Capítulo 8 · 31 min de leitura
Agosto
Agosto 1
“Porque todos nós devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba as coisas feitas no corpo, segundo o que houver feito” (2 Co 5:10).
Nem sempre será o dia do labor e da provação. Um dia, ouviremos os nossos nomes anunciados diante do universo, e a leitura do registro de coisas que havíamos há muito esquecido. Como estremecerão os nossos corações, e como se inclinarão as nossas cabeças, quando ouvirmos chamar o nosso próprio nome, e então o Mestre relatar os triunfos e os serviços que nós mesmos havíamos esquecido! E, talvez, dentre as fileiras dos salvos, Ele chame à frente as almas que ganhamos para Cristo e as almas que estas, por sua vez, ganharam; e, ao vermos o desfecho de coisas que, talvez, pareceram apenas insignificâncias na ocasião, cairemos diante do trono e diremos: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá glória!”
Amados, as páginas sobem a cada dia, para o registro da nossa vida. Somos nós mesmos que compomos os tipos, a cada ação de cada momento. Mãos invisíveis vão gravando as chapas, e em breve o registro será lavrado, e lido diante da assembleia do universo, e em meio aos desfechos da eternidade.
Agosto 2
“A tua brandura me engrandeceu” (Sl 18:35).
O bendito Consolador é brando, terno, e cheio de paciência e amor. Quão brandos são os tratos de Deus até mesmo com os pecadores! Quão paciente a sua longanimidade! Quão terna a sua disciplina para com os seus próprios filhos que erram! Como Ele conduziu Jacó, José, Israel, Davi, Elias, e todos os seus antigos servos, até que puderam dizer com verdade: “A tua brandura me engrandeceu.”
O coração em que habita o Espírito Santo será sempre caracterizado por brandura, humildade, quietude, mansidão e longanimidade. O espírito rude e sarcástico, a maneira brusca, a réplica ríspida, o corte descortês — tudo isto pertence à carne, mas nada tem em comum com o brando ensino do Consolador.
A santa Pomba se retrai do espírito ruidoso, tumultuoso, agitado e vingativo, e faz o seu lar no peito humilde da alma pacífica. “O fruto do Espírito é a brandura, a mansidão.”
Senhor, torna-me brando. Aquieta o meu espírito. Refina o meu modo. Faze que eu tenha Cristo no meu porte e no próprio tom da minha voz, tanto quanto no meu coração.
Agosto 3
“Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus” (1 Pe 5:6).
A pressão dos lugares difíceis nos faz valorizar a vida. Cada vez que a nossa vida nos é devolvida de uma tal provação, é como um novo começo, e aprendemos melhor quanto ela vale, e dela fazemos mais para Deus e para os homens.
A pressão nos ajuda a compreender as provações dos outros, e nos habilita a socorrê-los e a com eles solidarizar-nos.
Há uma natureza rasa e superficial, que se apega levianamente a uma teoria ou a uma promessa, e fala com muita fluência da desconfiança dos que recuam ante cada provação; mas o homem ou a mulher que muito sofreu jamais faz isto, e é antes muito terno e brando, e sabe o que o sofrimento realmente significa.
Foi isto que Paulo quis dizer quando afirmou: “A morte opera em nós, mas a vida em vós.” Provações e lugares difíceis são necessários para nos impelir adiante; assim como o fogo das fornalhas no porão daquele poderoso navio gera a força que move o pistão, aciona a máquina, e impele aquela grande embarcação através do mar, em face dos ventos e das ondas.
Agosto 4
“Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós. Mas, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8:9).
Um homem espiritual não é tanto um homem que possui um forte caráter espiritual, quanto um homem cheio do Espírito Santo. Por isso o apóstolo disse: “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós.”
A glória da nova criação, pois, não está apenas em que ela recria o espírito humano, mas em que o torna apto para a morada do próprio Deus, e o faz dependente do sol, como a criança da mãe. A mais alta espiritualidade, portanto, é o mais completo desamparo, a mais inteira dependência e a mais plena possessão do Espírito Santo. Por isso, o belo ato de Cristo, ao soprar sobre os seus discípulos e comunicar-lhes dos seus próprios lábios o mesmo Espírito que já estava nele, exprimiu do modo mais vívido a glória suprema da nova criação. E quando o Espírito Santo assim nos possui, Ele enche cada parte do nosso ser.
Agosto 5
“Se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo” (Ap 3:20).
