Capítulo 10 · 15 min de leitura · 20 min de escuta
Oração e Obediência
“Em Fletcher de Madeley manifestava-se uma obediência que eu gostaria de poder descrever ou imitar. Ela produzia nele uma disposição pronta para abraçar toda cruz com presteza e alegria. Tinha um amor singular pelos cordeiros do rebanho e dedicava-se com a maior diligência à instrução deles, para a qual possuía um dom especial. . . . Todo o seu convívio comigo era tão entremeado de oração e louvor que cada ocupação e cada refeição eram, por assim dizer, perfumadas por eles.” — JOHN WESLEY.
SOB a lei mosaica, a obediência era tida como “melhor do que o sacrifício”, e a submissão, “melhor do que a gordura de carneiros”. Em Deuteronômio 5:29, Moisés apresenta o Deus Todo-Poderoso pronunciando-Se sobre essa mesma qualidade de um modo que não deixava dúvida quanto à importância que Ele atribuía ao seu exercício. Referindo-Se à rebeldia do Seu povo, Ele exclama:
“Quem dera que houvesse neles tal coração para que me temessem e guardassem todos os meus mandamentos sempre, para que tudo fosse bem com eles e com os seus filhos para sempre!”
Sem dúvida, a obediência é uma virtude elevada, uma qualidade de soldado. Obedecer pertence, acima de tudo, ao soldado. É sua primeira e última lição, e ele precisa aprender a praticá-la o tempo todo, sem questionar, sem se queixar. Além disso, a obediência é a fé em ação, e é tanto o transbordar quanto a própria prova do amor. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama.”
Mais ainda: a obediência é a guardiã e a vida do amor.
“Se vocês guardarem os meus mandamentos”, diz Jesus, “permanecerão no meu amor, assim como eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor.”
Que declaração maravilhosa da relação criada e mantida pela obediência! O Filho de Deus é mantido no seio do amor do Pai em virtude da Sua obediência! E o fator que capacita o Filho de Deus a permanecer sempre no amor de Seu Pai é revelado em Sua própria declaração: “Eu sempre faço as coisas que lhe agradam.”
O dom do Espírito Santo em plena medida e em experiência mais rica depende da obediência amorosa:
“Se vocês me amam, guardem os meus mandamentos”, é a palavra do Mestre. “Eu rogarei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, para que esteja com vocês para sempre.”
A obediência a Deus é condição de prosperidade espiritual, de satisfação interior e de firmeza de coração. “Se vocês estiverem dispostos e obedecerem, comerão o melhor da terra.” A obediência abre as portas da Cidade Santa e dá acesso à árvore da vida.
“Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida e possam entrar na cidade pelas portas.”
O que é obediência? É fazer a vontade de Deus: é guardar os Seus mandamentos. Quantos dos mandamentos constituem a obediência? Guardar metade deles e quebrar a outra metade — isso é obediência verdadeira? Guardar todos os mandamentos menos um — isso é obediência? Sobre esse ponto, o apóstolo Tiago é muito explícito: “Qualquer que guardar toda a lei”, declara ele, “mas tropeçar em um só ponto, tornou-se culpado de todos.”
O espírito que leva um homem a quebrar um mandamento é o espírito que pode levá-lo a quebrar todos. Os mandamentos de Deus formam uma unidade, e quebrar um deles é atingir o princípio que está por baixo do todo e o atravessa por inteiro. Quem não hesita em quebrar um único mandamento quebraria todos — é mais do que provável — sob a mesma pressão e cercado das mesmas circunstâncias.
Exige-se a obediência universal da raça humana. Nada menos que a obediência irrestrita satisfará a Deus, e guardar todos os Seus mandamentos é a demonstração dela que Deus requer. Mas podemos guardar todos os mandamentos de Deus? Pode um homem receber capacidade moral tal que o habilite a obedecer a cada um deles? Certamente pode. Por todos os sinais, o homem pode, por meio da oração, obter capacidade para fazer exatamente isso.
Deus dá mandamentos que os homens não podem obedecer? Será Ele tão arbitrário, tão severo, tão sem amor, a ponto de dar mandamentos que não podem ser obedecidos? A resposta é que, em todos os registros da Sagrada Escritura, não há um único caso de Deus ter ordenado a alguém fazer algo que estivesse além de suas forças. Será Deus tão injusto e tão desconsiderado a ponto de exigir do homem aquilo que ele é incapaz de dar? Certamente não. Supô-lo é caluniar o caráter de Deus.
