Capítulo 19 · 13 min de leitura
A Santidade e a Fé
‘para que recebam a remissão dos pecados, e herança entre os que são santificados pela fé em mim.’—Atos 26:18.
Quanto mais estudamos a Escritura à luz do Espírito Santo, ou praticamos a vida cristã no seu poder, tanto mais profunda se torna a nossa convicção do lugar único e central que a fé ocupa no plano de salvação de Deus. E aprendemos, também, a ver que é justo e reto que assim seja: a própria natureza das coisas o exige. Porque Deus é um Ser Espiritual e Invisível, cada revelação de si mesmo, seja nas suas obras, na sua palavra, ou no seu Filho, requer fé. A fé é o sentido espiritual da alma, sendo para ela o que os sentidos são para o corpo; somente por ela entramos em comunicação e contato com Deus.
A fé é aquela mansidão da alma que espera em quietude para ouvir, para entender, para aceitar o que Deus diz; para receber, para reter, para possuir o que Deus dá ou opera. Pela fé permitimos, damos boas-vindas ao próprio Deus, a Pessoa Viva, para que entre e faça a sua morada conosco, para que se torne a nossa própria vida. Por bem que julguemos conhecê-la, sempre temos de aprender de novo a verdade, para uma aplicação mais profunda e mais plena dela, de que, na vida cristã, a fé é a primeira coisa, a única coisa que agrada a Deus e nos traz bênção. E porque a Santidade é a mais alta glória de Deus, e a mais alta bênção que ele tem para nós, é especialmente na vida de santidade que precisamos viver somente pela fé.
O nosso Senhor fala aqui ‘dos que são santificados pela fé em mim.’ Ele mesmo é a nossa Santificação assim como é a nossa Justificação: tanto para uma como para a outra é a fé que Deus pede, e ambas são igualmente dadas de uma só vez. O particípio aqui usado não é o presente, que denota um processo ou uma obra que se vai realizando, mas o aoristo, que indica um ato feito de uma vez para sempre. Quando cremos em Cristo, recebemos o Cristo inteiro, a nossa justificação e a nossa santificação: somos de imediato aceitos por Deus como justos nele, e como santos nele. Deus nos conta e nos chama aquilo que realmente somos, santificados em Cristo. É à medida que somos levados a ver o que Deus vê, à medida que a nossa fé compreende que a vida santa de Cristo é nossa em posse real, para ser aceita e apropriada para o uso diário, que seremos realmente capazes de viver a vida a que Deus nos chama, a vida dos santos em Cristo Jesus. Estaremos então na posição correta em que se pode realizar aquilo a que se chama a nossa santificação progressiva. Será a aceitação e a aplicação, na vida diária, do poder de uma vida santa que foi preparada em Jesus, que na união com ele se tornou a nossa posse presente e permanente, e que opera em nós segundo a medida da nossa fé.
Deste ponto de vista é evidente que a fé tem uma dupla operação. A fé é a prova das coisas que não se veem, ainda que agora realmente existentes, o firme fundamento das coisas que se esperam, mas ainda não presentes. Ela lida com o presente invisível, bem como com o futuro invisível. Como prova das coisas que não se veem, ela se regozija em Cristo, a nossa completa santificação, como posse presente. Pela fé eu simplesmente olho para o que Cristo é, como revelado na Palavra pelo Espírito Santo. Reivindicando como meu tudo o que ele é, sei que a sua Santidade, a sua natureza e vida santas, são minhas; eu sou um santo: pela fé nele fui santificado. Este é o primeiro aspecto da santificação: olha para o que é uma coisa completa e acabada, uma realidade absoluta. Como o firme fundamento das coisas que se esperam, esta fé se estende, na certeza da esperança, para o futuro, para as coisas que ainda não vejo nem experimento, e reivindica, dia após dia, de Cristo, a nossa santificação, o que ela necessita para a santidade prática, ‘ser santos em toda a maneira de viver.’ Este é o segundo aspecto da santificação: dependo de Jesus para suprir, na experiência pessoal, gradual e incessantemente, a necessidade de cada momento, o que foi entesourado na sua plenitude. ‘De Deus sois vós em Cristo Jesus, o qual para nós foi feito por Deus santificação.’ No seu primeiro aspecto a fé diz: sei que estou nele, e toda a sua Santidade é minha; no seu segundo aspecto ela fala: confio nele para a graça e a força de que necessito a cada momento para viver uma vida santa.
E, contudo, mal é preciso dizê-lo, estes dois são um. É um só Jesus que é a nossa santificação, quer o consideremos à luz daquilo que ele foi feito para nós de uma vez para sempre, quer daquilo que, como fruto disso, ele se torna para a nossa experiência dia após dia. E assim é uma só fé que, quanto mais estuda e adora e se regozija em Jesus como feito por Deus para nós santificação, como aquele em quem fomos santificados, tanto mais ousada se torna para esperar o cumprimento de cada promessa para a vida diária, e tanto mais forte para reivindicar a vitória sobre cada pecado. A fé em Jesus é o segredo de uma vida santa: toda conduta santa, todos os feitos realmente santos, são o fruto da fé em Jesus como a nossa santidade.