Alguns de nós estamos famintos, e nos perguntamos por que o Espírito Santo não nos enche. Temos muito entrando, mas não damos de nós mesmos. Reparti a bênção que tendes, iniciai planos maiores de serviço e de bênção, e logo descobrireis que o Espírito Santo vos precede, e Ele vos “prevenirá com as bênçãos de bondade”, e vos dará tudo o que puder confiar-vos para dardes aos outros.
Há um belo fato na natureza que tem os seus paralelos espirituais. Não há música tão celestial como a de uma harpa eólia, e a harpa eólia não passa de um conjunto de cordas musicais dispostas em harmonia, e depois deixadas a ser tocadas pelos dedos invisíveis dos ventos errantes. E, à medida que o sopro do céu paira sobre as cordas, diz-se que notas quase divinas flutuam no ar, como se um coro de anjos vagueasse ao redor tocando as cordas.
E assim é possível manter os nossos corações tão abertos ao toque do Espírito Santo que Ele possa tanger neles à vontade, enquanto aguardamos serenamente na senda do seu serviço.
Agosto 6
“Todos quantos são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Rm 8:14).
O bendito Espírito Santo é o nosso Guia, o nosso Condutor, e o nosso Repouso. Há tempos em que Ele nos impele adiante, para a oração, para o serviço, para o sofrimento, para novas experiências, novos deveres, novas exigências de fé, de esperança e de amor; mas há tempos em que Ele nos detém em nossa atividade, e nos faz repousar sob a sua asa protetora, e nos aquieta no lugar secreto do Altíssimo, ensinando-nos alguma nova lição, insuflando em nós alguma força ou plenitude mais profunda, e depois conduzindo-nos outra vez, somente ao seu mandado. Ele é o verdadeiro Guia do santo, e o verdadeiro Condutor da Igreja, o nosso maravilhoso Conselheiro, o nosso Amigo infalível; e aquele que negasse a orientação pessoal do Espírito Santo para honrar a Palavra de Deus como o nosso único guia, teria de desonrar aquela outra palavra de promessa, de que as suas ovelhas conhecerão a sua voz, e de que os seus filhos atentos e obedientes ouvirão atrás de si uma voz que diz: “Este é o caminho, andai por ele.”
Agosto 7
“Sabendo isto, que o nosso velho homem foi crucificado com ele” (Rm 6:6).
É puramente uma questão de fé, e a fé e a vista sempre diferem, de sorte que aos vossos sentidos não parece ser assim, mas a vossa fé deve, ainda assim, considerá-lo assim. Esta é uma atitude muito difícil de manter, e somente à medida que cremos plenamente em Deus podemos assim contar com a sua Palavra e a sua operação; mas, à medida que o fazemos, a fé o converterá em fato, e assim será.
Estas duas palavras, “entregar” e “considerar”, são senhas para a vida de ressurreição. São como os dois fios da “Espada do Espírito” pela qual entramos na crucificação com Cristo.
Este ato de entrega e este considerar da fé são reconhecidos no Novo Testamento como marcando uma crise muito definida na vida espiritual. Não significa que se espera que estejamos passando por um contínuo morrer, mas que deve haver um ato de morrer muito definido, e depois um constante hábito de considerar-nos mortos, e de enfrentar tudo a partir deste ponto de vista.
“Considerai-vos, também, verdadeiramente mortos para o pecado, mas vivos para Deus, por Jesus Cristo.”
Agosto 8
“Sede como a pomba” (Jr 48:28).
Inofensivo como a pomba — é esta a interpretação que Cristo dá do belo emblema. E assim o Espírito de Deus é a própria pureza. Ele não pode habitar num coração impuro. Ele não pode permanecer na mente natural. Foi dito da unção de outrora: “Sobre a carne do homem não se derramará.”
A pureza que o Espírito Santo traz é como a pequena planta branca e imaculada que brota do monte de esterco, ou do solo negro, sem que um só grão de impureza adira à sua superfície cristalina, imaculada como a asa de um anjo.
Assim o Espírito Santo dá uma pureza de coração que traz a sua própria proteção, pois é essencialmente diversa das coisas más que crescem ao seu redor. Pode estar rodeada de mal por todos os lados, e todavia permanece incontaminada e pura, porque a sua própria natureza é essencialmente santa e divina. Como a plumagem da pomba, não pode ser manchada, mas sai do charco lodoso sem nódoa e sem mácula das águas escuras, porque é protegida pela cobertura oleosa que repele toda contaminação e a torna impenetrável ao toque de toda mancha.
Agosto 9
“E porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo, e sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel, e todas as suas transgressões, e todos os seus pecados” (Lv 16:21).