Reflitamos sobre isso por um momento: os pais terrenos exigem de seus filhos deveres que eles não podem cumprir? Onde está o pai que sequer pensaria em ser tão injusto e tão tirânico? Será Deus menos bondoso e justo do que pais terrenos cheios de falhas? Serão eles melhores e mais justos do que um Deus perfeito? Que pensamento completamente tolo e insustentável!
Em princípio, a obediência a Deus é a mesma qualidade que a obediência aos pais terrenos. Implica, em termos gerais, abrir mão do próprio caminho e seguir o de outro; render a própria vontade à vontade de outro; submeter-se à autoridade e às exigências de um pai. As ordens, seja de nosso Pai celestial, seja de nosso pai terreno, são dirigidas pelo amor, e todas essas ordens visam ao melhor interesse daqueles a quem são dadas. Os mandamentos de Deus não são dados com severidade nem com tirania. São sempre dados em amor e em nosso interesse, e por isso nos convém atendê-los e obedecer a eles. Em outras palavras, e avaliando-o pelo seu valor mais baixo — tendo Deus nos dado os Seus mandamentos para promover o nosso bem, compensa, portanto, ser obediente. A obediência traz a sua própria recompensa. Deus assim o ordenou, e, uma vez que o fez, até a razão humana pode perceber que Ele jamais exigiria aquilo que está fora do nosso alcance dar.
A obediência é o amor cumprindo cada mandamento, o amor expressando-se. Por isso, a obediência não é uma exigência dura imposta a nós, assim como não o é o serviço que um marido presta à esposa ou uma esposa ao marido. O amor tem prazer em obedecer e em agradar a quem ama. Não há durezas no amor. Pode haver exigências, mas não enfado. Não há tarefas impossíveis para o amor.
Com que simplicidade e com que naturalidade o apóstolo João diz: “E qualquer coisa que pedirmos, receberemos dele, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos as coisas que são agradáveis aos seus olhos.”
Isto é obediência que corre à frente de todo e qualquer mandamento. É o amor obedecendo por antecipação. Erram gravemente, e até pecam, os que declaram que os homens estão fadados a cometer iniquidade, seja por causa do ambiente, da hereditariedade ou da inclinação. Os mandamentos de Deus não são pesados. Seus caminhos são caminhos agradáveis, e todas as suas veredas são paz. A tarefa que cabe à obediência não é difícil. “Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.”
Longe de nosso Pai celestial exigir impossibilidades de Seus filhos. É possível agradá-Lo em todas as coisas, pois Ele não é difícil de agradar. Ele não é um senhor duro nem um amo rigoroso, que “tira o que não depositou e colhe o que não semeou”. Graças a Deus, é possível a todo filho de Deus agradar a seu Pai celestial! Na verdade, é muito mais fácil agradar a Ele do que agradar aos homens. Além disso, podemos saber quando O agradamos. Este é o testemunho do Espírito — a certeza interior e divina, dada a todos os filhos de Deus, de que estão fazendo a vontade de seu Pai e de que seus caminhos são agradáveis aos Seus olhos.
Os mandamentos de Deus são justos e fundados na justiça e na sabedoria. “Portanto, a lei de fato é santa, e o mandamento santo, justo e bom.” “Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações.” Os mandamentos de Deus, portanto, podem ser obedecidos por todos os que buscam a provisão de graça que os capacita a obedecer. Esses mandamentos precisam ser obedecidos. O governo de Deus está em jogo. Os filhos de Deus têm a obrigação de obedecer a Ele; a desobediência não pode ser permitida. O espírito de rebelião é a própria essência do pecado. É o repúdio à autoridade de Deus, que Deus não pode tolerar. Ele nunca a tolerou, e uma declaração da Sua atitude foi parte da razão pela qual o Filho do Altíssimo Se manifestou entre os homens:
“Porque o que a lei não podia fazer, visto que estava enfraquecida pela carne, Deus fez: enviando seu próprio Filho em semelhança da carne pecaminosa e por causa do pecado, ele condenou o pecado na carne, para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito.”
