Texto
Hebreus 13:13
Em resumo
Pregado a uma igreja sob perseguição: Calvino argumenta que ninguém sofre com paciência pelo evangelho sem primeiro estar certo da causa, e então chama os crentes a sair "fora do arraial" e a levar o vitupério de Cristo — com os olhos fixos na ressurreição, onde estão toda a sua alegria e o seu triunfo.
Todas as exortações que nos possam ser feitas para que suportemos com paciência, pelo nome de Jesus Cristo e em defesa do evangelho, de nada servirão se não estivermos certos da causa por que combatemos. Pois, quando somos chamados a entregar a própria vida, é absolutamente necessário saber sobre que fundamento o fazemos. A firmeza de que precisamos não a podemos ter, a menos que esteja fundada na certeza da fé.
É verdade que se podem achar pessoas que tolamente se expõem à morte para sustentar certas opiniões absurdas e sonhos concebidos no próprio cérebro; mas tal ímpeto deve antes ser tido por frenesi do que por zelo cristão; e, com efeito, não há firmeza nem bom senso naqueles que assim, como que ao acaso, se lançam à perdição. Seja como for, porém, é somente numa boa causa que Deus nos pode reconhecer por seus mártires. A morte é comum a todos, e os filhos de Deus são condenados à ignomínia e aos tormentos como se fossem criminosos; mas Deus faz distinção entre eles, porquanto não pode negar a sua verdade. De nossa parte, pois, é mister que tenhamos prova certa e infalível da doutrina que sustentamos; e por isso, como disse, não podemos ser racionalmente movidos por exortação alguma que recebamos a sofrer perseguição pelo evangelho, se nenhuma verdadeira certeza da fé nos foi impressa no coração. Pois arriscar a vida por um talvez não é natural, e, ainda que o fizéssemos, seria apenas temeridade, não coragem cristã. Numa palavra, nada do que fizermos será aprovado por Deus se não estivermos plenamente persuadidos de que é por Ele e pela sua causa que sofremos perseguição, e de que o mundo é nosso inimigo.
Ora, quando falo de tal persuasão, não quero dizer apenas que devemos saber distinguir entre a verdadeira religião e os abusos ou loucuras dos homens, mas também que devemos estar plenamente persuadidos da vida celestial e da coroa que lá no alto nos é prometida, depois de aqui embaixo havermos combatido. Entendamos, pois, que ambos esses requisitos são necessários e não podem ser separados um do outro. Os pontos, portanto, por que devemos começar são estes: devemos saber bem o que é o nosso cristianismo, qual a fé que havemos de ter e seguir, qual a regra que Deus nos deu; e devemos estar tão bem munidos de tais instruções que possamos, com ousadia, condenar todas as falsidades, erros e superstições que Satanás introduziu para corromper a pura simplicidade da doutrina de Deus. Por isso não nos devemos admirar de que, no dia de hoje, vejamos tão poucas pessoas dispostas a sofrer pelo evangelho, e que a maior parte dos que se dizem cristãos não saiba o que ele é. Pois todos são, por assim dizer, mornos; e, em vez de fazerem seu cuidado o ouvir ou o ler, têm por bastante haver provado ligeiramente da fé cristã. Esta é a razão por que há tão pouca decisão, e por que os que são assaltados logo desfalecem. Este fato deveria estimular-nos a inquirir com maior diligência a verdade divina, a fim de dela estarmos bem certos.
Contudo, estar bem informado e fundamentado não é tudo o que se requer. Pois vemos alguns que parecem estar inteiramente imbuídos da sã doutrina e que, não obstante, não têm mais zelo nem afeição do que se de Deus jamais houvessem conhecido senão alguma fantasia passageira. Por que isto? Simplesmente porque nunca compreenderam a majestade das Sagradas Escrituras. E, de fato, se nós, tais como somos, considerássemos bem que é Deus quem nos fala, é certo que ouviríamos com maior atenção e com maior reverência. Se pensássemos que, ao ler a Escritura, estamos na escola dos anjos, seríamos muito mais cuidadosos e desejosos de aproveitar a doutrina que nos é proposta.
Vemos agora o verdadeiro método de nos prepararmos para sofrer pelo evangelho. Primeiro, devemos ter aproveitado de tal modo na escola de Deus que estejamos decididos quanto à verdadeira religião e à doutrina que havemos de sustentar; e devemos desprezar todos os ardis e imposturas de Satanás, e todas as invenções humanas, como coisas não só frívolas, mas também carnais, porquanto corrompem a pureza cristã; nisto diferindo, como verdadeiros mártires de Cristo, das pessoas fantasiosas que sofrem por meros absurdos. Segundo, estando certos da boa causa, devemos por isso inflamar-nos para seguir a Deus aonde quer que Ele nos chame: a sua Palavra há de ter sobre nós a autoridade que merece, e, havendo-nos retirado deste mundo, devemos sentir-nos como que arrebatados na busca da vida celestial.
