Capítulo 32 · 12 min de leitura
Santidade e o Céu
‘Visto que todas estas coisas hão de dissolver-se, que pessoas vos convém ser em todo santo trato e piedade?’—2 Pedro 3:11.
‘Segui a santificação sem a qual ninguém verá o Senhor.’—Hebreus 12:14.
‘Aquele que é santo, seja santo ainda…. A graça do Senhor Jesus seja com os santos. Amém.’—Apocalipse 22:11, 21.
Ó meu irmão, estamos a caminho de ver a Deus. Fomos convidados a encontrar o Santo face a face. O infinito mistério da santidade, a glória do Deus Invisível, diante de quem os serafins cobrem o rosto, há de ser desvelado, revelado a nós. E isto não como algo que devêssemos apenas contemplar e estudar. Mas havemos de ver o Três Vezes Santo, o próprio Deus vivo. Deus, o Santo, mostrar-se-á a nós: havemos de ver a Deus. Oh, a graça infinita, a inconcebível bem-aventurança! havemos de ver a Deus.
Havemos de ver a Deus, o Santo. E toda a nossa formação aqui na vida de santidade é simplesmente a preparação para aquele encontro e aquela visão. ‘Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus.’ ‘Segui a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.’ Desde o tempo em que Deus disse a Israel: ‘Sede santos, porque eu sou santo’, a Santidade foi revelada como o único ponto de encontro entre Deus e o seu povo. Ser santo era o terreno comum sobre o qual haviam de estar com Ele; o único atributo no qual haviam de ser semelhantes a Deus; a única coisa que os havia de preparar para o tempo glorioso em que Ele já não precisaria mantê-los afastados, mas os admitiria à plena comunhão da sua glória, para que se cumprisse neles a palavra: ‘Aquele que é santo, seja feito ainda mais santo.’
Na sua segunda epístola, Pedro lembra aos crentes que a vinda do dia do Senhor há de ser precedida e acompanhada pela mais tremenda catástrofe—a dissolução dos céus e da terra. Ele faz disto uma súplica para que se esforcem por serem achados sem mácula e irrepreensíveis diante dele. E pede-lhes que pensem e digam, sob o profundo senso do que a vinda do dia de Deus seria e traria, qual deveria ser a vida daqueles que aguardam tais coisas: ‘Que pessoas vos convém ser em todo santo trato e piedade?’ A santidade deve ser a sua única, a sua universal característica. Ao encerrar as nossas meditações sobre o chamado de Deus à Santidade, podemos tomar a pergunta de Pedro e, à luz de tudo o que Deus revelou da sua Santidade, e de tudo o que ainda espera ser revelado, perguntar a nós mesmos: ‘Que pessoas nos convém ser em todo santo trato e piedade?’
Note primeiro o sentido da pergunta. No grego original, as palavras trato e piedade estão no plural. Alford diz: ‘Em santos comportamentos e piedades; os plurais assinalam o santo comportamento e a piedade em todas as suas formas e exemplos.’ Pedro suplicaria por uma vida de santidade que penetrasse o homem inteiro: os nossos comportamentos para com os homens e as nossas piedades para com Deus. A verdadeira santidade não se pode achar em nada menos que isso. A santidade deve ser a única, a universal característica da nossa vida cristã. Em Deus vimos que a santidade é o atributo central, a expressão abrangente da perfeição divina, o atributo de todos os atributos, o epíteto que tudo inclui, pelo qual Ele mesmo, como Redentor e Pai, o seu Filho e o seu Espírito, o seu Dia, a sua Casa, a sua Lei, os seus Servos, o seu Povo, o seu Nome, são marcados e conhecidos. Sempre e em tudo, no Juízo como na Misericórdia, na sua Exaltação e na sua Condescendência, na sua Ocultação e na sua Revelação, sempre e em tudo, Deus é o Santo. E a Palavra nos ensinaria que o reinado da Santidade, para ser verdadeiro e agradável a Deus, deve ser supremo, deve dar-se em todo santo trato e piedade. Não deve haver um momento do dia, nem uma relação na vida; não deve haver nada na conduta exterior, nem nos recessos mais íntimos do coração; não deve haver nada que nos pertença, seja na adoração ou nos negócios, que não seja santo. A Santidade de Jesus, a Santidade que vem da unção do Espírito, deve cobrir e penetrar tudo. Nada, nada pode ser excluído, se havemos de ser santos; deve ser como Pedro disse quando falou do chamado de Deus—santos em todo o modo de viver; deve ser como ele diz aqui—‘em todo santo trato e piedade.’ Para usar a significativa linguagem do Espírito Santo: Tudo deve ser feito ‘dignamente dos santos,’ ‘como convém aos santos’ (Romanos 16:3; Efésios 5:3).
