Capítulo 29 · 14 min de leitura
O Caminho para o Santo dos Santos
‘Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus, pelo caminho que ele consagrou, um novo e vivo caminho, através do véu, isto é, a sua carne; e tendo um grande Sacerdote sobre a casa de Deus; cheguemo-nos com um coração verdadeiro, em plenitude de fé.’—Hb. 10:19–22.
Quando o sumo sacerdote, uma vez por ano, entrava no segundo tabernáculo, dentro do véu, era, como nos diz a Epístola aos Hebreus, ‘o Espírito Santo significando que ainda não estava manifesto o caminho para o Santo dos Santos.’ Quando Cristo morreu, o véu se rasgou; todos os que serviam no lugar santo tiveram, de uma só vez, livre acesso ao Santo dos Santos; o caminho para o Santo dos Santos foi aberto. Quando a Epístola passa à sua aplicação prática (10:19), todo o seu ensino se resume nestas palavras: ‘Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no Santo dos Santos, cheguemo-nos.’ A redenção de Cristo abriu o caminho para o Santo dos Santos: a nossa aceitação dela não pode conduzir a nada menos do que nos aproximarmos e entrarmos. As palavras do nosso texto sugerem-nos quatro pensamentos preciosíssimos a respeito do lugar do acesso, do direito de acesso, do caminho de acesso, do poder de acesso.
O lugar do acesso. Aonde somos convidados a nos aproximar? ‘Tendo ousadia para entrar no Santo dos Santos.’ Os sacerdotes em Israel podiam entrar no lugar santo, mas eram sempre mantidos excluídos do Santo dos Santos, a presença imediata de Deus. O véu rasgado proclamou a liberdade de acesso àquela Presença. É ali que os crentes, como sacerdócio real, devem agora viver e andar. Dentro do véu, no próprio Santo dos Santos, no mesmo lugar, as regiões celestiais, onde Deus habita, na própria Presença de Deus, é que há de estar a nossa morada — o nosso lar. Alguns falam como se o ‘Cheguemo-nos’ significasse oração, e que, na nossa aproximação especial de Deus em atos de adoração, entramos no Santo dos Santos. Não; por maior que seja este privilégio, Deus quis para nós algo infinitamente maior. Devemos nos aproximar e habitar sempre, viver a nossa vida e fazer a nossa obra dentro da esfera, da atmosfera, do santuário interior. É a Presença de Deus que faz o chão santo; a Presença imediata de Deus em Cristo faz de qualquer lugar o Santo dos Santos: e é nele que devemos nos aproximar, e no qual devemos permanecer. Não há um único momento do dia, não há circunstância ou ambiente, em que o crente não possa ser mantido habitando no esconderijo do Altíssimo. À medida que, pela fé, ele entra na plenitude da sua reconciliação com Deus, e na realidade da sua união com Cristo, à medida que assim, permanecendo em Cristo, se entrega ao Espírito Santo para que revele, dentro da Presença do Santo, o Santo dos Santos está ao seu redor, ele está de fato nele. Com um acesso ininterrupto, ele se aproxima.
O direito de acesso. Surge o pensamento, e faz-se a pergunta: não será isto apenas um ideal? poderá ser uma realidade, uma experiência na vida diária para aqueles que sabem quão pecaminosa é a sua natureza? Bendito seja Deus! é para ser assim. É possível, porque o nosso direito de acesso não repousa naquilo que somos, mas no sangue de Jesus. ‘Tendo ousadia para entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus, cheguemo-nos.’ Na Páscoa vimos como a redenção, e a santidade a que ela visava, dependiam do sangue. No santuário, a habitação de Deus, sabemos como, em cada parte — o átrio, o lugar santo, o Santo dos Santos — a aspersão do sangue era o único que garantia o acesso a Deus. E agora que o sangue de Jesus foi derramado — oh! com que poder divino, que intensa realidade, que eficácia eterna, temos agora acesso ao Santo dos Santos, o mais santo do coração de Deus e do seu amor! Nós de fato fomos aproximados pelo sangue. Temos ousadia para entrar pelo sangue. ‘Os adoradores, uma vez purificados, não têm mais consciência de pecados.’ Andando na luz, o sangue de Jesus purifica no poder de uma vida sem fim, com uma purificação que nunca cessa. Nenhuma consciência de indignidade ou de pecaminosidade remanescente precisa impedir a ousadia do acesso: a liberdade de nos aproximarmos repousa na eficácia infalível, sempre atuante e sempre viva do Precioso Sangue. É possível a um crente habitar no Santo dos Santos.