À medida que qualquer mal surge, e a consciência de qualquer coisa impura toca os nossos sentidos interiores, é o nosso privilégio entregá-lo de imediato ao Espírito Santo e depô-lo sobre Jesus, como algo já crucificado com Ele; e, como outrora, no caso da oferta pelo pecado, será levado para fora do arraial e reduzido a cinzas.
Pode haver sofrimento profundo, pode haver dor prolongada, pode ser intensamente real; mas, através de tudo, haverá um sentido muito doce e sagrado da presença de Deus, e intensa pureza em todo o nosso espírito, e a nossa separação do mal que está sendo consumido. Verdadeiramente, será levado para fora do arraial, e sem sequer o cheiro das chamas sobre as nossas vestes.
É tão bendito ter o Espírito Santo a matar as coisas. Nenhuma espada senão a sua pode passar tão perfeitamente entre nós e o mal, de modo a consumir o pecado sem tocar o espírito.
Senhor Jesus, minha Oferta pelo pecado, deponho o meu pecado, o meu eu, toda a minha natureza, sobre a tua Cruz. Consome-me pelo teu fogo santo, e faze-me morrer para tudo, menos para ti!
Agosto 10
“Não há mácula em ti” (Cantares 4:7).
O bendito Espírito Santo, que possui o coração consagrado, está intensamente empenhado na nossa mais alta vida, e nos observa com um amor sensível, e até ciumento. Muito bela é a verdadeira tradução daquela passagem comum na Epístola de Tiago: “O Espírito que habita em nós nos ama com ciúmes.”
O coração do Espírito Santo está intensamente empenhado em preservar-nos de toda nódoa e mancha, e em conduzir-nos às mais altas possibilidades da vontade de Deus.
O Esposo celestial quer a sua Igreja não só livre de toda mancha, mas também de “ruga, ou coisa semelhante”. A mancha é o sinal do pecado, mas a ruga é o sinal da fraqueza, da idade e da decadência, e Ele não quer nenhum tal traço deformante sobre as feições santas da sua Amada; e por isso o Espírito Santo, que é o Executor da sua vontade, e o Mensageiro Divino que Ele envia para chamar, separar e trazer para casa a sua Noiva, está ciosamente empenhado em cumprir em nós toda a vontade do Mestre.
Senhor, tira de mim toda mácula e todo sinal de fraqueza e decadência, e faze-me a tua Noiva sem mancha.
Agosto 11
“Toda a terra que vês” (Gn 13:15).
As provisões efetivas da sua graça vêm da visão interior.
Aquele que põe o instinto no peito daquela ave, para atravessar o continente em busca do sol do verão naquele clima meridional, é bom demais para enganá-la; e tão certamente como pôs o instinto no seu peito, assim também pôs ali as brisas suaves e o sol primaveril, para recebê-la à sua chegada.
Aquele que deu a Abraão a visão da Terra da Promessa, também disse, em infinita verdade e amor: “Toda a terra que vês, eu ta darei.” Aquele que insufla nos nossos corações a esperança celestial não nos enganará nem nos faltará quando avançarmos para a sua realização. Não há nada de infiel naquele que disse: “Se assim não fora, eu vo-lo teria dito”, e podemos saber que Ele jamais nos enganará nem nos faltará, mas tudo o que Ele revela pelo seu Espírito Santo Ele o fará nosso, à medida que avançarmos e entrarmos na sua realização.
Senhor, dá-me primeiro a visão e depois a vitória. Mostra-me toda a minha herança, e depois dá-me toda ela em Cristo Jesus.
Agosto 12
“Não a nós mesmos, mas a Cristo Jesus” (2 Co 4:5).
A tua influência cristã, a tua reputação de obreiro de Deus, e a tua posição entre os teus irmãos podem ser um ídolo para o qual precisas morrer, antes que possas ficar livre para viver só para Ele.
Se alguma vez reparaste nos tipos de uma página impressa, hás de ter notado que o pequeno “i” sempre traz um ponto por cima, e é esse ponto que o eleva acima das demais letras da linha.
Ora, cada um de nós é um pequeno eu, e sobre cada um de nós há um pequenino ponto de amor-próprio, de vontade própria, de interesse próprio, de autoconfiança, de autocomplacência, ou alguma coisa a que nos apegamos e pela qual contendemos, que tão certamente revela a vida do eu como se fosse uma montanha de real importância.
Este eu é um rival de Jesus Cristo, e o inimigo do Espírito Santo, e da nossa paz e da nossa vida, e por isso Deus decretou a sua morte, e o Espírito Santo, com a sua espada flamejante, aguarda para destruí-lo, a fim de que possamos entrar pelas portas e chegar à Árvore da Vida. Senhor, expulsa-me pela tua plenitude, assim como a glória do Senhor não deixou lugar para Moisés no Tabernáculo.
