Capítulo 3 · 10 min de leitura
A Fé na Pessoa do Senhor Jesus.
Há uma tendência lamentável entre os homens de deixar o próprio Cristo de fora do evangelho. Seria o mesmo que deixar a farinha de fora do pão. Os homens ouvem explicar o caminho da salvação, e o aceitam como sendo conforme as Escrituras, e em tudo apropriado ao seu caso; mas esquecem que um plano de nada serve a menos que seja posto em prática; e que, no tocante à salvação, é essencial a sua própria fé pessoal no Senhor Jesus. Uma estrada para York não me levará até lá; eu mesmo tenho de percorrê-la. Toda a sã doutrina que já foi crida jamais salvará um homem, a menos que ele deposite a sua confiança no Senhor Jesus por si mesmo.
O Sr. Macdonald perguntou aos habitantes da ilha de St. Kilda como um homem deve ser salvo. Um ancião respondeu: "Seremos salvos se nos arrependermos, e abandonarmos os nossos pecados, e nos voltarmos para Deus." "Sim," disse uma mulher de meia-idade, "e com um coração sincero também." "Isso," acrescentou uma terceira, "e com oração"; e, acrescentou uma quarta, "há de ser a oração do coração." "E também temos de ser diligentes," disse uma quinta, "em guardar os mandamentos." Assim, tendo cada qual contribuído com o seu óbolo, sentindo que se havia formado um credo bastante respeitável, todos olharam e aguardaram a aprovação do pregador; mas haviam despertado nele a mais profunda compaixão: ele teve de começar do princípio, e pregar-lhes Cristo. A mente carnal sempre traça para si mesma um caminho no qual o eu pode trabalhar e tornar-se grande; mas o caminho do Senhor é justamente o contrário. O Senhor Jesus o expõe de modo bem conciso em Marcos xvi. 16: "Quem crer e for batizado será salvo." Crer e ser batizado não são méritos dos quais alguém se possa gloriar; são tão simples que a jactância fica excluída, e a graça gratuita leva a palma. Este caminho de salvação foi escolhido para que se visse que é somente da graça. Pode ser que o leitor não esteja salvo: qual é a razão? Achas que o caminho da salvação, tal como é exposto no texto que citamos, seja duvidoso? Temes que não serias salvo se o seguisses? Como pode ser isso, quando Deus empenhou a sua própria palavra em favor da sua certeza? Como pode falhar aquilo que Deus prescreve, e a respeito do qual dá uma promessa? Achas que é fácil demais? Por que, então, não lhe dás atenção? A sua facilidade deixa sem desculpa aqueles que a negligenciam. Se estivesses disposto a fazer alguma grande coisa, não sejas tão insensato a ponto de negligenciar a coisa pequena. Crer é confiar, ou apoiar-se em Cristo Jesus; em outras palavras, é abandonar a autossuficiência, e apoiar-se no Senhor Jesus. Ser batizado é submeter-se à ordenança que o nosso Senhor cumpriu no Jordão, à qual os convertidos se submeteram em Pentecostes, à qual o carcereiro prestou obediência na própria noite da sua conversão. É a confissão exterior que sempre deve acompanhar a fé interior. O sinal exterior não salva; mas ele nos representa a nossa morte, sepultamento e ressurreição com Jesus, e, como a Ceia do Senhor, não deve ser negligenciado.
O grande ponto é crer em Jesus, e confessar a tua fé. Crês em Jesus? Então, caro amigo, afasta os teus temores; serás salvo. Ainda és um incrédulo? Então lembra-te: há apenas uma porta, e se não quiseres entrar por ela, hás de perecer nos teus pecados. A porta está ali; mas, a menos que entres por ela, de que te serve? É de necessidade que obedeças à ordem do evangelho. Nada te pode salvar se não ouvires a voz de Jesus, e não fizeres o que ele manda deveras e em verdade. Pensar e resolver não cumprirão o propósito; tens de chegar a algo real; pois somente à medida que de fato creres é que verdadeiramente viverás para Deus.
