande reverência para com Deus, a sua palavra e os seus caminhos; mantendo-a sensível, e fazendo-a temer desviar-se deles, para a direita ou para a esquerda, para qualquer coisa que possa desonrar a Deus, quebrar a sua paz, entristecer o Espírito, ou dar ao inimigo ocasião de falar com desprezo.

Esperançoso: Bem dito; creio que disseste a verdade. Estamos agora quase a atravessar a Terra Encantada?

Cristão: Por quê? Estás cansado desta conversa?

Esperançoso: Não, em verdade; é só que eu gostaria de saber onde estamos.

Cristão: Não temos agora mais que umas duas milhas a percorrer sobre ela. Mas voltemos ao nosso assunto.

Ora, os ignorantes não sabem que tais convicções, que tendem a lançá-los em temor, são para o seu bem, e por isso procuram sufocá-las.

Esperançoso: De que modo procuram sufocá-las?

Cristão: 1. Pensam que esses temores são obra do diabo (quando na verdade são obra de Deus) e, pensando assim, resistem-lhes, como a coisas que tendem diretamente para a sua ruína. 2. Pensam também que esses temores tendem a arruinar a sua fé; quando, ai deles, pobres homens que são, não têm fé nenhuma; e por isso endurecem o coração contra eles. 3. Presumem que não devem temer, e por isso, a despeito deles, tornam-se presunçosamente confiantes. 4. Veem que esses temores tendem a tirar-lhes a sua lastimável e velha santidade própria, e por isso resistem-lhes com toda a sua força.

Esperançoso: Algo disto conheço em mim mesmo; pois, antes de eu me conhecer, assim se passava comigo.

Cristão: Pois bem, deixemos, por ora, o nosso vizinho Ignorância a sós, e passemos a outra questão proveitosa.

Esperançoso: De todo o coração; mas serás tu ainda a começar.

Cristão: Pois bem, não conheceste, há uns dez anos, um tal Temporário nas tuas partes, que era então homem adiantado na religião?

Esperançoso: Se o conheci! Sim; morava em Sem-Graça, uma cidade a umas duas milhas de Honestidade, e vivia porta a porta com um tal Volta-Atrás.

Cristão: Exato; morava sob o mesmo teto com ele. Pois bem, aquele homem esteve certa vez muito despertado: creio que então teve alguma visão dos seus pecados, e do salário que a eles era devido.

Esperançoso: Sou do teu parecer, pois (não ficando a minha casa a mais de três milhas dele) ele vinha ter comigo muitas vezes, e isso com muitas lágrimas. Verdadeiramente eu tinha pena do homem, e não estava de todo sem esperança a seu respeito; mas bem se vê que não é todo o que clama: “Senhor, Senhor!”

Cristão: Disse-me certa vez que estava resolvido a empreender a peregrinação, como nós agora fazemos; mas, de repente, travou conhecimento com um tal Salva-a-Si-Mesmo, e então tornou-se um estranho para mim.

Esperançoso: Ora, já que falamos dele, indaguemos um pouco a razão da súbita apostasia dele e de outros semelhantes.

Cristão: Pode ser muito proveitoso; mas começa tu.

Esperançoso: Pois bem, há, em meu juízo, quatro razões para isso:

1. Embora a consciência de tais homens seja despertada, a sua mente não se muda; por isso, quando o poder da culpa se desvanece, cessa aquilo que os incitava a ser religiosos; pelo que naturalmente voltam ao seu próprio caminho outra vez; assim como vemos o cão que adoece por causa do que comeu: enquanto perdura o seu mal, vomita e lança fora tudo; não que faça isso de livre vontade (se é que se pode dizer que um cão tem vontade), mas porque lhe perturba o estômago; ora, passado o seu mal, e aliviado assim o estômago, não estando os seus desejos de modo algum apartados do seu vômito, volta-se e lambe tudo; e assim é verdadeiro o que está escrito: “O cão voltou ao seu próprio vômito.” 2 Pedro 2:22. Deste modo, digo eu, estando eles inflamados pelo céu unicamente em virtude da sensação e do temor dos tormentos do inferno, à medida que a sua sensação e o seu temor da condenação esfriam e arrefecem, esfriam também os seus desejos do céu e da salvação. Assim, pois, acontece que, quando a sua culpa e o seu temor se vão, morrem os seus desejos do céu e da felicidade, e voltam ao seu caminho outra vez.

