Capítulo 28 · 11 min de leitura
Santidade e Serviço
‘Se, pois, alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado, idôneo para uso do Senhor, preparado para toda boa obra.’—2 Timóteo 2:21.
‘Um sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais. Uma nação santa, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.’—1 Pedro 2:5, 9.
Por toda a Escritura temos visto que tudo o que Deus santifica há de ser usado no serviço da sua Santidade. A sua Santidade é uma energia infinita que só encontra o seu repouso em santificar: à revelação daquilo que Ele é em si mesmo, ‘Eu, o Senhor, sou santo,’ Deus continuamente acrescenta a declaração daquilo que Ele faz, ‘Eu sou o Senhor que santifico.’ A santidade é um fogo ardente que se estende, que busca consumir o que é profano, e comunicar a sua própria bem-aventurança a todos os que a receberem. Santidade e egoísmo, santidade e inatividade, santidade e preguiça, santidade e impotência, são absolutamente inconciliáveis. Tudo o que lemos como santo foi tomado para o serviço da Santidade de Deus.
Voltemos apenas o olhar para a revelação do que é santo na Escritura. O sétimo dia foi santificado, para que nele Deus santificasse o seu povo. O tabernáculo era santo, para servir de morada ao Santo, como o centro donde a sua Santidade pudesse manifestar-se ao povo. O altar era santíssimo, para que santificasse as ofertas sobre ele postas. Os sacerdotes com as suas vestes, a casa com os seus móveis e utensílios, os sacrifícios e o sangue — tudo o que trazia o nome de santo tinha um uso e um propósito. De Israel, a quem Deus redimiu do Egito para que fosse uma nação santa, disse Deus: ‘Deixa ir o meu povo, para que me sirva.’ Os santos anjos, os santos profetas e apóstolos, as santas Escrituras — todos ostentavam o título por terem sido santificados para o serviço de Deus. Nosso Senhor fala de si mesmo ‘como o Filho, a quem o Pai santificou e enviou ao mundo.’ E quando diz: ‘Eu me santifico a mim mesmo,’ acrescenta logo o propósito: é no serviço do Pai e dos seus remidos — ‘para que também eles sejam santificados na verdade.’ E poderá acaso pensar-se possível, agora que Deus, em Cristo o Santo, e no Espírito Santo, está cumprindo o seu propósito e reunindo um povo de santos, ‘santos,’ ‘santificados em Cristo,’ que agora santidade e serviço fossem separados? Impossível! Aqui, pela primeira vez, perceberemos plenamente quão essenciais são um ao outro. Procuremos apreender a sua relação mútua. Só somos santificados para que sirvamos. Só podemos servir na medida em que somos santos.
A santidade é essencial ao serviço eficaz. No Antigo Testamento vemos graus de santidade, não só nos lugares santos, mas igualmente nas pessoas santas. Na nação, os levitas, os sacerdotes, e depois o sumo sacerdote, há um avanço de degrau em degrau: à medida que em cada etapa sucessiva o círculo se estreita, e o serviço é mais direto e inteiro, assim a santidade exigida é mais elevada e mais distinta. Assim é também nesta dispensação mais espiritual: quanto mais santidade, maior a aptidão para o serviço; quanto mais há de verdadeira santidade, mais há de Deus, e mais verdadeira e profunda é a entrada que Ele teve na alma. O domínio que Ele tem sobre a alma para usá-la no seu serviço é mais completo.
Na Igreja de Cristo faz-se uma vasta quantidade de trabalho que produz muito pouco fruto. Muitos se lançam ao trabalho, e neles há apenas pouca verdadeira santidade, pouco do Espírito Santo. Muitas vezes trabalham com a maior diligência, e, no que diz respeito à influência humana, com o maior êxito. E, contudo, verdadeiros resultados espirituais na edificação de um templo santo no Senhor são bem poucos. O Senhor não pode operar neles, porque não tem o domínio da sua vida interior. A sua habitação pessoal e comunhão, o repouso da sua Santa Presença, a sua Santidade reinando e governando no coração e na vida — de tudo isto são relativamente estranhos. Com razão se disse que o trabalho é a cura para a pobreza e a enfermidade espirituais; para alguns crentes que vinham buscando a santidade à parte do serviço, o chamado ao trabalho tem sido uma bênção indizível. Mas para muitos tem sido apenas um véu adicional para encobrir a terrível falta de santidade de coração e de comunhão de coração com o Deus vivo. Lançaram-se ao trabalho mais fervorosamente do que nunca e, contudo, não têm no seu coração o testemunho tranquilizador e revigorante de que o seu trabalho é aceitável e aceito.
