Sermão · 30 min de leitura · Avançado

O Amor de Deus por um Mundo Pecador

Retrato de Charles G. Finney Charles G. Finney

Texto

João 3:16

Em resumo

“O pecado é a coisa mais cara do universo.” Finney calcula o verdadeiro custo do pecado diante de uma lei santa e, então, mostra que o amor de Deus por um mundo rebelde foi grande o bastante para arcar com todo esse custo no dom de seu Filho — e insta o pecador a aceitar uma salvação já tão caramente comprada.

O pecado é a coisa mais cara do universo. Nada mais pode custar tanto. Perdoado ou não perdoado, o seu custo é infinitamente grande. Perdoado, o custo recai principalmente sobre o grande substituto expiatório; não perdoado, há de recair sobre a cabeça do próprio pecador culpado.

A existência do pecado é um fato experimentado em toda parte — observado em toda parte. Há pecado em nossa raça, por toda parte, e em terrível agravamento.

O pecado é a violação de uma lei infinitamente importante — uma lei concebida e adaptada para assegurar o supremo bem do universo. A obediência a essa lei é, por natureza, essencial ao bem das criaturas. Sem obediência não poderia haver bem-aventurança nem mesmo no céu.

Sendo o pecado a violação de uma lei da mais alta importância, não pode ser tratado com leviandade. Nenhum governo pode dar-se ao luxo de tratar a desobediência como coisa de somenos, visto que tudo — todo o bem-estar do governo e de todos os governados — depende da obediência. Na exata proporção do valor dos interesses em jogo está a necessidade de guardar a lei e de punir a desobediência.

A lei de Deus não deve ser desonrada por coisa alguma que Ele venha a fazer. Ela foi desonrada pela desobediência do homem; tanto mais, pois, é necessário que Deus a sustente, para lhe restaurar a honra. A maior desonra que se pode fazer à lei é renegá-la, desobedecê-la e desprezá-la. Tudo isto o homem pecador fez. Portanto, sendo esta lei não somente boa, mas intrinsecamente necessária à felicidade dos governados, torna-se, acima de tudo, sumamente necessário que o Legislador vindique a sua lei. Ele há de fazê-lo por todos os meios.

Por isso o pecado envolveu o governo de Deus em uma vasta despesa. Ou a lei deve ser executada à custa do bem-estar de toda a raça, ou Deus deve submeter-se a sofrer os piores resultados do desprezo à sua lei — resultados que, sob alguma forma, hão de acarretar uma vasta despesa.

Tomemos, por exemplo, qualquer governo humano. Suponhamos que as leis justas e necessárias que ele impõe sejam renegadas e desonradas. Em tal caso, a lei violada deve ser honrada pela execução da sua pena, ou então algo não menos dispendioso, e provavelmente muito mais, deve ser suportado. A transgressão há de custar felicidade, em algum lugar, e em vasta medida.

No caso do governo de Deus, julgou-se conveniente prover um substituto, que servisse ao propósito de salvar o pecador e, ao mesmo tempo, de honrar a lei. Determinado isto, a grande questão seguinte foi esta: Como se há de arcar com a despesa?

A Bíblia nos informa como a questão foi, de fato, decidida. Por um alistamento voluntário — assim o chamarei? — ou por uma doação? Chamemo-lo como quisermos, foi uma oferta voluntária. Quem encabeçará a subscrição? Quem começará ali onde tanto há de ser reunido? Quem fará o primeiro sacrifício? Quem dará o primeiro passo em um projeto tão vasto? A Bíblia no-lo informa. Começou com o Pai infinito. Ele fez a primeira grande doação. Deu o seu Filho unigênito — isto para começar — e, tendo-o dado primeiro, dá livremente todo o mais que as exigências do caso possam requerer. Primeiro deu o seu Filho para fazer a expiação devida à lei; depois deu e enviou o seu Espírito Santo para se encarregar desta obra. O Filho, de sua parte, consentiu em pôr-se como representante dos pecadores, para que pudesse honrar a lei, sofrendo em lugar deles. Derramou o seu sangue, fez de toda uma vida de sofrimento uma doação voluntária sobre o altar — não escondeu o rosto dos que o cuspiam, nem as costas dos que o açoitavam — não recuou diante do mais extremo ultraje que os homens ímpios pudessem amontoar sobre ele. Assim também o Espírito Santo se entrega incessantemente aos mais abnegados esforços, para cumprir o grande objetivo.

