Capítulo 9 · 31 min de leitura
Setembro
1º de setembro
“Depois, o que é espiritual” (1 Co 15:46).
Muitas vezes Deus precisa nos levar não apenas ao lugar do sofrimento, ao leito da enfermidade e da dor, mas também ao lugar onde a nossa justiça se desfaz e o nosso caráter se despedaça, a fim de nos humilhar até o pó e nos mostrar a necessidade da inteira crucificação de toda a nossa vida natural. Então, aos pés de Jesus, estamos prontos para recebê-Lo, para permanecer nele e depender somente dele, e a cada momento haurir dele toda a nossa vida e força — dele, a nossa Cabeça viva.
Foi assim que Pedro foi salvo pela sua própria queda, e teve de morrer para Pedro a fim de viver mais perfeitamente para Cristo.
Será que morremos assim, e assim renunciamos à força da nossa própria autoconfiança?
Começamos a vida com o natural, depois entramos no espiritual; mas então, quando de fato recebemos o reino de Deus e a sua justiça, o natural é acrescentado ao espiritual, e passamos a poder receber os dons da sua providência e as bênçãos da vida sem nos centrarmos neles nem permitir que nos separem dele.
2 de setembro
“Quem despreza o dia das coisas pequenas” (Zc 4:10).
O carvalho vem da bolota, a águia daquele pequeno ovo no ninho, a colheita vem da semente; e assim a glória da era vindoura toda procede da vida de Cristo agora, tal como a majestade do seu reino estava toda envolta, naquela noite, no menino de Belém.
Oh, tomemo-Lo para toda a nossa vida. Sejamos unidos à sua pessoa e ao seu corpo ressurreto. Saibamos o que é dizer: “O Senhor é para o corpo, e o corpo para o Senhor”! Somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos.
Aquele que deu aquela pequena criança, o seu próprio bendito menino e seu Filho unigênito, naquela escura noite de inverno, aos braços de um mundo cruel e ingrato, não se recusará a dá-Lo em toda a sua plenitude ao teu coração, se tão somente abrires o teu coração e lhe deres livre passagem e plena posse e domínio. Então conhecerás, na tua medida, a sua vida vivificadora, ainda nesta vida terrena, e mais adiante a tua esperança alcançará a sua plena realização, quando te assentares com Ele no seu trono, com cada fibra do teu ser imortal semelhante a Ele.
3 de setembro
“O Deus de Israel vos separou” (Nm 16:9).
A pequena planta pode crescer sobre um monte de esterco, cercada de imundície e muitas vezes coberta pelo pó flutuante que o vento carrega, mas as suas raízes brancas estão separadas do solo imundo, e as suas folhas e flores não têm afinidade com o pó que sobre elas se assenta; e, depois de uma chuva de verão, lançam de si toda partícula de contaminação e erguem-se, tão frescas e imaculadas como antes, pois a sua natureza intrínseca não pode ter parte alguma com essas coisas que contaminam.
Esta é a separação que Cristo exige e que Ele concede. Não há mérito algum em eu me abster do teatro se desejo ir. Não há valor algum em eu me privar do romance tolo ou da taça inebriante, se o tempo todo desejo tê-los. O meu coração está ali, e a minha alma está contaminada pelo desejo das coisas más. Não é o mundo que nos mancha, mas o amor do mundo. O verdadeiro levita está separado do desejo das coisas terrenas, e, ainda que pudesse, não quereria os prazeres proibidos que outros tanto estimam.
4 de setembro
“Vinde vós, à parte” (Mc 6:31).
Um dos maiores impedimentos à espiritualidade é a falta de esperar em Deus. Não podes atravessar vinte e quatro horas com dois ou três folegares de ar, pela manhã, enquanto tomas o teu café. Antes precisas viver na atmosfera e respirá-la o dia inteiro. Os cristãos não esperam suficientemente em Deus. São necessárias horas e horas diárias de comunhão espiritual com o Espírito Santo para manter a tua vitalidade sadia e plena. Cada momento deveria encontrar-te exalando a ti mesmo para dentro de Cristo, e inspirando de novo a sua vida, o seu amor e o seu poder.
Deus está esperando para nos enviar o Espírito Santo. Ele anseia por nos abençoar. A sua única ocupação é vivificar e sustentar a nossa vida espiritual. Nada mais tem a fazer com os seus infinitos e grandiosos recursos. Recebamo-Lo. Vivamos nele. Demos-lhe a alegria de saber que a sua infinita graça não foi concedida em vão, mas que valorizamos e aproveitamos as bênçãos que Ele tantas vezes tão livremente concedeu.