Sabemos como a fé age, e quais são os seus grandes obstáculos, no tocante à justificação. É bom que nos lembremos de que há os mesmos perigos no exercício da fé santificadora como no da fé justificadora. A fé em Deus opõe-se à confiança em si mesmo: especialmente ao seu querer e ao seu obrar. A fé é estorvada por todo esforço de fazermos algo por nós mesmos. A fé olha para Deus operando, e entrega-se à sua força, como revelada em Cristo pelo Espírito; ela permite que Deus opere tanto o querer como o realizar. A fé deve operar; sem obras ela é morta, somente pelas obras pode ser aperfeiçoada; em Jesus Cristo, como diz Paulo, nada vale senão ‘a fé que opera pelo amor.’ Mas estas obras, que a fé na operação de Deus inspira e realiza, são muito diferentes das obras nas quais o crente muitas vezes emprega os seus melhores esforços, apenas para descobrir que fracassa. A verdadeira vida de santidade, a vida dos que são santificados em Cristo, tem a sua raiz e a sua força num persistente sentido de total impotência, no profundo repouso que confia na operação de um poder e de uma vida Divinos, na inteira entrega pessoal ao Salvador amoroso, naquela fé que consente em ser nada, para que ele seja tudo. Pode parecer impossível discernir ou descrever a diferença entre a operação que é do próprio eu e a operação que é de Cristo pela fé: se ao menos soubermos que existe tal diferença, se aprendermos a desconfiar de nós mesmos e a contar com Cristo operando, o Espírito Santo nos conduzirá também a este segredo do Senhor. As obras da fé são as obras de Cristo.
E como pelo esforço, assim também a fé é estorvada pelo desejo de ver e de sentir. ‘Se creres, verás;’ o Espírito Santo selará a nossa fé com uma experiência Divina; veremos a glória de Deus. Mas esta é a obra dele: a nossa é, quando tudo parece escuro e frio, em face de tudo o que a natureza ou a experiência testifica, ainda assim crer a cada momento em Jesus como a nossa toda-suficiente santificação, naquele em quem somos aperfeiçoados diante de Deus. Queixas quanto à falta de sentimento, quanto à fraqueza ou à insensibilidade, raramente aproveitam: é a alma que se recusa a ocupar-se consigo mesma, quer com a sua própria fraqueza, quer com a força do inimigo, mas olha somente para o que Jesus é, e para o que prometeu fazer, para quem o progresso na santidade será uma alegre marcha de vitória em vitória. ‘O SENHOR mesmo peleja por vós;’ este pensamento, tantas vezes repetido em conexão com a posse da terra prometida por Israel, é o alimento da fé: em consciente fraqueza, na presença de inimigos poderosos, ela canta o cântico do vencedor. Quando Deus parece não fazer aquilo para o qual confiamos nele, então é justamente o tempo de a fé gloriar-se nele.
Não há talvez nada que mais revele o verdadeiro caráter da fé do que a alegria e o louvor. Você promete a uma criança um presente para amanhã: no mesmo instante ela diz: Obrigado, e fica contente. Os agradecimentos alegres são a prova de quão realmente a sua promessa entrou no coração. Um amigo lhe conta de uma rica herança que deixou para você no seu testamento: pode ser que não se cumpra por anos, mas mesmo agora isso o alegra. Já vimos que elemento de santidade é a alegria: é especialmente um elemento da santidade pela fé. Cada vez que realmente vejo quão bela e quão perfeita é a provisão de Deus, pela qual a minha santidade está em Jesus, e pela qual devo permitir que ele opere em mim, o meu coração deveria erguer-se em louvor e agradecimento. Em vez de admitir o pensamento de que, afinal, é uma vida de tão difícil alcance e de tão contínua abnegação, esta vida de santidade pela fé, deveríamos louvá-lo sobremaneira por a ter tornado possível e certa para nós: podemos ser santos, porque Jesus, o Poderoso e o Amoroso, é a nossa santidade. O louvor expressará a nossa fé; o louvor a provará; o louvor a fortalecerá. ‘Então creram nas suas palavras; cantaram os seus louvores.’ O louvor nos comprometerá com a fé: veremos que temos apenas uma coisa a fazer, prosseguir numa fé que sempre confia e sempre louva. É num vivo e amoroso apego a Jesus, que se regozija nele e o louva continuamente pelo que ele é para nós, que a fé se comprova, e recebe o poder da santidade.