Mas é mais que estranho que, embora a luz de Deus resplandeça hoje mais viva do que jamais o fez, haja uma lamentável falta de zelo! Se o pensamento não nos enche de vergonha, tanto pior. Pois em breve havemos de comparecer diante do grande Juiz, onde a iniquidade que procuramos esconder será trazida à luz com tais reproches que ficaremos totalmente confundidos. Pois, se somos obrigados a dar testemunho de Deus, conforme a medida do conhecimento que Ele nos deu, a que se deve, pergunto eu, que sejamos tão frios e tímidos ao entrar na batalha, visto que Deus se manifestou tão plenamente neste tempo que se pode dizer que nos abriu e expôs diante de nós os grandes tesouros dos seus segredos? Não se poderá dizer que não julgamos ter de tratar com Deus? Pois, se tivéssemos algum respeito à sua Majestade, não ousaríamos converter a doutrina que dele procede em uma espécie de especulação filosófica. Em suma, é impossível negar que é para nós grande vergonha, para não dizer terrível condenação, que tão bem tenhamos conhecido a verdade de Deus e tenhamos tão pouca coragem para sustentá-la!
Acima de tudo, quando olhamos para os mártires dos tempos passados, bem podemos detestar a nossa própria covardia! A maior parte deles não eram pessoas muito versadas na Sagrada Escritura, a ponto de poderem disputar sobre todos os assuntos. Sabiam que havia um só Deus, a quem lhes cumpria adorar e servir — que haviam sido remidos pelo sangue de Jesus Cristo, para que pusessem nele e na sua graça a confiança da salvação — e que, sendo todas as invenções dos homens mera escória e refugo, deviam condenar todas as idolatrias e superstições. Numa palavra, a sua teologia consistia em substância nisto: há um só Deus, que criou todo o mundo e nos declarou a sua vontade por Moisés e pelos profetas, e por fim por Jesus Cristo e seus apóstolos; e temos um único Redentor, que nos comprou pelo seu sangue e por cuja graça esperamos ser salvos: todos os ídolos do mundo são malditos e merecem execração.
Com um sistema que não abrangia outros pontos senão estes, iam corajosamente às chamas, ou a qualquer outro gênero de morte. Não iam de dois em dois, nem de três em três, mas em tais multidões que é quase infinito o número dos que caíram pelas mãos dos tiranos! Nós, de nossa parte, somos tão doutos letrados que ninguém o pode ser mais (assim ao menos o pensamos) e, de fato, quanto ao conhecimento da Escritura, Deus de tal modo a estendeu diante de nós que nenhuma idade anterior foi jamais tão favorecida. Contudo, apesar de tudo, mal se acha uma partícula de zelo. Quando os homens manifestam tamanha indiferença, parece que estão empenhados em provocar a vingança de Deus.
Que se deve, pois, fazer para inspirar em nosso peito verdadeira coragem? Temos, em primeiro lugar, de considerar quão preciosa é aos olhos de Deus a confissão da nossa fé. Bem pouco sabemos quanto Deus a estima, se a nossa vida, que nada é, é por nós tida em maior apreço. Quando assim é, manifestamos um assombroso grau de estultícia. Não podemos salvar a nossa vida à custa da nossa confissão sem reconhecer que a temos em mais alta conta do que a honra de Deus e a salvação da nossa alma.
Um pagão pôde dizer que "era coisa miserável salvar a vida abrindo mão das únicas coisas que tornavam a vida desejável!" E, contudo, nem ele nem outros semelhantes a ele jamais souberam para que fim são os homens postos no mundo, e por que nele vivem. É verdade que sabiam o bastante para dizer que os homens deviam seguir a virtude, conduzir-se honestamente e sem reproche; mas todas as suas virtudes eram mera tinta e fumaça. Nós sabemos muito melhor qual deveria ser o principal fim da vida, a saber, glorificar a Deus, para que Ele seja a nossa glória. Quando isto não se faz, ai de nós! E não podemos continuar a viver um só momento sobre a terra sem amontoar novas maldições sobre a nossa cabeça. Todavia não nos envergonhamos de comprar alguns poucos dias para aqui embaixo definharmos, renunciando ao reino eterno ao separar-nos daquele por cuja energia somos sustentados na vida.
Se perguntássemos às pessoas mais ignorantes, para não dizer as mais brutas, do mundo, por que vivem, não se atreveriam a responder simplesmente que é para comer, beber e dormir; pois todos sabem que foram criados para um fim mais alto e mais santo. E que fim podemos achar senão o de honrar a Deus e deixar-nos governar por Ele, como filhos por bons pais; para que, depois de havermos terminado a jornada desta vida corruptível, sejamos recebidos na sua herança eterna? Tal é o principal, aliás o único fim. Quando não o levamos em conta e nos empenhamos numa vida brutal, que é pior do que mil mortes, que poderemos alegar em nossa desculpa? Viver e não saber por que é coisa contra a natureza. Rejeitar as causas por que vivemos, sob a influência de um tolo anelo por uma trégua de alguns poucos dias, durante os quais havemos de viver no mundo, apartados de Deus — não sei como chamar tal insensatez e loucura!
