Santo em Cristo ·A Santidade e a Criação

Capítulo 4 · 10 min de leitura

A Santidade e a Criação

‘E abençoou Deus o dia de sábado, e o santificou, porque nele descansara de toda a obra que Deus criara e fizera.’—Gên. 2:3.

No Gênesis temos o Livro dos Começos. Aos seus três primeiros capítulos devemos, de modo especial, uma luz divina que resplandece sobre as muitas questões às quais a sabedoria humana jamais pôde encontrar resposta. Em nossa busca da Santidade, também para lá somos conduzidos. Em todo o livro de Gênesis a palavra Santo ocorre uma só vez. Mas essa única vez em tal conexão que nos abre a fonte secreta de onde flui tudo o que a Bíblia tem a ensinar-nos ou a dar-nos desta bênção celestial. O pleno sentido da preciosa palavra que queremos dominar, da inestimável bênção de que queremos tomar posse, ‘Santificados em Cristo,’ tem a sua origem no que aqui está escrito daquele maravilhoso ato de Deus, pelo qual Ele encerrou a Sua obra da criação e revelou quão maravilhosamente ela seria continuada e aperfeiçoada. Quando Deus abençoou o sétimo dia, e o santificou, Ele o elevou acima dos demais dias, e o separou para uma obra e uma revelação de Si mesmo, sobrepujando em glória tudo o que a precedera. Nesta simples expressão, a Escritura nos revela o caráter de Deus como o Santo, que santifica; o modo pelo qual Ele santifica, entrando e descansando; e o poder da bênção com que o santificar de Deus sempre vem acompanhado. Estas três lições havemos de achar da mais profunda importância estudar bem, por conterem os princípios fundamentais de tudo o que a Escritura terá a ensinar-nos em nossa busca da Santidade.

1. Deus santificou o dia de sábado. Nos seis dias anteriores a palavra-chave fora, desde o primeiro chamar à existência dos céus e da terra, até a formação do homem: Deus criou. De súbito uma nova palavra e uma nova obra de Deus é introduzida: Deus santificou. Algo mais elevado do que a criação, aquilo para o qual a criação há de existir, vai agora ser revelado; Deus Todo-Poderoso vai agora ser conhecido como Deus Santíssimo. E assim como a obra da criação mostra o Seu Poder, sem que esse Poder seja mencionado, assim o Seu santificar o sétimo dia revela o Seu caráter como o Santo. Assim como a Onipotência é a principal dos Seus atributos naturais, assim a Santidade é o primeiro dos Seus atributos morais. E assim como só Ele é Criador, assim só Ele é Santificador; santificar é obra Sua tão verdadeira e exclusivamente como criar. Bem-aventurado o filho de Deus que verdadeira e plenamente crê nisto!

Deus santificou o dia de sábado. A palavra pode ensinar-nos qual é a natureza da obra que Deus faz quando santifica. A Santificação no Paraíso não pode ser essencialmente diferente da Santificação na Redenção. Deus declarara todas as Suas obras, e o homem o principal delas, muito boas. E, contudo, não eram santas. A obra dos seis dias nada tinha de contaminação ou pecado, e, contudo, não era santa. O sétimo dia precisava ser especialmente santificado, para a grande obra de santificar o homem, que já era muito bom. No Êxodo, Deus diz distintamente que santificou o dia de sábado, com vistas à santificação do homem. ‘Para que saibais que eu sou o Senhor que vos santifica.’ A bondade, a inocência, a pureza, a isenção de pecado, não é a Santidade. A bondade é obra da onipotência, um atributo da natureza, tal como Deus a cria: a santidade é algo infinitamente mais elevado. Falamos da santidade de Deus como a Sua infinita perfeição moral; a perfeição moral do homem só poderia vir no uso da sua vontade, consentindo livremente na vontade de Deus e nela permanecendo. Só assim poderia ele tornar-se santo. O sétimo dia foi santificado por Deus como penhor de que Ele haveria de santificar o homem. Nas eras que precederam o sétimo dia, o período da Criação, o Poder, a Sabedoria e a Bondade de Deus haviam sido manifestados. A era vindoura, no período do sétimo dia, há de ser a dispensação da santidade: Deus santificou o sétimo dia.