Agosto 13
“Nuvens e escuridão estão ao redor dele” (Sl 97:2).
A presença de nuvens no teu céu, e de provações no teu caminho, é a melhor prova de que estás seguindo a coluna de nuvem, e caminhando na presença de Deus. Eles tiveram de entrar na nuvem antes de poderem contemplar a glória da transfiguração, e pouco depois aquela mesma nuvem tornou-se o carro que recebeu o Senhor que ascendia, e ainda aguarda como o carro que trará a sua gloriosa aparição.
Ainda assim é verdade que “nuvens e escuridão estão ao redor do seu trono; misericórdia e verdade” estão sempre no meio delas, e “irão adiante da sua face”.
Talvez o uso mais belo e gracioso da nuvem fosse abrigá-los do sol ardente. Como um grande guarda-sol, aquela majestosa coluna estendia o seu dossel sobre o acampamento, e tornava-se uma sombra protetora contra o calor abrasador no deserto sem árvores. Ninguém que nunca sentiu um sol oriental pode avaliar plenamente quanto isto significa — uma sombra contra o calor.
Assim o Espírito Santo se interpõe entre nós e os raios ardentes e escaldantes da tristeza e da tentação.
Agosto 14
“Não toqueis os meus ungidos, e não maltrateis os meus profetas” (Sl 105:15).
Antes brincaria com o raio bifurcado, ou tomaria nas mãos fios elétricos vivos, com a sua corrente flamejante, do que falaria uma palavra imprudente contra qualquer servo de Cristo, ou repetiria ociosamente os dardos caluniosos que milhares de cristãos arremessam sobre os outros, para dano das suas próprias almas e corpos.
Talvez muitas vezes te perguntes por que a tua enfermidade não é curada, o teu espírito não se enche do gozo do Espírito Santo, ou a tua vida não é abençoada e próspera. Pode ser que algum dardo que arremessaste com voz irada, ou numa hora ociosa de mexerico irrefletido, te esteja perseguindo em seu percurso, ao descrever o círculo que sempre traz de volta à fonte de onde partiu cada seta de amargura, e toda palavra ociosa e má.
Lembremo-nos de que, quando perseguimos ou ferimos os filhos de Deus, estamos apenas perseguindo a Ele, e ferindo a nós mesmos muito mais.
Senhor, torna-me tão sensível aos sentimentos e aos direitos dos outros quanto tantas vezes fui aos meus próprios, e faze-me viver e amar como tu.
Agosto 15
“Ele vos guiará em toda a verdade” (Jo 16:13).
O Espírito Santo não vem para nos dar manifestações extraordinárias, mas para dar a sua vida e a sua luz; e quanto mais nos aproximamos dele, mais simples será a sua iluminação e a sua condução. Ele vem para nos “guiar em toda a verdade”. Ele vem para lançar luz sobre os nossos próprios corações, e para nos mostrar a nós mesmos. Ele vem para revelar Cristo, para dar, e depois para iluminar, as Sagradas Escrituras, e para tornar as realidades divinas vívidas e claras à nossa apreensão espiritual. Ele vem como um Espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento de Cristo, para “iluminar os olhos do nosso entendimento, para que saibamos qual seja a esperança da sua vocação, e quais as riquezas da glória da sua herança nos santos, e qual a sobreexcelente grandeza do seu poder sobre nós, os que cremos, segundo a operação da força do seu poder”.
Espírito de Poder! com fogo celestial, Reveste as nossas almas, inspira as nossas línguas; Estende a tua poderosa Mão, Restaura os teus dons pentecostais, E as maravilhas do teu poder mais uma vez Manifesta em toda a terra.Agosto 16
“Eis que eu estou convosco todos os dias” (Mt 28:20).
Oh, como nos ajuda e nos conforta, no labor da vida, saber que temos conosco o Cristo que passou os primeiros trinta anos da sua vida na carpintaria de Nazaré, brandindo o martelo, coberto de suor e de pó imundo, fisicamente cansado como tantas vezes o somos, e capaz de compreender todas as nossas experiências de labuta e de trabalho! e Aquele que ainda ama partilhar as nossas tarefas comuns e nos equipar para os nossos difíceis empreendimentos das mãos e da mente!