Mas, como a perseguição é sempre dura e amarga, consideremos como e por que meios os cristãos podem fortalecer-se com paciência, de modo a expor sem vacilar a sua vida pela verdade de Deus. O texto que nos foi lido, quando bem entendido, basta para nos induzir a isto. Diz o apóstolo: Saiamos da cidade após o Senhor Jesus, levando o seu vitupério. Em primeiro lugar, ele nos lembra que, ainda que não se desembainhem contra nós as espadas nem se acendam os fogos para nos queimar, não podemos estar verdadeiramente unidos ao Filho de Deus enquanto estivermos enraizados neste mundo. Por isso o cristão, mesmo em repouso, deve ter sempre um pé erguido para marchar à batalha, e não só isto, mas deve ter as suas afeições apartadas do mundo, ainda que o seu corpo nele habite. Concedamos que isto, à primeira vista, nos pareça duro; ainda assim havemos de contentar-nos com as palavras de São Paulo (1 Tessalonicenses 3), de que somos chamados e destinados a sofrer. Como se dissesse: tal é a nossa condição de cristãos; este é o caminho por que devemos ir, se quisermos seguir a Cristo.
Entretanto, para consolar a nossa fraqueza e mitigar o desgosto e a tristeza que a perseguição nos poderia causar, oferece-se-nos uma boa recompensa: sofrendo pela causa de Deus, caminhamos passo a passo após o Filho de Deus e o temos por nosso guia. Se apenas se dissesse que, para sermos cristãos, devemos passar corajosamente por todos os insultos do mundo, para enfrentar a morte a todo tempo e de qualquer modo que a Deus aprouver ordenar, poderíamos, ao que parece, ter algum pretexto para replicar que é estranho caminho o que se percorre ao acaso. Mas, quando se nos ordena seguir o Senhor Jesus, a sua condução é boa e honrosa demais para ser recusada. Ora, para que sejamos mais profundamente movidos, não só se diz que Jesus Cristo caminha adiante de nós como nosso Capitão, mas que somos feitos conformes à sua imagem; assim diz São Paulo no capítulo oitavo aos Romanos que Deus predestinou todos aqueles que adotou por seus filhos a serem feitos conformes àquele que é o modelo e a cabeça de todos.
Somos nós tão delicados que não estejamos dispostos a suportar coisa alguma? Então havemos de renunciar à graça de Deus, pela qual Ele nos chamou à esperança da salvação. Pois há duas coisas que não podem ser separadas: ser membros de Cristo e ser provados por muitas aflições. Por certo deveríamos estimar tal conformidade ao Filho de Deus muito mais do que a estimamos. É verdade que, no juízo do mundo, há desonra em sofrer pelo evangelho. Mas, visto que sabemos que os crentes são cegos, não deveríamos ter olhos melhores do que os deles? É ignomínia sofrer da parte dos que ocupam o assento da justiça; mas São Paulo nos mostra pelo seu exemplo que havemos de gloriar-nos nos açoites por Jesus Cristo, como marcas pelas quais Deus nos reconhece e nos declara por seus. E sabemos o que São Lucas narra de Pedro e João (Atos 5:41), a saber, que se regozijaram por terem sido considerados dignos de sofrer infâmia e vitupério pelo nome do Senhor Jesus.
Ignomínia e dignidade são dois opostos: assim diz o mundo, que, estando enfatuado, julga contra toda razão e desse modo converte a glória de Deus em desonra. Mas, de nossa parte, não recusemos ser vilipendiados quanto ao mundo, a fim de sermos honrados diante de Deus e dos seus anjos. Vemos que trabalhos empregam os ambiciosos para receber as ordens de um rei, e de que se gabam por isso. O Filho de Deus nos apresenta as suas ordens, e cada um recua. Dize-me, rogo-te: procedendo assim, somos dignos de ter alguma coisa em comum com Ele? Nada há aqui que atraia a nossa natureza sensual; mas tais são, não obstante, os verdadeiros brasões de nobreza nos céus. Prisão, exílio, má fama trazem, na imaginação dos homens, tudo quanto é digno de vitupério; mas que nos impede de ver as coisas como Deus as julga e declara, senão a nossa incredulidade? Portanto, tenha o nome do Filho de Deus todo o peso que merece para conosco, para que aprendamos a tê-lo por honra quando Ele imprime em nós as suas marcas. Se procedermos de outro modo, insuportável é a nossa ingratidão.
Se Deus nos tratasse segundo os nossos merecimentos, não teria justa causa para nos castigar diariamente de mil modos? Antes, cem mil mortes não bastariam para uma pequena porção das nossas más obras! Ora, se, na sua infinita bondade, Ele põe todas as nossas faltas debaixo dos seus pés e as abole, e, em vez de nos punir segundo o nosso demérito, dispõe um admirável meio de converter as nossas aflições em honra e em singular privilégio, porquanto por elas somos admitidos à parceria com o seu Filho, não se deverá dizer, quando desdenhamos de tão feliz estado, que na verdade fizemos pouco progresso na doutrina cristã?
