Santo em Cristo ·A Santidade e a Redenção

Capítulo 6 · 11 min de leitura

A Santidade e a Redenção

Santifica para mim todo primogênito.’—Êx. 13:2.

‘Todos os primogênitos são meus; porque no dia em que feri todos os primogênitos na terra do Egito santifiquei para mim todos os primogênitos em Israel: meus serão; eu sou o Senhor.’—Núm. 3:13, 8:17.

‘Porque eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos faço subir da terra do Egito para ser o vosso Deus; portanto, sereis santos, porque eu sou santo.’—Lev. 11:45.

‘Eu te remi; tu és meu.’—Is. 43:1.

Em Horebe vimos como a primeira menção da palavra santo na história do homem caído esteve ligada à inauguração de um novo período na revelação de Deus, o da Redenção. Na páscoa temos a primeira manifestação do que é a Redenção; e é aqui que começa o uso mais frequente da palavra santo. Na festa dos pães asmos temos o símbolo do despojar-se do velho e do revestir-se do novo, ao qual a redenção pelo sangue há de conduzir. Dos sete dias lemos: ‘No primeiro dia haverá santa convocação, e no sétimo dia haverá santa convocação;’ a reunião do povo redimido para comemorar a sua libertação é uma reunião santa; eles se reúnem sob a cobertura do seu Redentor, o Santo. Tão logo o povo foi redimido do Egito, a primeiríssima palavra de Deus a eles foi: ‘Santifica—faze santo para mim todo primogênito: é meu.’ (Ver Êx. 13:2.) A palavra revela como a propriedade é um dos pensamentos centrais tanto na redenção quanto na santificação, o elo que as une. E embora a palavra seja aqui usada apenas dos primogênitos, estes são vistos como o tipo de todo o povo. Sabemos como todo crescimento e organização começam a partir de um centro, ao redor do qual, em círculos cada vez mais amplos, se difunde a vida do organismo. Se a santidade na raça humana há de ser verdadeira e real, livre como a de Deus, ela deve ser o resultado de um desenvolvimento que a si mesmo se apropria. E assim os primogênitos são santificados, e depois os sacerdotes em seu lugar, como o tipo daquilo que todo o povo há de ser como primogênito de Deus entre as nações, o seu tesouro peculiar, ‘uma nação santa.’ Essa ideia de propriedade em relação à redenção e à santificação sobressai com especial clareza quando Deus fala da substituição dos primogênitos pelos sacerdotes (Núm. 3:12, 13, 8:16, 17): ‘Os levitas me são inteiramente dados; em lugar dos primogênitos os tomei para mim; porque todos os primogênitos são meus; no dia em que feri todo primogênito na terra do Egito os santifiquei para mim.’

Procuremos compreender a relação que existe entre a redenção e a santidade. No Paraíso vimos o que foi o santificar de Deus o sétimo dia: Ele tomou posse dele, Ele o abençoou, Ele nele descansou e se recreou. Onde Deus entra e descansa, ali há santidade: quanto mais perfeitamente o objeto está apto para que Ele entre e habite, tanto mais perfeita é a santidade. O sétimo dia foi santificado como o período para a santificação do homem. No primeiríssimo passo que Deus deu para conduzi-lo à sua Santidade—o mandamento de não comer da árvore—o homem caiu. Deus não abandonou o seu plano, mas teve agora de seguir um caminho diferente e mais lento. Depois de vinte e cinco séculos de lenta mas necessária preparação, Ele agora se revela como o Redentor. Um povo que havia escolhido e formado para si Ele entrega à opressão e à escravidão, para que os seus corações sejam preparados para ansiar por um Libertador e recebê-lo. Numa série de portentosas maravilhas Ele se prova o Vencedor dos inimigos deles e, então, no sangue do Cordeiro pascal sobre as suas portas, ensina-lhes o que é a redenção, não somente de um opressor injusto aqui na terra, mas do justo juízo que os seus pecados haviam merecido. A Páscoa há de ser para eles a transição do visível e temporal para o invisível e espiritual, revelando Deus não só como o Poderoso, mas como o Santo, libertando-os não só da casa da servidão, mas do Anjo Destruidor.

E, havendo-os assim redimido, Ele lhes diz que são agora sua propriedade. Durante a sua permanência no Sinai e no deserto, o pensamento lhes é continuamente incutido de que são agora o povo do Senhor, o qual Ele fez seu pela força do seu braço, para que os torne santos para si mesmo, assim como Ele é santo. O propósito da redenção é a Posse, e o propósito da Posse é a semelhança com Aquele que é Redentor e Dono, é a Santidade.