O caminho do acesso. Muitas vezes se pensa que aquilo que se diz do novo e vivo caminho, consagrado para nós por Jesus, não significa nada de diferente da ousadia por meio do seu sangue. Não é este o caso. As palavras significam muito mais. ‘Tendo ousadia pelo sangue de Jesus, cheguemo-nos pelo caminho que ele consagrou para nós.’ Isto é, ele abriu para nós um caminho por onde andar, como ele mesmo andou nele, ‘um novo e vivo caminho, através do véu, isto é, a sua carne.’ O caminho pelo qual Cristo andou quando deu o seu sangue é exatamente o mesmo pelo qual também nós devemos andar. Esse caminho é o caminho da Cruz. Não deve haver somente fé no sacrifício de Cristo, mas comunhão com ele nesse sacrifício. Esse caminho levou ao rasgar do véu da carne, e assim, através do véu rasgado da carne, para dentro, a Deus. E porventura foi o véu da santa carne de Cristo rasgado para que o véu da nossa carne pecaminosa fosse poupado? Em verdade, não. Ele quis que andássemos exatamente pelo mesmo caminho por onde ele andou, seguindo-o de perto. Ele consagrou para nós um novo e vivo caminho através do véu, isto é, a sua carne. À medida que entramos pelo véu rasgado da sua carne, encontramos nele, ao mesmo tempo, a necessidade e o poder para que também a nossa carne seja rasgada: seguir a Jesus significa sempre conformar-se a Jesus. É Jesus com a carne rasgada, em quem estamos, em quem andamos. Não há caminho para Deus senão através do rasgar da carne. Na aceitação da vida e da morte de Cristo, pela fé, como o poder que opera em nós, no poder do Espírito que nos faz verdadeiramente um com Cristo, todos nós seguimos a Cristo enquanto ele passa adiante através do véu rasgado, isto é, a sua carne, e nos tornamos participantes com ele da sua crucificação e morte. O caminho da cruz, ‘pela qual fui crucificado,’ é o caminho através do véu rasgado. O destino do homem — a comunhão com Deus no poder do Espírito Santo — só é alcançado através do sacrifício da carne.
E aqui encontramos agora a solução de um grande mistério — por que tantos cristãos permanecem parados de longe, e nunca entram neste Santo dos Santos; por que a santidade da Presença de Deus tão pouco se vê neles. Pensaram que era só em Cristo que a carne precisava ser rasgada, não neles mesmos. Pensaram que a liberdade que tinham no sangue era o novo e vivo caminho. Não sabiam que o caminho para a verdadeira e plena santidade, para o Santo dos Santos, que a plena entrada na comunhão da santidade do grande Sumo Sacerdote, só podia ser alcançado através do véu rasgado da carne, através da conformidade com a morte de Jesus. Este é, em verdade, o caminho que ele consagrou para nós. Ele mesmo é o caminho; na sua abnegação, no seu autossacrifício, na sua crucificação, ele acolhe todos os que anseiam ser santos com a sua Santidade, santos como ele é santo.
