Capítulo 13 · 12 min de leitura · 15 min de escuta
A Oração e a Palavra de Deus
“Com que frequência, nas Escrituras, encontramos palavras como ‘campo’, ‘semente’, ‘semeador’, ‘ceifeiro’, ‘tempo de semear’, ‘colheita’! O uso dessas metáforas interpreta um fato da natureza por meio de uma parábola da graça. O campo é o mundo, e a boa semente é a Palavra de Deus. Seja falada, seja escrita, a Palavra é o poder de Deus para a salvação. Em nossa obra de evangelização, o mundo inteiro é o nosso campo; cada criatura, o alvo do nosso esforço; e cada livro e folheto, uma semente de Deus.” — DAVID FANT, JR.
A PALAVRA de Deus é um registro de oração — de homens de oração e de seus feitos, da garantia divina da oração e do encorajamento dado aos que oram. Ninguém pode ler os casos, os mandamentos, os exemplos e as múltiplas declarações que tratam da oração sem perceber que a causa de Deus e o êxito de Sua obra neste mundo estão confiados à oração; que os homens de oração têm sido os representantes de Deus na terra; que os homens sem oração jamais foram usados por Ele.
A reverência pelo santo Nome de Deus está intimamente ligada a uma elevada estima por Sua Palavra. A santificação do Nome de Deus, a capacidade de fazer a Sua vontade na terra como ela é feita no céu, o estabelecimento e a glória do reino de Deus estão tão envolvidos na oração quanto no tempo em que Jesus ensinou aos homens a Oração Universal. Que os homens “deviam orar sempre e não desanimar” é tão fundamental para a causa de Deus, hoje, quanto no tempo em que Jesus Cristo consagrou essa grande verdade no cenário imortal da Parábola da Viúva Importuna.
Assim como a casa de Deus é chamada “casa de oração”, porque a oração é o mais importante de seus santos ofícios, pela mesma razão a Bíblia pode ser chamada o Livro da Oração. A oração é o grande tema e o conteúdo de sua mensagem à humanidade.
A Palavra de Deus é a base, assim como é o guia, da oração da fé. “Que a palavra de Cristo habite ricamente em vocês; em toda a sabedoria”, diz São Paulo, “ensinando e admoestando uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando com graça em seu coração ao Senhor.”
À medida que essa palavra de Cristo, habitando ricamente em nós, é transformada e assimilada, ela se converte em oração. A fé é construída a partir da Palavra e do Espírito, e a fé é o corpo e a substância da oração.
Em muitos de seus aspectos, a oração depende da Palavra de Deus. Jesus diz:
“Se vocês permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será feito.”
A Palavra de Deus é o ponto de apoio sobre o qual se coloca a alavanca da oração, e pelo qual as coisas são poderosamente movidas. Deus comprometeu a Si mesmo, o Seu propósito e a Sua promessa com a oração. Sua Palavra se torna a base, a inspiração do nosso orar, e há circunstâncias em que, pela oração insistente, podemos obter um acréscimo ou uma ampliação de Suas promessas. Dos santos antigos se diz que, “por meio da fé”, eles “alcançaram promessas”. Parece haver na oração a capacidade de ir até mesmo além da Palavra, de chegar até mesmo além de Sua promessa, à própria presença de Deus, Ele mesmo.
Jacó lutou, não tanto com uma promessa, mas com Aquele que promete. Precisamos nos apegar Àquele que promete, para que a promessa não se mostre vã. A oração pode muito bem ser definida como a força que vitaliza e energiza a Palavra de Deus, apegando-se ao próprio Deus. Apegando-se Àquele que promete, a oração emite de novo a promessa e a torna pessoal. “Não há ninguém que invoque o teu nome, que se desperte para se apegar a ti” é o triste lamento de Deus. “Ou então que ele se apegue à minha força, para que faça paz comigo” é a receita de Deus para a oração.
Segundo a garantia das Escrituras, a oração pode ser dividida em petição de fé e petição de submissão. A oração da fé se baseia na Palavra escrita, pois “a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus”. Ela recebe sua resposta, infalivelmente — exatamente aquilo pelo que ora.
A oração de submissão não tem uma palavra definida de promessa, por assim dizer, mas se apega a Deus com um espírito humilde e contrito, e pede e suplica a Ele aquilo que a alma deseja. Abraão não tinha nenhuma promessa definida de que Deus pouparia Sodoma. Moisés não tinha nenhuma promessa definida de que Deus pouparia Israel; pelo contrário, havia a declaração de Sua ira e de Seu propósito de destruir. Mas o dedicado líder alcançou seu pedido diante de Deus, quando intercedeu pelos israelitas com orações incessantes e muitas lágrimas. Daniel não tinha nenhuma promessa definida de que Deus lhe revelaria o significado do sonho do rei, mas orou de modo específico, e Deus respondeu de modo definido.