Note, também, a força da pergunta. Pedro diz: ‘Portanto, amados, aguardando vós estas coisas.’ Sim, pensemos no que isto significa. Temos estudado, ao longo do curso da Revelação, a maravilhosa graça e paciência com que Deus deu a conhecer a sua santidade e dela nos fez participantes, tudo em preparação para o que há de vir. Temos ouvido Deus, o Santo, chamando-nos, suplicando-nos, ordenando-nos que sejamos santos, como Ele é santo. E esperamos encontrá-lo e habitar por toda a eternidade na sua Luz, santos como Ele é santo. Não é um sonho; é uma realidade viva; aguardamo-la como a única coisa que faz a vida valer a pena. Aguardamos que o Amor nos acolha, quando, com a confiança do amor de criança, viermos como os seus santos clamar: Pai Santo!
Aprendemos a conhecer Jesus, o Santo de Deus, a nossa Santificação. Vivemos nele, dia após dia, como aqueles que são santos em Cristo Jesus. Recorremos à sua Santidade sem cessar. Andamos naquela vontade de Deus que Ele fez e que nos capacita a fazer. E aguardamos encontrá-lo com grande alegria, ‘quando ele vier para ser glorificado nos seus santos e para se fazer admirável em todos os que creem.’ Temos dentro de nós o Espírito Santo, a Santidade de Deus em Cristo descida para habitar em nós, como o penhor da nossa herança. Ele, o Espírito de Santidade, secretamente nos transforma por dentro, santificando o nosso espírito, alma e corpo, para serem irrepreensíveis na sua vinda, e tornando-nos idôneos para a herança dos santos na luz. Aguardamos o tempo em que Ele terá completado a sua obra, quando o corpo de Cristo for aperfeiçoado, e a noiva, toda cheia e transbordante da vida e da glória do Espírito dentro dela, for assentada com Ele no seu trono, assim como Ele se assentou com o Pai no seu trono. Esperamos, por toda a eternidade, adorar e reverenciar o mistério do Três Vezes Santo. Já aqui isto enche as nossas almas de trêmula alegria e assombro: quando a obra de Deus de nos fazer santos estiver completa, como nos uniremos ao cântico: ‘Santo, Santo, Santo, Senhor Deus Todo-Poderoso, que era, e que é, e que há de vir!’
Em preparação para tudo isto, os mais admiráveis acontecimentos hão de ter lugar. O próprio Senhor Jesus há de aparecer, o poder do pecado e do mundo há de ser destruído; este sistema visível de coisas há de ser desfeito; o poder do Espírito há de triunfar por toda a criação; haverá novos céus e nova terra, em que habita a justiça. E a santidade será então desdobrada em bem-aventurança e glória sempre crescentes na comunhão do Três Vezes Santo: ‘Aquele que é santo, seja santo ainda mais.’ Certamente basta que a pergunta seja posta para que cada crente sinta e reconheça a sua força: ‘Portanto, amados, aguardando vós estas coisas, que pessoas vos convém ser em todo santo trato e piedade?’
E note agora a necessidade e o ponto da pergunta. ‘Que pessoas vos convém ser?’ Mas será tal pergunta necessária? Poderá ser que os santos de Deus, feitos santos em Cristo Jesus, com o próprio espírito de santidade habitando com eles, a caminho de encontrar o Santo na sua Glória e Amor, poderá ser que precisem da pergunta? Ai! ai! assim era no tempo de Pedro; e assim é ainda demasiado nos nossos dias também. Ai! quantos cristãos há para quem a própria palavra Santo, ainda que seja o nome pelo qual o Pai, no seu Novo Testamento, ama chamar os seus filhos mais do que por qualquer outro, é estranha e ininteligível. E de novo, ai! para quantos cristãos há para quem, ao ouvir-se a palavra, ela tem tão pouca atração, porque nunca ainda lhes foi mostrada como uma vida que é de fato possível, e indizivelmente bem-aventurada. E ainda outra vez, ai! para quantos há, mesmo obreiros no serviço do Mestre, para quem ‘todo santo trato e piedade’ é ainda um segredo e um fardo, porque ainda não consentiram em entregar tudo, tanto a sua vontade como a sua obra, para que o Santo os tome e os encha do seu Espírito Santo. E ainda uma vez mais, ai! como o clamor vem, mesmo daqueles que de fato conhecem o poder de uma vida santa, lamentando a sua infidelidade e incredulidade, ao verem quão mais rica poderia ter sido a sua entrada na Vida Santa, e quão mais plena a bênção que ainda se sentem tão débeis para comunicar aos outros. Oh, a pergunta é necessária! Não haveremos cada um de nós de tomá-la, e guardá-la, e respondê-la pelo Espírito Santo por quem ela veio, e então transmiti-la aos nossos irmãos, para que nós e eles possamos ajudar-nos uns aos outros na fé, e viver em alegria e esperança para dar a resposta que o nosso Deus quereria?