Teria sido um método muito breve virar a mão contra os ímpios de nossa raça e mandá-los todos, de pronto, para o inferno, como certa vez fez quando alguns anjos "não guardaram o seu primeiro estado". A rebelião irrompeu no céu. Não a suportou Deus por muito tempo em torno do seu excelso trono. Mas, no caso do homem, mudou o seu proceder — não os mandou todos para o inferno, mas concebeu um vasto plano de medidas, envolvendo as mais assombrosas abnegações e sacrifícios de si mesmo, para reconquistar as almas dos homens de volta à obediência e ao céu.

Para quem foi feita esta grande doação? "Deus amou o mundo de tal maneira", isto é, toda a raça dos homens. Por "mundo", nesta passagem, não se pode entender apenas alguma parte particular, mas toda a raça. Não somente a Bíblia, mas a própria natureza do caso mostra que a expiação deve ter sido feita por todo o mundo. Pois é claro que, se ela não tivesse sido feita por toda a raça, nenhum homem da raça poderia jamais saber que fora feita por ele mesmo, e portanto homem algum poderia crer em Cristo no sentido de receber pela fé as bênçãos da expiação. — Havendo total incerteza quanto às pessoas abrangidas pelas provisões limitadas que agora supomos ter sido feitas, a doação inteira haveria de falhar pela impossibilidade de uma fé racional para recebê-la. Suponhamos que um homem rico faça um testamento, legando certa propriedade a certas pessoas desconhecidas, descritas somente pelo nome de "os eleitos". Não são descritas de outro modo senão por este termo, e todos concordam que, embora o autor do testamento tivesse os indivíduos definidamente em mente, contudo não deixou deles descrição alguma que as próprias pessoas, os tribunais, ou qualquer mortal vivente possa compreender. Ora, tal testamento é, por necessidade, de todo nulo e sem valor. Nenhum homem vivo pode reclamar sob tal testamento, e nada adiantaria ainda que esses eleitos fossem descritos como moradores de Oberlin. Visto que não abrange todos os moradores de Oberlin, e não define quais deles, tudo se perde. Tendo todos igual pretensão e nenhum uma pretensão definida, nenhum pode herdar. Se a expiação tivesse sido feita desta maneira, nenhum homem vivo teria razão válida para crer-se um dos eleitos, antes de receber o evangelho. Portanto, não teria autoridade para crer e receber pela fé as suas bênçãos. Na verdade, a expiação seria de todo nula — segundo esta suposição — a menos que se fizesse uma revelação especial às pessoas para quem é destinada.

Como as coisas realmente estão, porém, o próprio fato de um homem pertencer à raça de Adão — o fato de ser humano, nascido de mulher — é inteiramente suficiente. Isso o traz para dentro do recinto. Ele é um do mundo por quem Deus deu o seu Filho, para que todo aquele que nele cresse não perecesse, mas tivesse a vida eterna.

O motivo subjetivo na mente de Deus para este grande dom foi o amor, o amor ao mundo. Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho para morrer por ele. Deus amou também o universo, mas este dom de seu Filho brotou do amor ao nosso mundo. É verdade que, neste grande ato, teve o cuidado de prover pelos interesses do universo. Foi cuidadoso em nada fazer que pudesse, no mínimo que fosse, rebaixar a santidade da sua lei. Com o maior desvelo pretendeu resguardar-se contra qualquer equívoco quanto ao seu respeito pela sua lei e pelos altos interesses da obediência e da felicidade no seu universo moral. Quis, de uma vez por todas, afastar o perigo de que algum agente moral fosse tentado a menosprezar a lei moral.

Ainda mais: não foi somente por amor às almas, mas por respeito ao espírito da lei da sua própria razão eterna, que Ele entregou o seu Filho para morrer. Nisto se originou o propósito de entregar o seu Filho. A lei da sua própria razão deve ser honrada e tida por sagrada. Ele nada pode fazer que seja incompatível com o espírito dela. Deve fazer tudo o que for possível para impedir a prática do pecado e para assegurar a confiança e o amor dos seus súditos. Tão sagrados tinha Ele estes grandes fins, que preferiria batizar o seu Filho no seu próprio sangue a arriscar o bem do universo. Sem dúvida alguma, foi o amor e a consideração pelo supremo bem do universo que o levaram a sacrificar o seu próprio Filho amado.

Consideremos, em seguida, atentamente a natureza deste amor. O texto lança especial ênfase sobre isto — Deus amou de tal maneira — o seu amor era de tal natureza, tão maravilhoso e tão peculiar em seu caráter, que o levou a entregar o seu Filho único para morrer. Evidentemente, mais se subentende nesta expressão do que simplesmente a sua grandeza. É de caráter sumamente peculiar. Se não compreendermos isto, correremos o perigo de cair no estranho equívoco dos universalistas, que estão sempre a falar do amor de Deus pelos pecadores, mas cujas noções acerca da natureza deste amor nunca conduzem ao arrependimento nem à santidade. Parecem pensar neste amor como simples bondade de índole, e concebem a Deus apenas como um ser muito bondoso, a quem ninguém precisa temer. — Tais noções não têm a menor influência para a santidade, mas exatamente o contrário. Somente quando chegamos a compreender o que é este amor em sua natureza é que sentimos o seu poder moral a promover a santidade.