Se alguém se queixar de que a humanidade, sob a queda, é fraca e impotente demais para obedecer a esses altos mandamentos de Deus, cabe responder que, pela expiação de Cristo, o homem é capacitado a obedecer. A Expiação é o Ato Capacitador de Deus. Aquilo que Deus opera em nós, na regeneração e por meio da ação do Espírito Santo, concede graça capacitadora suficiente para tudo o que nos é exigido sob a Expiação. Essa graça é fornecida sem medida, em resposta à oração. De modo que, enquanto Deus ordena, Ele, ao mesmo tempo, Se compromete a nos dar toda a força de vontade e a graça de alma necessárias para cumprir as Suas exigências. Sendo isso verdade, o homem não tem desculpa para a sua desobediência e é eminentemente censurável por recusar-se, ou deixar de buscar, a graça necessária pela qual possa servir ao Senhor com reverência e santo temor.
Há uma consideração importante que os que declaram ser impossível guardar os mandamentos de Deus estranhamente ignoram: a verdade vital de que, pela oração e pela fé, a natureza do homem é transformada e feita participante da natureza divina; de que é tirada dele toda relutância em obedecer a Deus, e de que sua incapacidade natural de guardar os mandamentos de Deus, nascida do seu estado caído e impotente, é gloriosamente removida. Por essa mudança radical operada em sua natureza moral, o homem recebe poder para obedecer a Deus em tudo e para Lhe prestar plena e alegre lealdade. Então ele pode dizer: “Tenho prazer em fazer a tua vontade, meu Deus.” Não só é removida a rebelião própria do homem natural, mas também é recebido, bendita coisa, um coração que obedece alegremente à Palavra de Deus.
Se se afirmar que o homem não renovado, com todas as incapacidades da Queda sobre si, não pode obedecer a Deus, não haverá contestação. Mas declarar que, depois de alguém ser renovado pelo Espírito Santo, ter recebido uma nova natureza e se tornado filho do Rei, ele não pode obedecer a Deus, é assumir uma atitude ridícula e mostrar, além disso, uma lamentável ignorância da obra e das implicações da Expiação.
A obediência irrestrita e perfeita é o estado para o qual o homem de oração é chamado. “Levantando mãos santas, sem ira e sem dúvida” é a condição da oração obediente. Aqui a fidelidade e o amor interiores, junto com a pureza exterior, são apresentados como acompanhantes da oração aceitável.
João dá a razão da oração respondida na passagem já citada: “E qualquer coisa que pedirmos, receberemos dele, porque guardamos os seus mandamentos e fazemos as coisas que são agradáveis aos seus olhos.”
Visto que guardar os mandamentos de Deus é aqui apresentado como a razão pela qual Ele responde à oração, é razoável supor que podemos guardar os mandamentos de Deus, podemos fazer as coisas que Lhe são agradáveis. Faria Deus da guarda dos Seus mandamentos uma condição da oração eficaz, você acha, se soubesse que não poderíamos guardar os Seus estatutos? Certamente, certamente não!
A obediência pode pedir com ousadia diante do Trono da graça, e os que a praticam são os únicos que podem pedir dessa maneira. Os desobedientes são tímidos na aproximação e hesitantes na súplica. São detidos por causa do seu mau proceder. O filho que pede, mas é obediente, entra na presença do pai com confiança e ousadia. A própria consciência da sua obediência lhe dá coragem e o livra do medo que nasce da desobediência.
Fazer a vontade de Deus sem objeção é tanto a alegria quanto o privilégio do homem que ora com êxito. É aquele que tem mãos limpas e coração puro que pode orar com confiança. No Sermão do Monte, Jesus disse:
“Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.”
A esse grande pronunciamento pode-se acrescentar outro:
“Se vocês guardarem os meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor.”
“O ofício do cristão”, diz Lutero, “é a oração.” Mas o cristão tem outro ofício a aprender antes de passar a aprender os segredos do ofício da oração. Precisa aprender bem o ofício da perfeita obediência à vontade do Pai. A obediência segue o amor, e a oração segue a obediência. A tarefa da observância real dos mandamentos de Deus acompanha inseparavelmente a tarefa da oração real.
Quem foi desobediente pode orar. Pode orar pedindo misericórdia perdoadora e a paz da sua alma. Pode vir ao estrado dos pés de Deus com lágrimas, com confissão, com coração arrependido, e Deus o ouvirá e responderá à sua oração. Mas esse tipo de oração não pertence ao filho de Deus, e sim ao pecador arrependido, que não tem outro caminho para se aproximar de Deus. É posse da alma não justificada, não daquele que foi salvo e reconciliado com Deus.
