A Necessidade da Oração
Oração e Importunação (Continuação)

Capítulo 8 · 9 min de leitura · 11 min de escuta

Oração e Importunação (Continuação)

“Dois terços das orações que fazemos são por aquilo que nos daria o maior prazer possível receber. É uma espécie de autoindulgência espiritual a que nos entregamos e, por consequência, é exatamente o oposto da autodisciplina. Deus sabe tudo isso e mantém os Seus filhos pedindo. Com o passar do tempo — o tempo dEle — as nossas petições assumem outro aspecto, e nós, outra abordagem espiritual. Deus nos mantém orando até que, em Sua sabedoria, Se digne responder. E, não importa quanto tempo leve até que Ele fale, ainda assim é muito antes do que temos o direito de esperar ou a esperança de merecer.” — ANÔNIMO.

O TEOR dos ensinamentos de Cristo é declarar que os homens devem orar com seriedade — orar com uma seriedade que não pode ser negada. O céu só tem ouvidos atentos para quem se entrega de todo o coração e com profunda seriedade. Energia, coragem e perseverança persistente devem sustentar as orações que o céu respeita e que Deus ouve. Todas essas qualidades da alma, tão essenciais à oração eficaz, aparecem na parábola do homem que foi pedir pão ao amigo à meia-noite. Esse homem saiu para a sua missão com confiança. A amizade lhe prometia sucesso. O seu pedido era urgente: na verdade, ele não podia voltar de mãos vazias. A recusa categórica o desgostou e o surpreendeu. Aqui até a amizade falhou! Mas ainda havia algo a tentar — uma resolução firme, uma determinação fixa e decidida. Ele ficaria e insistiria em seu pedido até que a porta fosse aberta e o pedido, concedido. Foi o que passou a fazer e, à força de importunação, conseguiu o que a solicitação comum não havia conseguido obter.

O êxito desse homem, alcançado diante de uma recusa categórica, foi usado pelo Salvador para ilustrar a necessidade da insistência na súplica diante do trono da graça celestial. Quando a resposta não é dada de imediato, o cristão que ora deve criar coragem a cada demora e avançar em urgência até que venha a resposta, que é certa, desde que ele tenha fé para insistir em sua petição com fé vigorosa.

A negligência, o desânimo, a impaciência e a timidez serão fatais para as nossas orações. À espera da investida da nossa importunação e insistência estão o coração do Pai, a mão do Pai, o poder infinito do Pai, a disposição infinita do Pai de ouvir os Seus filhos e de lhes dar.

A oração insistente é o movimento sincero e interior do coração em direção a Deus. É lançar toda a força do homem espiritual no exercício da oração. Isaías lamentou que ninguém se despertasse para se apegar a Deus. Orava-se muito no tempo de Isaías, mas era uma oração fácil demais, indiferente e acomodada. Não havia movimentos poderosos das almas em direção a Deus. Não havia uma mobilização de energias santificadas decididas a alcançar a Deus e a lutar com Ele, para tirar dEle os tesouros da Sua graça. Orações sem força não têm poder para vencer dificuldades, nem para obter resultados notáveis, nem para alcançar vitórias completas. Precisamos ganhar a Deus antes de podermos ganhar a nossa causa.

Isaías olhava com olhos de esperança para o dia em que a religião floresceria, em que haveria tempos de verdadeira oração. Quando esses tempos chegassem, as sentinelas não afrouxariam a sua vigilância, mas clamariam dia e noite, e os que faziam o Senhor lembrar não Lhe dariam descanso. Os seus esforços urgentes e persistentes manteriam todos os interesses espirituais em movimento e fariam saques cada vez maiores dos tesouros inesgotáveis de Deus.

A oração insistente nunca desfalece nem se cansa; nunca desanima; nunca cede à covardia, mas é animada e sustentada por uma esperança que não conhece desespero e por uma fé que não larga. A oração insistente tem paciência para esperar e força para continuar. Nunca se prepara para parar de orar e se recusa a levantar-se dos joelhos até receber uma resposta.

As palavras conhecidas, e ainda assim animadoras, daquele grande missionário, Adoniram Judson, são o testemunho de um homem que era insistente na oração. Ele diz:

“Nunca me interessei profundamente por algum objetivo, nunca orei sincera e ardentemente por ele, sem que ele viesse em algum momento, por mais distante que fosse o dia. De algum modo, de alguma forma, provavelmente a última que eu teria imaginado, ele veio.”

“Peçam, e lhes será dado. Busquem, e encontrarão. Batam, e lhes será aberto.” Esses são os desafios vibrantes de nosso Senhor a respeito da oração, e a Sua indicação de que a verdadeira oração precisa persistir e avançar em esforço e urgência até que a oração seja respondida e a bênção buscada, recebida.

Nas três palavras pedir, buscar, bater, na ordem em que as coloca, Jesus insiste na necessidade da importunação na oração. Pedir, buscar e bater são degraus ascendentes na escada da oração bem-sucedida. Nenhum princípio é imposto por Cristo de forma mais definida do que este: a oração que prevalece precisa ter em si a qualidade que espera e persevera, a coragem que nunca se rende, a paciência que nunca se cansa, a resolução que nunca vacila.