Senhor, ajuda-me neste dia a habitar em Ti como a flor na luz do sol, como o peixe no mar, vivendo no Teu amor como a atmosfera e o elemento do meu ser.
5 de setembro
“Assoprou sobre eles” (Jo 20:22).
A bela figura sugerida por esta passagem está cheia de simples ensino. É tão fácil receber o Espírito Santo quanto respirar. Quase parece que o Senhor lhes dera a própria impressão de respirar, e dissera: “Ora, este é o modo de receber o Espírito Santo.”
Não é necessário que vás a um hospital de varíola para que os teus pulmões se contaminem com ar impuro. Basta que guardes nos teus pulmões o ar que inspiraste há um minuto, e ele te matará. Todos os elementos puros dele já foram absorvidos, e nada resta senão carbono e outros gases e fluidos mortíferos.
Portanto, se hás de ser cheio do Espírito Santo, precisas primeiro esvaziar-te não somente da tua velha vida pecaminosa, mas também da tua velha vida espiritual. Precisas de um novo fôlego a cada momento, ou morrerás. Deus quer que esvazies todo o teu ser para dentro dele, e então O receberás, sem precisar esforçar-te demais. O vácuo sempre se enche; um par de pulmões vazios inevitavelmente inspira o ar puro. Se apenas estiveres na verdadeira atitude, não haverá dificuldade alguma em receber o Espírito Santo.
6 de setembro
“Quanto ao mais, meus irmãos, regozijai-vos no Senhor” (Fp 3:1).
Não há valor espiritual algum no abatimento. Um único olhar brilhante e grato para a cruz vale mais do que mil reflexões mórbidas e autocondenatórias. Quanto mais tempo contemplas o mal, mais ele te hipnotiza e te contamina à sua própria semelhança. Deposita-o ao pé da cruz, aceita o sangue que purifica, considera-te morto para aquilo que estava errado, e então levanta-te e tem-te por outro homem, já não mais a mesma pessoa; e então, identificando-te com o Senhor Jesus, aceita a tua posição nele e olha para o rosto do teu Pai tão irrepreensível como Jesus. Então, de cada falta tua sairá alguma lição de vigilância ou algum segredo de vitória que te capacitará um dia a agradecer-lhe, até mesmo pela tua experiência dolorosa.
Mas o louvor é um sacrifício, pois “é agradável a Deus”. Sobe ao céu mais doce que os cânticos dos anjos, “um suave aroma para o teu Senhor e Rei”. Deve ser ininterrupto — “o sacrifício de louvor continuamente”. Uma só gota de veneno neutralizará uma taça inteira de vinho e a tornará taça de morte, e um só momento de tristeza contaminará um dia inteiro de sol e de alegria. “Regozijemo-nos sempre.”
7 de setembro
“Exultarei no Deus da minha salvação” (Hc 3:18).
O segredo da alegria não é esperar até que te sintas feliz, mas erguer-te, por um ato de fé, para fora do abatimento que te arrasta para baixo, e começar a louvar a Deus por um ato de escolha. Este é o sentido de passagens como estas: “Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: regozijai-vos”; “eu me regozijo; sim, e ainda me regozijarei”; “Tende por motivo de grande gozo o passardes por várias tentações”. Em todos estes casos há uma evidente luta contra a tristeza, e então os triunfos da fé e do louvor.
Ora, isto é o que se quer dizer — ao menos em parte — pelo sacrifício de louvor. Um sacrifício é aquilo que nos custa alguma coisa. E quando um homem ou uma mulher acalenta algum rancor ou agravo, e o abriga, o amamenta, nele se demora, rolando-o como um doce bocado debaixo da língua, e está bem decidido a desfrutar de um tempo miserável num egoísta e mórbido resmungar, não pouco sacrifício nos custa lançar fora esse encanto mórbido, recusar as sugestões de ofensa, de negligência e a lembrança das indelicadezas, erguer-nos do estado de autocomiseração numa sadia e santa determinação, e dizer: “Eu me regozijarei no Senhor”; “tê-lo-ei por motivo de grande gozo”.
8 de setembro
“Quem de mim se alimenta, também esse viverá por mim” (Jo 6:57).
O que os filhos de Deus necessitam não é meramente muito ensino, mas o Pão vivo. O melhor trigo não é bom alimento. Precisa ser moído e cozido antes que possa ser digerido e assimilado, de modo a nutrir o organismo. A mais pura e a mais elevada verdade não pode santificar nem satisfazer uma alma viva.