Poder-se-ia razoavelmente perguntar: Se Deus amou o mundo de tal maneira, com um amor caracterizado pela grandeza, e pela grandeza somente, por que não salvou o mundo inteiro sem sacrificar o seu Filho? Esta pergunta basta para nos mostrar que há profundo sentido nesta expressão de tal maneira, e deve levar-nos a um estudo cuidadoso deste sentido.

1. Este amor, em sua natureza, não é complacência — um deleite no caráter da raça. Isto não poderia ser, pois nada havia de amável em seu caráter. Que Deus tivesse amado tal raça com complacência ter-lhe-ia sido infinitamente vergonhoso.

2. Não foi mera emoção ou sentimento. Não foi um impulso cego, ainda que muitos pareçam supor que foi. Muitas vezes parece supor-se que Deus agiu como agem os homens quando são arrebatados por forte emoção. Mas nisto não poderia haver virtude alguma. Um homem poderia dar tudo quanto possui sob um tal impulso cego de sentimento e nem por isso ser mais virtuoso. Mas, ao dizermos isto, não excluímos toda emoção do amor de benevolência, nem do amor de Deus por um mundo perdido. Ele teve emoção, mas não somente emoção. Na verdade, a Bíblia em toda parte nos ensina que o amor de Deus pelo homem, perdido em seus pecados, era paternal — o amor de um pai pela sua prole — neste caso, por uma prole rebelde, obstinada e pródiga. Neste amor deve, por certo, mesclar-se a mais profunda compaixão.

3. Da parte de Cristo, considerado como Mediador, este amor era paternal. "Não se envergonha de os chamar irmãos." Sob um aspecto, ele age em favor de irmãos, e, sob outro, em favor de filhos. O Pai o entregou para esta obra e, naturalmente, compartilha do amor apropriado às suas relações.

4. Este amor deve ser inteiramente desinteressado, pois Ele nada tinha a esperar ou a temer — nenhum lucro a tirar dos seus filhos, caso fossem salvos. Na verdade, é impossível conceber Deus como sendo egoísta, visto que o seu amor abraça todas as criaturas e todos os interesses segundo o seu real valor. Sem dúvida, teve prazer em salvar a nossa raça — e por que não haveria de tê-lo? É uma grande salvação em todo o sentido, e grandemente faz crescer a bem-aventurança do céu; grandemente afetará a glória e a bem-aventurança do Deus infinito. Ele se respeitará eternamente por um amor tão desinteressado. Sabe também que todas as suas santas criaturas o respeitarão eternamente por esta obra e pelo amor que lhe deu origem. Mas diga-se também: sabia Ele que não o respeitariam por esta grande obra, a menos que vissem que a fez pelo bem dos pecadores.

5. Este amor era zeloso — não aquele estado de espírito frio de coração que alguns supõem — não uma abstração, mas um amor profundo, zeloso, ardente, a arder na sua alma como um fogo que nada pode apagar.

6. O sacrifício foi de suma abnegação. Nada custou ao Pai entregar o seu próprio Filho amado para sofrer, e para morrer tal morte? Se isto não é abnegação, o que poderá sê-lo? Entregar assim o seu Filho a tanto sofrimento — não é esta a mais nobre abnegação? Nunca poderia o universo ter a ideia de grande abnegação, não fora tal exemplificação.

7. Este amor era particular porque era universal, e também universal porque era particular. Deus amou cada pecador em particular, e por isso amou a todos. Porque amou a todos imparcialmente, sem acepção de pessoas, por isso amou a cada um em particular.

8. Este era um amor sumamente paciente. Quão raro é achar um pai que ame o seu filho de tal modo que nunca se impaciente. Deixai-me ir de um a outro e perguntar: quantos de vós, pais, podeis dizer que amais todos os vossos filhos tão bem, e com tanto amor, e com um amor tão sabiamente controlado, que nunca vos impacientastes com nenhum deles — de sorte que os possais tomar em vossos braços sob as maiores provocações, e vencê-los pelo amor, amá-los para fora dos seus pecados, amá-los para dentro do arrependimento e de um espírito filial? De qual dos vossos filhos podeis dizer: Graças a Deus, nunca me irritei contra este filho? De qual, se o encontrásseis no céu, poderíeis dizer: Nunca fui causa de irritação a este filho? Muitas vezes tenho ouvido pais dizerem: Amo os meus filhos, mas ah, como me falta a paciência! E, depois de mortos os entes queridos, podereis ouvir os seus amargos gemidos: Ó minha alma, como pude ter causado ao meu filho tanto tropeço e tanto pecado!