Por isso São Pedro, depois de nos exortar (1 Pedro 4:15) a andar tão puramente no temor de Deus que não venhamos a sofrer como ladrões, adúlteros e homicidas, logo acrescenta que, se havemos de sofrer como cristãos, glorifiquemos a Deus pela bênção que assim nos concede. Não é sem causa que assim fala. Pois quem somos nós, pergunto eu, para sermos testemunhas da verdade de Deus e advogados para sustentar a sua causa? Eis-nos aqui pobres vermes da terra, criaturas cheias de vaidade, cheias de mentiras, e todavia Deus se serve de nós para defender a sua verdade — honra que nem sequer pertence aos anjos do céu! Não bastará esta só consideração para bem nos inflamar a oferecer-nos a Deus, para sermos empregados de qualquer modo em tão honroso serviço?
Muitas pessoas, contudo, não podem deixar de pleitear contra Deus, ou, ao menos, de queixar-se dele por não amparar melhor a sua fraqueza. É maravilhosamente estranho, dizem elas, como Deus, depois de nos haver escolhido por seus filhos, permite que sejamos pisados e atormentados pelos ímpios. Respondo: ainda que não fosse manifesto por que Ele assim faz, bem poderia exercer a sua autoridade sobre nós e fixar a nossa sorte a seu bel-prazer. Mas, quando vemos que Jesus Cristo é o nosso modelo, não deveríamos, sem indagar mais, ter por grande felicidade sermos feitos semelhantes a Ele? Deus, porém, torna bem manifestas as razões por que lhe apraz que sejamos perseguidos. Ainda que não tivéssemos mais do que a consideração sugerida por São Pedro (1 Pedro 1:7), seríamos por certo desdenhosos se nela não aquiescêssemos. Diz ele que, visto serem o ouro e a prata, que são apenas metais corruptíveis, purificados e provados pelo fogo, é bem razoável que a nossa fé, que sobrepuja todas as riquezas do mundo, seja assim provada.
Fácil seria, na verdade, a Deus coroar-nos de uma vez, sem exigir que sustentássemos combate algum; mas, assim como lhe apraz que, até o fim do mundo, Cristo reine no meio dos seus inimigos, assim também lhe apraz que nós, postos no meio deles, soframos a sua opressão e violência até que Ele nos livre. Bem sei que a carne se rebela quando há de ser levada a este ponto; ainda assim, a vontade de Deus há de ter o domínio. Se sentimos em nós alguma repugnância, não é para admirar; pois é por demais natural que fujamos da cruz. Contudo, não deixemos de vencê-la, sabendo que Deus aceita a nossa obediência, contanto que tragamos todos os nossos sentimentos e desejos em cativeiro e os sujeitemos a Ele.
Quando profetas e apóstolos iam à morte, não era sem sentir alguma inclinação a recuar. "Levar-te-ão aonde tu não queres", disse nosso Senhor Jesus Cristo a Pedro. (João 21:18.) Quando tais temores da morte se levantam dentro de nós, tenhamos domínio sobre eles, ou antes, tenha-o Deus; e, entretanto, estejamos certos de que lhe oferecemos um sacrifício agradável quando resistimos e fazemos violência às nossas inclinações, a fim de nos colocarmos inteiramente sob o seu mando: esta é a principal guerra em que Deus quer que o seu povo se empenhe. Quer que se esforcem por sufocar todo pensamento e sentimento rebelde que os desviaria do caminho que Ele lhes aponta. E as consolações são tão amplas que bem se pode dizer que somos mais que covardes se cedermos!
Nos tempos antigos, inúmeras pessoas, para obter uma simples coroa de folhas, não recusavam trabalho algum, dor alguma, incômodo algum; antes, nada lhes custava morrer, e contudo cada uma delas combatia por um talvez, não sabendo se havia de ganhar ou de perder o prêmio. Deus nos apresenta a coroa imortal, pela qual podemos tornar-nos participantes da sua glória: Ele não quer que combatamos ao acaso, mas todos nós temos a promessa do prêmio por que nos esforçamos. Teremos, pois, alguma causa para declinar da luta? Julgaremos ter sido dito em vão que, se morrermos com Jesus Cristo, também com Ele viveremos? O nosso triunfo está preparado, e todavia fazemos tudo o que podemos para fugir ao combate.
Mas diz-se que tudo o que ensinamos sobre este assunto repugna ao juízo humano. Confesso-o. E por isso, quando o nosso Salvador declara: "Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça" (Mateus 5:10), profere um pensamento que não é facilmente recebido no mundo. Pelo contrário, Ele quer que se tenha por felicidade aquilo que, no juízo dos sentidos, é miséria. Parecemos a nós mesmos miseráveis quando Deus nos deixa ser pisados pela tirania e crueldade dos nossos inimigos; mas o erro está em não olharmos para as promessas de Deus, que nos asseguram que tudo redundará em nosso bem. Somos abatidos quando vemos os ímpios mais fortes do que nós, pondo o pé sobre a nossa garganta; mas tal confusão deveria antes, como diz São Paulo, fazer-nos levantar a cabeça. Visto sermos por demais propensos a entreter-nos com os objetos presentes, Deus, ao permitir que os bons sejam maltratados e que os ímpios prevaleçam, mostra por sinais evidentes que vem chegando um dia em que tudo o que agora está em confusão será reduzido à ordem. Se o prazo parece distante, corramos ao remédio e não nos lisonjeemos no nosso pecado; pois é certo que não temos fé se não podemos levar as nossas vistas adiante, até a vinda de Jesus Cristo.