Uma vida obediente ajuda a oração. Ela apressa a oração até o trono. Deus não pode deixar de ouvir a oração de um filho obediente. Ele sempre ouviu os Seus filhos obedientes quando oraram. A obediência sem questionamento conta muito aos olhos de Deus, diante do trono da graça celestial. Age como as marés confluentes de muitos rios e dá volume e plenitude de corrente, além de poder, ao quarto de oração. Uma vida obediente não é simplesmente uma vida reformada. Não é a velha vida retocada e pintada de novo, nem uma vida de frequentar a igreja, nem um belo verniz de atividades. Tampouco é uma conformidade exterior aos ditames da moralidade pública. Muito mais do que tudo isso se reúne numa vida cristã verdadeiramente obediente e temente a Deus.
Uma vida de plena obediência; uma vida firmada nos termos mais íntimos com Deus; em que a vontade está em plena conformidade com a vontade de Deus; em que a vida exterior mostra o fruto da justiça — uma vida assim não oferece obstáculo ao quarto de oração, mas, ao contrário, como Arão e Hur, levanta e sustenta as mãos da oração.
Se você tem um desejo sincero de orar bem, precisa aprender a obedecer bem. Se deseja aprender a orar, então precisa ter um desejo sincero de aprender a fazer a vontade de Deus. Se deseja orar a Deus, precisa primeiro ter um desejo ardente de obedecer a Ele. Se quer ter livre acesso a Deus em oração, então todo obstáculo da natureza do pecado ou da desobediência precisa ser removido. Deus Se deleita nas orações de filhos obedientes. Os pedidos que saem dos lábios dos que têm prazer em fazer a Sua vontade chegam aos Seus ouvidos com grande rapidez e O inclinam a respondê-los com prontidão e abundância. Em si mesmas, as lágrimas não são meritórias. Contudo, têm sua utilidade na oração. As lágrimas deveriam batizar o nosso lugar de súplica. Quem nunca chorou por seus pecados nunca orou de verdade por seus pecados. As lágrimas, às vezes, são o único argumento do penitente. Mas as lágrimas são para o passado, para o pecado e o mal praticado. Há outro passo e outra etapa à espera de serem alcançados. É o da obediência sem questionamento, e, enquanto ele não for dado, a oração por bênção e sustento contínuo de nada valerá.
Em toda a Sagrada Escritura, Deus é apresentado reprovando a desobediência e condenando o pecado, e isso é tão verdadeiro na vida dos Seus escolhidos quanto na vida dos pecadores. Em parte alguma Ele tolera o pecado ou desculpa a desobediência. Sempre Deus põe a ênfase na obediência aos Seus mandamentos. A obediência a eles traz bênção; a desobediência encontra o desastre. Isso é verdade na Palavra de Deus, do começo ao fim. É por isso que os homens de oração, nas Sagradas Escrituras, tinham tanta influência junto a Deus. Os homens obedientes sempre foram os mais próximos de Deus. São eles que oraram bem e receberam grandes coisas de Deus, que realizaram grandes coisas.
A obediência a Deus conta tremendamente no domínio da oração. Esse fato nunca será enfatizado demais ou com frequência demais. Defender uma fé religiosa que tolera o pecado é tirar o chão debaixo dos pés da oração eficaz. Desculpar o pecado com a alegação de que a obediência a Deus não é possível aos homens não regenerados é desvalorizar o caráter do novo nascimento e colocar os homens onde a oração eficaz não é possível. Certa vez Jesus irrompeu com uma pergunta muito pertinente e pessoal, que atingia o âmago da desobediência, quando disse: “Por que vocês me chamam: ‘Senhor, Senhor’, e não fazem o que eu digo?”
Quem quiser orar precisa obedecer. Quem quiser obter alguma coisa de suas orações precisa estar em perfeita harmonia com Deus. A oração infunde nos que oram sinceramente um espírito de obediência, pois o espírito de desobediência não é de Deus e não pertence às hostes de oração de Deus.
Uma vida obediente é uma grande ajuda para a oração. Na verdade, uma vida obediente é uma necessidade para a oração, para aquela que realiza coisas. A ausência de uma vida obediente faz da oração uma cerimônia vazia, um mero nome sem sentido. O pecador arrependido busca perdão e salvação e recebe resposta às suas orações mesmo com uma vida manchada e corrompida pelo pecado. Mas os intercessores régios de Deus vêm à Sua presença com vidas régias. A vida santa promove a oração santa. Os intercessores de Deus “levantam mãos santas”, símbolos de vidas justas e obedientes.
Capítulo 10 concluído
Oração e Obediência