Ouvi falar de um amigo que desejava profundamente ser o instrumento da conversão de um jovem, e alguém lhe disse: "Podes ir até ele, e falar-lhe, mas não o levarás mais adiante; pois ele conhece extraordinariamente bem o plano da salvação." E assim era, de fato; e por isso, quando o nosso amigo começou a conversar com o jovem, recebeu por resposta: "Fico-te muito grato, mas não sei se me podes dizer muito, pois há muito conheço e admiro o plano da salvação pelo sacrifício substitutivo de Cristo." Ai! ele descansava no plano, mas não havia crido na Pessoa. O plano da salvação é bem-aventurado, mas de nada nos pode valer a menos que creiamos pessoalmente no próprio Senhor Jesus Cristo. Que conforto há na planta de uma casa se não entras na própria casa? O homem da nossa gravura, que está sentado na chuva, não tira muito conforto das plantas que estão estendidas diante dele. De que serve o molde de uma roupa se não tens um trapo para te cobrir? Nunca ouviste falar do chefe árabe no Cairo, que estava muito doente, e foi ao missionário, e o missionário disse que lhe podia dar uma receita? Assim fez; e uma semana depois encontrou o árabe nada melhor. Tomaste a minha receita?" perguntou ele. "Sim, comi cada pedacinho do papel." Ele sonhara que seria curado devorando o escrito do médico, ao qual posso chamar o plano do remédio. Ele deveria ter mandado aviar a receita, e então ela lhe poderia ter feito bem, se tivesse tomado a poção: de nada lhe podia servir engolir a receita. Assim é com a salvação: não é o plano da salvação que pode salvar, é a execução desse plano pelo Senhor Jesus na sua morte em nosso favor, e a nossa aceitação da mesma. Sob a lei judaica, o ofertante trazia um novilho, e punha as mãos sobre ele: não era sonho, nem teoria, nem plano. Na vítima do sacrifício encontrava algo substancial, que podia manusear e tocar: assim também nós nos apoiamos na obra real e verdadeira de Jesus, a coisa mais substancial debaixo do céu. Vimos ao Senhor Jesus pela fé, e dizemos: "Deus proveu aqui uma expiação, e eu a aceito. Creio no fato consumado na cruz; estou confiante de que o pecado foi tirado por Cristo, e descanso nele." Se queres ser salvo, deves ir além da aceitação de planos e doutrinas, para um descanso na pessoa divina e na obra consumada do Senhor Jesus Cristo. Caro leitor, aceitarás a Cristo agora?
Jesus convida todos os que estão cansados e sobrecarregados a virem a ele, e ele lhes dará descanso. Ele não promete isso aos que apenas sonham com ele. Eles precisam vir; e precisam vir A ELE, e não meramente à Igreja, ao batismo, ou à fé ortodoxa, ou a qualquer coisa aquém da sua pessoa divina. Quando a serpente de bronze foi levantada no deserto, o povo não devia olhar para Moisés, nem para o Tabernáculo, nem para a coluna de nuvem, mas para a própria serpente de bronze. Olhar não bastava a menos que olhassem para o objeto certo: e o objeto certo não bastava a menos que olhassem. Não lhes bastava saber a respeito da serpente de bronze; cada um precisava olhar para ela por si mesmo. Quando um homem está doente, pode ter bom conhecimento de medicina, e contudo pode morrer se não tomar de fato a poção que cura. Precisamos receber a Jesus; pois "a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus." Ponde a ênfase em duas palavras: Precisamos receber A ELE, e precisamos RECEBÊ-lo. Precisamos abrir bem a porta, e receber Cristo Jesus dentro de nós; pois "Cristo em vós" é "a esperança da glória." Cristo não deve ser para nós nenhum mito, nenhum sonho, nenhum fantasma, mas um homem real, e verdadeiramente Deus; e a nossa recepção dele não deve ser uma aceitação forçada e fingida, mas o assentimento e consentimento cordial e feliz da alma, de que ele será o tudo em tudo da nossa salvação. Não viremos a ele imediatamente, e não o faremos a nossa única confiança?