Ele exala da sua boca a mensagem do Novo Testamento com um beijo de amor e um sopro de poder vivificador. É permanecendo nele, reclinados sobre o seu peito e sorvendo a sua própria vida, que somos nutridos, vivificados, consolados e curados.
Este é o segredo da cura divina. Não é crer numa doutrina, não é cumprir uma cerimônia, não é arrancar dos céus uma petição pela lógica da fé e pela força da tua vontade; mas é o inspirar da vida de Deus; é o toque vivo que ninguém pode compreender senão aqueles cujos sentidos estão exercitados para conhecer as realidades do mundo invisível. Muitas vezes, portanto, uma bem pequena verdade nos trará muito mais auxílio e bênção do que uma grande quantidade de instrução.
9 de setembro
“Todas as coisas me são lícitas” (1 Co 10:23).
Posso eu mesmo estar perfeitamente livre para fazer muitas coisas cuja prática poderia ferir o meu irmão e magoar a sua consciência, e o amor de bom grado abrirá mão da pequena permissão, para poupar o seu irmão da tentação. Há muitas questões que se resolvem facilmente por este princípio.
Assim, há muitas formas de recreação que, em si mesmas, poderiam ser inofensivas e, sob certas circunstâncias, irrepreensíveis, mas que se associaram à mundanidade e à impiedade, e se mostraram laços e tentações para muitos jovens corações e vidas; e, portanto, a lei do amor te levaria a evitá-las, a desaprová-las, e de modo algum a encorajar outros a delas participar.
É justamente nestas coisas que não nos são exigidas por regras absolutas, mas são os impulsos de um amor atencioso, que as mais elevadas qualidades do caráter cristão se manifestam, e os mais delicados matizes do amor cristão se revelam.
10 de setembro
“Portanto, recebei-vos uns aos outros, como também Cristo nos recebeu para glória de Deus” (Rm 15:7).
Este é um princípio sublime, e dará sublimidade à vida. Está expresso em outra parte com linguagem semelhante: “E, quanto fizerdes por palavras ou por obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus.”
Esta é a nossa alta vocação: representar Cristo, e agir em favor dele, e no seu caráter e espírito, em todas as circunstâncias e para com todos os homens. “Que faria Jesus?” é uma pergunta simples que resolverá toda dificuldade, e sempre a resolverá do lado do amor.
Mas não podemos responder retamente a esta pergunta sem ter o próprio Jesus em nosso coração. Não podemos representar Cristo. Isto é matéria séria demais para se representar. Precisamos ter Cristo, e simplesmente ser naturais e fiéis à vida que há em nós, e essa vida por si mesma se manifestará.
Oh, como é fácil amar a todos, e não ver senão beleza, quando o nosso coração está cheio de Cristo, e como toda dificuldade se desfaz e cada pessoa que encontramos parece revestida do Espírito que há em nós, quando estamos cheios do Espírito Santo!
11 de setembro
“Eis que eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28:20).
É “todos os dias”, não “sempre”. Ele vem a ti a cada dia com uma nova bênção. Cada manhã, dia após dia, Ele caminha conosco, com um amor que nunca se cansa e uma bênção que nunca envelhece. E Ele está conosco “todos os dias”; é um permanecer incessante. Não há dia tão sombrio, tão corriqueiro, tão sem interesse, em que não O encontres ali. Muitas vezes, sem dúvida, Ele não é reconhecido, como sucedeu no caminho de Emaús, até que percebes como o teu coração se aqueceu, o teu amor se avivou, a tua Bíblia se tornou tão estranhamente viva, e cada promessa parece falar-te com celestial realidade e poder. É o Senhor! Queira Deus que a sua presença viva se torne, de agora em diante, mais real a todos nós; e, quer tenhamos a consciência e a evidência, como eles as tiveram em algumas gloriosas ocasiões naqueles quarenta dias, quer avancemos para os dias vindouros, como eles fizeram na maior parte dos seus dias, andando por simples fé e em simples dever, saibamos ao menos que o fato é verdadeiro para todo o sempre: QUE ELE ESTÁ CONOSCO, uma Presença toda invisível, mas real, e pronta, se dele precisássemos a qualquer momento, a manifestar-se para o nosso alívio.
12 de setembro
“O forno para o ouro; mas o Senhor prova os corações” (Pv 17:3.)
Lembra-te de que a tentação não é pecado, a menos que seja acompanhada do consentimento da tua vontade. Pode até parecer haver a inclinação, e todavia a verdadeira escolha do teu espírito está fixada imovelmente contra ela, e Deus a considera simplesmente como uma solicitação, e te credita uma obediência tanto mais agradável a Ele quanto mais forte foi a tentação.