2. Outra razão é que têm temores servis que os dominam: falo agora dos temores que têm dos homens; “Porque o temor do homem armará laços.” Provérbios 29:25. Assim, pois, ainda que pareçam inflamados pelo céu enquanto as chamas do inferno lhes zumbem aos ouvidos, contudo, passado um pouco aquele terror, entregam-se a segundas reflexões, a saber, que é bom ser prudente e não correr (por não sabem o quê) o risco de perder tudo, ou ao menos de se meterem em atribulações inevitáveis e desnecessárias; e assim se ajustam de novo com o mundo.

3. A vergonha que acompanha a religião também se lhes põe como um obstáculo no caminho: são soberbos e altivos, e a religião, a seus olhos, é baixa e desprezível; por isso, quando perdem o senso do inferno e da ira vindoura, tornam de novo ao seu antigo caminho.

4. A culpa, e o meditar no terror, são-lhes penosos; não gostam de ver a sua miséria antes de nela caírem; embora talvez a sua visão, à primeira vista, se a amassem, os pudesse fazer fugir para onde fogem os justos e estão seguros; mas, porque eles, como já insinuei, chegam a fugir dos pensamentos de culpa e de terror, por isso, uma vez livres dos seus despertamentos acerca dos terrores e da ira de Deus, de bom grado endurecem o coração, e escolhem os caminhos que os hão de endurecer cada vez mais.

Cristão: Chegaste bem perto do essencial, pois o fundo de tudo é a falta de uma mudança na mente e na vontade deles. E por isso não passam de ser como o criminoso que está diante do juiz: estremece e treme, e parece arrepender-se do fundo do coração, mas o fundo de tudo é o medo da forca; não que tenha ele qualquer horror ao delito, como é evidente; porque, dai apenas liberdade a este homem, e ele continuará sendo um ladrão, e assim um malfeitor ainda; ao passo que, se a sua mente fosse mudada, seria de outro modo.

Esperançoso: Agora que te mostrei a razão da sua recaída, mostra-me tu a maneira dela.

Cristão: Assim farei de boa vontade.

1. Desviam os seus pensamentos, tanto quanto podem, da lembrança de Deus, da morte e do juízo vindouro.

2. Depois lançam fora, aos poucos, os deveres particulares, como a oração no recolhimento, o refrear das suas paixões, a vigilância, a tristeza pelo pecado, e coisas semelhantes.

3. Depois fogem da companhia dos cristãos vivos e fervorosos.

4. Em seguida, esfriam para com os deveres públicos, como ouvir, ler, a conferência piedosa, e coisas semelhantes.

5. Começam então a apontar falhas, como se costuma dizer, nas vestes de alguns dos piedosos, e isso diabolicamente, para que tenham um pretexto aparente de atirar a religião (por causa de algumas fraquezas que neles descobriram) para trás das costas.

6. Depois começam a apegar-se, e a associar-se, a homens carnais, dissolutos e devassos.

7. Depois dão lugar, em segredo, a conversas carnais e devassas; e alegram-se se podem ver tais coisas em algum que é tido por honesto, para que, pelo exemplo dele, o façam com mais ousadia.

8. Depois disto começam a brincar abertamente com pequenos pecados.

9. E então, endurecidos, mostram-se tais como são. Assim, lançados de novo no abismo da miséria, a menos que um milagre de graça o impeça, perecem eternamente nos seus próprios enganos.

Vi então em meu sonho que, a esta altura, os peregrinos já haviam atravessado a Terra Encantada, e entravam no país de Beulá, cujo ar era mui suave e aprazível, Isaías 62:4-12; Cânticos 2:10-12; e, correndo o caminho diretamente por ele, ali se recrearam por algum tempo. Sim, aqui ouviam continuamente o cantar das aves, e viam todos os dias as flores brotarem na terra, e ouviam a voz da rola pela terra. Neste país o sol brilha noite e dia; pelo que este ficava para além do Vale da Sombra da Morte, e também fora do alcance do Gigante Desespero; nem sequer podiam eles, deste lugar, avistar o Castelo da Dúvida. Aqui estavam à vista da cidade para onde iam; também aqui vieram ao seu encontro alguns dos seus habitantes; pois nesta terra os seres resplandecentes andavam comumente, porque ela ficava nas fronteiras do céu. Nesta terra também se renovava o pacto entre a Noiva e o Noivo; sim, aqui, “como o noivo se alegra da noiva, assim se alegra Deus com eles.” Aqui não lhes faltavam trigo e vinho; pois neste lugar encontravam em abundância aquilo que haviam buscado em toda a sua peregrinação. Aqui ouviam vozes vindas da cidade, altas vozes, dizendo: “Dizei à filha de Sião: Eis que vem a tua salvação! Eis que o seu galardão está com ele!” Aqui todos os habitantes do país os chamavam “o povo santo, os remidos do Senhor, os Buscados”, etc.