Mas Deus nunca se irrita — nunca é impaciente. O seu amor é tão profundo e tão grande que Ele é sempre paciente.

Por vezes, quando os pais têm filhos infelizes, pobres objetos de compaixão, podem suportar tudo deles; mas, quando são muito perversos, parecem sentir que estão bem escusados de ser impacientes. No caso de Deus, estes não são filhos infelizes, mas intensamente perversos, inteligentemente perversos. Mas, oh, a sua assombrosa paciência — tão empenhada no bem deles, tão desejosa do seu supremo bem-estar, que, por mais que O maltratem, Ele se dispõe a abençoá-los ainda, e a vencê-los com lágrimas, e a vencê-los com o seu sangue, e a vencê-los com a morte, pela morte do seu Filho em lugar deles!

9. Este é um amor zeloso, não em mau sentido, mas em bom sentido — no sentido de ser sumamente cuidadoso para que nada suceda que fira aqueles a quem Ele ama. Assim como o marido e a mulher que verdadeiramente se amam são zelosos, com um zelo sempre vigilante, pelo bem-estar um do outro, procurando sempre fazer tudo o que podem para promover os verdadeiros interesses um do outro.

Esta doação já está feita — feita de boa-fé — não somente prometida, mas realmente feita. A promessa, dada muito antes, foi cumprida. O Filho veio — morreu, fez o resgate e vive para oferecê-lo — uma salvação preparada, para todos os que a abraçarem.

O Filho de Deus morreu, não para aplacar a vingança, como alguns parecem entender, mas sob as exigências da lei. A lei fora desonrada pela sua violação. Por isso Cristo empreendeu honrá-la, entregando às suas exigências a sua vida de sofrimento e a sua morte expiatória. Não foi para aplacar um espírito vingativo em Deus, mas para assegurar o supremo bem do universo em uma dispensação de misericórdia.

Uma vez feita esta expiação, todos os homens da raça têm direito a ela. Está aberta a todo aquele que a abraçar. Embora Jesus permaneça ainda o Filho do Pai, contudo, por gracioso direito, pertence, em importante sentido, à raça — a cada um, de modo que todo pecador tem parte no seu sangue, se tão somente vier humildemente e a reclamar. Deus enviou o seu Filho para ser o Salvador do mundo — de todo aquele que crer e aceitar esta grande salvação.

Deus dá o seu Espírito para aplicar esta salvação aos homens. Ele vem à porta de cada homem e bate, para conseguir entrada, se puder, e para mostrar a cada pecador que ele pode ter, agora, a salvação. Oh, que labor de amor é este!

Esta salvação deve ser recebida, se é que o há de ser, pela fé. Este é o único caminho possível. O governo de Deus sobre os pecadores é moral, não físico, porque o próprio pecador é um agente moral, e não físico. Portanto, Deus de modo nenhum nos pode influenciar, a menos que lhe queiramos dar a nossa confiança. Nunca nos poderá salvar meramente levando-nos para algum lugar chamado céu — como se a mudança de lugar mudasse o coração voluntário. Não pode, pois, haver caminho algum possível para ser salvo, senão pela simples fé.

Ora, não vos enganeis, supondo que abraçar o evangelho seja simplesmente crer nestes fatos históricos, sem verdadeiramente receber a Cristo como vosso Salvador. Se este houvesse sido o plano, então bastaria a Cristo descer e morrer; depois voltar ao céu e esperar quietamente para ver quem creria nos fatos. Mas quão diverso é o caso real! Agora Cristo desce para encher a alma com a sua própria vida e amor. Os pecadores penitentes ouvem e creem na verdade a respeito de Jesus, e então recebem a Cristo na alma, para que ali viva e reine supremo e para sempre. Neste ponto muitos se enganam, dizendo: Se eu crer nos fatos como matéria de história, é o bastante. Não! Não! De modo algum é isto. "Com o coração se crê para a justiça." A expiação foi, de fato, feita para prover o caminho, a fim de que Jesus pudesse descer aos corações humanos e atraí-los à união e comunhão consigo mesmo — a fim de que Deus pudesse baixar os braços do seu amor e abraçar os pecadores — a fim de que a lei e o governo não fossem desonrados por tais sinais de amizade demonstrados por Deus para com os pecadores. Mas a expiação de modo nenhum salvará os pecadores, senão à medida que lhes prepara o caminho para virem à simpatia e comunhão de coração com Deus.