A pomba é caçada pelo gavião, e não encontra segurança diante do seu inimigo incansável. Ela aprendeu que há abrigo para si na fenda da rocha, e para lá se apressa com asa alegre. Uma vez totalmente abrigada no seu refúgio, não teme ave de rapina alguma. Mas, se não se escondesse na rocha, seria capturada pelo seu adversário. A rocha de nada serviria à pomba, se a pomba não entrasse na sua fenda. O corpo inteiro precisa estar escondido na rocha. Que importa se dez mil outras aves encontraram ali uma fortaleza, se esse fato não salvaria a única pomba que agora é perseguida pelo gavião! Ela precisa colocar-se inteira no abrigo, e sepultar-se dentro do seu refúgio, ou a sua vida será entregue ao destruidor.
Que quadro da fé é este! É entrar em Jesus, esconder-se nas suas feridas.
"Rocha eterna, fendida por mim, deixa-me em ti esconder-me."A pomba está fora de vista: só se vê a rocha. Assim a alma culpada lança-se pela fé no lado ferido de Jesus, e nele fica sepultada, fora da vista da justiça vingadora. Mas é preciso haver esta aplicação pessoal a Jesus em busca de abrigo; e é isto que tantos vão adiando dia após dia, até que se deve temer que "morram nos seus pecados." Que palavra terrível é essa! É o que o nosso Senhor disse aos judeus incrédulos; e o mesmo diz a nós nesta hora: "Se não crerdes que eu sou, morrereis nos vossos pecados." Faz o coração estremecer pensar que mesmo alguém que venha a ler estas linhas talvez ainda seja da mísera companhia dos que assim perecerão. O Senhor o impeça, pela sua grande graça!
Vi, outro dia, um quadro notável, que usarei como ilustração do caminho da salvação pela fé em Jesus. Um transgressor havia cometido um crime pelo qual devia morrer, mas era nos tempos antigos, quando as igrejas eram consideradas santuários nos quais os criminosos podiam esconder-se, e assim escapar da morte. Vede o transgressor! Ele corre em direção à igreja, os guardas o perseguem de espadas desembainhadas, sedentos do seu sangue! Seguem-no até a própria porta da igreja. Ele sobe correndo os degraus e, no exato momento em que estão prestes a alcançá-lo, e a despedaçá-lo no limiar da igreja, eis que sai o Bispo e, erguendo a cruz, brada: "Para trás, para trás! Não mancheis com sangue os recintos da casa de Deus! Recuai!" Os ferozes soldados logo respeitam o emblema, e retiram-se, enquanto o pobre fugitivo se esconde por trás das vestes do Bispo. Assim é também com Cristo. O pecador culpado foge diretamente para Jesus; e, embora a Justiça o persiga, Cristo ergue as suas mãos feridas, e brada à Justiça: "Para trás! Eu abrigo este pecador; no lugar secreto do meu tabernáculo eu o escondo; não permitirei que ele pereça, pois ele deposita em mim a sua confiança." Pecador, foge para Cristo! Mas respondes: "Sou vil demais." Quanto mais vil fores, mais o honrarás crendo que ele é capaz de proteger até a ti. "Mas sou um pecador tão grande." Então tanto mais honra lhe será dada se tiveres fé para confiar nele, por maior pecador que sejas. Se tens uma pequena enfermidade, e dizes ao teu médico — "Senhor, tenho plena confiança na tua habilidade para curar," não há grande elogio na tua declaração. Qualquer um pode curar uma dor de dedo, ou uma enfermidade insignificante. Mas se estás gravemente doente, com uma complicação de moléstias que te atormentam penosamente, e dizes — "Senhor, não procuro médico melhor; não pedirei outro conselho senão o teu; entrego-me a ti com alegria," que honra lhe conferiste, podendo confiar a tua vida nas suas mãos enquanto ela está em perigo extremo e iminente! Faze o mesmo com Cristo; põe a tua alma aos seus cuidados: faze-o deliberadamente, e sem uma dúvida. Ousa abandonar todas as outras esperanças: arrisca tudo em Jesus; digo "arrisca" embora não haja nada de realmente arriscado nisso, pois ele é abundantemente capaz de salvar. Lança-te simplesmente sobre Jesus; que nada senão a fé haja na tua alma para com Jesus; crê nele, e confia nele, e nunca serás envergonhado da tua confiança. "Aquele que nele crê não será confundido" (1 Pedro ii. 6).
Capítulo 3 concluído
A Fé na Pessoa do Senhor Jesus.