Sermão · 14 min de leitura · Avançado

Contra Eutrópio

Retrato de John Chrysostom John Chrysostom

Texto

Eclesiastes 1:2

Em resumo

“Vaidade de vaidades”—pregado na catedral de Constantinopla enquanto Eutrópio, o ministro da corte já caído que outrora tentara despojar a Igreja do seu direito de asilo, se agarrava trêmulo ao próprio altar que atacara. Crisóstomo não lhe poupa nada e, contudo, intercede por ele, transformando a ruína daquele homem num sermão sobre a vaidade do poder e sobre a misericórdia que abriga até mesmo um inimigo.

1. “Vaidade de vaidades, tudo é vaidade”—é sempre oportuno proferir estas palavras, mas de modo muito especial no tempo presente. Onde estão agora os brilhantes ornamentos do teu consulado? onde estão as tochas reluzentes? Onde está a dança, e o ruído dos pés dos dançarinos, e os banquetes e as festas? onde estão as grinaldas e as cortinas do teatro? onde estão os aplausos que te saudavam na cidade, onde a aclamação no hipódromo e as lisonjas dos espectadores? Foram-se—tudo se foi: um vento soprou sobre a árvore, arrancando-lhe todas as folhas, mostrando-a a nós inteiramente despida e abalada até à raiz; pois tão grande foi a violência da rajada que sacudiu todas as fibras da árvore e ameaça arrancá-la pelas raízes. Onde estão agora os teus falsos amigos? onde estão as tuas farras e as tuas ceias? onde está o enxame de parasitas, e o vinho que se derramava o dia inteiro, e as inúmeras iguarias inventadas pelos teus cozinheiros? onde estão os que cortejavam o teu poder e faziam e diziam tudo para conquistar o teu favor? Tudo isso não passava de visões da noite, e de sonhos que se desvaneceram com o raiar do dia: eram flores da primavera, e, passada a primavera, todas murcharam: eram uma sombra que passou—eram uma fumaça que se dissipou, bolhas que estouraram, teias de aranha que se rasgaram em pedaços. Por isso entoamos continuamente este cântico espiritual—“Vaidade de vaidades, tudo é vaidade.” Pois esta sentença deveria estar continuamente escrita nas nossas paredes e vestes, na praça e na casa, nas ruas, e nas portas e nas entradas, e acima de tudo na consciência de cada um, e ser um perpétuo tema de meditação. E, visto que as coisas enganosas, os disfarces e as aparências parecem a muitos ser realidades, convém que cada um, todos os dias, tanto à ceia como ao desjejum, e nas reuniões sociais, diga ao seu próximo e ouça do seu próximo em resposta: “vaidade de vaidades, tudo é vaidade.” Não te dizia eu continuamente que a riqueza era uma fugitiva? Mas tu não me davas ouvidos. Não te disse que ela era uma serva ingrata? Mas tu não te deixavas persuadir. Eis que a própria experiência agora provou que ela não é apenas uma serva fugitiva e ingrata, mas também assassina, pois é ela que agora te faz temer e tremer. Não te dizia eu, quando continuamente me repreendias por falar a verdade: “Amo-te mais do que aqueles que te lisonjeiam?” “Eu, que te reprovo, cuido mais de ti do que aqueles que te bajulam?” Não acrescentava eu a estas palavras que as feridas de um amigo são mais dignas de confiança do que os beijos voluntários dos inimigos? Se te tivesses submetido às minhas feridas, os beijos deles não te teriam causado esta destruição: pois as minhas feridas produzem saúde, mas os beijos deles produziram uma doença incurável. Onde estão agora os teus copeiros, onde estão os que abriam caminho para ti na praça e proclamavam sem cessar os teus louvores aos ouvidos de todos? Fugiram, renegaram a tua amizade, procuram a sua própria segurança por meio da tua aflição. Mas eu não procedo assim; não, na tua desgraça não te abandono, e agora, que estás caído, eu te protejo e cuido de ti. E a Igreja, que trataste como inimiga, abriu o seu seio e te recebeu nele; ao passo que os teatros, que cortejavas, e por causa dos quais muitas vezes te indignavas comigo, te traíram e te arruinaram. E, contudo, eu nunca deixei de te dizer: “por que fazes tais coisas?” “estás exasperando a Igreja e lançando-te de cabeça no abismo,” mas tu te apressavas a fugir de todas as minhas advertências. E agora os hipódromos, tendo esgotado a tua riqueza, afiaram a espada contra ti, mas a Igreja, que experimentou a tua ira intempestiva, corre em todas as direções, no seu desejo de arrancar-te da rede.