Agora Jesus vem à porta de cada pecador e bate; — escutai — que é aquilo? que é aquilo? Por que esta batida? Por que não se foi Ele e permaneceu no céu, se este fosse o sistema, até que os homens simplesmente cressem nos fatos históricos e fossem batizados, como alguns supõem, para a salvação? Mas agora, vede como Ele desce — diz ao pecador o que fez — revela-lhe todo o seu amor — diz-lhe quão santo e sagrado ele é, tão sagrado que de modo nenhum pode agir sem referência à santidade da sua lei e à pureza do seu governo. Assim, imprimindo no coração as mais profundas e ampliadas ideias da sua santidade e pureza, Ele reforça a necessidade de profundo arrependimento e o sagrado dever de renunciar a todo pecado.

OBSERVAÇÕES.

1. A Bíblia ensina que os pecadores podem perder o seu direito de primogenitura e pôr-se para além do alcance da misericórdia. Não faz muito tempo que vos fiz alguma observação sobre a manifesta necessidade de que Deus se resguarde contra os abusos do seu amor. As circunstâncias são tais que criam o maior perigo de semelhante abuso e, por isso, Ele deve fazer os pecadores saberem que não podem abusar do seu amor, e não o podem fazer impunemente.

2. Sob o evangelho, os pecadores acham-se em circunstâncias da maior responsabilidade possível. Estão no supremo perigo de calcar debaixo dos pés o próprio Filho de Deus. Vinde, dizem eles, matemo-lo, e a herança será nossa. Quando Deus envia, por último de tudo, o seu próprio Filho amado, que fazem eles? Acrescentam a todos os seus outros pecados e rebeliões o mais alto insulto a este glorioso Filho! Suponhamos que algo análogo a isto se fizesse sob um governo humano. Ocorre um caso de rebelião em alguma das províncias. O rei envia o seu próprio filho, não com um exército para cortá-los prontamente em sua rebelião, mas todo brando, manso e paciente, vai ele para o meio deles, explicando-lhes as leis do reino e exortando-os à obediência. Que fazem eles no caso? De comum acordo se combinam para prendê-lo e matá-lo!

Mas negais a aplicação disto e me perguntais: Quem assassinou o Filho de Deus? Não foram os judeus? Sim; e vós, pecadores, não tivestes parte alguma neste assassínio? Não tem o vosso trato para com Jesus Cristo mostrado que estais em plena simpatia com os antigos judeus no assassínio do Filho de Deus? Se ali estivésseis, teria alguém gritado mais alto do que vós: Fora com ele — crucifica-o, crucifica-o? Não tendes sempre dito: Aparta-te de nós, porque não desejamos o conhecimento dos teus caminhos?

3. Disse-se de Cristo que, sendo rico, se fez pobre, para que nós, pela sua pobreza, enriquecêssemos. Quão notavelmente verdadeiro é isto! A nossa redenção custou a Cristo a sua vida; achou-o rico, mas fê-lo pobre; achou-nos infinitamente pobres, mas fez-nos ricos até com toda a riqueza do céu. Mas destas riquezas nenhum pode participar, enquanto cada um, por si mesmo, não as aceitar do modo legítimo. Devem ser recebidas nos termos propostos, ou então a oferta passa de todo, e ficais mais pobres ainda do que se tais tesouros nunca vos houvessem sido postos aos pés.

Muitas pessoas parecem inteiramente equivocar-se acerca deste caso. Parecem não crer no que Deus diz, mas ficam dizendo: Se, se, se ao menos houvesse alguma salvação para mim — se ao menos houvesse uma expiação provida para o perdão dos meus pecados. Esta foi uma das últimas coisas que se esclareceram em minha mente, antes de eu confiar plenamente a minha alma a Deus. Eu estivera estudando a expiação; via as suas implicações filosóficas — via o que ela exigia do pecador; mas isto me irritava, e eu dizia: Se eu me tornasse cristão, como poderia saber o que Deus faria de mim? Sob esta irritação, disse coisas tolas e amargas contra Cristo — até que a minha própria alma se horrorizou da sua própria maldade, e eu disse: Farei as pazes com Cristo em tudo isto, se a coisa for possível.

