Santo em Cristo ·A Unção do Santo

Capítulo 31 · 12 min de leitura

A Unção do Santo

‘E vós tendes uma unção do Santo, e sabeis todas as coisas. E, quanto a vós, a unção que dele recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, e assim como ela vos ensinou, permanecereis nele.’—1 João 2:20,27.

Na revelação dada por Moisés acerca da Santidade de Deus e do seu modo de fazer santo, os sacerdotes, e especialmente os sumos sacerdotes, eram a principal expressão da Santidade de Deus no homem. Nos próprios sacerdotes, o santo óleo da unção era o grande símbolo da graça que fazia santo. Moisés havia de preparar um santo óleo da unção: ‘E tomarás do óleo da unção, e o aspergirás sobre Arão e sobre os seus filhos; e ele será santificado, e os seus filhos com ele.’ ‘Este me será um santo óleo da unção. Sobre a carne do homem não se derramará, nem fareis outro semelhante a ele; santo é, e por santo o tereis’ (Êxodo 29:21; 30:25-32). Com este haviam de ser ungidos e consagrados os sacerdotes, e especialmente os sumos sacerdotes: ‘Aquele que entre vós é o sumo sacerdote, sobre cuja cabeça foi derramado o óleo da unção, não sairá do lugar santo, nem profanará o lugar santo do seu Deus; porque a coroa do óleo da unção do seu Deus está sobre ele’ (Levítico 21:10,12). E assim também se diz de Davi, como tipo do Messias: ‘O nosso rei é do Santo de Israel. Achei a Davi, meu servo; com o meu santo óleo o ungi.’

Sabemos como o nome hebraico Messias, e o grego Cristo, se referem a isto. Assim, na passagem que acabamos de citar, o hebraico diz: ‘com o meu santo óleo eu o messiei.’ E assim numa passagem como Atos 10:38: ‘Acerca de Jesus de Nazaré, a quem Deus cristou com o Espírito Santo e com poder.’ Ou no Salmo 45: ‘Deus te messiou com o óleo de alegria mais que a teus companheiros;’ em Hebreus 1:9: ‘O teu Deus te cristou com o óleo de alegria.’ E assim (como o exprime um dos nossos Catecismos Reformados, o de Heidelberg, em resposta à pergunta: Por que és chamado cristão?) somos chamados cristãos porque somos com Ele coparticipantes da sua cristação, da sua unção. Esta é a unção de que João fala, o crisma ou cristação do Santo. O Espírito Santo é a santa unção que todo crente recebe: o que Deus fez ao seu Filho para o fazer o Cristo, fá-lo a mim para me fazer cristão. ‘Vós tendes a unção do Santo.’

1. Vós tendes uma unção do Santo. É como o Santo que o Pai concede a unção: aquilo com que Ele unge chama-se o óleo da santidade, o Espírito Santo. A santidade é, na verdade, um unguento divino. Assim como nada há tão sutil e penetrante como o odor com que o unguento enche uma casa, assim a santidade é um sopro indescritível e onipresente de celestialidade que impregna o homem sobre quem repousa a unção. A santidade não consiste em certas ações: isto é a justiça. A santidade é a presença invisível e todavia manifesta do Santo repousando sobre o seu ungido. Diretamente do Santo, e só dele, se recebe a unção; ou antes, somente na comunhão permanente com Ele em Cristo, que é o Santo de Deus.

E quem a recebe? Somente aquele que se entregou inteiramente para ser santo como Deus é santo. Era o sacerdote, separado para ser santo ao Senhor, que recebia a unção: sobre a carne dos outros homens ela não devia ser derramada. Quantos de bom grado quereriam o precioso unguento por causa do seu perfume para si mesmos! Não; somente aquele que está inteiramente consagrado ao serviço do Santo, à obra do santuário, pode recebê-la. Se alguém dissesse: De bom grado quereria a unção, mas não ser feito sacerdote; não estou pronto para ir e estar sempre à disposição dos pecadores que buscam o seu Deus — esse não poderia ter parte nela. A santidade é a energia que só vive para fazer santo, e para abençoar ao fazê-lo: a unção do Santo é para o sacerdote, o servo do Deus Altíssimo. É somente na intensidade de uma alma verdadeiramente despertada e entregue à glória de Deus, ao reino de Deus, à obra de Deus, que a santidade se torna uma realidade. As vestes santas só foram preparadas para os sacerdotes e o seu serviço. Em toda a nossa busca da santidade, lembremo-nos disto. Assim como nos guardamos do erro de pensar que o trabalho por Cristo fará santo, guardemo-nos também do outro, o esforço por santidade sem trabalho. É o sacerdote que é posto à parte para o serviço do lugar santo e do Santo, é o crente que está pronto para viver e morrer a fim de que a Santidade de Deus triunfe entre os homens ao seu redor, que receberá a unção.