Ora, ao caminharem por esta terra, tinham mais regozijo do que nas partes mais remotas do reino ao qual se dirigiam; e, aproximando-se da cidade, tiveram dela uma vista ainda mais perfeita: era edificada de pérolas e pedras preciosas, e as suas ruas eram pavimentadas de ouro; de modo que, por causa da glória natural da cidade, e do reflexo dos raios do sol sobre ela, Cristão adoeceu de desejo; Esperançoso teve também um ou dois acessos da mesma enfermidade; pelo que ali se deitaram por algum tempo, clamando por causa das suas dores: “Se encontrardes o meu amado, dizei-lhe que estou enferma de amor.”

Mas, tendo recobrado um pouco de forças, e podendo suportar melhor a sua enfermidade, seguiram o seu caminho, e chegaram cada vez mais perto, onde havia pomares, vinhas e jardins, e as suas portas abriam-se para a estrada. Ora, ao chegarem a esses lugares, eis que o jardineiro estava no caminho; ao qual os peregrinos disseram: De quem são estas belas vinhas e jardins? Ele respondeu: São do Rei, e estão aqui plantadas para o seu próprio deleite, e também para o recreio dos peregrinos. Então o jardineiro levou-os às vinhas, e mandou que se refrescassem com as iguarias, Deuteronômio 23:24; mostrou-lhes ali também as alamedas e caramanchões do Rei, onde ele se comprazia em estar; e aqui se demoraram e dormiram.

Ora, contemplei em meu sonho que eles, desta vez, falavam mais durante o sono do que jamais fizeram em toda a sua jornada; e, estando eu a meditar sobre isso, o jardineiro disse-me a mim mesmo: Por que meditas sobre esta coisa? É próprio do fruto das uvas destas vinhas “descer tão suavemente que faz falar os lábios dos que dormem.” Cânticos 7:9.

Vi então que, ao despertarem, dispuseram-se a subir à cidade. Mas, como disse, o reflexo do sol sobre a cidade (pois a cidade era de ouro puro, Apocalipse 21:18) era tão extremamente glorioso, que ainda não podiam contemplá-la de rosto descoberto, senão por meio de um instrumento feito para esse fim. 2 Coríntios 3:18. Vi então que, ao prosseguirem, vieram ao seu encontro dois homens em vestes que resplandeciam como ouro, e os seus rostos brilhavam como a luz.

Estes homens perguntaram aos peregrinos donde vinham; e eles lhes disseram. Perguntaram-lhes também onde se haviam hospedado, que dificuldades e perigos, que consolos e prazeres, haviam encontrado no caminho; e eles lhes disseram. Então os homens que os encontraram disseram: Tendes apenas mais duas dificuldades a enfrentar, e então estareis na Cidade.

Cristão, então, e o seu companheiro, pediram aos homens que fossem com eles; e eles disseram que iriam; Mas, disseram, deveis alcançá-lo pela vossa própria fé. Vi então em meu sonho que seguiram juntos até chegarem à vista da porta.

Vi ainda que, entre eles e a porta, havia um rio; mas não havia ponte para atravessar, e o rio era muito profundo. À vista, pois, deste rio, os peregrinos ficaram muito perturbados; mas os homens que iam com eles disseram: Deveis passar através dele, ou não podereis chegar à porta.

Os peregrinos começaram então a indagar se não havia outro caminho para a porta. Ao que responderam: Sim; mas a ninguém, exceto dois, a saber, Enoque e Elias, foi permitido trilhar aquela vereda desde a fundação do mundo, nem será permitido até que soe a última trombeta. Os peregrinos então, especialmente Cristão, começaram a desanimar em seu espírito, e olhavam para um lado e para outro, mas nenhum caminho puderam achar pelo qual escapassem do rio. Perguntaram então aos homens se as águas eram todas de uma mesma profundidade. Disseram: Não; contudo, não os podiam ajudar naquele caso; pois, disseram, achá-lo-eis mais fundo ou mais raso, conforme crerdes no Rei daquele lugar.