Deste modo, muitos avançam sobre os encorajamentos do evangelho como se fosse apenas uma aventura incerta, uma experiência. Dão cada passo adiante com o maior cuidado, com temor e tremor, como se houvesse a maior dúvida quanto a poder haver alguma misericórdia para eles. Assim foi comigo. Ia eu a caminho do meu escritório, quando a pergunta se me apresentou à mente: De que estás à espera? Não precisas fazer tanto alarde. Tudo já está feito. Só tens de consentir na proposta — entregar-lhe o teu coração de uma vez, agora mesmo — é tudo. É exatamente assim. Todos os cristãos e pecadores deveriam entender que o plano inteiro está completo — que Cristo todo — o seu caráter, a sua obra, a sua morte expiatória e a sua sempre viva intercessão — pertence a cada homem e a todos, e só precisa ser aceito. Há dele um oceano cheio. Ei-lo ali. Bem podeis tomá-lo, como não. É como se estivésseis à beira de um oceano de água doce e pura, perecendo de sede; sois bem-vindos a beber, e não precisais temer que esgoteis aquele oceano, ou que, bebendo, façais outrem morrer de fome. Não precisais sentir que não vos é dado livre acesso àquele oceano de águas; sois convidados e instados a beber — sim, a beber abundantemente! Este oceano supre toda a vossa necessidade. Não precisais ter em vós mesmos os atributos de Jesus Cristo, pois os seus atributos se tornam, na prática, vossos, para todo uso possível. Como diz a Escritura: Ele foi feito por Deus, para nós, sabedoria, justiça, santificação e redenção. De que necessitais? Sabedoria? Ei-la aqui. Justiça? Ei-la aqui. Santificação? Aqui a tendes. Tudo está em Cristo. Podereis, acaso, pensar em alguma coisa necessária à vossa pureza moral, ou à vossa utilidade, que não esteja aqui em Cristo? Nada. Tudo está provido aqui. Portanto, não precisais dizer: Irei orar e tentar, como o hino —

"Irei a Jesus, ainda que o meu pecado

Como um monte se tenha erguido,

Talvez ele admita a minha súplica;

Talvez ouça a minha oração."

Não há necessidade de nenhum talvez. As portas estão sempre abertas. Como as portas do Tabernáculo de Broadway, em Nova York, feitas para abrir-se e prender-se abertas, de modo que não pudessem voltar e fechar-se sobre as multidões de gente que se apinhavam para passar. Quando iam ser feitas, fui eu mesmo aos operários e disse-lhes que, por todos os meios, as fizessem de modo que tivessem de abrir-se e prender-se naquela posição.

Assim, a porta da salvação está sempre aberta — presa aberta, e nenhum homem a pode fechar — nem mesmo o papa, nem o diabo, nem anjo algum do céu ou do inferno. Ali está ela, toda escancarada, e a passagem bem aberta para que todo pecador de nossa raça entre, se quiser.

Novamente, o pecado é a coisa mais cara do universo. Estás bem ciente, ó pecador, de que preço foi pago por ti, para que sejas remido e feito herdeiro de Deus e do céu? Oh, que negócio dispendioso é para ti entregar-te ao pecado!

E que enorme tributo pagou o governo de Deus para remir esta província da sua ruína! Falai do minguado imposto da Grã-Bretanha, e o de todas as outras nações somado a ele — tudo é nada comparado ao tributo do pecado no governo de Jeová — aquele terrível tributo do pecado! Pensai em quanta engrenagem se mantém em movimento para salvar os pecadores! O Filho de Deus foi enviado — anjos são enviados como espíritos ministradores aos herdeiros da salvação; missionários são enviados, os cristãos trabalham, e oram, e choram em profunda e ansiosa solicitude — tudo para buscar e salvar o que estava perdido. Que maravilhoso — que enorme tributo é imposto à benevolência do universo para tirar o pecado e salvar o pecador! Se o custo pudesse ser computado em ouro maciço, que mundo dele haveria — um globo maciço, ele mesmo! Que soma de fadiga e de custo, da parte dos anjos, de Jesus Cristo, do Espírito Divino e dos homens vivos. Vergonha aos pecadores que se apegam ao pecado a despeito de todos estes esforços benevolentes para os salvar! que, em vez de se envergonharem e deixarem o pecado, dirão: Que Deus pague este tributo: que importa! Que os missionários trabalhem, que as mulheres piedosas trabalhem até gastarem os dedos para levantar fundos e manter toda esta engrenagem humana em movimento; não importa: que é tudo isto para mim? Amei os meus prazeres, e após eles irei! Que coração insensível é este!