A Palavra de Deus se torna eficaz e operante pelo processo e pela prática da oração. A palavra do Senhor veio a Elias: “Vá, apresente-se a Acabe; e eu enviarei chuva sobre a terra.” Elias apresentou-se a Acabe; mas a resposta à sua oração não veio enquanto ele não insistiu com sua oração ardente diante do Senhor sete vezes.
Paulo tinha de Cristo a promessa definida de que seria livrado “do povo e dos gentios”, mas o encontramos exortando os romanos, de maneira urgente e solene, a respeito desse mesmo assunto:
“Ora, eu lhes rogo, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito, que lutem juntamente comigo em suas orações a Deus por mim, para que eu seja liberto daqueles que são desobedientes na Judeia, e que o meu serviço para com Jerusalém seja aceitável aos santos.”
A Palavra de Deus é uma grande ajuda na oração. Se estiver alojada e gravada em nosso coração, formará uma corrente transbordante de oração, plena e irresistível. As promessas, guardadas no coração, devem ser o combustível do qual a oração recebe vida e calor, assim como o carvão, armazenado na terra, contribui para o nosso conforto em dias de tempestade e noites de inverno. A Palavra de Deus é o alimento pelo qual a oração é nutrida e fortalecida. A oração, como o homem, não pode viver apenas de pão, mas “de toda palavra que procede da boca do SENHOR”.
A menos que as forças vitais da oração sejam supridas pela Palavra de Deus, a oração, ainda que fervorosa e até ruidosa em sua urgência, é na realidade frouxa, insípida e vazia. A ausência de força vital no orar pode ser atribuída à ausência de um suprimento constante da Palavra de Deus, que repare o desgaste e renove a vida. Quem deseja aprender a orar bem deve primeiro estudar a Palavra de Deus e guardá-la na memória e no pensamento.
Quando consultamos a Palavra de Deus, descobrimos que nenhum dever é mais obrigatório, mais exigente, do que o da oração. Por outro lado, descobrimos que nenhum privilégio é mais elevado, nenhum hábito mais ricamente aprovado por Deus. Nenhuma promessa é mais radiante, mais abundante, mais explícita, mais repetida do que as que estão ligadas à oração. “Todas as coisas, quaisquer que sejam” são recebidas pela oração, porque “todas as coisas, quaisquer que sejam” são prometidas. Não há limite para as provisões incluídas nas promessas feitas à oração, nem exclusão de suas promessas. “Pois todo o que pede, recebe.” A palavra de nosso Senhor tem este efeito que tudo abrange: “Se vocês pedirem qualquer coisa em meu nome, eu o farei.”
Eis algumas das declarações abrangentes e completas da Palavra de Deus acerca da oração, das coisas a serem alcançadas pela oração e da firme promessa feita em resposta à oração:
“Orem sem cessar”; “Perseverem na oração”; “perseverando continuamente na oração”; “em tudo, pela oração e súplica com ações de graças, que os seus pedidos sejam conhecidos diante de Deus”; “orar sempre e não desanimar”; “os homens orem em todo lugar”; “com toda oração e súplica, orando em todo tempo”.
Que declarações claras e firmes são essas, postas no registro divino para nos fornecer uma base segura de fé e para nos impelir, constranger e encorajar a orar! Quão ampla é a extensão da oração, tal como nos é dada na Revelação divina! Como estas Escrituras nos incitam a buscar o Deus da oração com todas as nossas necessidades, com todos os nossos fardos!
Além dessas declarações deixadas registradas para nosso encorajamento, as páginas sagradas estão repletas de fatos, exemplos, incidentes e observações que ressaltam a importância e a absoluta necessidade da oração, e que enfatizam o seu poder que tudo vence.
O alcance máximo e o pleno benefício das ricas promessas da Palavra de Deus devem ser recebidos por nós com humildade e postos à prova. O mundo jamais receberá os plenos benefícios do Evangelho enquanto isso não for feito. Nem a experiência cristã nem a vida cristã serão o que deveriam ser enquanto essas promessas divinas não tiverem sido plenamente provadas pelos que oram. Pela oração, trazemos essas promessas da santa vontade de Deus para o domínio do concreto e do real. A oração é a pedra filosofal que as transmuta em ouro.
Se alguém perguntar o que deve ser feito para tornar reais as promessas de Deus, a resposta é que devemos orar até que as palavras da promessa sejam revestidas com as ricas vestes do cumprimento.
