Capítulo 5 · 14 min de leitura
A Santidade e a Revelação
‘E vendo o Senhor que ele se desviava para ver, bradou Deus a ele do meio da sarça, e disse: Moisés, Moisés. E ele disse: Eis-me aqui. E disse: Não te chegues para cá; tira os sapatos de teus pés, porque o lugar em que tu estás é terra santa. E Moisés escondeu o seu rosto, porque temeu olhar para Deus.’—Êx. 3:4-6.
E por que era terra santa? Porque Deus ali viera e a ocupara. Onde Deus está, ali há santidade; é a presença de Deus que torna santo. Esta é a verdade que encontramos no Paraíso, quando o homem acabara de ser criado; aqui, onde a Escritura usa a palavra Santo pela segunda vez, ela é repetida e reforçada. Um estudo atento da palavra, à luz da sarça ardente, abrirá ainda mais o seu profundo significado. Vejamos o que a história sagrada, o que a revelação de Deus, e o que Moisés nos ensinam sobre esta terra santa.
1. Repare no lugar que esta primeira revelação direta de Deus ao homem como o Santo ocupa na história sagrada. No Paraíso encontramos a palavra Santo usada a respeito do sétimo dia. Desde então se passaram vinte e cinco séculos. Encontramos, na santificação que Deus fez do dia de repouso, a promessa de uma nova dispensação — a revelação do Criador Todo-Poderoso, que havia de ser seguida pela do Santo que santifica. E, contudo, por todo o livro de Gênesis a palavra nunca mais ocorre; é como se a Santidade de Deus estivesse suspensa; somente em Êxodo, com a vocação de Moisés, ela torna a aparecer. Este é um fato de profundo alcance. Assim como o pai ou o mestre procura, na primeira infância, imprimir uma lição de cada vez, assim Deus procede na educação do gênero humano. Depois de haver, no dilúvio, manifestado o seu justo juízo contra o pecado, ele chama Abraão para ser o pai de um povo escolhido. E, como fundamento de todo o seu trato com aquele povo, ensina primeiramente a ele e à sua semente a lição da confiança de criança — confiança nele como o Todo-Poderoso, para quem nada é maravilhoso demais, e confiança nele como o Fiel, cujo juramento não podia ser quebrado. Com o crescimento de Israel até tornar-se um povo, vemos a revelação avançar para uma nova etapa. A simplicidade da infância dá lugar à rebeldia da juventude, e agora Deus tem de intervir com a disciplina e a restrição da lei. Tendo conquistado o direito a um lugar na confiança deles como o Deus de seus pais, ele os prepara para uma revelação ulterior. Do Deus de Abraão o principal atributo era ser ele o Todo-Poderoso; do Deus de Israel, Jeová, é que ele é o Santo.
E qual há de ser a marca especial do novo período que agora está para ser inaugurado, e que é introduzido pela palavra santo? Deus diz a Moisés que agora vai revelar-se num novo caráter. Ele fora conhecido de Abraão como Deus Todo-Poderoso, o Deus da Promessa (Êx. 6:3). Agora se manifestaria como Jeová, o Deus do Cumprimento, especialmente na redenção e no livramento do seu povo da opressão que ele predissera a Abraão. Deus Todo-Poderoso é o Deus da Criação: Abraão creu em Deus, ‘que vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem.’ Jeová é o Deus da Redenção e da Santidade. Com Abraão não houve uma palavra de pecado ou de culpa, e portanto tampouco de redenção ou de santidade. A Israel a lei há de ser dada, para convencer do pecado e preparar o caminho para a santidade; é Jeová, o Santo de Israel, o Redentor, quem agora aparece. E é a presença deste Santo que faz a terra santa.