Para não deixar sem uso meio algum que possa servir de estímulo, Deus põe diante de nós, de um lado, promessas, e de outro, ameaças. Se sentimos que as promessas não têm influência suficiente, fortaleçamo-las acrescentando-lhes as ameaças. É verdade que teríamos de ser perversos ao extremo para não pormos maior fé nas promessas de Deus, quando o Senhor Jesus diz que nos reconhecerá por seus diante de seu Pai, contanto que O confessemos diante dos homens. (Mateus 10:32; Lucas 12:8.) Que nos há de impedir de fazer a confissão que Ele requer? Façam os homens o pior que puderem: não podem fazer coisa pior do que matar-nos! e não compensará isto a vida celestial? Não junto aqui todas as passagens da Escritura que tratam deste assunto: são tantas vezes repetidas que delas deveríamos estar plenamente satisfeitos. Quando vier a luta, se três ou quatro passagens não bastarem, cem por certo hão de tornar-nos invencíveis contra todas as tentações contrárias.
Mas, se Deus não nos pode atrair a Si por meios brandos, não seremos meros troncos se também as suas ameaças falharem? Jesus Cristo intima todos aqueles que, por temor da morte temporal, houverem negado a verdade, a comparecer ao tribunal de Deus, seu Pai, e diz que então tanto o corpo como a alma serão entregues à perdição. (Mateus 10:28; Lucas 12:5.) E noutra passagem diz que renegará todos aqueles que O houverem negado diante dos homens. (Mateus 10:33; Lucas 12:10.) Estas palavras, se não somos de todo insensíveis, bem poderiam fazer arrepiar-nos os cabelos. Seja como for, isto ao menos é certo: se estas coisas não nos comovem como devem, nada nos resta senão um terrível juízo. (Hebreus 10:27.) Havendo sido baldadas todas as palavras de Cristo, ficamos convictos de grosseira infidelidade.
Em vão alegamos que se nos deveria mostrar compaixão, porquanto a nossa natureza é tão frágil; pois se diz, pelo contrário, que Moisés, havendo olhado para Deus pela fé, foi fortalecido de modo a não ceder sob tentação alguma. Por isso, quando somos assim moles e fáceis de vergar, é sinal manifesto — não digo que não temos zelo nem firmeza — mas que nada sabemos, nem de Deus nem do seu reino. Quando se nos lembra que devemos estar unidos à nossa Cabeça, parece-nos um belo pretexto de isenção dizer que somos homens. Mas que eram os que trilharam o caminho antes de nós? Na verdade, se não tivéssemos mais do que a pura doutrina, todas as desculpas que pudéssemos apresentar seriam frívolas; mas, tendo tantos exemplos que deveriam fornecer-nos a mais forte prova, tanto mais dignos somos de condenação.
Há dois pontos a considerar. O primeiro é que todo o corpo da Igreja em geral sempre esteve, e até o fim estará, sujeito a ser afligido pelos ímpios, como se diz nos Salmos (Salmos 129:1): "Desde a minha mocidade me têm atormentado, e passaram o arado sobre mim de uma extremidade à outra." O Espírito Santo ali introduz a Igreja antiga, para que nós, depois de bem conhecidas as suas aflições, não tenhamos por coisa nova nem penosa quando o mesmo se faz a nós no dia de hoje. São Paulo também, citando de outro Salmo (Romanos 7:36; Salmos 44:22) uma passagem que diz: "Fomos levados como ovelhas ao matadouro", mostra que isto não foi para uma só idade, mas é a condição ordinária da Igreja, e assim há de ser.
Portanto, ao ver como a Igreja de Deus é pisada no dia de hoje por soberbos mundanos, como um late e outro morde, como a torturam, como conspiram contra ela, como é assaltada incessantemente por cães raivosos e feras selvagens, lembre-nos isto que o mesmo se fazia em todo o tempo antigo. É verdade que Deus por vezes lhe concede uma trégua e tempo de alívio, e por isso no Salmo acima citado se diz: "Cortou as cordas dos ímpios"; e noutra passagem (Salmos 125:3): "Ele quebra a vara deles, para que os bons não venham a cair, oprimidos com demasiada dureza." Mas, ainda assim, aprouve-lhe que a sua Igreja sempre tivesse de batalhar enquanto estivesse neste mundo, estando o seu repouso entesourado lá no alto, nos céus. (Hebreus 3:9.)
Entretanto, o desfecho das suas aflições sempre foi ditoso. De todo modo, Deus fez com que, ainda que oprimida por muitas calamidades, ela nunca fosse de todo esmagada; como se diz (Salmos 7:15): "Os ímpios, com todos os seus esforços, não alcançaram aquilo a que visavam." São Paulo se gloria neste fato e mostra que este é o curso que Deus, na sua misericórdia, sempre toma. Diz ele (1 Coríntios 4:12) que suportamos tribulações, mas não estamos em angústia; somos empobrecidos, mas não abandonados na indigência; somos perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não perecemos; trazendo por toda parte no nosso corpo a mortificação do Senhor Jesus, para que também a sua vida se manifeste no nosso corpo mortal. Sendo tal, como vemos, o desfecho que Deus em todo tempo deu às perseguições da sua Igreja, devemos tomar ânimo, sabendo que os nossos antepassados, que eram homens frágeis como nós, sempre tiveram a vitória sobre os seus inimigos permanecendo firmes na paciência.