‘Santificados pela fé em mim.’ Sim, ‘pela fé em Mim:’ é o Jesus pessoal e vivo que se oferece a si mesmo, a si mesmo em todas as riquezas do seu Poder e do seu Amor, como o objeto, a força, a vida da nossa fé. Ele nos diz que, se quisermos ser santos, sempre e em tudo santos, devemos apenas atentar para uma só coisa: estar sempre e inteiramente cheios de fé nele. A fé é o olho da alma: o poder pelo qual discernimos a presença daquele que é Invisível, quando ele vem dar-se a nós. A fé não só vê, mas apropria-se e assimila: aquietemos muito as nossas almas para o Espírito Santo que habita em nós, para que vivifique e fortaleça aquela fé, para a qual ele nos foi dado. A fé é entrega: entregando-nos a Jesus para permitir que ele faça a sua obra em nós, dando-nos a ele para que viva a sua vida e realize a sua vontade em nós, havemos de encontrá-lo dando-se inteiramente a nós, e tomando completa posse. Assim a fé será poder: o poder da obediência para fazer a vontade de Deus: ‘a nossa santíssima fé,’ ‘a fé entregue aos santos.’ E compreenderemos quão simples, para os de coração sincero, é o segredo da santidade: apenas Jesus. Estamos nele, a nossa Santificação: ele pessoalmente é a nossa Santidade; e a vida de fé nele, que o recebe e o possui, há de ser necessariamente uma vida de santidade. Jesus diz: ‘Santificados pela fé em mim.’
Sede santos, porque eu sou santo.
Amado Senhor! outra vez vi, com adorável assombro, o que Tu queres ser para mim. É em Ti mesmo, e numa vida de viva comunhão contigo, que hei de tornar-me santo. É na vida simples de apego pessoal, de confiança e amor, de entrega e consagração, que Tu te tornas o meu tudo, e me fazes participante de Ti mesmo e da Tua Santidade.
Bendito Senhor Jesus! Eu creio em Ti; ajuda Tu a minha incredulidade. Confesso o que ainda resta de incredulidade, e conto com a Tua presença para vencê-la e lançá-la fora. A minha alma se abre continuamente para ver mais como Tu mesmo és a minha Vida e a minha Santidade. Tu alargas o meu coração para se regozijar em Ti como o meu tudo, e para ter a certeza de que Tu mesmo tomas posse e enches o templo do meu ser com a Tua glória. Tu me ensinas a compreender que, por mais débeis e humanas e desapontadoras que sejam as experiências, o Teu Espírito Santo é a força da minha fé, conduzindo-me a crescer até uma confiança mais forte e mais ampla em Ti, em quem sou santo. Ó meu Salvador! Tomo hoje a Tua palavra, ‘Santificados pela fé em mim,’ como uma nova revelação do Teu amor e do seu propósito comigo. Em Ti mesmo está o Poder da minha santidade; em Ti está o Poder da minha fé. Bendito seja o Teu nome, pois me deste também a mim um lugar entre aqueles de quem falas: ‘Santificados pela fé em mim.’ Amém.
1. Lembremo-nos de que não é somente a fé que se ocupa especialmente de Cristo para a santificação, mas toda fé viva, que tem o poder de santificar. Tudo o que lança a alma inteiramente sobre Jesus, o que suscita uma confiança intensa e simples, seja a prova da fé, ou a oração da fé, ou a obra da fé, ajuda a tornar-nos santos, porque nos põe em vivo contato com o Santo.
2. É somente por meio do Espírito Santo que Cristo e a sua Santidade são dia após dia revelados e feitos nossos em posse real. E assim a fé que o recebe é também do Espírito. Entregue-se com simplicidade e confiança à operação dele. Não tenha medo, como se não pudesse crer: você tem ‘o Espírito de fé’ dentro de si: você tem o poder de crer. E pode pedir a Deus que o fortaleça poderosamente pelo seu Espírito no homem interior, para a fé que recebe Cristo na habitação que não conhece interrupção.
3. Só tenho tanto de fé quanto tenho do Espírito. Não é, então, isto o que mais preciso—viver inteiramente sob a influência do Espírito?
4. Assim como o olho, ao ver, é receptivo, e cede para deixar que o objeto posto diante dele produza a sua impressão, assim a fé é a impressão que Deus faz na alma quando se aproxima. Não foi a fé de Abraão o fruto de Deus aproximar-se e falar-lhe, a impressão que Deus produziu nele? Estejamos quietos para contemplar o mistério Divino de Cristo, a nossa santidade: a sua Presença, esperada e adorada, produzirá a fé. Isto é, o Espírito que dele procede para os que a ele se apegam, será fé.
5. Santidade pela fé em Jesus, não por esforço teu próprio,
O domínio do pecado esmagado e quebrado pelo poder da graça somente,—
A própria santidade de Deus dentro de ti, a sua própria beleza na tua fronte,—
Este será o teu resplendor de peregrino, esta a tua bendita porção agora.
F. R. H.