Capítulo 18 · 11 min de leitura
Santidade e Crucificação
‘Eu por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade.’—João 17:19.
‘Ele disse: Eis que venho para fazer a tua vontade. Nessa vontade fomos santificados mediante a oferta do corpo de Jesus, feita uma vez por todas. Porque com uma só oferta aperfeiçoou para sempre os que são santificados.’—Hebreus 10:9, 10, 14.
Foi em sua oração sumo-sacerdotal, a caminho do Getsêmani e do Calvário, que Jesus assim falou ao Pai: ‘Eu me santifico a mim mesmo.’ Não muito antes, havia falado de si mesmo como ‘aquele a quem o Pai santificou e enviou ao mundo.’ Pela linguagem da Sagrada Escritura, estamos familiarizados com o pensamento de que aquilo que Deus santificou, o homem também tem de santificar. A obra do Pai, ao santificar o Filho, é o fundamento e a base da obra do Filho ao santificar-se a si mesmo. Se a sua santidade como homem havia de ser uma posse livre e pessoal, aceita e assimilada em uma autodeterminação voluntária e consciente, não bastava que o Pai o santificasse: ele mesmo tinha de santificar-se também.
Este auto-santificar-se de nosso Senhor teve lugar através de toda a sua vida, mas culmina e se manifesta com especial nitidez em sua crucificação. Em que ele consiste é tornado claro pelas palavras da Epístola aos Hebreus. O Messias falou: ‘Eis que venho para fazer a tua vontade.’ E então se acrescenta: ‘Nessa vontade fomos santificados mediante a oferta do corpo de Cristo.’ Foi a oferta do corpo de Cristo que era a vontade de Deus: ao fazer essa vontade, ele nos santificou. Foi do fazer essa vontade na oferta do seu corpo que ele falou: ‘Eu me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade.’ A entrega da sua vontade à vontade de Deus na agonia do Getsêmani, e depois o fazer essa vontade na obediência até a morte, isto foi o santificar-se de Cristo, e a nós também. Procuremos entender isto.
A santidade de Deus é revelada em sua vontade. A santidade, mesmo no Ser Divino, não tem valor moral senão à medida que é livremente querida. Ao falar da Trindade, os teólogos têm mostrado como, assim como o Pai representa a necessidade absoluta da Bondade Eterna, o Filho prova a sua liberdade: dentro do Ser Divino, ela é querida em amor. E esta era agora a obra do Filho na terra, em meio às provas e tentações de uma vida humana: aceitar e manter firme, a qualquer sacrifício, querer de todo o coração a vontade do Pai. ‘Ainda que era Filho, aprendeu a obediência por aquilo que padeceu.’ No Getsêmani, o conflito entre a vontade da natureza humana e a vontade Divina chegou ao seu auge: manifesta-se em uma linguagem que quase nos faz tremer por sua ausência de pecado, ao falar ele de sua vontade em antítese à vontade de Deus. Mas a luta é uma vitória, porque, na presença da mais clara consciência do que significa ter a sua própria vontade, ele a entrega, e diz: ‘Faça-se a tua vontade.’ Para entrar na vontade de Deus, ele entrega a sua própria vida. Em sua crucificação, ele revela assim a lei da santificação. A santidade é a plena entrada da nossa vontade na vontade de Deus. Ou antes, a santidade é a entrada da vontade de Deus para ser a morte da nossa vontade. O único fim da nossa vontade e livramento dela é a morte dela sob o justo juízo de Deus. Foi na entrega à morte da cruz que Cristo se santificou, e nos santificou, para que também nós fôssemos santificados na verdade.
E agora, assim como o Pai o santificou, e ele, em virtude disso, apropriou-se dela e santificou-se a si mesmo, assim também nós, a quem ele santificou, temos de apropriá-la a nós mesmos. De nenhum outro modo senão pela crucificação, a entrega de si mesmo à morte, poderia Cristo realizar a santificação que tinha do Pai. E de nenhum outro modo podemos nós realizar a santificação que temos nele. A sua santificação e a nossa trazem a marca comum da cruz. Já vimos antes que a obediência é o caminho para a santidade. Em Cristo vemos que o caminho para a santidade perfeita é a obediência perfeita. E essa é a obediência até a morte, até a entrega da vida, até a morte de cruz. Como a santificação que Cristo realizou por nós, até a oferta do seu corpo, traz a marca da morte, não podemos participar dela, não podemos entrar nela, senão à medida que morremos para o eu e para a sua vontade. A crucificação é o caminho para a santificação.