O poder do acesso. Recuará alguém de entrar no próprio Santo dos Santos por medo deste rasgar da carne, por duvidar se poderia suportá-lo, se poderia de fato andar em tal caminho? Que ele escute mais uma vez. Ouça o que se segue: ‘E tendo um grande Sacerdote sobre a Casa de Deus, cheguemo-nos.’ Temos não somente o Santo dos Santos a nos convidar, e o sangue a nos dar ousadia, e o caminho através do véu rasgado consagrado para nós, mas o grande Sacerdote sobre a Casa de Deus, o Bendito Salvador Vivo, para nos atrair, nos ajudar e nos acolher. Ele é o nosso Arão. Sobre o seu coração vemos o nosso nome, porque ele vive somente para pensar em nós, e para orar por nós. Sobre a sua fronte vemos o nome de Deus, ‘Santo ao Senhor,’ porque na sua Santidade os pecados das nossas coisas santas ficam cobertos. Nele somos aceitos e santificados; Deus nos recebe como santos. No poder do seu amor e do seu Espírito, no poder daquele que é o Santo, na alegria de nos aproximarmos mais dele e de sermos atraídos por ele, aceitamos de bom grado o caminho que ele consagrou, e andamos nas suas santas pegadas de abnegação e autossacrifício. Vemos como a carne é o espesso véu que separa daquele que é o Santo, que é Espírito, e torna-se uma incessante e ferventíssima oração, que a crucificação da carne possa, no poder do Espírito Santo, ser em nós uma bendita realidade. Com a glória do Santo dos Santos resplandecendo sobre nós através do véu aberto, e o Precioso Sangue falando tão alto da ousadia do acesso, e o grande Sacerdote nos acenando com a sua amorosa Presença para nos aproximarmos e sermos abençoados — com tudo isto, não ousamos mais temer, mas escolhemos o caminho do véu rasgado como a vereda que amamos trilhar, e nos entregamos a entrar e habitar dentro do véu, no próprio Santo dos Santos.
E assim a nossa vida aqui será o penhor da glória que há de vir, como está escrito — note como temos de novo os quatro grandes pensamentos do nosso texto — ‘Estes são os que vieram da grande tribulação,’ isto é, pelo caminho da carne rasgada; ‘e lavaram as suas vestes, e as branquearam no sangue do Cordeiro,’ a sua ousadia por meio do sangue; ‘por isso estão diante do trono de Deus,’ a sua habitação no Santo dos Santos; ‘o Cordeiro, que está no meio do trono, será o seu Pastor,’ o grande Sacerdote ainda o Pastor, o próprio Jesus o seu tudo em todos.
Irmão! você vê o que é a santidade, e como ela se há de encontrar? Não é algo forjado em você mesmo. Não é algo posto sobre você de fora. A santidade é a Presença de Deus repousando sobre você. A santidade vem à medida que você conscientemente permanece naquela Presença, fazendo toda a sua obra, e vivendo toda a sua vida como um sacrifício a ele, aceitável por meio de Jesus Cristo, santificado pelo Espírito Santo. Oh, não seja mais temeroso, como se esta vida não fosse para você! Olhe para Jesus; tendo um grande Sacerdote sobre a Casa de Deus, cheguemo-nos. Ocupe-se com Jesus. O nosso Irmão tem a seu cargo o Templo; ele tem liberdade para nos mostrar tudo, para nos conduzir ao segredo da presença do Pai. Toda a administração do Templo foi entregue em suas mãos com este mesmo propósito, para que todos os fracos e duvidosos pudessem vir com confiança. Entregue-se somente a Jesus, à sua condução e à sua guarda. Confie somente em Jesus, o Santo de Deus, o seu Santo; é a sua delícia revelar a você o que ele comprou com o seu sangue. Confie nele para lhe ensinar as ordenanças do santuário. ‘Para que saibas como convém andar na casa de Deus,’ ele foi dado. Tendo um grande Sacerdote, entremos, habitemos no Santo dos Santos. No poder do sangue, no poder do novo e vivo caminho, no poder do Jesus Vivo, que o Santo dos Santos, a Presença de Deus, seja o lar da nossa alma. Você é ‘Santo em Cristo;’ em Cristo você está na Santa Presença e no Amor de Deus; apenas permaneça ali.
Sede santos, porque eu sou santo.