Sim, humilde irmã, Ele te ajudará ao tanque de lavar e à pia da cozinha tão de bom grado como na hora da oração. Sim, atarefado operário, Ele irá contigo e te ajudará a brandir o martelo, ou a manejar a serra, ou a segurar o arado no labor da vida, e serás um operário melhor, um artífice mais hábil, e um homem mais bem-sucedido, porque tomas a sua sabedoria para os assuntos comuns da vida. Não há lugar nem tempo em que Ele não seja capaz e disposto a caminhar ao nosso lado, a operar por meio das nossas mãos e da nossa mente, e a unir-se a si mesmo, em amorosa e todo-suficiente parceria, com todas as nossas necessidades, tarefas e provações, e a provar a nossa suficiência para todas as coisas.
Agosto 17
“Falai à rocha” (Nm 20:8).
O Espírito Santo é muito sensível, como o amor sempre o é. Podes subjugar uma fera selvagem por golpes e correntes, mas não podes assim subjugar o coração de uma mulher, nem conquistar o amor de uma natureza sensível; este há de ser cortejado pelos toques delicados da confiança e da afeição. Assim o Espírito Santo há de ser recebido por uma fé tão delicada e sensível como o terno coração com que entra em contato. Um só pensamento de incredulidade, uma só expressão de desconfiança impaciente ou de temor, deterá instantaneamente a perfeita liberdade das suas operações, tanto quanto um sopro de geada murcharia as pétalas da mais sensível rosa ou açucena.
Fala à rocha, não a firas. Crê no Espírito Santo e trata-o com a mais terna confiança e a mais inabalável certeza, e Ele te responderá com resposta e confiança instantâneas.
Amado, chegaste à rocha em Cades? Abriste todo o teu ser à plenitude do Espírito, e depois, com a confiança da criança para com a mãe, da noiva para com o esposo, da flor para com o sol, recebeste pela fé, e estás bebendo da sua bendita vida?
Agosto 18
“Os trezentos tocaram as trombetas” (Juízes 7:22).
Pouco imaginamos, às vezes, quanto uma palavra apressada, um discurso irrefletido, um ato imprudente, ou uma confissão de incredulidade e de temor podem fazer para estorvar a nossa mais alta utilidade, ou desviá-la de alguma grande oportunidade que Deus vinha preparando para nós.
Embora o Espírito Santo use homens fracos, Ele não os quer fracos depois de os escolher e chamar. Embora Ele use as coisas loucas para confundir as sábias, Ele não nos quer loucos depois de vir dar-nos a sua sabedoria e a sua graça. Ele usa a loucura da pregação, mas não, necessariamente, a loucura dos pregadores. Como a corrente elétrica, que pode suprir a força de mil homens, é preciso que ela tenha um condutor apropriado, e um fio muito fino é melhor do que uma corda muito grossa.
Deus quer instrumentos aptos para o seu poder — vontades rendidas, corações confiantes, vidas coerentes, e lábios obedientes à sua vontade; e então Ele pode usar as armas mais fracas, e torná-las poderosas por Deus para a destruição das fortalezas.
Agosto 19
“Tende fé em Deus” (Mc 11:22).
Ele requer de nós uma fé perfeita, e nos diz que, se crermos e não duvidarmos, teremos tudo quanto pedirmos. O mais leve toque de incredulidade neutralizará a nossa confiança.
Mas como teremos tal fé perfeita? Será possível à natureza humana? Não, mas é possível à natureza divina, é possível ao Cristo que está em nós. É possível a Deus dá-la; e Deus a dá. Ora, Cristo é o Autor e Consumador da nossa fé, e Ele nos manda ter a fé de Deus; e, à medida que a temos pela comunicação do Espírito de Cristo, cremos assim como Ele.
Oramos no seu nome, e na sua própria natureza, e vivemos pela fé do Filho de Deus, que nos amou e a si mesmo se entregou por nós. O amor que Ele requer de nós não é o mero amor humano, nem mesmo o padrão de amor exigido no Antigo Testamento, mas algo muito mais alto. O novo mandamento é: Amai-vos uns aos outros, não como a vós mesmos, mas como eu vos amei.
Como se tornará possível tal amor? Nisto o nosso amor é aperfeiçoado: que, assim como Ele é, também nós o somos neste mundo. O nosso amor é simplesmente o seu amor operado em nós, e comunicado a nós pelo Espírito.
Agosto 20
“Nisto é meu Pai glorificado” (Jo 15:8).
O verdadeiro modo de glorificar a Deus é que Deus mostre a sua glória por meio de nós, que resplandeça através de nós como vasos vazios que refletem a sua plenitude de graça e de poder.
O sol é glorificado quando tem oportunidade de mostrar a sua luz através da vidraça de cristal, ou de refletí-la do espelho imaculado ou do mar vítreo.