2. E digo estas coisas agora não para pisar quem está prostrado, mas por desejar tornar mais seguros os que ainda estão de pé; não para irritar as chagas de quem foi ferido, mas antes para preservar em boa saúde os que ainda não foram feridos; não para afundar quem é lançado pelas ondas, mas para instruir os que navegam com brisa favorável, a fim de que não venham a naufragar. E como pode isso ser conseguido? observando as vicissitudes das coisas humanas. Pois até este homem, se tivesse temido a vicissitude, não a teria experimentado; mas, visto que nem a sua própria consciência nem os conselhos dos outros produziram nele qualquer melhora, aproveitai ao menos vós, que vos vangloriais das vossas riquezas, a sua calamidade: pois nada há mais frágil do que as coisas humanas. Portanto, qualquer termo que se empregue para exprimir a insignificância delas ficará aquém da realidade; quer as chame fumaça, quer erva, quer sonho, quer flores da primavera, quer por qualquer outro nome; tão perecíveis são elas, e mais nada do que o próprio nada; mas que, juntamente com a sua nulidade, elas encerram também um elemento muito perigoso, disso temos uma prova diante de nós. Pois quem era mais exaltado do que este homem? Não sobrepujava ele o mundo inteiro em riqueza? não havia subido ao mais alto cume da distinção? não tremiam e temiam todos diante dele? Contudo, eis que ele se tornou mais miserável do que o prisioneiro, mais digno de lástima do que o escravo servil, mais indigente do que o mendigo que definha de fome, tendo cada dia diante dos olhos uma visão de espadas afiadas e da sepultura do criminoso, e do carrasco público que o conduz à morte; e ele nem sequer sabe se algum dia gozou de prazer passado, nem tem consciência sequer do raio do sol, mas ao meio-dia a sua vista se obscurece como se estivesse envolto na mais densa treva. Mas, ainda que eu me esforce ao máximo, não conseguirei apresentar-vos em palavras o sofrimento que ele naturalmente deve suportar, na expectativa, hora a hora, da morte. Mas, na verdade, que necessidade há de quaisquer palavras minhas, quando ele mesmo nos retratou isto claramente, como numa imagem visível? Pois ontem, quando vieram ter com ele da corte real com a intenção de arrastá-lo à força, e ele correu a refugiar-se junto ao mobiliário sagrado, o seu rosto era então, como o é agora, não melhor do que o semblante de um morto: e o bater dos seus dentes, e o tremor e o estremecer de todo o seu corpo, e a sua voz vacilante, e a língua gaguejante, e, enfim, todo o seu aspecto geral sugeriam alguém cuja alma estava petrificada.

3. Ora, digo estas coisas não para censurá-lo, nem para insultar a sua desventura, mas por desejar abrandar os vossos ânimos para com ele, e induzir-vos à compaixão, e persuadir-vos a contentar-vos com o castigo que já lhe foi infligido. Pois, visto que há entre nós muitas pessoas desumanas, inclinadas talvez a censurar-me por havê-lo acolhido no santuário, exponho os seus sofrimentos com o desejo de abrandar-lhes a dureza de coração por meio da minha narrativa.