Bem podem os pecadores fazer sacrifícios para salvar os seus semelhantes pecadores. Paulo pôde fazê-lo por seus semelhantes pecadores. Sentia que fizera a sua parte em fazer pecadores, e agora lhe cabia fazer a sua parte também em convertê-los de volta a Deus. Mas vede ali — aquele jovem pensa que não pode dar-se ao luxo de ser ministro, pois teme não vir a ser bem sustentado. Não deve ele algo à graça que salvou a sua alma do inferno? Não tem ele alguns sacrifícios a fazer, visto que Jesus fez tantos por ele, e também os cristãos, em Cristo, antes dele — não oraram, sofreram e trabalharam pela salvação da sua alma? Quanto ao seu perigo de vir a faltar-lhe o pão na obra do Senhor, confie ele no seu Grande Mestre. Contudo, permiti-me dizer também que as igrejas podem ter grande culpa em não sustentar condignamente os seus pastores. Saibam elas que Deus certamente as fará passar fome, se fizerem passar fome os seus ministros. As suas próprias almas, e as almas dos seus filhos, serão estéreis como a morte, se, por avareza, fizerem passar fome aqueles que Deus, na sua providência, envia para os alimentar com o pão da vida.

Quanto custa livrar a sociedade de certas formas de pecado, como, por exemplo, a escravidão. Quanto já se despendeu, e quanto mais ainda resta despender, antes que este doloroso mal, e maldição, e pecado seja extirpado da nossa terra! Isto é parte da grande empresa de Deus, e Ele a levará adiante até a sua consumação. Contudo, a que assombroso custo! Quantas vidas e quanta agonia para livrar-se deste único pecado!

Ai daqueles que fazem capital dos pecados dos homens! Pensai apenas no vendedor de bebidas — a tentar os homens, enquanto Deus procura dissuadi-los de se precipitarem pelos caminhos do pecado e da morte! Pensai na culpa daqueles que assim se põem em ordem de batalha contra Deus! Assim tem Cristo de contender com os vendedores de bebidas, que fazem tudo o que podem para estorvar a sua obra.

O nosso assunto ilustra impressionantemente a natureza do pecado como mero egoísmo. Não se importa quanto o pecado custa a Jesus Cristo — quanto custa à igreja, quanto onera as simpatias benevolentes e os labores abnegados de todos os bons na terra ou no céu; não importa: o pecador ama a autoindulgência e a terá enquanto puder. Quantos de vós custastes aos vossos amigos incontáveis lágrimas e aflições, para vos trazerem de volta dos vossos caminhos de pecado? Não vos envergonhais de que, tendo-se feito tanto por vós, não possais ser persuadidos a abandonar os vossos pecados e a voltar-vos para Deus e para a santidade?

Todo o esforço da parte de Deus em favor do homem é um esforço de sofrimento e abnegação. Começando com o sacrifício do seu próprio Filho amado, prossegue com sacrifícios sempre renovados e trabalhosos labores — a grande e maravilhoso custo. Pensai apenas por quanto tempo estes esforços já se têm prolongado — quantas lágrimas derramadas como água têm custado — quanta dor, sob muitas formas, esta empresa tem causado e custado — sim, aquele próprio pecado que rolais como um doce bocado debaixo da língua! Bem pode Deus odiá-lo, quando vê quanto ele custa, e dizer: Oh! não façais esta coisa abominável que eu odeio!

Contudo, Deus não é infeliz nestas abnegações. Tão grande é a sua alegria nos resultados, que Ele considera todo o sofrimento como comparativamente uma ninharia, assim como os pais terrenos se alegram nos esforços que fazem para abençoar os seus filhos. Vede-os: quase gastam as próprias mãos de tanto trabalhar; — as mães passam a noite acordadas, manejando a agulha, até que cambaleiam de fadiga e cegueira — mas, se lhes vísseis o labor, muitas vezes lhes veríeis também a alegria, tão intensamente amam os seus filhos.

Tal é o labor, a alegria e a abnegação do Pai, do Filho e do Espírito Santo, na sua grande obra pela salvação humana. Muitas vezes se entristecem de que tantos recusem ser salvos. Labutando em comum simpatia, não há nada, dentro de limites razoáveis, que não façam ou sofram para levar a cabo a sua grande obra. É maravilhoso pensar como toda a criação simpatiza também nesta obra e nos seus sofrimentos necessários. Voltai à cena dos sofrimentos de Cristo. Poderia o sol nos céus olhar impassível para tal cena? Oh, não; nem sequer podia contemplá-la — mas velou o rosto ante o espetáculo! Toda a natureza pareceu vestir-se das suas roupas do mais profundo luto. A cena foi demais até para a natureza inanimada suportar. O sol voltou as costas e não pôde olhar para tal espetáculo!

O assunto ilustra fortemente o valor da alma. Pensais que Deus teria feito tudo isto, se tivesse tido acerca deste assunto aquelas baixas ideias que os pecadores comumente têm?