2. E como se revela esta Presença? Na sarça ardente Deus se dá a conhecer como habitando no meio do fogo. Em outro lugar da Sagrada Escritura a conexão entre o fogo e a Santidade de Deus é claramente expressa: ‘A luz de Israel virá a ser fogo, e o seu Santo, labareda.’ A natureza do fogo pode ser benéfica ou destruidora. O sol, o grande fogo central, pode dar vida e fecundidade, ou pode crestar até a morte. Tudo depende de ocupar a posição certa, da relação em que estamos para com ele. E assim, onde quer que Deus, o Santo, se revele, encontraremos os dois lados juntos: a Santidade de Deus como juízo contra o pecado, destruindo o pecador que nele permanece, e como Misericórdia, libertando dele o seu povo. Juízo e Misericórdia andam sempre juntos. Dos elementos da natureza nenhum há de energia tão espiritual e poderosa como o Fogo: o que ele consome, toma-o e o transforma em sua própria natureza espiritual, rejeitando como fumaça e cinza o que não pode ser assimilado. E assim a Santidade de Deus é aquela Perfeição infinita pela qual ele se conserva livre de tudo o que não é Divino, e contudo tem comunhão com a criatura, e a toma para si em união consigo mesmo, destruindo e lançando fora tudo o que não quer render-se a ele.
É assim, como Aquele que habita no fogo, que é fogo, que Deus se revela na abertura deste novo período de redenção. Com Abraão e os patriarcas, como dissemos, houvera pouco ensino acerca do pecado ou da redenção; fora revelada a proximidade e a amizade de Deus. Agora a lei será dada, o pecado será manifestado, a distância de Deus será sentida, para que o homem, aprendendo a conhecer-se a si mesmo e à sua pecaminosidade, aprenda a conhecer a Deus e a ansiar por que ele o torne santo. Em toda a revelação que Deus faz de si mesmo encontraremos a combinação dos dois elementos, um que repele, outro que atrai. Na sua casa ele habitará no meio de Israel, e contudo será na terrível e inacessível solidão e treva do Santo dos Santos, dentro do véu. Ele se aproximará deles, e contudo os manterá à distância. À medida que estudarmos a Santidade de Deus, veremos com clareza crescente como, à semelhança do fogo, ela repele e atrai, como combina em uma só coisa a sua infinita distância e a sua infinita proximidade.
3. Mas a distância será aquilo que primeiro sobressai, e com maior força. Isto vemos em Moisés: ele escondeu o seu rosto, porque temeu olhar para Deus. A primeira impressão que a Santidade de Deus produz é a de temor e pavor. Enquanto o homem, tanto como criatura quanto como pecador, não aprender quão alto Deus está acima dele, quão diferente e distante ele está de Deus, a Santidade de Deus terá pouco valor ou atração reais. Moisés escondendo o seu rosto nos mostra o efeito do aproximar-se do Santo, e o caminho para a sua revelação ulterior.
Quão distintamente isto sobressai nas próprias palavras de Deus: ‘Não te chegues para cá; tira os sapatos de teus pés.’ Sim, Deus se aproximara, mas Moisés não pode. Deus se aproxima: o homem tem de recuar. No mesmo fôlego Deus diz: Chega-te, e: Não te chegues. Não pode haver conhecimento de Deus, nem proximidade dele, onde não tenhamos primeiro ouvido o seu: Não te chegues. O senso do pecado, da inaptidão para a presença de Deus, é o alicerce do verdadeiro conhecimento ou adoração dele como o Santo. ‘Tira os sapatos de teus pés.’ Os sapatos são o meio de intercâmbio com o mundo, os auxílios pelos quais a carne ou a natureza faz a sua vontade, anda de um lado para outro e realiza a sua obra. Ao estar em terra santa, tudo isto deve ser removido. É de pés descalços, nu e despojado de toda cobertura, que o homem deve inclinar-se diante de um Deus santo. A nossa total inaptidão para nos aproximarmos ou termos qualquer trato com o Santo é a primeiríssima lição que temos de aprender, se algum dia havemos de participar da sua Santidade. Aquele Despoja-te! deve exercer o seu poder condenatório através de todo o nosso ser, até chegarmos a compreender toda a extensão do seu sentido naquele grande: ‘Despojai-vos do velho homem; revesti-vos do Senhor Jesus,’ e no que é ‘o despojar-se do corpo da carne, na circuncisão de Cristo.’ Sim, tudo o que é da natureza e da carne, tudo o que é do nosso próprio fazer, querer ou obrar — a nossa própria vida — deve ser despojado e entregue à morte, se Deus, como o Santo, há de dar-se a conhecer a nós.