Então dispuseram-se a entrar na água e, ao entrarem, Cristão começou a afundar, e clamando ao seu bom amigo Esperançoso, disse: Afundo em águas profundas; as ondas passam por cima da minha cabeça; todas as suas vagas passam sobre mim. Selá.

Então disse o outro: Tem bom ânimo, meu irmão; sinto o fundo, e é firme. Disse então Cristão: Ah! meu amigo, as dores da morte me cercaram, não verei a terra que mana leite e mel. E com isto uma grande treva e horror caíram sobre Cristão, de modo que não conseguia ver diante de si. Também aqui perdeu em grande medida os sentidos, de sorte que não podia lembrar nem falar ordenadamente de nenhum daqueles doces alívios que encontrara no caminho da sua peregrinação. Mas todas as palavras que proferia tendiam ainda a revelar que tinha horror na mente, e temores no coração de que morreria naquele rio, e jamais alcançaria a entrada pela porta. Aqui também, como perceberam os que estavam ao lado, andava muito atormentado com os pensamentos dos pecados que cometera, tanto depois como antes de começar a ser peregrino. Observou-se também que era perturbado por aparições de duendes e espíritos malignos; pois de quando em quando dava a entender isso por palavras.

Esperançoso, pois, teve aqui grande trabalho para manter a cabeça do irmão acima da água; sim, às vezes ele afundava de todo, e depois, dali a pouco, tornava a subir meio morto. Esperançoso esforçava-se também por consolá-lo, dizendo: Irmão, vejo a porta, e homens de pé para nos receber; mas Cristão respondia: És tu, és tu que eles esperam; pois tens sido esperançoso desde que te conheci. E assim tens sido tu também, disse ele a Cristão. Ah, irmão (disse ele), certamente, se eu estivesse em ordem, ele agora se levantaria para me socorrer; mas, por causa dos meus pecados, ele me trouxe ao laço, e me deixou. Disse então Esperançoso: Meu irmão, esqueceste de todo o texto onde se diz dos ímpios: “Não há apertos na sua morte, mas firme está a sua força; não se acham em trabalhos como os outros homens, nem são afligidos como os outros homens.” Salmos 73:4,5. Estas atribulações e angústias por que passas nestas águas não são sinal de que Deus te abandonou; mas são enviadas para te provar, se hás de trazer à memória aquilo que outrora recebeste da sua bondade, e viver dele nas tuas angústias.

Vi então em meu sonho que Cristão ficou a meditar por algum tempo. Ao qual também Esperançoso acrescentou estas palavras: Tem bom ânimo; Jesus Cristo te sara. E com isto Cristão irrompeu em alta voz: Oh, vejo-o outra vez; e ele me diz: “Quando passares pelas águas, estarei contigo; e quando pelos rios, eles não te submergirão.” Isaías 43:2. Então ambos tomaram ânimo, e o inimigo, depois disso, ficou quieto como uma pedra, até que passaram para o outro lado. Cristão, pois, logo achou chão firme onde pôr os pés, e sucedeu assim que o resto do rio era apenas raso. Deste modo, atravessaram.

Ora, na margem do rio, do outro lado, tornaram a ver os dois homens resplandecentes, que ali os esperavam. Pelo que, tendo saído do rio, estes os saudaram, dizendo: Somos espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação. Assim seguiram em direção à porta.

Ora, deve-se notar que a cidade se erguia sobre um monte poderoso; mas os peregrinos subiram aquele monte com facilidade, porque tinham estes dois homens a conduzi-los pelos braços; haviam igualmente deixado as suas vestes mortais atrás de si, no rio; pois, ainda que nele entraram com elas, saíram sem elas. Subiram, pois, aqui com muita agilidade e rapidez, embora o fundamento sobre o qual a cidade fora edificada fosse mais alto que as nuvens; subiram, portanto, através da região do ar, conversando docemente enquanto iam, confortados por terem atravessado o rio em segurança, e por terem tão gloriosos companheiros a acompanhá-los.