Os mártires e os santos gozam dos seus sofrimentos — cumprindo em si mesmos o que resta das aflições de Cristo; não na expiação propriamente dita, mas nas partes subordinadas da obra que há de ser feita. É próprio da verdadeira religião amar a abnegação.

Os resultados justificarão plenamente toda a despesa. Deus bem calculara o custo antes de começar. Muito tempo antes de formar um universo moral, sabia perfeitamente o que lhe havia de custar remir os pecadores, e sabia que o resultado justificaria amplamente todo o custo. Sabia que uma maravilha de misericórdia se realizaria — que o sofrimento exigido de Cristo, por grande que fosse, seria suportado; e que dele resultariam consequências infinitamente gloriosas. Olhou pela vereda do tempo, adentro das eras distantes — onde, à medida que os ciclos rolassem, poderiam ver-se as alegrias dos santos remidos, que cantam os seus cânticos e ferem de novo as suas harpas com o cântico eterno, por toda a longa, longa, LONGA eternidade da sua bem-aventurança; — e não era isto suficiente para o coração de amor infinito desfrutar? E que pensas disto, cristão? Dirás agora: Envergonho-me de pedir que me perdoem? Como posso suportar receber tamanha misericórdia! É o preço de sangue, e como posso aceitá-lo? Como posso ser para Jesus tão grande despesa?

Tens razão em dizer que lhe custaste grande despesa — mas a despesa foi paga de bom grado — a dor foi toda suportada, e não precisará ser suportada de novo, e não custará nada mais se aceitares do que se recusares; e, ademais, considere-se ainda que Jesus Cristo não agiu de modo imprudente; não pagou demais pela redenção da alma — nem uma pontada a mais do que os interesses do governo de Deus exigiam e o valor da alma justificava.

Oh, quando vieres a vê-lo face a face, e lhe disseres o que pensas disto — quando fores alguns milhares de anos mais velho do que és agora, não adorarás aquela sabedoria que dirige este plano, e o amor infinito em que ele teve o seu nascimento? Oh, que dirás então daquela assombrosa condescendência que trouxe Jesus para o teu resgate! Dize, cristão, não derramaste muitas vezes a tua alma diante do teu Salvador, em reconhecimento do que lhe custaste, e parecia haver como que um levantar-se, como se o próprio fundo da tua alma se erguesse, e derramarias o teu coração inteiro? Se alguém te houvesse visto, teria admirado o que te sucedera, que assim te derretera a alma em gratidão e amor.

Dizei agora, pecadores: vendereis o vosso direito de primogenitura? Por quanto o dareis? Por quanto dareis a vossa parte em Cristo? Por quanto vendereis a vossa alma? Vendereis o vosso Cristo! Antigamente venderam-no por trinta moedas de prata; e, desde então, os céus têm chovido lágrimas de sangue sobre o nosso mundo culpado. Se o diabo vos pedisse que fixásseis a soma pela qual venderíeis a vossa alma, qual seria o preço nomeado? Lorenzo Dow certa vez encontrou um homem, quando cavalgava por uma estrada solitária para cumprir um compromisso, e disse-lhe: Amigo, alguma vez oraste? Não. Por quanto aceitarias nunca mais orar de hoje em diante? Um dólar. Dow pagou-lho e seguiu cavalgando. O homem meteu o dinheiro no bolso e seguiu adiante, pensativo. Quanto mais pensava, pior se sentia. Ali, disse ele, vendi a minha alma por um dólar! Só pode ser que encontrei o diabo! Ninguém mais me tentaria assim. De toda a minha alma, tenho de me arrepender, ou serei condenado para sempre!

Quantas vezes ajustastes vender o vosso Salvador por menos de trinta moedas de prata! Não; pela mais insignificante ninharia!

Finalmente, Deus quer voluntários que ajudem nesta grande obra. Deus deu a si mesmo, e deu o seu Filho, e enviou o seu Espírito; — mas ainda são necessários mais trabalhadores; e que dareis vós? Paulo disse: Trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus. Aspirais a tal honra? Que fareis — que sofrereis? Não digais: Nada tenho para dar. Podeis dar-vos a vós mesmos — os vossos olhos, os vossos ouvidos, as vossas mãos, a vossa mente, o vosso coração, tudo; e certamente nada do que tendes é sagrado e bom demais para ser dedicado a tal obra, sob tal chamado! Quantos jovens estão prontos a ir? e quantas donzelas? De quem o coração salta, clamando: Eis-me aqui, envia-me?

Escrituras neste sermão João 3:16

Domínio público. Texto de origem de a edição original.