Toco apenas de leve neste artigo para chegar ao segundo, que mais serve ao nosso propósito, a saber, que devemos aproveitar-nos dos exemplos particulares dos mártires que nos precederam. Estes não se limitam a dois ou três, mas são, como diz o apóstolo (Hebreus 12:1), "tão grande nuvem de testemunhas." Com esta expressão dá a entender que o número é tão grande que deveria, por assim dizer, ocupar-nos inteiramente a vista. Para não ser enfadonho, mencionarei apenas os judeus, que foram perseguidos pela verdadeira religião, tanto sob a tirania do rei Antíoco como pouco depois da sua morte. Não podemos alegar que era pequeno o número dos que sofreram, pois formava, por assim dizer, um grande exército de mártires. Não podemos dizer que se compunha de profetas que Deus houvesse separado do povo comum, pois mulheres e crianças pequenas faziam parte da hoste. Não podemos dizer que escaparam a preço barato, pois foram torturados tão cruelmente quanto era possível. Por isso ouvimos o que diz o apóstolo (Hebreus 11:35): que alguns foram estirados como tambores, não se importando de ser livres, para alcançarem melhor ressurreição; outros foram provados por escárnios e açoites, ou por prisões e cárceres; outros foram apedrejados ou serrados ao meio; outros andaram errantes por montes e cavernas.
Comparemos agora o caso deles com o nosso. Se de tal modo suportaram pela verdade que naquele tempo era tão obscura, que devemos nós fazer na clara luz que agora resplandece? Deus nos fala de boca aberta; a grande porta do reino dos céus foi aberta, e Jesus Cristo nos chama a Si, depois de haver descido até nós, para que O tivéssemos, por assim dizer, presente aos nossos olhos. Que reproche seria para nós ter menos zelo em sofrer pelo evangelho do que aqueles que apenas de longe saudaram as promessas — que tinham apenas um postigo aberto pelo qual chegar ao reino de Deus, e que tinham apenas algum memorial e figura de Jesus Cristo? Estas coisas não se podem exprimir numa palavra, como merecem, e por isso deixo a cada um que as pondere consigo mesmo.
A doutrina agora exposta, sendo geral, deve ser posta em prática por todos os cristãos, cada um aplicando-a ao seu próprio uso conforme for necessário. Digo isto para que aqueles que não se veem em perigo aparente não a julguem supérflua quanto a si. Não estão nesta hora nas mãos dos tiranos, mas como sabem o que Deus intenta fazer com eles daqui em diante? Devemos, pois, estar de tal modo prevenidos que, se sobrevier alguma perseguição que não esperávamos, não sejamos apanhados desapercebidos. Mas muito temo que haja muitos ouvidos surdos quanto a este assunto. Tão longe estão de preparar-se para sofrer a morte, quando for preciso, os que estão abrigados e à sua vontade, que nem sequer se incomodam de servir a Deus na sua vida. Não obstante, continua verdadeiro que esta preparação para a perseguição deveria ser o nosso estudo ordinário, e especialmente nos tempos em que vivemos.
Aqueles, por sua vez, a quem Deus chama a sofrer pelo testemunho do seu nome, devem mostrar por obras que foram plenamente exercitados na paciente perseverança. Então devem trazer à memória todas as exortações que lhes foram dadas nos tempos passados e mover-se, assim como o soldado corre às armas quando soa o alarme. Mas quão diferente é o resultado. A única questão é como descobrir subterfúgios para escapar. Digo isto quanto à maior parte; pois a perseguição é uma verdadeira pedra de toque pela qual Deus averigua quem são os seus. E poucos são tão fiéis que estejam prontos a enfrentar a morte com ousadia.
É coisa como que monstruosa que pessoas que se gabam de ter um pouco do evangelho ousem abrir os lábios para proferir tais sofismas. Alguns dirão: Que ganhamos em confessar a nossa fé a gente obstinada que deliberadamente resolveu lutar contra Deus? Não é isto lançar pérolas aos porcos? Como se Jesus Cristo não houvesse distintamente declarado (Mateus 8:38) que quer ser confessado entre os perversos e malignos. Se por isso não forem instruídos, ao menos ficarão confundidos; e assim a confissão é um odor de suave cheiro diante de Deus, ainda que seja mortífera para o réprobo. Há alguns que dizem: De que aproveitará a nossa morte? Não será antes causa de escândalo? Como se Deus lhes houvesse deixado a escolha de morrer quando o tivessem por bom e achassem a ocasião oportuna. Pelo contrário, aprovamos a nossa obediência deixando na sua mão o proveito que há de resultar da nossa morte.
Em primeiro lugar, pois, o homem cristão, onde quer que esteja, deve resolver, não obstante os perigos ou as ameaças, andar em simplicidade, como Deus ordenou. Guarde-se quanto puder da voracidade dos lobos, mas não seja com astúcia carnal. Acima de tudo, ponha a sua vida nas mãos de Deus. Fê-lo ele?