A conversa que tiveram com os seres resplandecentes foi acerca da glória do lugar; os quais lhes disseram que a sua beleza e glória eram inexprimíveis. Ali, disseram eles, está “o monte Sião, a Jerusalém celestial, a inumerável companhia de anjos, e os espíritos dos justos aperfeiçoados.” Hebreus 12:22-24. Ides agora, disseram, ao paraíso de Deus, onde vereis a árvore da vida, e comereis dos seus frutos que jamais fenecem; e, quando ali chegardes, vos serão dadas vestes brancas, e o vosso andar e o vosso falar serão cada dia com o Rei, sim, por todos os dias da eternidade. Apocalipse 2:7; 3:4,5; 22:5. Ali não vereis mais tais coisas como as que vistes quando estáveis na região inferior sobre a terra; a saber, tristeza, enfermidade, aflição e morte; “porque as primeiras coisas já passaram.” Apocalipse 21:4. Ides agora ter com Abraão, com Isaque e Jacó, e com os profetas, homens que Deus tirou do mal que havia de vir, e que agora “descansam nas suas camas, cada um andando na sua retidão.” Perguntaram então os homens: Que havemos de fazer no lugar santo? Ao que se respondeu: Ali havereis de receber o consolo de toda a vossa fadiga, e ter alegria por toda a vossa tristeza; havereis de colher o que semeastes, isto é, o fruto de todas as vossas orações, e lágrimas, e sofrimentos pelo Rei ao longo do caminho. Gálatas 6:7,8. Naquele lugar havereis de usar coroas de ouro, e desfrutar da perpétua visão e contemplação do Santo; pois “ali o vereis assim como ele é.” 1 João 3:2. Ali também o servireis continuamente com louvor, com aclamações e ações de graças, a ele a quem desejastes servir no mundo, ainda que com muita dificuldade, por causa da fraqueza da vossa carne. Ali os vossos olhos se deleitarão em ver, e os vossos ouvidos em ouvir a agradável voz do Poderoso. Ali tornareis a gozar dos vossos amigos que para lá partiram antes de vós; e ali recebereis com alegria a cada um que vos seguir para o lugar santo depois de vós. Ali também sereis revestidos de glória e majestade, e postos em cortejo digno de sair a cavalgar com o Rei da Glória. Quando ele vier ao som da trombeta nas nuvens, como sobre as asas do vento, vireis com ele; e quando ele se assentar no trono do juízo, vos assentareis junto dele; sim, e quando ele proferir sentença sobre todos os obreiros da iniquidade, sejam anjos ou homens, também tereis voz naquele juízo, porque eles foram inimigos dele e vossos. Também, quando ele tornar de novo à cidade, ireis vós também ao som da trombeta, e estareis para sempre com ele. 1 Tessalonicenses 4:14-17; Judas 14,15; Daniel 7:9,10; 1 Coríntios 6:2,3.

Ora, enquanto assim se aproximavam da porta, eis que uma companhia do exército celestial saiu ao seu encontro; à qual foi dito pelos outros dois seres resplandecentes: Estes são os homens que amaram o nosso Senhor quando estavam no mundo, e que tudo deixaram pelo seu santo nome; e ele nos enviou para os buscar, e os trouxemos até aqui em sua desejada jornada, para que entrem e olhem o seu Redentor face a face com alegria. Então o exército celestial deu um grande brado, dizendo: “Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro.” Apocalipse 19:9. Vieram também, nesta ocasião, ao seu encontro, vários dos trombeteiros do Rei, vestidos de vestes brancas e resplandecentes, os quais, com ruídos melodiosos e altos, faziam até os céus ecoar com o seu som. Estes trombeteiros saudaram Cristão e o seu companheiro com dez mil boas-vindas do mundo; e isto fizeram com brados e som de trombeta.