Já vimos antes que a Santidade é mais do que bondade ou isenção de pecado: mesmo a natureza não caída não é santa. A Santidade é aquela glória tremenda pela qual a Divindade é separada de tudo o que é criado. Por isso, até os serafins cobrem o rosto com as asas quando cantam o Três Vezes Santo. Mas, oh! quando a distância e a diferença não são apenas as da criatura, mas as do pecador, quem poderá exprimir, quem poderá compreender a humilhação, o temor, a vergonha com que deveríamos inclinar-nos diante da voz do Santo? Ai! este é um dos mais terríveis efeitos do pecado: que ele nos cega. Não sabemos quão profano, quão abominável, são o pecado e a natureza pecaminosa aos olhos de Deus. Perdemos o poder de reconhecer a Santidade de Deus: a filosofia pagã não teve sequer a ideia de usar a palavra como expressão do caráter moral dos seus deuses. Ao perder a luz da glória de Deus, perdemos o poder de saber o que é o pecado. E agora a primeira obra de Deus, ao aproximar-se de nós, é fazer-nos sentir que não podemos aproximar-nos como estamos; que terá de haver um despojar-se muito real e muito solene, e até uma entrega à morte, de tudo o que parece mais lícito e mais necessário. Não são só os nossos sapatos que estão sujos pelo contato com esta terra profana; até o nosso rosto deve ser coberto e os nossos olhos fechados, em sinal de que os olhos do nosso coração, toda a nossa sabedoria e entendimento humanos, são incapazes de contemplar o Santo. A primeira lição na escola da santidade pessoal é temer e esconder o rosto diante da Santidade de Deus. ‘Assim diz o Alto e o Sublime, cujo nome é santo: Habito no alto e santo lugar, e também com aquele que é de espírito contrito e humilde.’ Contrição, quebrantamento de espírito, temor e tremor são a primeira exigência de Deus àqueles que desejam ver a sua Santidade.
Moisés havia de ser o primeiro pregador da Santidade de Deus. Da plena comunicação da Santidade de Deus a nós em Cristo, a sua primeira revelação a Moisés foi o tipo e o penhor. Dos lábios de Moisés o povo de Israel, da sua pena a Igreja de Cristo, havia de receber a mensagem: ‘Sede santos: eu sou santo: eu santifico.’ A sua preparação para ser o mensageiro do Santo se deu aqui, onde escondeu o seu rosto, porque temeu olhar para Deus. É com o rosto no pó, é no despojar-se não só dos sapatos, mas de tudo o que esteve em contato com o mundo, com o eu e com o pecado, que a alma se aproxima do fogo, no qual Deus habita, e que arde, mas não consome. Oh, que todo crente que procura testemunhar de Deus como o Santo pudesse assim aprender como o cumprimento do tipo da Sarça Ardente é o Cristo Crucificado, e como, ao morrermos com ele, recebemos aquele Batismo de Fogo, que revela em cada um de nós o que ele significa: o Santo habitando numa Sarça Ardente. Só assim podemos aprender o que é ser santo, como ele é santo.
Sede santos, porque eu sou santo.
Deus Santíssimo! Eu te vi, a ti que habitas no fogo. Ouvi a tua voz: Não te chegues para cá; tira os sapatos dos teus pés. E a minha alma temeu olhar para Deus, o Santo.
E contudo, ó meu Deus! eu preciso ver-te. Tu me criaste à tua semelhança. Ensinaste que esta semelhança é a tua Santidade: ‘Sede santos, como eu sou santo.’ Ó meu Deus! como saberei ser santo, se não puder ver-te, o Santo? Para ser santo, preciso olhar para Deus.
Eu te bendigo pela revelação de ti mesmo nas chamas da sarça espinhosa, no fogo da árvore maldita. Inclino-me em assombro e profundo abatimento diante da grande visão: teu Filho, na fraqueza da sua natureza humana, no fogo, ardendo, mas não consumido. Ó meu Deus! em temor e tremor entreguei-me a mim mesmo, como pecador, para morrer como ele. Oh, que o fogo consuma tudo o que há de profano em mim! Faze que eu também te conheça como o Deus que habita no fogo, para derreter, purgar e destruir o que não é de ti, para salvar e tomar para a tua própria Santidade o que é teu.