Na parábola que precede a do Amigo à Meia-Noite, esboça-se uma lição muito significativa e instrutiva a esse respeito. Coragem indomável, pertinácia incessante, firmeza de propósito: são as principais entre as qualidades incluídas na avaliação que Cristo faz da forma mais elevada e bem-sucedida de oração.

A importunação é feita de intensidade, perseverança, paciência e persistência. A aparente demora na resposta à oração é o fundamento e a exigência da importunação. No primeiro caso registrado de um milagre realizado em alguém que era cego, conforme o relata Mateus, temos uma ilustração da maneira como nosso Senhor parecia não atender de imediato aos que O buscavam. Mas os dois cegos continuam clamando e O seguem com a sua petição contínua, dizendo: “Tem misericórdia de nós, Filho de Davi!” Mas Ele não lhes respondeu e entrou na casa. Ainda assim os necessitados O seguiram e, por fim, obtiveram a vista e o seu pedido.

O caso do cego Bartimeu é notável de muitas maneiras. É especialmente notável pela demonstração de persistência que esse cego mostrou ao apelar a nosso Senhor. Se — como parece — o seu primeiro clamor foi feito quando Jesus entrava em Jericó, e ele continuou clamando até que Jesus saísse do lugar, a ilustração é ainda mais forte da necessidade da oração insistente e do êxito que chega aos que apostam tudo em Cristo e não Lhe dão sossego até que Ele lhes conceda o desejo do coração.

Marcos coloca o episódio inteiro diante de nós de forma vívida. A princípio, Jesus parece não ouvir. A multidão repreende o clamor barulhento de Bartimeu. Apesar da aparente indiferença de nosso Senhor, porém, e apesar da repreensão de uma multidão impaciente e irritadiça, o mendigo cego continua clamando, e clama cada vez mais alto, até que Jesus é impressionado e movido. Por fim, tanto a multidão quanto Jesus dão ouvidos ao pedido do mendigo e se declaram a favor da sua causa. Ele ganha a sua causa. A sua importunação prevalece mesmo diante do aparente descaso por parte de Jesus, e apesar da oposição e da repreensão do povo ao redor. A sua persistência venceu onde a indiferença morna certamente teria fracassado.

A fé tem a sua esfera em relação à oração e, naturalmente, tem a sua associação inseparável com a importunação. Mas é esta última qualidade que impele a oração até o ponto de crer. Um espírito persistente leva o homem ao lugar em que a fé se apossa da bênção, a reivindica e dela se apropria.

A necessidade imperiosa da oração insistente está claramente exposta na Palavra de Deus e precisa ser afirmada e reafirmada hoje. Temos a tendência de negligenciar esta verdade vital. O amor ao conforto, a indolência espiritual e a preguiça religiosa, tudo isso opera contra esse tipo de súplica. A nossa oração, porém, precisa ser insistida e levada adiante com uma energia que nunca se cansa, uma persistência que não aceita recusa e uma coragem que nunca falha.

Precisamos também pensar naquele fato misterioso da oração — a certeza de que haverá demoras, recusas e aparentes fracassos no seu exercício. Devemos nos preparar para eles, suportá-los e não cessar a nossa oração urgente. Como um soldado valente que, à medida que o combate se torna mais duro, demonstra uma coragem maior do que nas primeiras fases da batalha, assim também o cristão que ora, quando enfrenta a demora e a recusa, aumenta o seu pedido sincero e não cessa até que a oração prevaleça. Moisés oferece um exemplo ilustre de importunação na oração. Em vez de permitir que a sua proximidade e intimidade com Deus dispensassem a necessidade da importunação, ele as considera como algo que o torna ainda mais apto para exercê-la. Quando Israel levantou o bezerro de ouro, a ira de Deus se acendeu fortemente contra eles, e Jeová, decidido a executar a justiça, disse a Moisés, ao revelar o que pretendia fazer: “Deixe-me em paz!” Mas Moisés não O deixou em paz. Lançou-se diante do Senhor numa agonia de intercessão em favor dos israelitas que haviam pecado e, durante quarenta dias e noites, jejuou e orou. Que tempo de oração insistente foi aquele!

Jeová também estava irado com Arão, que havia atuado como líder nesse negócio idólatra do bezerro de ouro. Mas Moisés orou por Arão, assim como pelos israelitas; se não tivesse orado, tanto Israel quanto Arão teriam perecido sob o fogo consumidor da ira de Deus.

Aquele longo tempo de súplica diante de Deus deixou a sua poderosa marca em Moisés. Ele já estivera em íntima relação com Deus antes, mas nunca o seu caráter alcançou a grandeza que o marcou nos dias e anos que se seguiram a esse longo tempo de intercessão insistente.

Não há dúvida de que a oração insistente move a Deus e eleva o caráter humano! Se estivéssemos mais com Deus nesta grande ordenança da intercessão, mais intensamente brilharia o nosso rosto, mais ricamente dotadas seriam a nossa vida e o nosso serviço das qualidades que conquistam a boa vontade da humanidade e trazem glória ao Nome de Deus.

Capítulo 8 concluído

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