Bem pouco sabemos como o mal pode encontrar acesso a uma natureza pura e parecer incorporar-se aos nossos pensamentos e sentimentos, enquanto ao mesmo tempo o resistimos e o vencemos, permanecendo tão puros como a ave marinha que emerge da água sem que uma única gota fique sobre a sua asa reluzente, ou como a corda da harpa, que pode ser tangida por uma mão rude ou desajeitada e produzir um som discordante, não por defeito algum da harpa, mas por causa da mão que a toca. Mas deixa que a mão do Mestre toque nela, e será um acorde de melodia e uma nota de deleite delicioso.
“Em nada vos espantando dos vossos adversários, o que para vós é um evidente sinal de salvação, e isto de Deus.”
13 de setembro
“Não estranheis a ardente prova que entre vós há de haver, para vos provar” (1 Pe 12:16).
A maioria das pessoas, depois de um passo de fé, espera céus ensolarados e mares tranquilos, e, quando se depara com tempestade e temporal, enche-se de assombro e perplexidade. Mas é justamente isto que devemos esperar encontrar, se recebemos alguma coisa do Senhor. O melhor sinal da sua presença é o desafio do adversário, e quanto mais real a nossa bênção, com mais certeza será contestada. É bom sair esperando o pior, e, se ele vier, não nos surpreendemos; ao passo que, se o nosso caminho for suave e a nossa via não encontrar oposição, tanto mais deleitoso será, porque vem como uma alegre surpresa.
Mas entendamos bem o que queremos dizer por tentação. Tu, especialmente, que deste um passo à frente com a certeza de que morreste para o eu e para o pecado, podes espantar-te grandemente ao ver-te assaltado por uma tempestade de pensamentos e sentimentos que parecem vir inteiramente de dentro, e serás impelido a dizer: “Ora, eu pensava que estava morto, mas parece que estou vivo.” Este, amado, é o momento de lembrar que a tentação, a instigação, não é pecado, mas procede apenas do maligno.
14 de setembro
“Porque o Senhor DEUS me ajuda, por isso não me confundo; por isso pus o meu rosto como um seixo, e sei que não serei envergonhado” (Is 50:7).
Esta é a linguagem da confiança e da vitória, e foi por meio desta fé, como nos diz uma passagem em Hebreus, que, na sua última agonia, “Jesus, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta”. A sua vida foi uma vida de fé, a sua morte foi uma vitória de fé, a sua ressurreição foi um triunfo de fé, o seu reinado mediador é todo ele uma longa vitória de fé, “esperando desde então, até que todos os seus inimigos sejam postos por escabelo dos seus pés”.
E assim, por nós, Ele se tornou o modelo da fé, e em toda situação de dificuldade, tentação e angústia foi adiante de nós agitando o estandarte da confiança e do triunfo, e chamando-nos a seguir nas suas pisadas vitoriosas.
Ele é o grande Crente Modelo. Enquanto devemos reivindicar a nossa salvação pela fé, o grande Precursor também reivindicou a salvação do mundo pela mesma fé.
Consideremos, portanto, este glorioso Guia como o nosso exemplo perfeito, e, ao seguirmos bem de perto atrás dele, lembremo-nos de que, onde Ele triunfou, também nós podemos triunfar.
15 de setembro
“Ainda que se demore, espera-o, porque certamente virá, e não tardará” (Hc 2:3).
Algumas coisas cumprem o seu ciclo em uma hora, outras em um século; mas os seus planos completarão o seu ciclo, seja ele longo ou breve. A tenra planta anual, que floresce por uma estação e morre, e o agave centenário, que se desenvolve em um século, cada qual é fiel ao seu princípio natural. Muitos de nós desejam colher o seu fruto em junho, em vez de esperar até outubro, e assim, é claro, ele fica azedo e verde; mas os propósitos de Deus amadurecem lenta e plenamente, e a fé aguarda enquanto ele tarda, sabendo que certamente virá e não tardará demais.
É perfeito descanso aprender plenamente e confiar inteiramente nesta gloriosa promessa. Podemos saber, sem dúvida alguma, que os seus propósitos hão de se cumprir, quando lhe tivermos entregado inteiramente os nossos caminhos, e estivermos andando em vigilante obediência a cada um dos seus impulsos. Esta fé dará ao espírito um equilíbrio calmo e tranquilo, e nos livrará da inquieta impaciência e do querer fazer nós mesmos coisas demais.