Então, se lhe acontecer cair nas mãos do inimigo, pense que Deus, havendo assim disposto, se compraz em tê-lo por uma das testemunhas do seu Filho, e que, portanto, não tem meio de recuar sem quebrar a fé com Aquele a quem prometemos todo o dever na vida e na morte — Aquele de quem somos e a quem pertencemos, ainda que promessa alguma houvéssemos feito.
Dizendo isto, não ponho a todos sob a necessidade de fazer uma plena e inteira confissão de tudo o que creem, ainda que a isso sejam requeridos. Tenho também presente a medida observada por São Paulo, embora nenhum homem jamais fosse mais determinado a sustentar corajosamente a causa do evangelho como devia. E por isso não é sem causa que o nosso Senhor promete dar-nos, em tal ocasião, "boca e sabedoria" (Lucas 21:15); como se dissesse que o ofício do Espírito Santo não é só fortalecer-nos para sermos ousados e valentes, mas também dar-nos prudência e discrição, para nos guiar no rumo que for conveniente tomar.
A substância de tudo é que aqueles que estão em tal aflição hão de pedir e obter do alto tal prudência, não seguindo a sua própria sabedoria carnal, buscando uma espécie de brecha por onde escapar. Há alguns que nos dizem que o próprio Senhor não deu resposta aos que O interrogavam. Mas respondo: Primeiro, que isto não abole a regra que Ele nos deu de fazer confissão da nossa fé quando assim requerido. (1 Pedro 3:15.) Segundo, que Ele nunca usou disfarce algum para salvar a vida; e, Terceiro, que nunca deu resposta tão ambígua que não encerrasse suficiente testemunho de tudo o que tinha a dizer; e que, além disso, já havia satisfeito aos que de novo vinham interrogá-lo, com o intuito não de obter informação, mas apenas de armar-lhe laços para o enredar.
Tenha-se, pois, por ponto fixo entre todos os cristãos que não devem ter a sua vida por mais preciosa do que o testemunho da verdade, porquanto Deus quer por ele ser glorificado. Será em vão que Ele dá o nome de testemunhas (pois este é o sentido da palavra mártir) a todos os que hão de responder diante dos inimigos da fé? Não é porque quis empregá-los para tal fim? Aqui ninguém deve olhar para o seu próximo, pois Deus não honra a todos igualmente com o chamado. E, como somos inclinados a assim olhar, tanto mais devemos acautelar-nos contra isso. Pedro, havendo ouvido dos lábios de nosso Senhor Jesus (João 21:18) que seria levado, na sua velhice, para onde não queria, perguntou: Que seria de João, seu companheiro? Não há entre nós um só que de bom grado não houvesse feito a mesma pergunta; pois o pensamento que logo se levanta em nossa mente é: Por que sofro eu, e não antes os outros? Pelo contrário, Jesus Cristo exorta a todos nós em comum, e a cada um de nós em particular, a estarmos "prontos", para que, conforme Ele chamar a este ou àquele, marchemos, por nossa vez, para a frente.
Expliquei acima quão pouco preparados estaremos para sofrer o martírio, se não estivermos armados das promessas divinas. Resta agora mostrar um pouco mais plenamente qual é o teor e o fim dessas promessas — não para especificá-las todas em detalhe, mas para mostrar as principais coisas que Deus quer que dele esperemos, para nos consolar nas nossas aflições. Ora, estas coisas, tomadas em resumo, são três. A primeira é que, visto estarem a nossa vida e a nossa morte na sua mão, Ele nos preservará pelo seu poder, de modo que nem um cabelo será arrancado da nossa cabeça sem a sua permissão. Os crentes, portanto, devem estar certos, em quaisquer mãos que caiam, de que Deus não se despojou da guarda que exerce sobre as suas pessoas. Se tal persuasão estivesse bem impressa no nosso coração, ficaríamos livres da maior parte das dúvidas e perplexidades que nos atormentam e nos embaraçam no nosso dever.
Vemos os tiranos à solta: com isso parece-nos que Deus já não possui meio algum de nos salvar, e somos tentados a prover às nossas próprias coisas, como se dele nada mais houvesse a esperar. Pelo contrário, a sua providência, tal como Ele a desdobra, deveria ser por nós tida como fortaleza inexpugnável. Trabalhemos, pois, por aprender todo o alcance da expressão de que os nossos corpos estão nas mãos daquele que os criou. Por esta razão Ele, algumas vezes, livrou o seu povo de maneira miraculosa e acima de toda expectativa humana, como a Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, da fornalha ardente; a Daniel, da cova dos leões; a Pedro, da prisão de Herodes, onde estava trancado, acorrentado e tão de perto guardado. Por estes exemplos quis testificar que mantém em xeque os nossos inimigos, ainda que assim não pareça, e que tem poder para nos retirar do meio da morte quando lhe apraz. Não que sempre o faça; mas, reservando para Si a autoridade de dispor de nós para a vida e para a morte, quer que estejamos plenamente certos de que nos tem sob a sua guarda; de sorte que, o que quer que os tiranos intentem, e com qualquer fúria que se lancem contra nós, só a Ele pertence ordenar a nossa vida.