2. ‘A unção vos ensina.’ O novo homem é criado em conhecimento, bem como em justiça e santidade. Cristo é feito para nós sabedoria, bem como justiça e santificação. O serviço de Deus e a nossa santidade devem ser, acima de tudo, uma aprovação livre e plena, inteligente e prontíssima, da sua bendita vontade. E assim a unção, para nos habilitar ao serviço do santuário, ensina-nos a conhecer todas as coisas. Assim como o perfume do unguento é a essência mais sutil, algo que nunca ainda foi achado ou sentido, senão quando é cheirado, assim a faculdade espiritual que a unção dá é a mais sutil que pode haver. Ela nos faz ‘de olfato aguçado no temor do Senhor:’ ensina-nos por um instinto divino, pelo qual o ungido reconhece o que tem em si a fragrância celestial, e o que é da terra. É a unção que faz com que a Palavra, e o nome de Jesus na Palavra, sejam de fato como unguento derramado.


A grande marca da unção é, pois, a docilidade em aprender. É a grande marca de Cristo, o Santo de Deus, o Ungido, que Ele escuta: ‘Nada falo de mim mesmo; como ouço, assim falo.’ E assim é também do Espírito Santo: ‘Não falará de si mesmo; tudo quanto ouvir, isso falará.’ Não pode ser de outro modo: aquele que é ungido com a unção deste Cristo, com este Espírito Santo, será dócil para aprender, escutará para ser ensinado. ‘A unção ensina.’ ‘E não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas a sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas.’ ‘Todos serão ensinados por Deus’ — isso inclui todo crente. O segredo da verdadeira santidade é uma relação muito direta e pessoal com o Santo: todo o ensino por meio da palavra ou dos homens feito inteiramente dependente e subordinado ao ensino pessoal do Espírito Santo. O ensino vem pela unção. Não, em primeiro lugar, nos pensamentos ou nos sentimentos, mas naquela fragrância que tudo penetra e que provém do óleo fresco que impregnou todo o homem interior.

3. ‘E a unção permanece em vós.’ ‘Em vós.’ Na vida espiritual é de profunda importância manter sempre a harmonia entre o objetivo e o subjetivo: Deus em Cristo acima de mim, Deus no Espírito dentro de mim. Em nós, não como num lugar, mas em nós, como um só conosco, entrando na parte mais secreta do nosso ser e penetrando tudo, habitando no nosso próprio corpo, a unção permanece em nós, fazendo parte de nós mesmos. E isto exatamente na medida em que a conhecemos e nos entregamos a ela, em que esperamos e ficamos quietos para deixar a fragrância secreta permear todo o nosso ser. E isto, outra vez, não de modo interrompido, mas como uma experiência contínua e invariável. Acima das circunstâncias e dos sentimentos, ‘a unção permanece.’ Não, na verdade, como um estado fixo ou como algo em nossa própria posse; mas, segundo a lei da vida nova, na dependência da fé no Santo, e na comunhão de Jesus. ‘Sou ungido com óleo fresco’ — este é o lado objetivo; cada nova manhã o crente espera a renovação do dom divino da parte do Pai. ‘A unção permanece em vós’ — este é o lado subjetivo; a vida santa, a vida de fé e de comunhão, a unção, é sempre, de momento a momento, uma realidade espiritual. O santo óleo da unção, sempre fresco, a unção permanecendo sempre, é o segredo da santidade.

4. ‘E assim como ela vos ensinou, permanecereis nele.’ Aqui temos de novo a Santíssima Trindade: o Santo, de quem vem a santa unção; o Espírito Santo, que é Ele mesmo a unção; e Cristo, o Santo de Deus, em quem a unção nos ensina a permanecer. Em Cristo a santidade invisível de Deus foi posta diante de nós e trazida para perto: fez-se humana, revestida de uma natureza humana, para que nos pudesse ser comunicada. Dentro de nós habita e opera o Espírito Santo, atraindo-nos para o Cristo de Deus, unindo-nos a Ele em coração e vontade, revelando-o, formando-o dentro de nós, de sorte que a sua semelhança e a sua mente se corporificam em nós. É assim que permanecemos em Cristo: a santa unção do Santo no-lo ensina. É isto a prova da verdadeira unção: o permanecer em Cristo, tal como Ele o quis dizer, torna-se verdade em nós. Eis a vida de santidade tal como o Três Vezes Santo a concede: o Pai, o primeiro, o Santo, que faz santo; o Filho, o segundo, o seu Santo, em quem estamos; o Espírito, o terceiro, que habita em nós, e por quem permanecemos em Cristo, e Cristo em nós. É assim que o Três Vezes Santo nos faz santos.