Meu irmão! escute a mensagem. ‘Se alguém se purificar, será vaso para honra, santificado, idôneo para uso do Senhor, preparado para toda boa obra.’ Não se poderia expor a lei do serviço de modo mais claro ou mais belo. Um vaso de honra, alguém a quem o Rei se deleitará em honrar, há de ser um vaso purificado de toda imundícia da carne e do espírito. Só então poderá ser um vaso santificado, possuído e habitado pelo Espírito Santo de Deus. Assim se torna idôneo para uso do Senhor. Ele pode usá-lo, e operar nele, e manejá-lo. E assim, limpos e santos, e entregues nas mãos do Mestre, somos divinamente preparados para toda boa obra. A santidade é essencial ao serviço. Se o serviço há de ser aceitável a Deus, e eficaz na sua obra sobre as almas, e ser gozo e força para nós mesmos, precisamos ser santos. A vontade de Deus precisa primeiro viver em nós, para que seja feita por nós.
Quantos trabalhadores fiéis há, a lamentar a falta de poder; a anseá-lo e a orar por ele, e contudo sem o obter! Gastaram as suas forças mais no átrio exterior do trabalho e do serviço do que na vida interior da comunhão e da fé. Na verdade, nunca compreenderam que só quando o Mestre toma posse deles, quando o Espírito Santo os tem à sua disposição, pode Ele usá-los, podem eles ter verdadeiro poder. Muitas vezes anseiam e clamam pelo que chamam de um batismo de poder. Esquecem-se de que o caminho para ter o poder de Deus em nós é estarmos nós mesmos no seu poder. Ponha-se no poder de Deus; deixe a sua santa vontade viver em você; viva nela e em obediência a ela, como quem não tem poder para dispor de si mesmo; deixe o Espírito Santo habitar dentro, como no seu Santo Templo, revelando o Santo no trono, governando tudo; Ele sem falta o usará como vaso de honra, santificado e idôneo para uso do Senhor. A santidade é essencial ao serviço eficaz.
E o serviço não é menos essencial à verdadeira santidade. Já o repetimos tantas vezes: a santidade é uma energia, uma intensa energia de desejo e de abnegação, para tornar outros participantes da sua própria pureza e perfeição. Cristo sacrificou-se a si mesmo — em que consistiu esse sacrifício, e qual era o seu fim? Ele se santificou para que também nós fôssemos santificados. Uma santidade que é egoísta é uma ilusão. A verdadeira santidade, a santidade de Deus em nós, opera-se em amor, em buscar e amar os que não são santos, para que também eles se tornem santos. O amor que se sacrifica a si mesmo é da própria essência da santidade. O Santo de Israel é o seu Redentor. O Santo de Deus é o Salvador que morre. O Espírito Santo de Deus santifica. Não há santidade em Deus senão a que está mais ativamente empenhada em amar, salvar e abençoar. Assim há de ser também em nós. Que todo pensamento de santidade, todo ato de fé ou de oração, todo esforço na sua busca, seja animado pelo desejo e pela entrega à Santidade de Deus para uso na consecução do seu objetivo. Que toda a sua vida seja uma vida distinta e definitivamente entregue a Deus para o seu uso e serviço. As suas circunstâncias podem parecer desfavoráveis. Deus pode parecer manter a porta fechada contra o seu trabalhar por Ele do modo que você desejaria; o seu senso de inaptidão pode ser doloroso. Ainda assim, seja questão resolvida entre Deus e a alma que o seu anseio por santidade é para que você seja mais apto para que Ele o use, e que o que Ele lhe deu da sua Santidade em Cristo e no Espírito está todo à sua disposição, esperando para ser usado. Esteja pronto para que Ele o use; viva, numa vida diária de humilde, abnegado e amoroso serviço aos outros, a graça que recebeu. Você descobrirá que, na união e no intercâmbio de adoração e trabalho, a Santidade de Deus repousará sobre você.