Espera, e todo mal se corrigirá, Espera, e toda nuvem se aclarará, Se apenas esperares.16 de setembro
“Não te deixarei, nem te desampararei” (Hb 13:5).
É muito animador saber assim que, embora erremos e tragamos sobre nós mesmos muitos males que poderiam ter sido facilmente evitados, ainda assim Deus não abandona nem mesmo o seu filho que se equivocou, mas, ao seu humilde arrependimento e súplica, está sempre pronto tanto a perdoar como a livrar. Não desistamos da nossa fé porque talvez nos tenhamos desviado do caminho pelo qual Ele nos teria conduzido. Os israelitas não seguiram quando Ele os chamou para a Terra da Promessa, e todavia Deus não os desamparou; mas, durante os quarenta anos das suas peregrinações, Ele caminhou ao seu lado, suportando as suas apostasias com paciente compaixão, e esperando ser gracioso para com eles quando outra geração houvesse chegado. “Em toda a angústia deles foi ele angustiado, e o anjo da sua presença os salvou; ele os tomou e os conduziu todos os dias da antiguidade.” E assim ainda, embora as nossas peregrinações nos tragam muitas tristezas e nos façam perder muitas bênçãos, ao coração que verdadeiramente escolhe ser dele, Ele graciosamente disse: “Não te deixarei, nem te desampararei.”
17 de setembro
“O teu povo se apresentará voluntariamente no dia do teu poder” (Sl 110:3).
Isto é o que o termo consagração propriamente significa. É a rendição voluntária, ou o oferecimento de si mesmo, do coração, pelo constrangimento do amor, para ser do Senhor. A sua alegre expressão é: “Eu sou do meu Amado.” Deve brotar, é claro, da fé. Deve haver a plena confiança de que estamos seguros neste abandono, de que não estamos caindo por um precipício, nem nos entregando às mãos de um juiz, mas afundando nos braços de um Pai e entrando numa herança infinita. Oh, é uma herança infinita! Oh, é um privilégio infinito ser permitido assim entregar-se Àquele que se compromete a nos fazer tudo o que amaríamos ser, sim, tudo o que a sua infinita sabedoria, poder e amor se deleitarão em realizar em nós. É o barro cedendo-se às mãos do oleiro, para ser moldado em vaso de honra, próprio para o uso do Mestre. É o pobre menino abandonado da rua que consente em tornar-se filho de um príncipe, para ser educado e provido, para ser preparado a herdar toda a riqueza do seu guardião.
18 de setembro
“Porque andamos por fé, e não por vista” (2 Co 5:7).
Há notas celestiais que têm poder para derrubar muralhas de aço e dissolver montanhas de dificuldade. O cântico de Paulo e Silas rompeu os grilhões do cárcere de Filipos; o coro de Josafá pôs em fuga os exércitos dos amonitas, e o cântico da fé dispersará os nossos adversários e erguerá os nossos corações desanimados para a força e a vitória. Amado, é a hora sombria para nós? o inverno da esterilidade e da tristeza? Oh, lembremo-nos de que este é o tempo escolhido por Deus para a educação da fé, e que Ele esconde, sob a superfície, preciosas e incontáveis colheitas de frutos jamais imaginados! Nem sempre será inverno, nem sempre será noite, e, quando vier a manhã e a primavera estender o seu verde manto sobre os campos estéreis, então nos alegraremos de não termos desapontado o nosso Pai na hora da prova, mas de que a fé já havia reivindicado e visto ao longe a alegre fruição que a vista agora contempla, com um arrebatamento até menor do que a visão da fé nua.
Senhor, ajuda-me a crer quando não posso ver, e a aprender das minhas provas a confiar mais em Ti.
19 de setembro
“A seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos” (Gl 6:9).
Se o menor de nós pudesse ao menos prever as questões eternas que provavelmente brotarão dos mais humildes serviços da fé, teríamos os nossos sacrifícios e labores por inefáveis heranças de honra e oportunidade, e deixaríamos de falar de provas e sacrifícios por Deus.
O menor grão de fé é um germe imortal e incorruptível, que ainda plantará os céus e cobrirá a terra com colheitas de glória imperecível. Ergue a tua cabeça, amado, o horizonte é mais largo do que o pequeno círculo que podes ver. Estamos vivendo, estamos sofrendo, estamos labutando, estamos confiando, para as eras ainda por vir. “Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos”, e com lágrimas de arrebatamento clamaremos um dia: “Oh! quão grande é a tua bondade, que guardaste para os que te temem, a qual obraste para aqueles que em ti confiam na presença dos filhos dos homens!”