Quanto a essa Santidade, e ao modo como ela há de ser alcançada como resultado da redenção, há mais de uma lição que a santificação dos primogênitos nos ensinará.

Em primeiro lugar, queremos compreender quão inseparáveis são a redenção e a santidade. Nenhuma pode existir sem a outra. Somente a redenção conduz à santidade. Se busco a santidade, devo permanecer na clara e plena experiência de ser um remido e, como tal, de ser possuído por Deus e lhe pertencer. Com demasiada frequência a redenção é olhada pelo seu lado negativo, como libertação de: a sua verdadeira glória é o elemento positivo de ser redimido para Ele mesmo. A plena posse de uma casa significa ocupação: se possuo uma casa sem ocupá-la, ela pode tornar-se o lar de tudo o que é imundo e mau. Deus me remiu e me fez seu com o intuito de tomar completa posse de mim. Ele diz da minha alma: ‘É minha,’ e busca ver reconhecido e plenamente manifesto o seu direito de propriedade. Isso será perfeita santidade: onde Deus entrou e tomou posse completa e inteira. É a redenção que dá a Deus o seu direito e poder sobre mim; é a redenção que me põe em liberdade para que Deus agora me possua e me abençoe; é a redenção realizada e enchendo a minha alma que me trará a certeza e a experiência de tudo o que o seu poder operará em mim. Em Deus, a redenção e a santificação são uma só: quanto mais a redenção, como realidade Divina, me possui, tanto mais estreitamente estou ligado ao Deus-Redentor, o Santo.

E, do mesmo modo, somente a santidade traz a certeza e o gozo da redenção. Se procuro reter a redenção sobre terreno mais baixo, posso estar enganado. Se me tornei desatento ou descuidado, deveria tremer só ao pensar em confiar na redenção à parte da santidade como seu objeto. A Israel disse Deus: ‘Eu vos fiz subir da terra do Egito; portanto, sereis santos, porque eu sou santo.’ É Deus, o Redentor, quem nos fez seus, quem também nos chama a ser santos: seja a Santidade para nós a parte mais essencial, a mais preciosa da redenção — a entrega de nós mesmos Àquele que nos tomou como seus e se comprometeu a nos fazer inteiramente seus.

A segunda lição sugerida é a conexão entre o operar de Deus e o operar do homem na santificação. A Moisés diz o Senhor: ‘Santifica para mim todo primogênito.’ Depois diz: ‘Santifiquei para mim todos os primogênitos.’ O que Deus faz, Ele o faz para ser cumprido e apropriado por meio de nós. Quando nos diz que fomos feitos santos em Cristo Jesus, que somos os seus santos, Ele fala não apenas do seu propósito, mas do que realmente fez; fomos santificados na única oferta de Cristo e no sermos criados de novo nele. Mas essa obra tem um lado humano. A nós vem o chamado a ser santos, a ir após a santidade, a aperfeiçoar a santidade. Deus nos fez seus e nos permite dizer que somos dele; mas Ele espera agora que lhe cedamos uma entrada mais ampla aos lugares secretos do nosso ser interior, para que Ele os encha por completo com a sua plenitude. A santidade não é algo que trazemos a Deus ou fazemos por Ele. A santidade é o que há de Deus em nós. Deus nos fez seus na redenção, para que se fizesse nosso na santificação. E a nossa obra em nos tornarmos santos é trazer toda a nossa vida, e cada parte dela, à sujeição ao domínio deste Deus santo, pondo cada membro e cada faculdade sobre o seu altar.

E isto nos ensina a resposta à pergunta sobre a conexão entre o súbito e o gradual na santificação: entre o seu ser algo de uma vez por todas completo e, contudo, imperfeito e a necessitar de ser aperfeiçoado. O que Deus santifica é santo com uma santidade Divina e perfeita, como dom seu: o homem há de santificar reconhecendo, mantendo e cumprindo essa santidade em relação àquilo que Deus fez santo. Deus santificou o dia de sábado: o homem há de santificá-lo, isto é, guardá-lo santo. Deus santificou os primogênitos como seus: Israel havia de santificá-los, de tratá-los e entregá-los a Deus como santos. Deus é santo: havemos de santificá-lo reconhecendo, adorando e honrando essa santidade. Deus santificou o seu grande nome, o seu nome é Santo: santificamos ou consagramos esse nome quando o tememos, nele confiamos e o usamos como a revelação da sua Santidade. Deus santificou Cristo: Cristo santificou a si mesmo, manifestando na sua vontade e ação pessoais perfeita conformidade com a Santidade com que Deus o fizera santo. Deus nos santificou em Cristo Jesus: havemos de ser santos entregando-nos ao poder dessa santidade, exercendo-a e manifestando-a em toda a nossa vida e caminhar. O dom Divino objetivo, concedido de uma vez por todas e completamente, deve ser apropriado como posse pessoal subjetiva; devemos purificar-nos, aperfeiçoando a santidade. Redimidos para a santidade: assim como os dois pensamentos estão ligados na mente e na obra de Deus, devem estar ligados no nosso coração e na nossa vida.