Ó Santo Senhor Deus! Inclino-me no pó diante deste grande mistério. Revela-me a tua Santidade, para que eu também seja a sua testemunha e o seu mensageiro na terra. Amém.
1. A santidade como o fogo de Deus. Louvado seja Deus por haver um Poder que pode consumir o vil e a escória, um Poder que não o deixará intocado. ‘A sarça que arde, mas não se consome’ não é apenas o lema da Igreja no tempo da perseguição; é a palavra de ordem de toda alma na obra santificadora de Deus.
2. Há uma nova Teologia, que só fala do amor de Deus visto na cruz. Não vê a glória da sua Justiça, nem o seu justo juízo. Este não é o Deus da Escritura. ‘O nosso Deus é um fogo consumidor,’ é Teologia do Novo Testamento. ‘Prestar culto com reverência e temor,’ é religião do Novo Testamento. Na Santidade, o Juízo e a Misericórdia se encontram.
3. A santidade como o temor de Deus. Esconder o rosto diante de Deus por temor, não ousando olhar nem falar — este é o começo do repouso em Deus. Ainda não é o verdadeiro repouso, mas o caminho para ele. Que Deus nos dê um profundo temor de tudo o que poderia entristecê-lo ou provocar-lhe a ira. Que tenhamos um profundo temor de nós mesmos, e de tudo o que é da velha, da condenada natureza, para que não torne a levantar-se. ‘O espírito do temor do Senhor’ é a primeira manifestação do espírito de santidade, e prepara o caminho para a alegria da santidade. ‘Andando no temor do Senhor, e na consolação do Espírito Santo;’ estes são os dois lados da vida cristã.
4. A Santidade de Deus foi revelada a Moisés para que ele fosse o seu mensageiro. De nada a Igreja tem hoje tanta necessidade como de homens e mulheres que possam testemunhar da Santidade de Deus. Você quer ser um deles?
NOTA.
A conexão entre o temor de Deus e a santidade é muito íntima. Há alguns que buscam com todo o empenho a santidade, e contudo nunca a exibem numa luz que atraia o mundo, ou mesmo os crentes, porque este elemento lhes falta. É o temor do Senhor que opera aquela mansidão e brandura, aquele livramento da autoconfiança e da autoconsciência, que formam o verdadeiro fundamento de um caráter santo. As passagens da Palavra de Deus em que as duas palavras estão ligadas entre si bem merecem um estudo atento. ‘Quem é como tu, glorioso em santidade, terrível em louvores?’ ‘No teu temor me inclinarei para o teu santo templo.’ ‘Temei ao Senhor, vós, os seus santos.’ ‘Adorai ao Senhor na beleza da santidade; tremei diante dele, toda a terra.’ ‘Louvem o teu grande e tremendo nome; santo é ele.’ ‘O temor do Senhor é o princípio da sabedoria; e o conhecimento do Santo é o entendimento.’ ‘Ao Senhor dos Exércitos, a ele santificai; seja ele o vosso temor, e seja ele o vosso assombro.’ ‘Aperfeiçoando a santidade no temor do Senhor.’ ‘Como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos; e, se o invocais como Pai, passai em temor o tempo da vossa peregrinação.’ E assim por toda a Escritura, desde o Cântico de Moisés até o Cântico do Cordeiro: ‘Quem não te temerá, ó Senhor, e não glorificará o teu nome? porque só tu és santo.’ Se nos entregarmos à impressão de tais passagens, sentiremos mais profundamente que o temor de Deus, o terno temor de o ofender de algum modo, o temor sobretudo de entrar na sua santa presença com o que é humano e carnal, com algo da nossa própria sabedoria e esforço, é da própria essência da santidade que devemos buscar. É este temor de Deus que nos fará, como a Moisés, prostrar-nos e esconder o rosto na presença de Deus, e esperar que o seu próprio Espírito Santo abra em nós os olhos, e sopre em nós os pensamentos e a adoração com que nos aproximamos dele, o Santo. É neste santo temor que se opera aquela quietude da alma que a leva a repousar em Deus, e abre o caminho para o que vimos no Paraíso ser o segredo da santidade: Deus guardando o seu Sábado, e santificando a alma na qual ele repousa.