Ajuda-me hoje a viver sob os poderes do mundo vindouro, e a viver como um homem no céu andando sobre a terra.
20 de setembro
“Não serão envergonhados os que me esperam” (Is 49:23).
Muitas vezes Ele nos chama à parte da nossa obra por um tempo, e nos manda estar quietos e aprender antes de sairmos de novo a ministrar. Assim é especialmente quando houve algum grave rompimento, alguma súbita falha, algum defeito radical na nossa obra. Nenhum tempo se perde em tais horas de espera. Fugindo dos seus inimigos, o antigo cavaleiro descobriu que o seu cavalo precisava ser ferrado de novo. A prudência parecia instá-lo a prosseguir sem demora, mas uma sabedoria mais alta ensinou-o a deter-se alguns minutos, à beira do caminho, na forja do ferreiro, para que a ferradura fosse reposta; e, embora ouvisse os cascos dos seus perseguidores galopando rijos atrás de si, esperou aqueles minutos até que o seu corcel estivesse pronto para a fuga, e então, saltando para a sela justamente quando eles surgiam a cem metros de distância, disparou para longe deles com a rapidez do vento, e soube que a sua parada havia apressado a sua escapada. Assim, muitas vezes Deus nos manda esperar antes de partirmos, e recobrar-nos plenamente para o próximo grande trecho da jornada e da obra.
Senhor, ensina-me a estar quieto e saber que Tu és Deus, e a andar contigo todo este dia.
21 de setembro
“Cansados, mas ainda perseguindo” (Jz 8:4).
É coisa grande aprender assim a depender de Deus para operar por meio dos nossos débeis recursos, e, todavia, dependendo assim, ser absolutamente fiel e diligente, e não permitir que a nossa confiança degenere em preguiça e indolência. Não encontramos moleza nem negligência em Gideão, ou nos seus trezentos; embora fossem fracos e poucos, eram inteiramente verdadeiros, e tudo neles estava pronto para que Deus o usasse até o fim. “Cansados, mas ainda perseguindo” era a sua palavra de ordem, enquanto seguiam e completavam a sua gloriosa vitória, e não descansaram até que o último dos seus inimigos fosse destruído, e até os seus falsos amigos fossem punidos pela sua traição e deslealdade.
Assim, Deus ainda chama os mais fracos instrumentos, mas, quando Ele os escolhe e os capacita, já não são fracos, mas “poderosos em Deus”, e fiéis, pela sua graça, a cada confiança e oportunidade; “confiando”, como costumava dizer o Dr. Chalmers, “como se tudo dependesse de Deus, e trabalhando como se tudo dependesse de si mesmos”.
Ensina-me, meu bendito Mestre, a confiar e obedecer.
22 de setembro
“Ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele, mas vemos Jesus” (Hb 2:8, 9).
Como isto é verdadeiro para todos nós! Quantas são as coisas que parecem ser mais fortes do que nós, mas, bendito seja o seu nome! todas estão em sujeição debaixo dele, e vemos Jesus coroado acima de todas elas; e Jesus é a nossa Cabeça, o nosso representante, o nosso outro eu, e onde Ele está, certamente também nós estaremos. Portanto, quando não conseguirmos ver realizada em nós alguma coisa que Deus prometeu, e que reivindicamos na nossa experiência, olhemos para o alto e a vejamos realizada nele, e a reivindiquemos nele para nós mesmos. O nosso lado é apenas a metade do círculo; o lado do céu já está completo, e o arco-íris, do qual não vemos a metade superior, um dia estará todo ao redor do trono e abarcará o outro hemisfério de toda a nossa vida agora inacabada. Pela fé, então, entremos em toda a nossa herança. Levantemos os nossos olhos para o norte e para o sul, para o oriente e para o ocidente, e ouçamo-Lo dizer: “Toda esta terra que vês, te hei de dar a ti.” Lembremo-nos de que o círculo está completo, de que a herança é ilimitada, e de que todas as coisas estão postas debaixo dos seus pés.
23 de setembro
“Eu sou o Senhor que te sara” (Êx 15:26).
É muito razoável que Deus espere que confiemos nele tanto para os nossos corpos como para as nossas almas, pois, se a nossa fé não é prática o bastante para nos trazer alívio temporal, como poderemos ser educados para uma real dependência de Deus em qualquer coisa que envolva sério risco? É muito fácil falar de confiar em Deus para a distante e futura perspectiva da salvação depois da morte! Quase não há pecador em terra cristã que não confie em ser salvo algum dia, mas não há firmeza em fé como essa. Só quando chegamos face a face com questões concretas e forças esmagadoras é que podemos provar a realidade do poder divino numa vida sobrenatural. Por isso, tanto como educação para os nossos próprios espíritos, quanto como graciosa provisão para a nossa vida temporal, Deus tem treinado o seu povo, desde o princípio, a reconhecê-Lo como o suprimento de todas as suas necessidades, e a olhar para Ele como o Médico dos seus corpos e o Pai dos seus espíritos. Amado, aprendeste o significado de Jeová-rofe, e ele transformou a tua Mara de provação num Elim de bênção e louvor?