Não há nada que tanto glorifique a Deus como o poder de um homem ou de uma mulher fraco e desamparado triunfar, pela sua força, em lugares onde as mais altas qualidades humanas nos falhariam; e conduzir, em poder divino, através de toda forma de labor e de sofrimento, um espírito naturalmente fraco, irresoluto, egoísta e pecaminoso, transformado em doçura, pureza, poder, e permanecendo vitorioso em meio a circunstâncias para as quais as suas qualidades naturais devem torná-lo totalmente inapto. Uma mente naturalmente não sábia nem forte, dirigida por uma sabedoria divina, e conduzida ao longo da linha de um grande e poderoso plano, e usada para realizar resultados estupendos para Deus e para os homens — é isto que glorifica a Deus.
Assim, glorifique eu o meu Senhor neste dia, e adorne em tudo a doutrina de Deus.
Agosto 21
“A peleja não é vossa” (2 Cr 20:15).
O ponto é ter a peleja por de Deus. “A peleja não é vossa, mas de Deus.” Não tereis que pelejar nesta peleja. Enquanto tivermos os perigos e as responsabilidades por nossos, seremos distraídos pelo temor; mas, quando compreendermos que Ele é obrigado a cuidar de nós, como sua propriedade e seus representantes, sentiremos infinito alívio e segurança.
Se envio o meu servo numa longa viagem, sou responsável pelas suas despesas e pela sua proteção; e, se Deus me envia a algum lugar, Ele é responsável. Se pertencemos a Deus, e pomos a nossa vida, a nossa família, e tudo o que temos nas suas mãos, podemos saber que Ele cuidará de nós.
Se o nosso corpo lhe pertence, é do seu interesse conservar-nos sãos, tanto quanto é do interesse do pastor ter as suas ovelhas bem alimentadas e bem cuidadas, e para o seu crédito.
“Graças a Deus, que sempre nos faz triunfar.”
De pé, de pé por Jesus, De pé só na sua força; O braço da carne te faltará, Não ouses confiar no teu.Agosto 22
“Eu, o Senhor, o primeiro, e com os últimos, eu mesmo” (Is 41:4).
Milhares de pessoas ficam encalhadas depois de embarcar na grande viagem da santidade, porque dependeram da experiência, e não do Autor dela. Haviam suposto que estavam total e permanentemente livres de todo pecado, e, no êxtase da sua primeira experiência, imaginam que nunca mais serão provadas e tentadas como antes; e, quando dão o passo para os fatos reais da vida cristã e se encontram falhando e caindo, ficam assombradas e perplexas, e concluem que devem ter-se enganado quanto à sua experiência, e assim fazem nova tentativa da mesma coisa, e de novo caem, até que, por fim, exaustas da experimentação, concluem que a experiência é uma ilusão, ou, ao menos, que nunca foi destinada a elas, e assim recaem no antigo caminho, e o seu último estado torna-se pior do que o primeiro.
O que os homens e as mulheres precisam hoje é conhecer, não a santificação como um estado, mas Cristo como uma Pessoa viva.
Senhor Jesus, dá-me o teu coração, a tua fé, a tua vida, a ti mesmo.
Agosto 23
“Assim como ele é puro” (1 Jo 3:3).
Deus agora intenta reproduzir em nós o modelo que já apareceu em Jesus Cristo, o Filho de Deus. A vida cristã não é uma imitação de Cristo, mas uma direta nova criação em Cristo; e a união com Cristo é tão completa que Ele comunica a sua própria natureza a nós e vive a sua própria vida em nós, e então não é uma imitação, mas simplesmente o desdobramento da natureza implantada no interior.
Vivemos à semelhança de Cristo porque temos a vida de Cristo. Deus não se satisfaz com nada menos que a perfeição. Ele a exigiu do seu Filho. Ele a exige de nós, e não, no processo da graça, rebaixa o padrão, mas nos eleva até ele. Ele não abranda a justiça da lei, mas requer de nós uma justiça que exceda em muito a justiça dos escribas e fariseus, e depois no-la comunica. Ele nos tem por justos na santificação, e diz da nova criação: “Aquele que pratica a justiça é justo, assim como ele é justo.”
Senhor, vive a tua própria vida em mim.
Agosto 24
“Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens” (Fp 4:5).
A própria prova da consagração está na nossa disposição não só de renunciar às coisas que são erradas, mas de renunciar aos nossos direitos, de estarmos dispostos a nos sujeitar. Quando Deus começa a subjugar uma alma, muitas vezes nos requer que cedamos as coisas de pouca importância em si mesmas, e assim quebra a nossa cerviz e subjuga o nosso espírito.