‘Visto que todas estas coisas, pois, hão de dissolver-se, que pessoas nos convém ser em todo santo trato e piedade?’ Irmãos! o tempo é curto. O mundo está passando. Os pagãos estão perecendo. Os cristãos estão dormindo. Satanás é ativo e poderoso. Os santos de Deus são a esperança da Igreja e do mundo. São eles que o seu Senhor pode usar. ‘Que pessoas havemos de ser em todo santo trato e piedade!’ Não haveremos de buscar ser tais como o Pai ordena: ‘Santos, como ele é santo’? Não haveremos de nos entregar de novo e sem reservas Àquele que é a nossa Santificação, e ao seu Bendito Espírito, para que nos faça santos em todos os comportamentos e piedades? Oh! não haveremos, ao pensar no amor de nosso Senhor Jesus, ao pensar na glória vindoura, à vista do fim que se aproxima, da necessidade da Igreja e do mundo, de nos dar para sermos santos como Ele é santo, a fim de que tenhamos poder para abençoar cada crente que encontrarmos com a mensagem do que Deus fará, e para que, em concerto com eles, sejamos luz e bênção para este mundo que perece?
Encerro com as palavras finais do Bendito Livro de Deus: ‘Aquele que testifica estas coisas diz: Certamente, cedo venho. Amém; ora vem, Senhor Jesus. A graça do Senhor Jesus seja com os santos. Amém.’
Sede santos, porque eu sou santo.
Deus Santíssimo! que nos chamaste a ser santos, ouvimos a tua voz perguntando: Que pessoas nos convém ser em todo santo trato e piedade? De toda a nossa alma respondemos em profunda contrição e humildade: Pai Santo! deveríamos ser tão diferentes do que temos sido. Na fé e no amor, no zelo e na devoção, na humildade e na santidade semelhantes às de Cristo, ó Pai! não temos sido, diante de ti e do mundo, o que deveríamos ser, o que poderíamos ser. Pai Santo! oramos agora por todos os que se unem a nós nesta oração, e te imploramos que concedas um grande reavivamento da Verdadeira Santidade em nós e em toda a tua Igreja. Visita, nós te suplicamos, visita todos os ministros da tua palavra, para que, à vista da tua vinda, tomem e proclamem por toda parte a pergunta: Que pessoas vos convém ser? Põe sobre eles, e sobre todo o teu povo, tal fardo diante da profanação e da mundanidade que os cercam, que não cessem de clamar a ti. Concede-lhes tal visão da estrada da santidade, o novo e vivo caminho em Cristo, que preguem a Cristo, nossa Santificação, no poder e na alegria do Espírito Santo, com a voz confiante e triunfante de testemunhas que se regozijam no que fazes por elas. Ó Deus! remove o opróbrio do teu povo, que a sua profissão não os torna mais humildes ou mais santos, mais amorosos, e mais celestiais do que os outros.
Ó Deus Santo! dá tu mesmo a resposta à tua pergunta, e ensina a nós e ao mundo que pessoas o teu povo pode ser, no dia do teu poder, na beleza da santidade. Dobramos os nossos joelhos diante de ti, ó Pai, para que nos concedas, segundo as riquezas da tua glória, sermos poderosamente fortalecidos no homem interior pelo Espírito de Santidade. Amém.
1. Que pessoas vos convém ser em todo o santo trato? Esta é uma pergunta que Deus escreveu para nós. Não nos ajudaria se escrevêssemos a resposta, e disséssemos quão santos pensamos que deveríamos ser? Quanto mais claras e distintas forem as nossas ideias do que Deus deseja, do que Ele tornou possível, do que na realidade deveria ser, tanto mais definidos podem tornar-se os nossos atos de confissão, de entrega e de fé.
2. Que todo crente que anseia por ser santo se una à oração diária de que Deus visite o seu povo com um grande derramamento do Espírito de Santidade. Orai sem cessar para que todo crente viva como um santo.
3. ‘Visto que aguardais estas coisas.’ A nossa vida depende, em mais de um sentido, daquilo para que olhamos. ‘Não atentamos nós nas coisas que se veem.’ É somente ao olharmos para o Invisível e o Espiritual, e ao virmos sob o seu poder, que seremos o que devemos ser em todo santo trato e piedade.
4. Santo em Cristo. Seja esta a nossa palavra de despedida. Por mais forte que a vara se torne, por mais longe que se estenda ao redor da casa, fora da vista da videira, toda a sua beleza e toda a sua fecundidade dependem sempre daquele único ponto de contato onde ela brota da videira. Assim seja também conosco. Toda a circunferência exterior da minha vida tem o seu centro no eu—o vivo e consciente eu mesmo, no qual o meu ser se enraíza. E este eu está enraizado em Cristo. Lá nas profundezas da minha vida interior, está Cristo, que me sustém, me suporta, me guia, me vivifica para a santidade e a fecundidade. Nele estou, nele permanecerei. A sua vontade e os seus mandamentos guardarei; no seu Amor e Poder confiarei. E buscarei diariamente louvar a Deus por eu ser Santo em Cristo.