24 de setembro
“Chama as coisas que não são como se já fossem” (Rm 4:17).
A Palavra de Deus cria aquilo que ordena. Quando Cristo diz a qualquer um de nós: “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado”, estamos limpos. Quando Ele diz “nenhuma condenação”, não há nenhuma, ainda que tenha havido uma vida inteira de pecado antes. E quando Ele diz “poderosas em Deus para destruição das fortalezas”, então os fracos são fortes. Esta é a parte da fé: tomar a Deus pela sua Palavra, e então esperar que Ele a torne real. Um comandante francês agradeceu a um simples soldado que lhe havia salvado a vida, e o chamou de capitão, ainda que fosse apenas um soldado raso; mas o homem tomou o comandante pela sua palavra, aceitou o novo nome, e por isso foi de fato constituído capitão.
Não tomaremos, assim, a criadora palavra de Deus de justificação, santificação, poder e livramento, e não tornaremos, assim, real a poderosa promessa: “Dá força ao cansado, e ao que não tem nenhum vigor multiplica as forças; pois os que esperam no Senhor renovarão as suas forças”?
25 de setembro
“A fé do Filho de Deus” (Gl 2:20).
Aprendamos o segredo até mesmo da nossa fé. É a fé de Cristo, brotando no nosso coração e confiando nas nossas provas. Assim cantaremos sempre: “A vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e se entregou a si mesmo por mim.” Olhando assim firmemente para Jesus, “o autor e consumador da fé”, descobriremos que, em vez de lutar para alcançar as promessas de Deus, nos deitaremos sobre elas em bendito repouso e seremos por elas sustentados, com uma fé que não é mais nossa do que as promessas sobre as quais ela repousa. Cada nova necessidade nos encontrará apoiando-nos de novo nele para a graça de confiar e de vencer.
Além disso, vemos aqui o verdadeiro espírito de oração. É o Espírito de Cristo em nós. “No meio da igreja te cantarei louvores.” Cristo ainda canta estes louvores no coração que confia, e ergue as nossas orações em cânticos de vitória! Este é o verdadeiro espírito de oração, como o de Paulo e Silas na prisão em Filipos, transformando a oração em louvor, a noite em dia, a noite da tristeza na manhã da alegria; e, quando Ele está em nós, o espírito de fé, também se tornará o espírito de louvor.
26 de setembro
“Estarei com ele na angústia” (Sl 91:15).
Muitas vezes vem a pergunta: “Por que Ele não me ajudou mais cedo!” Não é a sua ordem. Ele precisa primeiro ajustar-te à situação e fazer-te aprender a tua lição por meio dela. A sua promessa é: “Estarei com ele na angústia; livrá-lo-ei e o glorificarei.” Ele precisa estar contigo na angústia primeiro, até que te aquietes. Então Ele te tirará dela. Isto não virá até que tenhas deixado de estar inquieto e impaciente por causa dela, e te tenhas tornado calmo e confiante. Então Ele dirá: “É o bastante.”
Deus usa a tribulação para ensinar aos seus filhos preciosas lições. Elas se destinam a educar-nos. Quando a sua boa obra estiver concluída, uma gloriosa recompensa nos virá por meio delas. Há nelas uma doce alegria e oportunidade. Ele não as considera dificuldades, mas oportunidades. Elas vieram para dar a Deus um maior interesse em ti, e para mostrar como Ele pode livrar-te delas. Não podemos ter uma misericórdia digna de louvar a Deus sem dificuldade. Deus é tão profundo, e longo, e alto, quanto o nosso pequeno mundo de circunstâncias.
27 de setembro
“A liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8:21).