2. Deus santificou o dia de sábado, porque nele descansou de toda a Sua obra. Este descanso era algo real. Na Criação, Deus havia, por assim dizer, saído de Si mesmo para produzir algo novo: ao descansar, Ele agora retorna da Sua obra criadora para dentro de Si mesmo, para regozijar-Se no Seu amor sobre o homem que criou, e comunicar-Se a ele. Isto nos abre o modo pelo qual Deus santifica. A ligação entre o descansar e o santificar não era arbitrária; o santificar não foi um pensamento posterior; pela própria natureza das coisas não poderia ser de outro modo: Ele santificou porque nele descansou; Ele santificou descansando. Ao contemplar a Sua obra acabada, e mais especialmente o homem, e regozijar-Se nela, e, como o temos no Êxodo, ‘tomou alento,’ este tempo do Seu descanso divino é o tempo em que Ele levará à perfeição o que começou, e fará do homem, criado à Sua imagem, deveras participante da Sua mais alta glória, a Sua Santidade.

Onde Deus descansa em complacência e amor, Ele santifica. A Presença de Deus revelando-Se a Si mesma, entrando e tomando posse, é o que constitui a verdadeira Santidade. À medida que descemos pelas eras, estudando o desdobramento progressivo do que é a Santidade, esta verdade continuamente nos sairá ao encontro. Na habitação de Deus no céu, no Seu templo na terra, no Seu Filho amado, na pessoa do crente por meio do Espírito Santo, em toda a parte havemos de achar que a Santidade não é algo que o homem é ou faz, mas que ela sempre vem onde Deus vem. No mais profundo sentido das palavras: onde Deus entra para descansar, ali Ele santifica. E quando chegarmos a estudar a revelação do Novo Testamento acerca do modo pelo qual havemos de ser santos, acharemos nisto uma das nossas mais primevas e profundas lições. É ao entrarmos no descanso de Deus que nos tornamos participantes da Sua Santidade. ‘Nós, os que temos crido, entramos naquele repouso;’ ‘Aquele que entrou no seu repouso, também ele próprio repousou das suas obras, como Deus das suas.’ É quando a alma cessa dos seus próprios esforços, e descansa Naquele que tudo acabou por nós, e tudo acabará em nós, quando a alma se entrega na tranquila confiança da verdadeira fé para descansar em Deus, que ela conhecerá o que é a verdadeira Santidade. Onde a alma entra na quietude sabática da perfeita confiança, Deus vem guardar santo o Seu sábado; e a alma em que Ele descansa Ele santifica. Quer falemos do Seu próprio dia, ‘Ele o santificou,’ quer do Seu próprio povo ‘santificados em Cristo,’ o segredo da Santidade é sempre o mesmo: ‘Ele santificou porque descansou.’

3. E então lemos: ‘Ele abençoou e o santificou.’ Tal como é empregada no primeiro capítulo e em todo o livro de Gênesis, a palavra ‘Deus abençoou’ é de grande significado. ‘Frutificai e multiplicai-vos’ foi, tanto para Adão como, mais tarde, para Noé e Abraão, a exposição divina do seu sentido. A bênção com que Deus abençoou Adão, e Noé, e Abraão foi a da fecundidade e do crescimento, o poder de reproduzir-se e multiplicar-se. Quando Deus abençoou o sétimo dia, Ele o encheu de tal modo com o poder vivo da Sua Santidade, que nele essa Santidade pudesse crescer e reproduzir-se naqueles que, como Ele, buscam entrar no seu descanso e santificá-lo. O sétimo dia é aquele em que ainda estamos vivendo. De cada um dos dias da criação está escrito, até o último: ‘E houve tarde, e houve manhã, o dia sexto.’ Do sétimo o registro ainda não foi feito; nele estamos vivendo agora, o próprio dia de Deus de descanso e santidade e bênção. Entrando nele de modo muito especial, e tomando posse dele, como o tempo do Seu regozijo na Sua criatura, e manifestando a plenitude do Seu amor ao santificá-la, Ele fez da dispensação em que agora vivemos uma de divina e poderosa bênção. E ao mesmo tempo Ele nos ensinou o que é a bênção. A Santidade é bem-aventurança. A comunhão com Deus no Seu santo descanso é bem-aventurança. E assim como todas as bênçãos de Deus em Cristo têm apenas uma fonte, a Santidade de Deus, assim todas elas têm apenas um alvo, tornar-nos participantes daquela Santidade. Deus criou, e abençoou; com a bênção da criação. Deus santificou, e abençoou; com a bênção sabática do Seu descanso. A bênção da Criação, de bondade e fecundidade e domínio, há de ser coroada pela bênção sabática do descanso em Deus e da santidade em comunhão com Ele.