As promessas de Deus são grandes demais para serem alcançadas por uma oração esporádica. Quando nos examinamos, com muita frequência descobrimos que nosso orar não se eleva à altura das exigências da situação; é tão limitado que não passa de um mero oásis em meio ao ermo e ao deserto do pecado do mundo. Quem de nós, em suas orações, está à altura desta promessa de nosso Senhor:
“Com toda a certeza lhes digo: aquele que crê em mim, também fará as obras que eu faço; e fará obras maiores do que estas, porque eu vou para o meu Pai.”
Quão abrangente, quão vasta, quão inclusiva! Quanto há aqui para a glória de Deus, quanto para o bem do homem! Quanto para a manifestação do poder entronizado de Cristo, quanto para a recompensa de uma fé abundante! E quão grandes e graciosos são os resultados que podem advir do exercício de uma oração crente, à altura da promessa!
Observe, por um momento, outra das grandes promessas de Deus, e descubra como podemos ser sustentados pela Palavra enquanto oramos, e sobre que terreno firme podemos nos colocar para apresentar nossas petições ao nosso Deus:
“Se vocês permanecerem em mim, e as minhas palavras permanecerem em vocês, pedirão o que quiserem, e lhes será feito.”
Nestas palavras abrangentes, Deus Se entrega à vontade do Seu povo. Quando Cristo se torna o nosso tudo em todos, a oração deposita os tesouros de Deus a nossos pés. O cristianismo primitivo tinha uma solução fácil e prática para a situação, e obtinha tudo o que Deus tinha para dar. Essa solução simples e concisa está registrada na Primeira Epístola de João:
“Qualquer coisa que pedirmos, receberemos dele, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos as coisas que são agradáveis aos seus olhos.”
A oração, unida à obediência amorosa, é o caminho para pôr Deus à prova e para fazer a oração atender a todos os fins e a todas as coisas. A oração, unida à Palavra de Deus, santifica e torna sagrados todos os dons de Deus. A oração não serve simplesmente para obter coisas de Deus, mas para tornar santas as coisas que já foram recebidas Dele. Não é apenas para obter uma bênção, mas também para ser capaz de dar uma bênção. A oração torna santas as coisas comuns, e sagradas as coisas seculares. Ela recebe as coisas de Deus com ação de graças e as santifica com corações agradecidos e serviço dedicado.
Na Primeira Epístola a Timóteo, Paulo nos dá estas palavras:
“Pois toda criatura de Deus é boa, e nada deve ser rejeitado se for recebido com ações de graças. Pois é santificado pela palavra de Deus e pela oração.”
Essa é uma declaração que nega o mero ascetismo. Os bons dons de Deus devem ser santos, não apenas pelo poder criador de Deus, mas também porque se tornam santos para nós pela oração. Nós os recebemos, deles nos apropriamos e os santificamos pela oração.
Fazer a vontade de Deus, e ter a Sua Palavra permanecendo em nós, é um imperativo da oração eficaz. Mas, pode-se perguntar, como havemos de saber qual é a vontade de Deus? A resposta é: estudando a Sua Palavra, escondendo-a em nosso coração e deixando que a Palavra habite ricamente em nós. “A revelação das tuas palavras traz luz.”
Para conhecer a vontade de Deus na oração, precisamos estar cheios do Espírito de Deus, que intercede pelos santos, e nos santos, segundo a vontade de Deus. Estar cheio do Espírito de Deus, estar cheio da Palavra de Deus, é conhecer a vontade de Deus. É ser posto em tal disposição de mente, ser encontrado em tal estado de coração, que nos capacite a ler e interpretar corretamente os propósitos do Infinito. Esse enchimento do coração com a Palavra e o Espírito nos dá discernimento da vontade do Pai, nos capacita a discernir corretamente a Sua vontade e põe dentro de nós uma disposição de mente e de coração para fazer dela o guia e a bússola de nossa vida.
Epafras orava para que os colossenses permanecessem “perfeitos e completos em toda a vontade de Deus”. Isso é prova cabal de que não apenas podemos conhecer a vontade de Deus, mas de que podemos conhecer toda a vontade de Deus. E não apenas podemos conhecer toda a vontade de Deus, mas podemos fazer toda a vontade de Deus. Podemos, além disso, fazer toda a vontade de Deus, não ocasionalmente ou por mero impulso, mas com um hábito firme de conduta. Mais ainda, isso nos mostra que podemos fazer a vontade de Deus não só exteriormente, mas de coração, fazendo-a com alegria, sem relutância, sem secreta má vontade, sem nos retrairmos nem recuarmos diante da presença íntima do Senhor.
Capítulo 13 concluído
A Oração e a Palavra de Deus