Nenhum obreiro cristão pode jamais ser usado por Deus enquanto a orgulhosa vontade própria não for quebrada, e o coração não estiver pronto para ceder a cada toque de Deus, não importa por meio de quem venha.
Muitos querem que Deus os conduza à sua própria maneira, e não toleram autoridade nem restrição. Darão o seu dinheiro, mas querem ditar como será gasto. Trabalharão enquanto os deixares agradar a si mesmos, mas venha qualquer pressão e logo esbarrarás, não na graça da resignação, mas numa carta de demissão, retirando-se de algum encargo importante, e agitando toda uma comunidade de amigos criticadores, igualmente inclinados a ter as suas próprias opiniões e a sua própria vontade a respeito. Isto é destruidor de todo poder real.
Agosto 25
“E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis” (Ez 36:27).
Isto é muito mais do que um coração novo. Isto é um coração cheio do Espírito Santo, o Espírito Divino, o poder que nos faz andar nos mandamentos de Deus.
Esta é a maior crise que sobrevém à vida de um cristão, quando no espírito que foi renovado na conversão o próprio Deus vem habitar e fazê-lo a sua morada permanente, e sustê-lo pelo seu poderoso poder em santidade e justiça.
Ora, depois que isto acontece, alguém suporia que seríamos elevados a um espírito muito mais esperançoso e exuberante; mas o profeta apresenta um quadro bem diverso. Ele diz que, quando isto se der, nos aborreceremos a nós mesmos aos nossos próprios olhos.
A revelação de Deus dá um profundo senso do nosso próprio nada e da nossa indignidade, e nos lança de bruços no pó em abnegação de nós mesmos.
A entrada do Espírito Santo desloca o eu e desonra o eu para sempre, e a mais alta santidade é andar em renúncia de si mesmo.
Agosto 26
“A tua serva não tem nada em casa, senão uma botija de azeite” (2 Rs 4:2).
Ele lhe perguntou: “Que é que tens em casa?” E ela disse: “Nada, senão uma botija de azeite.” Mas aquela botija de azeite era suficiente para todas as suas necessidades, se ela ao menos soubesse como usá-la.
Na verdade, ela representava o Espírito Santo, e a grande lição da parábola é que o Espírito Santo é suficiente para todas as nossas necessidades, se ao menos soubermos como usá-lo.
Tudo o que ela precisava era conseguir vasos suficientes para conter o transbordamento, e depois derramar até que todos estivessem cheios.
E assim o Espírito Santo é limitado somente pela nossa capacidade de recebê-lo; e, quando Deus quer que tenhamos uma plenitude maior, tem de abrir espaço para ela criando maiores necessidades.
Deus nos envia novos vasos para serem cheios do seu Espírito Santo nas necessidades que nos sobrevêm, e nas provações que nos encontram. Estas são as oportunidades de Deus para nos dar mais de si mesmo; e, à medida que as enfrentamos, Ele vem a nós em plenitude maior para cada nova necessidade.
Senhor, ajuda-me a ver-te em todas as minhas situações difíceis, e a fazer delas vasos para conter mais da tua graça.
Agosto 27
“Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida” (Mt 6:25).
Ainda o Senhor está usando as coisas que são desprezadas. Os próprios nomes de nazareno e de cristão foram outrora epítetos de desprezo. Nenhum homem pode ter o mais alto pensamento de Deus e ser popular com a sua geração imediata. Os homens mais injuriados são muitas vezes os mais usados.
Há calamidades muito maiores do que ser impopular e mal compreendido. Há coisas muito piores do que ser encontrado na minoria. Muitas das maiores bênçãos de Deus jazem por trás dos espantalhos do diabo — o preconceito e a deturpação. O Espírito Santo não se envergonha de usar pessoas impopulares. E, se Ele as usa, que lhes importam os homens?
Oh, tenhamos apenas o seu reconhecimento, e a atenção dos homens contará pouco, e Ele nos dará todo o auxílio e louvor humano de que precisamos. Busquemos somente a sua vontade, a sua glória, a sua aprovação. Vamos por Ele às incumbências mais árduas e façamos as tarefas mais humildes. Honra bastante é que Ele nos use e nos envie. Não temamos, neste dia, segui-lo para fora do arraial, levando o seu vitupério; e, mais adiante, Ele confessará o nosso nome sem valor diante das miríades da terra e do céu.
Agosto 28
“Segundo o poder que opera em nós” (Ef 3:20).