Quando Isaías anunciou a segunda redenção, a verdadeira, foi-lhe dado, ainda mais clara e plenamente do que a Moisés, revelar o nome de Deus como ‘O Redentor, o Santo de Israel.’ Quanto mais estudamos este nome, e o santificamos, e por ele adoramos a Deus, tanto mais inseparavelmente as palavras se ligarão, e veremos como, sendo o Redentor o Santo, também os remidos são santos. Isaías diz do ‘caminho da santidade’ que ‘os remidos andarão por ele.’ A redenção que procede da Santidade de Deus deve conduzir também para dentro dela. Compreenderemos que ser redimido em Cristo é ser santo em Cristo, e o chamado do nosso Deus redentor adquirirá novo sentido: ‘Eu sou santo: sede santos.’

Sede santos, porque eu sou santo.


Ó Senhor Deus! o Santo de Israel e o seu Redentor! Eu te adoro em profunda humildade. Confesso com vergonha que por tanto tempo te busquei mais como o Redentor do que como o Santo. Não sabia que fora como o Santo que havias redimido, que a redenção era o produto e o fruto da tua Santidade; que uma participação na tua Santidade era o seu único propósito e a sua mais alta beleza. Eu só pensava em ser redimido do cativeiro e da morte: como Israel, não entendia que, sem comunhão e conformidade contigo, a redenção perderia o seu valor.

Santíssimo Deus! Eu te louvo pela paciência com que suportas o egoísmo e a lentidão dos teus remidos. Eu te louvo pelo ensino do Espírito da tua Santidade, que conduz os teus santos, e a mim também, a ver como é a tua Santidade, e o chamado a tornar-se participante dela, que dá à redenção o seu valor; como é para ti mesmo, o Santo, para sermos teus, possuídos e santificados por ti, que somos redimidos.

Ó meu Deus! com um amor, um gozo e uma ação de graças que não se podem exprimir, eu te louvo por Cristo, que por ti nos foi feito santificação e redenção. Nele tu és o meu Redentor, o meu Santo. Nele eu sou o teu redimido, o teu santo. Ó Deus! em muda adoração prostro-me para adorar o amor que excede todo conhecimento, que fez isto por nós, e para crer que, num que está agora diante de ti, santo em Cristo, tu cumprirás todos os teus gloriosos propósitos segundo a grandeza do teu poder. Amém.

1. ‘A redenção pelo seu sangue.’ O sangue, encontramo-lo no limiar da vereda da Santidade. Pois é o sangue do sacrifício que o fogo de Deus consumiu, e contudo não pôde consumir. Tal poder de santidade há nesse sangue, que lemos: ‘Santificado pelo seu próprio sangue.’ Pense sempre na santidade, ou ore por ela, como um redimido pelo sangue. Viva sob a cobertura do sangue, no seu diário poder purificador.

2. É somente ao conhecermos a Santidade de Deus como Fogo, e ao nos inclinarmos diante do seu justo juízo, que podemos apreciar a preciosidade do sangue ou a realidade da redenção. Enquanto pensarmos no amor de Deus apenas como bondade, poderemos almejar ser bons; a fé em Deus que redime despertará em nós a necessidade e o gozo de ser santo em Cristo.

3. Você compreendeu o direito de propriedade que Deus tem sobre aquilo que redimiu? Você ouviu uma voz dizer: Meu. Tu és meu. Peça a Deus, com muita humildade, que a diga a você. Escute-a com muita mansidão.

4. A santidade da criatura tem a sua origem na vontade Divina, na Divina eleição, redenção e posse. Entregue-se a esta vontade de Deus e regozije-se nela.

5. Assim como Deus criou, também redimiu, para santificar. Tenha nele grande fé para isto.

6. Deixe que Deus tenha a inteira posse de você e disponha de você. A santidade é dele; a nossa santidade consiste em deixar que Ele, o Santo, seja tudo.


Sexto Dia.


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