Estás acima do eu e do agradar-te a ti mesmo em todos os sentidos? Chegaste a estar acima das circunstâncias, de modo a não ser influenciado por elas? Estás acima da enfermidade e das forças malignas ao redor, que arrastariam a tua vida física para as areias movediças? Essas forças estão por toda parte, e, se cedêssemos a elas, rapidamente nos submergiriam. Deus não destrói a enfermidade, nem o seu poder de ferir, mas nos ergue acima dela. Estás acima dos teus sentimentos, humores, emoções e estados? Podes navegar imóvel como as estrelas através de toda sorte de tempo? Uma harpa produzirá doce música ou sons discordantes, conforme os dedos que tocam as cordas. Se a mão do diabo estiver nas cordas da tua harpa, que sons hediondos ela dará. Deixa que os dedos do Senhor a percorram, e ela exalará música celestial. Estás erguido acima das pessoas, de modo a não estares preso a ninguém, nem por ninguém, senão no querido Senhor, e estás firme e livre na sua gloriosa vida?
“Ressuscitei com Cristo, habito nas alturas; Ando com Jesus aqui embaixo, Espalho a luz da sua glória e amor Ao meu redor, por onde quer que eu vá.”28 de setembro
“A prova da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro” (1 Pe 1:7).
As nossas provas são grandes oportunidades. Com demasiada frequência olhamos para elas como grandes obstáculos. Seria um céu de descanso e uma inspiração de indizível poder se, de agora em diante, cada um de nós reconhecesse toda situação difícil como um dos caminhos escolhidos por Deus para nos provar o seu amor e o seu poder; e se, em vez de contarmos com a derrota, começássemos a procurar ao redor as mensagens das suas gloriosas manifestações. Então, de fato, toda nuvem se tornaria um arco-íris, e toda montanha, uma senda de ascensão e um cenário de transfiguração. Se olharmos para o passado, muitos de nós descobrirão que o próprio tempo que o nosso Pai celestial escolheu para fazer por nós as coisas mais bondosas e nos dar as mais ricas bênçãos foi o tempo em que estávamos tensos e cercados por todos os lados. As joias de Deus muitas vezes nos são enviadas em embrulhos toscos e por servos de escura libré, mas dentro encontramos os próprios tesouros do palácio do Rei e o Amor do Esposo.
Fogo de Deus, começa a tua obra, Queima a escória do eu e do pecado; Queima os meus grilhões, liberta-me, E pela fornalha caminha comigo.29 de setembro
“Não faças tu comum” (At 10:15).
“Nada há que de si mesmo seja comum” (Rm 14:14).
Podemos trazer Cristo para dentro das coisas comuns tão plenamente quanto para dentro do que chamamos de serviços religiosos. Aliás, é a mais alta e a mais difícil aplicação da graça divina fazê-la descer até os assuntos ordinários da vida, e por isso Deus é muito mais honrado nisto do que mesmo nas coisas que são mais especialmente sagradas.
Por isso, no décimo segundo capítulo de Romanos, que é o manual da consagração prática, logo após a passagem que fala de ministrar nas coisas sagradas, o apóstolo passa de imediato aos assuntos comuns, sociais e seculares nos quais devemos trazer os nossos princípios de consagração. Lemos: “Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros; não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor.”
Deus quer os levitas espalhados por todas as cidades de Israel. Ele quer a tua oficina, a fábrica, a cozinha, o quarto das crianças, a sala do editor e a tipografia, tanto quanto o teu púlpito e o teu quarto de oração. Ele quer que sejas tão santo ao meio-dia de uma segunda ou de uma quarta-feira, quanto no santuário na manhã do dia do Senhor.
30 de setembro
“Nos lugares secretos da escada” (Ct 2:14).
A pomba está na fenda da rocha — o lado ferido do nosso Senhor. Ali há consolo e segurança. Está também nos lugares secretos da escada. Ela gosta de construir o seu ninho nas altas torres, às quais os homens sobem pelas escadas em espiral, centenas de metros acima do solo. Que gloriosa visão ali se obtém do cenário ao redor. É uma imagem da vida ascendente. Para alcançar as suas mais altas altitudes, precisamos achar os lugares secretos da escada. Esse é o único modo de se erguer acima do plano natural. A nossa vida deveria ser uma vida de quieta subida, com ocasionais lugares de descanso; mas deveríamos estar subindo mais alto, degrau a degrau. Nem todos acham este caminho de ascensão secreta. Ele é para os escolhidos de Deus. O mundo pode pensar que estás descendo. Podes não ter tanto trabalho público a fazer como antes. “Bem-aventurados os pobres de espírito.” É uma vida secreta, oculta. Mal podemos perceber que estamos crescendo, até que um dia venha uma prova e descobrimos que estamos firmados. Chegaste a estar acima do poder do pecado, de modo que Cristo te guarda da desobediência voluntária? Dá-te um estremecimento conhecer a consciência do pecado? Estás erguido acima do mundo?
Capítulo 9 concluído
Setembro