‘O Pai santificou o Filho e o enviou ao mundo.’ O mundo é o lugar para aquele que foi santificado, para ser a sua luz, o seu sal, a sua vida. Nós somos ‘santificados em Cristo Jesus,’ e enviados ao mundo também. Oh, não temamos aceitar a nossa posição — a nossa dupla posição; no mundo, e em Cristo! No mundo, com o seu pecado e a sua tristeza, com os seus milhares de necessidades tocando-nos em cada ponto, e os seus milhões de almas todas à nossa espera. E em Cristo também. Por amor desse mundo fomos ‘santificados em Cristo,’ somos ‘santos em Cristo,’ temos ‘o espírito de santificação’ habitando em nós. Como um sal santo num mundo pecaminoso, entreguemo-nos ao nosso santo chamado. Cheguemos cada vez mais perto de Deus, que nos chamou. Enraizemo-nos cada vez mais fundo em Cristo, a nossa santificação, em quem somos de Deus. Entremos mais firme e mais plenamente naquela fé nele, em quem estamos, pela qual toda a nossa vida será coberta e assumida na dele. Roguemos ao Pai que nos ensine que o seu Espírito Santo de fato habita em nós a cada momento, fazendo, se vivermos pela fé, de Cristo com a sua Santidade o nosso lar, a nossa morada, a nossa defesa segura, e o nosso infinito suprimento. Como é santo aquele que nos chamou, sejamos santos no seu próprio Filho, pelo seu próprio Espírito, e o fogo do seu Santo Amor operará através de nós a sua obra de julgar e condenar, de salvar e santificar. A uma alma santificada Deus usará para salvar.
Sede santos, porque eu sou santo.
Bendito Mestre! Eu te agradeço por ser de novo lembrado do propósito do teu Amor Redentor. Deste-te a ti mesmo para purificares para ti um povo teu, zeloso de boas obras. Quiseste fazer de cada um de nós um vaso de honra, purificado e santificado, idôneo para o teu uso, e preparado para toda boa obra.
Bendito Senhor! escreve bem fundo no meu coração as lições da tua palavra. Ensina-me, e a todo o teu povo, que se quisermos trabalhar para ti, se quisermos que trabalhes em nós e nos uses, precisamos ser muito santos, santos como Deus é santo. E que, se quisermos ser santos, precisamos estar te servindo. É o teu próprio Espírito, pelo qual nos santificas para nos usares, e santificas ao usar. Ser inteiramente possuído por ti é o caminho tanto para a santidade como para o serviço.
Santíssimo Salvador! estamos em ti como a nossa santificação: em ti desejamos permanecer. No repouso de uma fé que confia em ti para tudo, no poder de uma entrega que não teria vontade senão a tua, num amor que se perderia a si mesmo para ser inteiramente teu, Bendito Jesus, permanecemos em ti. Em ti somos santos: em ti daremos muito fruto.
Oh, digna-te aperfeiçoar em nós a tua própria obra! Amém.
1. É difícil tornar claro em palavras como o crescimento em santidade simplesmente se revelará como uma crescente simplicidade e esquecimento de si mesmo, acompanhado da tranquila e bem-aventurada certeza de que Deus tem completa posse de nós e nos usará. Passamos do estágio em que o trabalho pesa como uma obrigação; ele se torna a alegria de dar fruto; a certeza da fé de que Ele está realizando a sua vontade através de nós.
2. Já se disse por vezes que as pessoas poderiam estar mais bem empregadas trabalhando para Deus do que assistindo a Convenções de Santidade. Isto é decerto um equívoco. Foi diante do trono daquele que é Três Vezes Santo, e ao ouvir os Serafins cantarem da Santidade de Deus, que o profeta disse: ‘Eis-me aqui, envia-me a mim.’ Assim como a missão de Moisés, e de Isaías, e do Filho, a quem o Pai santificou e enviou, cada uma teve a sua origem na revelação da Santidade de Deus, as nossas missões receberão novo poder à medida que nasçam mais diretamente da adoração de Deus como o Santo, e sejam batizadas no Espírito de Santidade.
3. Tome cada trabalhador tempo para ouvir o duplo chamado de Deus. Se você quer trabalhar, seja muito santo. Se você quer ser santo, entregue-se a Deus para ser usado na sua obra.
4. Note a conexão entre ‘santificado’ e ‘idôneo para uso do Senhor.’ A verdadeira santidade é ser possuído por Deus; o verdadeiro serviço é ser usado por Deus. Quanto serviço há em que somos nós os principais agentes, e pedimos a Deus que nos ajude e nos abençoe. O verdadeiro serviço é ser entregue ao Mestre para que Ele o use. Então o Espírito Santo é o Agente, e nós somos os Instrumentos da sua vontade. Tal serviço é Santidade.
5. ‘Eu me santifico a mim mesmo, para que também eles:’ uma referência a outros é o princípio-raiz de toda verdadeira santidade.