Estudemos a unção divina. Ela vem do Santo. Não há outra semelhante a ela. É o modo de Deus de nos fazer santos — os seus santos sacerdotes. É o modo de Deus de nos fazer participantes da santidade em Cristo. A unção, recebida dele dia após dia, permanecendo em nós, ensinando-nos todas as coisas, e especialmente ensinando-nos a permanecer em Cristo, deve estar sobre nós cada dia. O seu poder sutil, que tudo penetra, deve percorrer toda a nossa vida: o odor do unguento deve encher a casa. Bendito seja Deus, pois pode fazê-lo! A unção que permanece faz do permanecer em Cristo uma realidade e uma certeza; e o próprio Deus, o Santo, faz também da unção permanente uma realidade e uma certeza. Ao seu santo Nome seja o louvor!

Sede santos, porque eu sou santo.

Ó Tu, que és o Santo, venho a Ti agora para receber a unção renovada. Ó Pai! este é o único dom com que o Teu filho pode contar com toda a certeza — o dom do Teu Espírito Santo. Concede-me agora cantar: ‘Tu unges a minha cabeça;’ ‘Sou ungido com óleo fresco.’

Desejo confessar, com profunda vergonha, que o Teu Espírito tem sido gravemente entristecido e desonrado. Quantas vezes a mente carnal usurpou o Seu lugar na Tua adoração! Quanto a vontade carnal procurou fazer a Sua obra! Ó meu Pai! faze a Tua luz brilhar através de mim, para me convencer bem profundamente disto. Venha o Teu juízo sobre tudo quanto há de humano querer e correr.

Bendito Pai! concede-me, segundo as riquezas da Tua glória, ser agora mesmo fortalecido com poder pelo Teu Espírito no homem interior. Fortalece a minha fé para crer em Cristo, a fim de ter plena parte na Sua unção. Oh, ensina-me dia após dia a esperar e a receber a unção com óleo fresco!

Ó meu Pai! atrai a mim e a todos os Teus filhos a ver que, para o permanecer em Cristo, precisamos da unção permanente. Pai! queremos andar humildemente, na dependência da fé, contando com a unção interior e sempre permanente. Que assim sejamos um suave aroma de Cristo para com todos. Amém.

1. Penso que agora conheço a razão por que às vezes falhamos no permanecer. Pensamos e lemos, escutamos e oramos, tentamos crer e nos esforçamos por olhar somente para Jesus, e todavia falhamos. O que faltava era isto: ‘A sua unção vos ensina; assim como ela vos ensinou, permanecereis nele;’ até aí, e não mais além.

2. A lavagem sempre precede a unção: não podemos ter a unção se falhamos na purificação. Uma vez purificados e ungidos, estamos aptos para o uso.

3. Você quer a unção permanente? Entregue-se inteiramente para ser santificado e tornado apto para o uso do Mestre: habite no Santíssimo, na presença de Deus: aceite cada castigo como uma comunhão no caminho da carne rasgada: esteja certo de que a unção fluirá em união com Jesus. ‘É como o precioso unguento sobre a cabeça de Arão, que desceu até à orla das suas vestes.’

4. A unção é o colírio divino, que abre os olhos do coração para conhecer a Jesus. Assim ela ensina a permanecer nele. Estou certo de que a maioria dos cristãos não tem ideia do perigo e do engano de uma religião de pensamento, com pensamentos doces e preciosos que nos vêm nos livros e na pregação, e pouco poder. O ensino do Espírito Santo está primeiro no coração; o ensino do homem, na mente. Que todo o nosso pensar sempre nos leve a cessar do pensamento, e a abrir o coração e a vontade ao Espírito, para que Ele ensine ali ao seu próprio modo divino, mais profundo do que o pensamento e o sentimento. Invisível, dentro do véu, o Espírito Santo permanece. Fique em silêncio e quietude, creia e espere, e apegue-se a Jesus.

5. Oh, se Deus visitasse a sua Igreja e ensinasse aos seus filhos o que é esperar, e receber, e andar na plena unção, a unção que permanece e ensina a permanecer! Oh, se a verdade da direção pessoal do Espírito Santo em cada crente fosse restaurada na Igreja! Ele o está fazendo; Ele o fará.


Trigésimo Primeiro Dia.

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Santo em Cristo Andrew Murray

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