Ó Deus Santíssimo! como te louvarei pela liberdade de entrar no Santo dos Santos, e ali habitar? E pelo precioso Sangue, que nos aproxima? E pelo novo e vivo caminho, através do véu rasgado daquela carne que nos havia separado de ti, na qual a minha carne também foi agora crucificada? E pelo grande Sacerdote sobre a Casa de Deus, o nosso Senhor Jesus Vivo, com quem e em quem comparecemos diante de ti? Glória seja dada ao teu Santo Nome por esta maravilhosa e completíssima redenção.
Rogo-te, ó meu Deus! dá a mim, e a todos os teus filhos, algum reto entendimento de quão real e seguramente podemos viver cada dia, podemos passar toda a nossa vida, dentro do véu, na tua própria Presença Imediata. Dá-nos o espírito de revelação, eu te peço, para que vejamos como, através do véu rasgado, a glória da tua Presença jorra do Santo dos Santos para o lugar santo; como, no derramamento do Espírito Santo, o reino dos céus veio à terra, e todos os que se entregam àquele Espírito podem saber que em Cristo estão de fato tão perto, tão perto de ti. Ó Pai Bendito! que o teu Espírito nos ensine que esta é de fato a vida santa: uma vida em Cristo, o Santo, sempre na Luz e na Presença da tua Santa Majestade.
Ó Deus Santíssimo! eu me aproximo. No poder do Espírito Santo eu entro. Estou agora no Santo dos Santos. E aqui eu quero permanecer em Jesus, o meu grande Sacerdote — aqui, no Santo dos Santos. Amém.
1. Permanecer em Cristo é habitar no Santo dos Santos. Cristo não é somente o Sacrifício, e o Caminho, e o grande Sacerdote, mas também ele mesmo o Templo. ‘O Cordeiro é o Templo.’ À medida que o Espírito Santo revela mais claramente a minha união com Cristo, e o coração e a vontade se perdem nele, eu habito na Santa Presença, que é o Santo dos Santos. Você é ‘santo em Cristo’ — aproxime-se, entre com ousadia, e tome posse — não tenha outro lar senão o Santo dos Santos.
2. ‘Cristo amou a Igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse.’ Ele mesmo se entregou! Você captou a força dessa palavra? Porque ele não permitiria que nenhum outro o fizesse, porque nenhum outro o poderia fazer; para santificar a sua Igreja, Ele mesmo se entregou para fazê-lo. E assim é a sua própria e amada obra santificar a Igreja que amou. Apenas aceite que ele mesmo o faça. Ele pode e vai fazer você santo, para que possa apresentar você a Ele mesmo glorioso, sem mácula nem ruga. Deixe que essa palavra — Ele mesmo — viva em você. Toda a vida e todo o andar na Casa de Deus estão a seu cargo. Tendo um grande Sacerdote, cheguemo-nos.
3. Esta entrada no Santo dos Santos — uma entrada sempre nova e sempre mais profunda — é, ao mesmo tempo, um repouso sempre bendito na Presença do Pai. A fé no sangue, o seguir pelo caminho da carne rasgada, e a comunhão com o Jesus Vivo, são os três principais passos.
4. Entre no Santo dos Santos, e habite ali. Ele entrará em você, e o transformará, e habitará em você. E o seu coração será o Santo dos Santos, no qual ele habita.
5. Não fomos, por vezes, elevados, por um esforço de pensamento e de vontade, ou na comunhão dos santos, ao que parecia ser o Santo dos Santos, e logo sentimos que a carne também ali havia entrado? Foi porque não entramos pelo novo caminho da vida — o caminho que atravessa a morte para a vida — o caminho do véu rasgado da carne. Ó nosso Senhor crucificado! ensina-nos o que isto significa; concede-o a nós; sê-o tu mesmo para nós.
6. Lembre-me eu de que o meu acesso ao Santo dos Santos é como o de um Sacerdote. Habite eu diante do Senhor o dia todo como um Intercessor, oferecendo, incessantemente, súplicas que são aceitáveis em Cristo. Seja a Igreja de Deus como aquela de quem está escrito: ‘Não se afastava do templo, servindo a Deus em jejuns e orações, de noite e de dia.’ É para isto que temos acesso ao Santo dos Santos.