Pois dize-me, amado irmão, por que te indignas comigo? Dizes que é porque aquele que continuamente guerreou contra a Igreja se refugiou dentro dela. Contudo, decerto deveríamos glorificar a Deus no mais alto grau, por permitir que ele fosse posto em tão grande aperto a ponto de experimentar tanto o poder como a benignidade da Igreja:—o seu poder, porquanto ele sofreu esta grande vicissitude em consequência dos ataques que lhe fez: a sua benignidade, porquanto aquela a quem ele atacou lança agora o seu escudo diante dele e o recebeu debaixo das suas asas, e o pôs em toda a segurança, não guardando ressentimento de nenhuma das suas antigas injúrias, mas abrindo-lhe amorosíssimamente o seu seio. Pois isto é mais glorioso do que qualquer espécie de troféu, isto é uma vitória brilhante, isto envergonha tanto os gentios como os judeus, isto exibe o aspecto radiante da Igreja: em que, havendo recebido o seu inimigo como cativo, ela o poupa, e, quando todos o desprezaram na sua desolação, ela sozinha, como mãe afetuosa, o escondeu debaixo do seu manto, opondo-se tanto à ira do rei como ao furor do povo e ao seu ódio esmagador. Isto é um ornamento para o altar. Estranha espécie de ornamento, dizes tu, quando ao pecador acusado, ao extorsor, ao ladrão, é permitido lançar mão do altar. Não! não digas isso: pois até a meretriz tocou os pés de Jesus, ela que estava manchada com o pecado mais maldito e impuro: contudo, o seu ato não foi opróbrio para Jesus, mas antes redundou em admiração e louvor a Ele: pois a mulher impura não causou dano algum Àquele que era puro, mas antes foi a vil meretriz tornada pura pelo toque Daquele que era o puro e imaculado. Não guardes rancor, pois, ó homem. Somos servos daquele que foi crucificado, que disse: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” Mas, dizes tu, ele suprimiu aqui o direito de refúgio por meio das suas ordenanças e de diversas espécies de leis. Sim! contudo, agora aprendeu pela experiência o que foi que fez, e ele mesmo, pelos seus próprios atos, foi o primeiro a violar a lei, e se tornou um espetáculo para o mundo inteiro; e, embora esteja calado, dali profere a todos uma voz de advertência, dizendo: “não façais tais coisas como as que eu fiz, para que não sofrais tais coisas como as que eu sofro.” Ele se apresenta como um mestre por meio da sua calamidade, e o altar emite grande esplendor, inspirando agora o maior temor pelo fato de manter o leão em cativeiro; pois qualquer figura de realeza muito se realçaria se o rei não somente fosse visto assentado no seu trono, vestido de púrpura e cingido da sua coroa, mas também se, prostrados aos pés do rei, os bárbaros, com as mãos atadas atrás das costas, inclinassem bem baixo as suas cabeças. E de que nenhum argumento persuasivo foi empregado, vós mesmos sois testemunhas pelo entusiasmo e pela afluência do povo. Pois brilhante é, de fato, a cena diante de nós hoje, e magnífica a assembleia, e vejo aqui hoje uma reunião tão grande como na santa Festa da Páscoa. Assim, este homem vos convocou aqui sem falar, e contudo proferindo, por meio das suas ações, uma voz mais clara do que o som de uma trombeta: e todos vós vos aglomerastes aqui hoje, as donzelas deixando os seus aposentos, e as matronas as câmaras das mulheres, e os homens a praça, para que vejais a natureza humana condenada, e a instabilidade das coisas do mundo posta a descoberto, e o rosto de meretriz que poucos dias atrás resplandecia (tal é a prosperidade oriunda da extorsão) parecendo mais feio do que qualquer velha enrugada—este rosto, digo, podeis vê-lo despido do seu esmalte e dos seus pigmentos pela ação da adversidade, como por uma esponja.