Quando alcançamos o lugar da união com Deus, por meio da habitação interior do Espírito Santo, entramos na herança da bênção externa e adentramos a terra da nossa possessão. Então a nossa saúde e o nosso vigor físicos nos vêm pelo poder da nossa vida interior; então se cumpre a oração de que tenhamos saúde e prosperemos, assim como prospera a nossa alma. Então, com o reino de Deus e a sua justiça dentro de nós, todas as coisas nos são acrescentadas.
A operação externa de Deus sempre acompanha o poder que opera em nós. Quando Deus é entronizado numa alma humana, então o diabo e o mundo logo o descobrem. Não precisamos anunciar o nosso poder. Jesus não podia ficar oculto, e uma alma cheia de poder e de pureza divinos deveria tornar-se o centro de atração para corações famintos e vidas sofredoras.
Recebamo-lo e reconheçamo-lo na sua glória habitante em nós, e então nos apropriaremos de tudo o que isto significa para a nossa vida em toda a sua plenitude. Senhor, dá-me o “esconderijo do teu poder”, e seja Cristo glorificado em mim.
Agosto 29
“O obedecer é melhor do que o sacrificar” (1 Sm 15:22).
A nossa cura é assim representada como uma recompensa especial pela obediência. Se, portanto, quisermos agradar ao Senhor e ter o galardão dos que lhe agradam, não há serviço tão aceitável a Ele como o nosso louvor.
Encontremo-lo sempre com um coração alegre e agradecido, e Ele o refletirá de volta na saúde do nosso semblante e na vida jovial e na saúde vicejante, que não é senão o eco de um coração jubiloso.
Além disso, a gratidão é a melhor preparação para a fé. A confiança cresce espontaneamente no coração agradecido. A gratidão toma o lado ensolarado da rua e olha para o lado luminoso de Deus, e só assim podemos jamais confiar nele. A incredulidade olha para as nossas tribulações e, naturalmente, elas parecem montanhas, e a fé se desanima ante a perspectiva. Uma disposição agradecida sempre encontrará algum motivo de alegria, e uma sombria achará uma nuvem no mais claro céu e uma mosca no mais doce ungüento. Cultivemos um espírito de alegria, e acharemos tanto em Deus e nas nossas vidas para nos encorajar que não teremos lugar para a dúvida ou o temor.
Agosto 30
“Bem-aventurados sois se as fizerdes” (Jo 13:17).
Pouco conheces o repouso que vem da vontade rendida, da escolha entregue, do mundo abandonado, do coração manso e humilde que deixa o mundo passar, e sabe que há de herdar a terra que recusou! Pouco conheces o sabor que dá à bênção ter fome e sede de justiça, e ser saciado com uma satisfação que a delícia mundana não pode proporcionar, e depois elevar-se à bem-aventurança mais alta dos misericordiosos, dos que perdoam, dos corações que aprenderam que “mais bem-aventurado é dar do que receber”, e das vidas que descobrem que “deixar ir é possuir duplamente”, e que abençoar os outros é ser duplamente abençoado!
Não, há ainda uma joia mais brilhante do que todas as demais nesta coroa de bem-aventuranças. É a lágrima cristalizada em diamante, a gota de sangue transfigurada no rubi da eterna coroa do céu. É o gozo de sofrer com Jesus, e depois esquecer toda a tristeza no gozo transbordante, até que, com o celestial Pascal, não saibamos o que dizer primeiro, e assim dizemos ambos juntos: “Lágrimas sobre lágrimas, gozo sobre gozo”.
Agosto 31
“Guia-me pelo caminho eterno” (Sl 139:24).
Muitas vezes há, aparentemente, pouca diferença entre duas vidas distintas, entre a vitória constante e a vitória frequente. Mas essa pequena diferença constitui um mundo de sucesso ou de fracasso. Uma é a divina, a outra é a humana; uma é o caminho eterno, a outra é o transitório e o imperfeito. Deus quer conduzir-nos ao caminho eterno, e estabelecer-nos e tornar-nos imóveis como Ele. Pouco conhecemos a seriedade da mais leve rendição. É apenas o primeiro passo numa progressão descendente, e só Deus sabe onde terminará.
Sejamos “não daqueles que se retiram para a perdição, mas daqueles que creem para a salvação da alma.”
A tua vitória de hoje apenas prepara o caminho para uma vitória maior amanhã, e a tua rendição de hoje abre a porta para uma derrota mais terrível nos dias por vir. Portanto, seja o que for que houvermos reclamado do nosso bendito Mestre, confiemo-lo à sua guarda, e tomemo-lo a Ele para que nos estabeleça e nos conserve firmes no regozijo da esperança firme até ao fim.
Capítulo 8 concluído
Agosto