Capítulo 11 · 7 min de leitura · 9 min de escuta
Oração e Obediência (Continuação)
“Conheci muitos homens exemplares, santos de coração e de vida, ao longo dos meus oitenta anos. Mas alguém igual a John Fletcher — alguém tão obediente e consagrado a Deus, por dentro e por fora — eu não conheci.” — JOHN WESLEY.
É DIGNO de nota que a oração à qual se atribui posição tão elevada, e da qual decorrem resultados tão grandes, não é simplesmente o recitar de orações, mas a oração santa. São as “orações dos santos”, as orações dos santos homens de Deus. Por trás dessa oração, dando-lhe energia e chama, estão homens e mulheres totalmente consagrados a Deus, inteiramente separados do pecado e plenamente separados para Deus. São estes que sempre dão energia, força e vigor à oração.
Nosso Senhor Jesus Cristo foi preeminente na oração porque foi preeminente em santidade. Uma dedicação total a Deus, uma entrega plena, que leva consigo o ser inteiro numa chama de santa consagração — tudo isso dá asas à fé e energia à oração. Isso abre a porta do trono da graça e exerce forte influência sobre o Deus Todo-Poderoso.
O “levantar mãos santas” é essencial à oração semelhante à de Cristo. Não se trata, porém, de uma santidade que apenas dedica a Deus um quarto de oração, que separa para Ele somente uma hora, mas de uma consagração que se apodera do homem inteiro, que dedica a vida toda a Deus.
Nosso Senhor Jesus Cristo, “santo, inculpável, puro, separado dos pecadores”, tinha plena liberdade de aproximação e pronto acesso a Deus em oração. E tinha esse acesso livre e pleno por causa de Sua obediência inquestionável ao Pai. Ao longo de toda a Sua vida terrena, o Seu supremo cuidado e desejo foi fazer a vontade do Pai. E esse fato, somado a outro — a consciência de ter ordenado assim a Sua vida —, deu-Lhe confiança e segurança, que O capacitaram a aproximar-Se do trono da graça com uma confiança ilimitada, nascida da obediência e que prometia aceitação, audiência e resposta.
A obediência amorosa nos coloca onde podemos “pedir qualquer coisa em Seu nome”, com a certeza de que “Ele o fará”. A obediência amorosa nos conduz ao domínio da oração e nos torna beneficiários da riqueza de Cristo e das riquezas da Sua graça, pela vinda do Espírito Santo, que permanecerá conosco e estará em nós. A obediência alegre a Deus nos habilita a orar com eficácia.
Essa obediência, que não apenas habilita para a oração mas a precede, deve ser amorosa, constante, fazendo sempre a vontade do Pai e seguindo alegremente o caminho dos mandamentos de Deus.
No caso do rei Ezequias, foi um argumento poderoso que mudou o decreto de Deus de que ele morreria e não viveria. O governante enfermo clamou a Deus que Se lembrasse de como ele havia andado diante dEle em verdade e com um coração perfeito. Para Deus, isso contou. Ele ouviu a petição e, como resultado, a morte encontrou barrado o seu caminho até Ezequias por quinze anos.
Jesus aprendeu a obediência na escola do sofrimento e, ao mesmo tempo, aprendeu a oração na escola da obediência. Assim como é a oração do justo que muito pode, assim também a justiça é obediência a Deus. O homem justo é um homem obediente, e é ele quem pode orar com eficácia, quem pode realizar grandes coisas quando se põe de joelhos.
A verdadeira oração, lembremos, não é mero sentimento, nem poesia, nem fala eloquente. Também não consiste em dizer, em cadências melífluas: “Senhor, Senhor”. A oração não é mera forma de palavras; não é apenas invocar um Nome. A oração é obediência. Ela está fundada na rocha adamantina da obediência a Deus. Só os que obedecem têm o direito de orar. Por trás da oração tem de estar a prática; e é a prática constante da vontade de Deus na vida diária que dá à oração a sua força, como nosso Senhor ensinou claramente:
“Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome, em teu nome não expulsamos demônios, e em teu nome não fizemos muitas obras poderosas?’ Então eu lhes direi: ‘Eu nunca os conheci. Afastem-se de mim, vocês que praticam a iniquidade.’”