Se Ele permite que os tiranos nos matem, não é porque a nossa vida não lhe seja cara e tida em honra cem vezes maior do que merece. Sendo assim, havendo declarado pela boca de Davi (Salmos 116:13) que a morte dos santos é preciosa aos seus olhos, diz também pela boca de Isaías (26:21) que a terra descobrirá o sangue que parece estar oculto. Sejam, pois, os inimigos do evangelho tão pródigos quanto quiserem do sangue dos mártires: hão de prestar dele terrível conta, até a última gota. No dia de hoje, entregam-se a soberba zombaria enquanto entregam os crentes às chamas; e, depois de se banharem no sangue deles, de tal modo por ele se embriagam que têm todos os assassínios que cometem por mero divertimento festivo. Mas, se tivermos paciência para esperar, Deus mostrará no fim que não foi em vão que taxou a nossa vida em tão alto valor. Entretanto, não nos ofenda que isto pareça confirmar o evangelho, que em valor sobrepuja o céu e a terra.
Para melhor nos assegurarmos de que Deus não nos deixa como que desamparados nas mãos dos tiranos, lembremo-nos das declarações de Jesus Cristo, quando diz (Atos 9:4) que Ele mesmo é perseguido nos seus membros. Deus, na verdade, dissera antes (Zacarias 2:8): "Aquele que vos toca, toca na menina do meu olho." Mas aqui se diz muito mais expressamente que, se sofremos pelo evangelho, é tanto como se o próprio Filho de Deus sofresse em pessoa. Saibamos, portanto, que Jesus Cristo teria de esquecer-se de Si mesmo antes de poder deixar de pensar em nós, quando estamos na prisão ou em perigo de morte por sua causa; e saibamos que Deus tomará a peito todos os ultrajes que os tiranos cometem contra nós, tal como se fossem cometidos contra o seu próprio Filho.
Venhamos agora ao segundo ponto que Deus nos declara na sua promessa para nossa consolação. É que Ele de tal modo nos sustentará pela energia do seu Espírito que os nossos inimigos, façam o que fizerem, ainda que tenham Satanás à sua frente, não levarão vantagem alguma sobre nós. E vemos como Ele manifesta os seus dons em tal transe; pois a invencível constância que aparece nos mártires demonstra abundante e formosamente que Deus opera neles poderosamente. Na perseguição há duas coisas penosas à carne: o vitupério e o insulto dos homens, e os tormentos que o corpo padece. Ora, Deus promete estender-nos a mão de modo tão eficaz que a ambos venceremos pela paciência. O que assim nos diz, confirma-o com os fatos. Tomemos, pois, este escudo para aparar todos os temores com que somos assaltados, e não confinemos a operação do Espírito Santo em limites tão estreitos que suponhamos que Ele não vencerá facilmente todas as crueldades dos homens.
Disto tivemos, entre outros exemplos, um particularmente memorável. Um jovem que outrora vivia aqui conosco, havendo sido preso na cidade de Tournai, foi condenado a ter a cabeça cortada se se retratasse, e a ser queimado vivo se permanecesse firme no seu propósito. Perguntado o que tencionava fazer, respondeu simplesmente: "Aquele que me der graça para morrer com paciência pelo seu nome, certamente me dará graça para suportar o fogo." Devemos tomar esta expressão não como de um homem mortal, mas como do Espírito Santo, para nos assegurar de que Deus não é menos poderoso para nos fortalecer e nos tornar vitoriosos sobre os tormentos do que para nos fazer submeter de bom grado a uma morte mais branda. Além disso, muitas vezes vemos que firmeza Ele dá a infelizes malfeitores que sofrem pelos seus crimes. Não falo dos endurecidos, mas dos que tiram consolação da graça de Jesus Cristo e, por meio dela, com coração tranquilo, sofrem o mais grave castigo que se possa infligir. Um belo exemplo se vê no ladrão que foi convertido à morte de nosso Senhor. Deus, que assim poderosamente assiste a pobres criminosos quando padecem o castigo das suas más obras, será tão falho para com o seu próprio povo, enquanto combate pela sua causa, que lhe não dê coragem invencível?
O terceiro ponto a considerar nas promessas que Deus dá aos seus mártires é o fruto que devem esperar dos seus sofrimentos e, por fim, se for preciso, da sua morte. Ora, este fruto é que, depois de haverem glorificado o seu Nome — depois de haverem edificado a Igreja pela sua constância — serão reunidos com o Senhor Jesus na sua imortal glória. Mas, como acima já falamos disto com alguma extensão, basta aqui trazê-lo à lembrança. Aprendam, pois, os crentes a levantar a cabeça para a coroa de glória e imortalidade a que Deus os convida, para que não se sintam relutantes em deixar a vida presente por tal recompensa; e, para bem se assegurarem desta inestimável bênção, tenham sempre diante dos olhos a conformidade que assim têm com nosso Senhor Jesus Cristo; contemplando a morte no meio da vida, assim como Ele, pelo vitupério da cruz, alcançou a gloriosa ressurreição, na qual consiste toda a nossa felicidade, alegria e triunfo.
Domínio público. Texto de origem de a edição original.