Esta lição está em harmonia com tudo o que vimos. A primeira revelação da santidade de Deus a Moisés veio acompanhada da ordem: Tira. O louvor de Deus, como Glorioso em Santidade, Temível em Louvores, foi entoado sobre os corpos mortos dos egípcios. Quando Moisés, no Sinai, recebeu a ordem de santificar o monte, foi dito: ‘Se alguém o tocar, homem ou animal, não viverá.’ A santidade de Deus é morte para tudo o que está em contato com o pecado. Somente pela morte, pelo derramamento de sangue, havia acesso ao Santíssimo. Cristo escolheu a morte, até a morte como maldição, para santificar-se por nós, e abrir-nos o caminho para a santidade, para o Santíssimo, para o Santo. E assim é ainda. Nenhum homem pode ver a Deus e viver. É somente na morte, a morte do eu e da natureza, que podemos aproximar-nos e contemplar a Deus. Cristo abriu o caminho. Nenhum homem pode ver a Deus e viver. ‘Então deixa-me morrer, Senhor,’ clamou alguém, ‘mas ver-te eu preciso.’ Sim, bendito seja Deus, tão real é o nosso interesse em Cristo e a nossa união com ele, que podemos viver na sua morte; à medida que, dia após dia, o eu é mantido no lugar da morte, a vida e a santidade de Cristo podem ser nossas.
E onde está o lugar da morte? E como pode a crucificação que conduz à santidade e a Deus ser realizada em nós? Graças a Deus! não é obra nossa, nenhum penoso processo de autocrucificação. A crucificação que há de nos santificar é um fato consumado. A cruz traz o estandarte: ‘Está consumado.’ Nela Cristo santificou-se por nós, para que fôssemos santificados na verdade. A nossa crucificação, como a nossa santificação, é algo que em Cristo foi completa e perfeitamente consumado. ‘Fomos santificados mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez por todas.’ ‘Com uma só oferta aperfeiçoou para sempre os que são santificados.’ Naquela plenitude, que é o bom prazer do Pai que habite em Cristo, a crucificação do nosso velho homem, da carne, do mundo, de nós mesmos, é toda uma realidade espiritual; aquele que deseja e conhece e aceita a Cristo recebe plenamente tudo isso nele. E, quando o Cristo, que antes era conhecido mais em sua graça que perdoa, vivifica e salva, é novamente buscado como um verdadeiro libertador do poder do pecado, como santificador, ele vem e toma a alma na comunhão do sacrifício da sua vontade. ‘Ele aniquilou o pecado pelo sacrifício de si mesmo,’ deve tornar-se verdade em nós como o é nele. Ele revela como é parte da sua salvação fazer-nos participantes de uma vontade inteiramente entregue à vontade de Deus, de uma vida que se havia entregado à morte e que então fora restituída dentre os mortos pelo poder de Deus, uma vida de que a crucificação da própria vontade era o espírito e o poder. Ele revela isto, e a alma que o vê, e consente nisso, e entrega a sua vontade e a sua vida, e crê em Jesus como a sua morte e a sua vida, e na sua crucificação como a sua posse e a sua herança, entra no gozo e na experiência disso. A linguagem é agora: ‘Morri para que pudesse viver: já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim.’ E a vida que ela vive agora é pela fé no Filho de Deus, a aceitação diária, pela fé, daquele que vive dentro de nós no poder de uma morte que foi atravessada e para sempre consumada.
‘Eu por eles me santifico, para que também eles sejam santificados na verdade.’ ‘Venho para fazer a tua vontade, ó Deus. Nessa vontade,’ a vontade de Deus cumprida por Cristo, ‘fomos santificados mediante a única oferta do corpo de Cristo.’ Compreendamos e retenhamos isto firmemente: o entregar Cristo a sua vontade no Getsêmani e o aceitar a vontade de Deus ao morrer; o fazer Cristo essa vontade na obediência até a morte de cruz, isto é o seu santificar-se a si mesmo, e isto é o nosso sermos santificados na verdade. ‘Nessa vontade fomos santificados.’ A morte para o eu, a total e mais absoluta entrega da nossa própria vida, com a sua vontade e o seu poder e os seus fins, à cruz, e à crucificação de Cristo, o levar diariamente a cruz—não uma cruz na qual ainda havemos de ser crucificados, mas a cruz do Cristo crucificado no seu poder de matar e fazer morrer—isto é o segredo da vida de santidade—isto é a verdadeira santificação.