A obra acabada da Criação de Deus foi desfigurada pelo pecado, e a nossa comunhão com Ele na bênção do Seu santo descanso foi cortada. A obra acabada da redenção abriu-nos um descanso mais verdadeiro e uma entrada mais segura na Santidade de Deus. Assim como Ele descansou no Seu santo dia, assim Ele agora descansa no Seu Santo Filho. Nele podemos agora entrar plenamente no descanso de Deus. ‘Santificados em Cristo,’ descansemos Nele. Descansemos, porque vemos que tão maravilhosamente como Deus, pelo Seu poderoso poder, acabou a Sua obra da Criação, Ele completará e aperfeiçoará a Sua obra da santificação. Entreguemo-nos a Deus em Cristo, para descansar onde Ele descansou, para ser santificados com a Sua própria santidade, e para ser abençoados com a própria bênção de Deus. Deus o Santificador é o nome agora inscrito sobre o trono de Deus o Criador. No limiar da história da raça humana resplandece esta palavra de infinita promessa e esperança: ‘Deus abençoou e santificou o sétimo dia porque nele descansou.’

Sede santos, porque eu sou santo.

Bendito Senhor Deus! Prostro-me diante de Ti em humilde adoração. Adoro-Te como Deus o Criador, e Deus o Santificador. Tu Te revelaste como Deus Todo-Poderoso e Deus Santíssimo. Suplico-Te, ensina-me a conhecer-Te e a confiar em Ti como tal.

Humildemente Te peço graça para aprender e reter firmemente as profundas verdades espirituais que revelaste ao santificar o dia de sábado. O Teu propósito na criação do homem é manifestar a Tua Santidade, e torná-lo participante dela. Oh, ensina-me a crer em Ti como Deus meu Criador e Santificador, a crer de todo o meu coração que o mesmo poder Todo-Poderoso que deu a bênção do sexto dia da criação, nos assegura a bênção do sétimo dia da santificação. A Tua vontade é a nossa santificação.

E ensina-me, Senhor, a compreender melhor como esta bênção vem. É onde Tu entras para descansar, para refrescar-Te e revelar-Te, que Tu santificas. Ó meu Deus! seja o meu coração o Teu lugar de descanso. Eu quisera, na quietude e confiança de uma fé repousada, descansar em Ti, crendo que Tu fazes tudo em mim. Seja tal comunhão contigo, e o Teu amor, e a Tua vontade para mim o segredo de uma vida de santidade. Peço-o no nome de nosso Senhor Jesus, em quem Tu nos santificaste. Amém.

1. Deus o Criador é Deus o Santificador. A Onipotência que fez a primeira obra faz também a segunda. Posso confiar que Deus Todo-Poderoso me fará santo. Deus é santo: se Deus é tudo para mim, a Sua presença será a minha santidade.

2. Descansar é cessar do trabalho, não para não trabalhar mais, mas para começar uma nova obra. Deus descansa e começa imediatamente a santificar aquilo em que descansa. Ele criou pela palavra do Seu poder; Ele descansa no Seu amor. A Criação foi a edificação do templo; a santificação é o entrar e tomar posse. Oh, que maravilhoso entrar na natureza humana!

3. Deus descansa somente no que é repousado, inteiramente à Sua disposição. É no repouso da fé que devemos olhar para Deus o Santificador; Ele entrará e guardará o Seu santo sábado na alma repousada. Nós descansamos no descanso de Deus; Deus descansa no nosso descanso.

4. O Deus que descansa no homem que fez, e ao descansar santifica, e ao santificar abençoa: este é o nosso Deus; louvai-O e adorai-O. E confiai que Ele fará a Sua obra.

5. Descanso! que palavra simples. O Descanso de Deus! que inconcebível plenitude de Vida e Amor há nessa palavra. Meditemos nela e adoremos diante Dele, até que ela nos cubra com a sua sombra e nela entremos—o Descanso de Deus. O descanso pertence a Deus: só Ele pode dá-lo, fazendo-nos partilhar do Seu próprio.


Quarto Dia.


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Santo em Cristo Andrew Murray

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