Feito isto, cercaram-nos por todos os lados; uns iam adiante, outros atrás, e uns à mão direita, e outros à esquerda (como que para guardá-los através das regiões superiores), tocando continuamente enquanto iam, com ruído melodioso, em notas nas alturas; de modo que a própria visão era, para os que a podiam contemplar, como se o próprio céu tivesse descido ao seu encontro. Assim, pois, caminharam juntos; e, enquanto caminhavam, de quando em quando estes trombeteiros, com som jubiloso, mesclando a sua música com olhares e gestos, davam ainda a entender a Cristão e ao seu irmão quão bem-vindos eram à sua companhia, e com que alegria vinham ao seu encontro. E agora estavam estes dois homens como que no céu, antes de a ele chegarem, absortos com a visão dos anjos, e com o ouvir das suas notas melodiosas. Aqui também tinham à vista a própria cidade; e pareceu-lhes ouvir todos os sinos dela a repicar, para dar-lhes as boas-vindas. Mas, acima de tudo, os ardorosos e jubilosos pensamentos que tinham acerca da sua própria habitação ali, com tal companhia, e isso para todo o sempre; oh, por que língua ou pena se poderia exprimir a sua gloriosa alegria! Assim chegaram à porta.

Ora, quando chegaram à porta, havia sobre ela escrito, em letras de ouro,

“bem-aventurados os que cumprem os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas.”

Vi então em meu sonho que os homens resplandecentes lhes mandaram bater à porta; o que, tendo eles feito, alguns lá do alto olharam por cima da porta, a saber, Enoque, Moisés e Elias, etc., aos quais foi dito: Estes peregrinos vieram da Cidade da Destruição, pelo amor que têm ao Rei deste lugar; e então os peregrinos entregaram a eles, cada homem o seu certificado, que haviam recebido no princípio; estes, pois, foram levados ao Rei, o qual, tendo-os lido, disse: Onde estão os homens? Ao que se respondeu: Estão de pé fora da porta. Ordenou então o Rei que se abrisse a porta: “Para que entre (disse ele) a nação justa, que guarda a verdade.”

Isaías 26:2.

Vi então em meu sonho que estes dois homens entraram pela porta; e eis que, ao entrarem, foram transfigurados; e vestiram-se de vestes que resplandeciam como ouro. Havia também os que os receberam com harpas e coroas, e lhas deram; as harpas para com elas louvarem, e as coroas em sinal de honra. Ouvi então em meu sonho que todos os sinos da cidade repicaram de novo por alegria, e que lhes foi dito:

“entrai no gozo do vosso senhor.”

Ouvi também os próprios homens, que cantavam em alta voz, dizendo:

“ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre.”

Ora, no momento em que as portas se abriram para deixar entrar os homens, olhei para dentro após eles, e eis que a cidade brilhava como o sol; as ruas também eram pavimentadas de ouro; e por elas andavam muitos homens, com coroas nas cabeças, palmas nas mãos, e harpas de ouro, para com elas cantarem louvores.

Havia também entre eles os que tinham asas, e clamavam uns aos outros sem cessar, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor. E depois disso fecharam as portas; o que, tendo eu visto, desejei estar entre eles.

Ora, enquanto eu contemplava todas estas coisas, voltei a cabeça para olhar para trás, e vi Ignorância chegar à beira do rio; mas logo o atravessou, e isso sem metade da dificuldade que os outros dois homens encontraram. Pois aconteceu que havia então naquele lugar um tal Vã-Esperança, um barqueiro, que com o seu barco o ajudou a passar; assim ele, como o outro que vi, subiu o monte, para chegar à porta; apenas veio sozinho, nem homem algum o encontrou com o menor encorajamento. Quando chegou à porta, ergueu os olhos para a inscrição que estava por cima, e então começou a bater, supondo que a entrada lhe seria prontamente concedida; mas foi interrogado pelos homens que olhavam por cima do alto da porta: Donde vens? e que desejas? Ele respondeu: Comi e bebi na presença do Rei, e ele ensinou nas nossas ruas. Pediram-lhe então o seu certificado, para que entrassem e o mostrassem ao Rei; e ele remexeu no peito à procura de um, e não achou nenhum. Disseram então: Não tens nenhum? Mas o homem não respondeu palavra. Então disseram-no ao Rei, mas ele não quis descer para o ver; antes ordenou aos dois seres resplandecentes, que haviam conduzido Cristão e Esperançoso à cidade, que saíssem e prendessem Ignorância, e o atassem de pés e mãos, e o levassem dali. Então o tomaram, e o levaram pelos ares até a porta que vi no lado do monte, e o meteram ali dentro. Vi então que havia um caminho para o inferno, mesmo desde a porta do céu, como também desde a Cidade da Destruição. Assim despertei, e eis que era um sonho.

Capítulo 11 concluído

A Décima Etapa

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