Crente! é esta a santidade que você busca? Você viu e consentiu que só Deus é santo, que o eu é todo impuro, e que não há modo algum de ser feito santo senão que o fogo da Santidade Divina entre e seja a morte do eu? ‘Trazendo sempre por toda a parte a mortificação de Jesus no corpo, para que também a vida de Jesus se manifeste no nosso corpo mortal’—é o caminho para cada um que busca ser santificado na verdade, assim como ele se santificou; santificado tal como Jesus.
Ele santificou-se por nós, para que nós mesmos também fôssemos santificados na verdade. Sim, a nossa santificação repousa e se enraíza na dele, nele mesmo. E nós estamos nele. As raízes secretas do nosso ser estão plantadas em Jesus: mais fundo do que podemos ver ou sentir, ali está ele, a nossa Videira, a sustentar-nos e a vivificar-nos. Compreendamos pela fé que, de um modo e em uma medida que estão muito além da nossa compreensão, intensamente Divinos e reais, estamos nele que se santificou por nós. Habitemos ali, onde fomos colocados por Deus. E dobremos os nossos joelhos ao Pai, para que ele nos conceda ser poderosamente fortalecidos pelo seu Espírito, para que Cristo, como a nossa Santificação, habite em nossos corações, para que o poder da sua morte e da sua vida seja revelado em nós, e a vontade de Deus seja feita em nós como o foi nele.
Sede santos, porque eu sou santo.
Pai Santo! eu te bendigo por esta preciosa e bendita palavra, por esta preciosa e bendita obra do teu amado Filho. Na sua intercessão que nunca cessa, tu sempre ouves a maravilhosa oração: ‘Eu por eles me santifico, para que também eles sejam santificados na verdade.’
Pai bendito! eu te suplico que me fortaleças poderosamente pelo teu Espírito, para que, em fé viva, eu seja capaz de aceitar e viver a santidade preparada para mim em meu Senhor Jesus. Dá-me entendimento espiritual para saber o que significa que ele se santificou a si mesmo, que a minha santificação está assegurada na dele, que, ao permanecer eu nele pela fé, o seu poder cobrirá toda a minha vida. Que a sua santificação seja de fato a lei, assim como é a vida da minha. Que a sua entrega à tua paterna vontade, a sua contínua dependência e obediência, sejam a sua raiz e a sua força. Que a sua morte para o mundo e para o pecado seja a sua regra diária. Acima de tudo, que ele mesmo, ó meu Pai! que ele mesmo, como santificado por mim, o Jesus vivo, seja a minha única confiança e amparo. Ele santificou-se por mim, para que eu mesmo também seja santificado na verdade.
Amado Salvador! como haverei de dignamente bendizer-te, amar-te e glorificar-te por esta graça admirável! Tu te deste a ti mesmo, de modo que agora sou santo em ti. Eu me dou a mim mesmo, para que em ti eu mesmo seja feito santo na verdade. Amém. Senhor Jesus! Amém.
1. ‘Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.’ Jesus quer dizer que a nossa vida há de ser a exata cópia da sua, incluindo até a crucificação. O começo de tal vida é a negação do eu, para dar a Cristo o seu lugar. Os judeus não quiseram negar o eu, mas ‘negaram o Santo, e mataram o Príncipe da Vida.’ A escolha ainda é entre Cristo e o eu. Neguemos o impuro, e entreguemo-lo à morte.
2. Os passos neste caminho são estes: Primeiro, a decisão deliberada de que o eu seja entregue à morte; depois, a rendição a Cristo crucificado para que nos torne participantes da sua crucificação; depois, ‘sabendo que o nosso velho homem está crucificado,’ a fé que diz: ‘Estou crucificado com Cristo;’ e então, o poder de viver como um crucificado, de gloriar-se na cruz de Cristo.
3. Este é o caminho de santidade de Deus, um mistério Divino, que somente o Espírito Santo pode manter em nós dia a dia. Bendito seja Deus, é a vida que um cristão pode viver, porque Cristo vive em nós.
4. O pensamento central é: Estamos em Cristo, que entregou a sua vontade e fez a vontade de Deus. Pelo Espírito Santo, a mente que havia nele está em nós, a vontade do eu é crucificada, e vivemos na vontade de Deus.