4. Tal é a força desta calamidade: fez com que aquele que era ilustre e notável parecesse o mais insignificante dos homens. E, se um homem rico entrar na assembleia, tira grande proveito do espetáculo: pois, quando contempla o homem que abalava o mundo inteiro, agora arrastado para baixo de tão alto cume de poder, encolhido de pavor, mais aterrorizado do que uma lebre ou uma rã, pregado firmemente àquela coluna, sem grilhões—servindo-lhe o próprio medo de cadeia—, tomado de pânico e tremendo, ele abranda a sua altivez, depõe o seu orgulho, e, tendo adquirido acerca das coisas humanas a espécie de sabedoria que lhe convém ter, retira-se instruído pelo exemplo naquela lição que a Sagrada Escritura ensina por preceito:—“Toda a carne é erva, e toda a glória do homem como a flor da erva: seca-se a erva, e cai a sua flor,” ou “Depressa murcharão como a erva, e como a erva verde depressa fenecerão,” ou “como fumaça são os seus dias,” e todas as passagens dessa espécie. Por outro lado, o homem pobre, quando entrou e contemplou este espetáculo, não pensa baixamente de si mesmo, nem se lamenta por causa da sua pobreza, mas sente-se grato à sua pobreza, porque ela lhe é um lugar de refúgio, e um porto tranquilo, e um baluarte seguro; e, quando vê estas coisas, muitas vezes preferiria permanecer onde está a gozar da posse de todos os homens por um breve tempo e depois pôr em perigo a sua própria vida. Vês como o rico e o pobre, o grande e o pequeno, o escravo e o livre não tiraram pequeno proveito do fato de este homem aqui se refugiar? Vês como cada um partirá daqui com um remédio, sendo curado unicamente por esta visão? Pois bem! Abrandei a vossa paixão e expulsei a vossa ira? extingui a vossa crueldade? induzi-vos à misericórdia? Deveras, creio que sim; e os vossos semblantes e as torrentes de lágrimas que derramais são prova disso. Visto, então, que a vossa rocha dura se transformou em solo profundo e fértil, apressemo-nos a produzir algum fruto de misericórdia, e a exibir uma seara abundante de compaixão, prostrando-nos diante do Imperador, ou antes, implorando ao Deus misericordioso que assim abrande a fúria do Imperador e lhe torne o coração terno, para que conceda todo o favor que pedimos. Pois, na verdade, já desde aquele dia em que este homem aqui se refugiou, não pequena mudança se operou; pois, tão logo o Imperador soube que ele se apressara a este asilo, embora o exército estivesse presente, e enfurecido por causa dos seus malefícios, e exigisse que ele fosse entregue para execução, o Imperador fez um longo discurso, esforçando-se por acalmar a fúria dos soldados, sustentando que não somente as suas ofensas, mas também qualquer boa ação que ele porventura tivesse feito deveria ser levada em conta, declarando que era grato por esta última, e estava disposto a perdoá-lo, como semelhante seu, pelos atos que eram de outra natureza. E, quando de novo o instaram a vingar a afronta feita à majestade imperial, gritando, saltando e brandindo as suas lanças, ele derramou torrentes de lágrimas dos seus olhos mansos e, tendo-os lembrado da Santa Mesa à qual o homem se refugiara, conseguiu por fim apaziguá-lhes a ira.

5. Além disso, permiti-me acrescentar alguns argumentos que dizem respeito a nós mesmos. Pois que perdão poderíeis merecer, se o Imperador não guarda ressentimento quando foi insultado, mas vós, que nada experimentastes de semelhante, manifestais tanta ira? e como, depois que esta assembleia se dissolver, haveis de manusear os santos mistérios e repetir aquela oração em que nos é ordenado dizer: “perdoa-nos, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores,” estando vós a exigir vingança sobre o vosso devedor? Terá ele cometido grandes agravos e insultos contra vós? Não o negarei. Contudo, este não é o tempo do juízo, mas da misericórdia; não de pedir contas, mas de mostrar benignidade: não de investigar dívidas, mas de perdoá-las; não de sentenças e vingança, mas de misericórdia e favor. Ninguém, pois, se irrite ou se agaste, mas antes roguemos ao Deus misericordioso que lhe conceda uma trégua da morte, e que o resgate desta destruição iminente, para que ele deponha a sua transgressão; e unamo-nos para nos aproximar do misericordioso Imperador, suplicando-lhe, por amor da Igreja, por amor do altar, que conceda a vida de um só homem como oferta à Santa Mesa. Se fizermos isto, o próprio Imperador nos acolherá, e, ainda antes do louvor dele, teremos a aprovação de Deus, que nos concederá grande recompensa pela nossa misericórdia. Pois, assim como Ele rejeita e odeia o cruel e desumano, assim também acolhe e ama o homem misericordioso e humano; e, se tal homem for justo, tanto mais gloriosa é a coroa que para ele se entrelaça: e, se for pecador, Ele lhe releva os pecados, concedendo isto como recompensa da compaixão mostrada ao seu conservo. “Pois,” diz Ele, “misericórdia quero, e não sacrifício,” e por todas as Escrituras achá-Lo-eis sempre a indagar por isto, e a declará-lo como o meio de libertação do pecado. Assim, pois, o disporemos a nos ser propício, assim nos libertaremos dos nossos pecados, assim adornaremos a Igreja, assim também o nosso misericordioso Imperador, como já disse, nos elogiará, e todo o povo nos aplaudirá, e os confins da terra admirarão a humanidade e a brandura da nossa cidade, e todos os que ouvirem destes feitos pelo mundo inteiro nos exaltarão. Para que, então, gozemos destes bens, prostremo-nos em oração e súplica, resgatemos do perigo o cativo, o fugitivo, o suplicante, a fim de que nós mesmos alcancemos as bênçãos futuras pelo favor e pela misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, a quem seja a glória e o poder, agora e para sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.

Escrituras neste sermão Eclesiastes 1:2

Domínio público. Texto de origem de a edição original.