Nenhum nome, por mais precioso e poderoso que seja, pode proteger e dar eficácia à oração que não vem acompanhada da prática da vontade de Deus. Tampouco a prática, sem a oração, pode proteger da desaprovação divina. Se a vontade de Deus não domina a vida, a oração não passará de sentimentalismo doentio. Se a oração não inspira, santifica e dirige o nosso trabalho, então entra a vontade própria, para arruinar tanto a obra quanto o obreiro.
Quão grandes e múltiplos são os equívocos sobre os verdadeiros elementos e o verdadeiro funcionamento da oração! Há muitos que desejam ardentemente obter resposta às suas orações, mas ficam sem recompensa e sem bênção. Fixam a mente em alguma promessa de Deus e então se esforçam, à força de perseverança obstinada, por reunir fé suficiente para se apoderar dela e reivindicá-la. Fixar a mente em alguma grande promessa pode ser útil para fortalecer a fé, mas a esse apegar-se à promessa é preciso acrescentar a oração persistente e insistente que espera, e aguarda até que a fé cresça grandemente. E quem é capaz e está habilitado a orar assim, senão o homem que pronta, alegre e continuamente obedece a Deus?
A fé, em sua forma mais elevada, é a atitude e também o ato de uma alma entregue a Deus, na qual habitam a Sua Palavra e o Seu Espírito. É verdade que a fé precisa existir de uma forma ou de outra para impulsionar a oração; mas, em sua forma mais forte e em seus maiores resultados, a fé é fruto da oração. É verdade que a fé aumenta a capacidade e a eficácia da oração; mas é igualmente verdade que a oração aumenta a capacidade e a eficácia da fé. Oração e fé trabalham, agem e reagem uma sobre a outra.
A obediência a Deus ajuda a fé como nenhum outro atributo pode ajudar. Quando há obediência — o reconhecimento implícito da validade, da supremacia dos mandamentos divinos —, a fé deixa de ser uma tarefa quase sobre-humana. Exercê-la não exige esforço algum. A obediência a Deus torna fácil crer e confiar em Deus. Onde o espírito de obediência impregna plenamente a alma; onde a vontade está perfeitamente entregue a Deus; onde há um propósito firme e inalterável de obedecer a Deus, a fé quase crê por si mesma. A fé se torna então quase involuntária. Depois da obediência ela é, naturalmente, o passo seguinte, e é dado com facilidade e prontidão. A dificuldade na oração não está na fé, mas na obediência, que é o alicerce da fé.
Precisamos cuidar bem da nossa obediência, das fontes secretas da ação, da lealdade do nosso coração a Deus, se quisermos orar bem e tirar o máximo proveito da nossa oração. A obediência é o fundamento da oração eficaz; é ela que nos aproxima de Deus.
A falta de obediência em nossa vida derruba a nossa oração. Muitas vezes a vida está em revolta, e isso nos coloca onde orar é quase impossível, a não ser para pedir misericórdia e perdão. Uma vida desobediente produz uma oração pobríssima. A desobediência fecha a porta do quarto de oração e barra o caminho ao Santo dos Santos. Ninguém pode orar — orar de verdade — se não obedece.
A vontade precisa estar entregue a Deus como condição primeira de toda oração bem-sucedida. Tudo em nós recebe a sua cor do nosso caráter mais íntimo. A vontade secreta forma o caráter e controla a conduta. A vontade, portanto, desempenha um papel importante em toda oração bem-sucedida. Não pode haver oração, em seu sentido mais rico e mais verdadeiro, onde a vontade não está total e plenamente entregue a Deus. Essa lealdade inabalável a Deus é condição absolutamente indispensável para a melhor, a mais verdadeira, a mais eficaz oração. “Nós simplesmente temos de confiar e obedecer; não há outro jeito de ser feliz em Jesus — senão confiar e obedecer!”
Capítulo 11 concluído
Oração e Obediência (Continuação)